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Uma entrevista com Rutendo Tavengerwei, autora de “Esperança para voar”

RUTENDO TAVENGERWEI, nascida no Zimbábue, autora de ESPERANÇA PARA VOAR, concede entrevista à Editora Kapulana

  1. Como surgiu a ideia de escrever o romance e como foi a construção das personagens Shamiso e Tanyaradzwa?

Uma das coisas pelas quais meu país é conhecido é a instabilidade econômica e política de 2008, mas o que sempre me incomodou é que não há muitas histórias sendo contadas por habitantes do Zimbábue sobre o que realmente estava acontecendo no país. Então, enquanto eu estava escrevendo “Esperança”, eu queria tentar contar a história de 2008 de uma perspectiva zimbabuana*. Especialmente porque a maior parte da história foi escrita em 2016, quando as coisas estavam começando a piorar de novo, e eu queria mandar uma mensagem de esperança para os zimbabuanos que estavam desesperados, e usar minha voz para resistir com os milhares de habitantes do Zimbábue que estava exigindo que o governo instituísse mudanças.

Quando refleti sobre 2008, percebi que a maioria das minhas lembranças e a maneira como eu via o mundo era da perspectiva de uma adolescente, então fez sentido para mim que as protagonistas fossem adolescentes. Ainda mais porque lições sobre esperança e perseverança são importantes, e eu queria compartilhá-las especialmente com o público jovem.

  1. Em seu romance, é muito importante a contextualização geográfica e histórica sobre o Zimbábue. Para você, na elaboração do enredo, o que veio primeiro: o desenvolvimento da trama, detalhes narrativos e personagens ou a circunstância político-social do país?

Não acho que houve uma cronologia clara quanto ao que veio antes. Meu processo de escrita é relativamente aleatório e não ortodoxo. Então, a situação político-social definitivamente inspirou a trama e as personagens. Mas a trama também influenciou a caracterização; os eventos que eu escolhi para a história determinaram como as personagens seriam, por causa de como eu queria que elas respondessem a esses eventos. Então, resumindo, foi um processo bastante “misturado”.

  1. Você traça um paralelo entre seu processo de escrita e seu cotidiano?

De certa maneira, eu traço paralelos entre minha escrita e meu cotidiano. Acho que é importante, se você quer que a história fique plausível, usar situações reais e adicioná-las à história. Então, em alguns casos, se eu escuto algo interessante ou engraçado, às vezes eu tento incorporar isso à história. Mas tanto de minha vida está na minha escrita. Eu escrevo sobre música e os sons que escuto, escrevo sobre cenários que eu acho maravilhosos. Basicamente, eu tento compartilhar tudo que me toca com o mundo.

  1. A carta/apresentação no início do livro mostra como você está feliz de publicá-lo, e como isso é importante para você. O que significa para você estar publicando este livro? Você sempre sonhou em escrever um livro?

Eu quero ser escritora desde que eu tinha 6 anos, como disse na carta. O amor dos meus pais por contar histórias e pela escrita foi inegavelmente contagioso. No início do Ensino Médio, eu costumava comprar caderninhos de 32 páginas e escrever histórias para os outros alunos lerem. Os meus colegas gostavam do que eu escrevia, e isso me encorajou a continuar. E eu lembro que costumava dizer para todo mundo que um dia eles leriam um livro meu de verdade, que eles comprariam na livraria. E acho que esse dia chegou.

“Esperança” é particularmente importante para mim por causa da mensagem que ele traz. Não é apenas uma mensagem positiva para o mundo, mas também um lembrete para que eu não esqueça de ter esperança. E para mim foi muito importante usar minha voz para protestar contra as grandes injustiças que estavam acontecendo no meu país.

  1. Quem são os escritores que mais influenciaram você, e quais são os seus gêneros favoritos?

Eu cresci lendo Enid Blyton. Os livros dela ampliaram minha imaginação e meu gosto por aventuras, e eu amava as histórias dela porque eu conseguia imaginar o que ela estava descrevendo.

No Ensino Médio eu lia muito as escritoras Tsitsi Dangarembga e Chimamanda Ngozi Adichie. Elas me fizeram sentir que não era impossível a literatura africana ser lida no mundo todo, em especial a literatura africana escrita por mulheres negras. Particularmente, eu devo ter lido o “Hibisco roxo” da Chimamanda mais de uma dúzia de vezes, muito interessada no uso que ela faz da linguagem e em como ela se atém às suas raízes nigerianas. Eu sabia que queria escrever de maneira parecida.

E, é claro, para mim foi sempre um prazer ler Shakespeare. Eu sempre amei como a escrita dele é lírica e poética. Como ele criava sua própria linguagem e expressões. Eu acabo fazendo isso muito quando escrevo; a linguagem, como qualquer experiência gastronômica, deve ser apresentada e saboreada.

Recentemente, tenho me inspirado muito em Angie Thomas e Tomi Adeyemi. Porque a escrita delas é um movimento, uma contribuição para o difícil diálogo sobre a marginalização dos negros nos Estados Unidos, mas também porque as histórias que elas contam passam uma mensagem para o público jovem. E eu sempre acreditei muito nisso.

Quanto aos gêneros, não sei se consigo escolher um favorito. Eu leio qualquer coisa que seja interessante, porém tenho uma tendência a gostar de livros que ensinem algo a seus leitores, seja qual for o gênero.

  1. Você planeja escrever outros livros?

Sim, planejo escrever outros livros, porque eu realmente amo escrever e compartilhar minhas histórias com o mundo. Eu acredito que é muito importante que livros de escritores marginalizados se tornem a norma na literatura contemporânea, porque isso nos ajudaria a entender mais uns sobre os outros, apesar das nossas diferenças. E mais do que isso, porque talvez uma menina com um sonho como o meu, que sente que ninguém prestaria atenção nela por causa da cor da pele dela ou do país de onde ela é, pudesse ver que não é impossível. 

Eu já estou trabalhando no meu próximo livro, que também vai se passar no Zimbábue. Quero dividir um pouco mais da história do Zimbábue nesta próxima história, e compartilhar mais sobre a cultura também.

  1. Finalmente, considerando a situação atual do mundo, você tem uma mensagem para os leitores brasileiros que vão conhecer Shamiso e Tanyaradzwa?

O mundo é muito caótico, e muitas coisas frustrantes acontecem em nossos países e nas nossas vidas pessoais também. A história da Shamiso e da Tanyaradzwa é sobre lutar para sair de tempos difíceis, e preservar a esperança em momentos sombrios. Meu desejo é que esta história sobre esperança inspire a vida dos leitores, mesmo que de uma maneira singela.

 

(*) Em 2008 ocorreram tumultuadas eleições presidenciais no Zimbábue. A disputa ocorreu entre Robert Mugabe (ZANU), presidente do país desde 1987 e o opositor Morgan Tsvangirai (MDC). Em 29 de março ocorreu o primeiro turno das eleições, que apontaram pequena maioria dos votos para Tsvangirai. Entre a data de divulgação deste fato e o segundo turno das eleições, seguidores dos dois partidos travaram violentos conflitos que resultaram em dezenas de mortes. Diante da situação, Tsvangirai decidiu desistir de concorrer ao cargo, afirmando que seus eleitores corriam risco de serem mortos, o que fez com que Mugabe fosse mais uma vez eleito.

Citar como: Entrevista de Rutendo Tavengerwei, autora de Esperança para voar, à Editora Kapulana, em 02 de abril de 2018.

Saiba mais:

sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei/

sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

um vídeo com Rutendo Tavengerwei: https://www.youtube.com/watch?v=0oZBCwnbfTk&t=11s&mc_cid=fc7d7ceed9&mc_eid=d9a246dbcb