Pensa Kanema – escritos sobre o cinema moçambicano – por Carmen Lucia Tindó Secco

A palavra kanema – que, na língua macua do norte de Moçambique, quer dizer “imagem”, “cinema” – foi bastante empregada após a independência moçambicana, quando Samora Machel, em 1975, incentivou a criação do Instituto Nacional de Cinema (INC) e promoveu intensa ação cultural por intermédio de unidades móveis que percorriam aldeias, levando ao interior do país o Kuxa Karema, cinejornal, cujo nome significa “o nascimento do cinema”.

O presidente Samora, conhecedor do poder da imagem, buscou construir a nova nação indepentente, incentivando o cinema em Moçambique. Seu lema era filmar imagens do povo para devolvê-las ao próprio povo.

Luís Carlos Patraquim, um dos cineastas moçambicanos que participou das edições do Kuxa Kanema, defende que

[…] o cinema moçambicano é parte do acervo histórico nacional e uma ferramenta poética para perceber o presente e perspectivar futuros; é patrimônio cultural, a par da nossa literatura, da pintura, da escultura, do teatro, do canto e da dança, podendo espelhá-las todas, essas belas e malasartes, mais a intensa riqueza linguística e diversidade de que é feita a invenção real e utópica da nossa plural identidade. (PATRAQUIM, 2011).

No caso particular de Moçambique, as produções cinematográficas tiveram o importante papel de pensar e representar, por intermédio de imagens, a nação recém-libertada, propiciando reflexões diversas acerca das culturas de várias etnias que habitavam o território antes da colonização portuguesa, acerca do colonialismo, acerca da guerra de libertação, acerca de problemas que afeta(va)m o povo moçambicano.

Considerado “a sétima arte”, o cinema funda um modo de pensamento que opera com imagens, sons, cores, luzes, movimentos, tempo, espaço. E, na medida em que pode gerar reflexões críticas, questionamentos, encontra-se em íntima correlação com a Filosofia, cuja principal característica é “fazer pensar”.

Para Gilles Deleuze, há dois tipos de cinema: o clássico e o moderno. No primeiro, há o predomínio da ação; a montagem segue uma lógica de causa e efeito, concatenando as imagens por intermédio de uma linearidade narrativa que se direciona para a resolução dos conflitos. Esse tipo de cinema é designado por Deleuze como “imagem-movimento”, distinguindo-se por apresentar um esquema sensório-motor que trabalha com enredos e mensagens, até certo ponto, previsíveis. Já o cinema moderno opera com a “imagem-tempo”, rompendo com conexões sensório-motoras esperadas e com ações sucessivas e sequenciadas. Essa segunda forma de cinema explora o espaço-tempo, não se preocupando com a narrativa, mas, sim, com uma constante produção crítica de reflexões, pensamentos. Essa modalidade de cinema é mais cerebral; nela não ocorre um encadeamento linear de imagens: “Em vez de uma imagem depois da outra, há uma imagem mais outra e cada plano é desenquadrado em relação ao enquadramento do plano seguinte” (DELEUZE, 2007, p. 255).

Para Mahomed Bamba, a África tem uma produção cinematográfica ainda incipiente; por isso, o cinema africano, de modo geral, ainda se encontra preocupado com processos de construção e consolidação das nações africanas, uma vez que, historicamente, muitas destas são recentes, tendo sido criadas com suas independências, na segunda metade do século XX. Por tais razões, há, nos filmes africanos, em geral, uma recorrente temática de procura e definição do nacional.  Diversos cineastas africanos, entre os quais o premiado Cheick Oumar Sissoko, natural do Mali, são adeptos do “cinema da verdade”, considerando função das narrativas cinematográficas

portar para a tela as imagens da África, as maneiras de  viver, as maneiras de amar, de sentir prazer, de sofrer, de lutar; a maneira de viver das sociedades africanas é um desafio. Isso porque hoje as imagens da África são quase ausentes do universo das imagens. Nós não as vemos. É importante essa missão porque a África não está inclusa. A África é apresentada como o continente de todas as calamidades, de conflitos, de guerra, de epidemias, da falta, da seca. O continente da pobreza. É isso que os países do norte mostram ao seu povo. A África é marginalizada, excluída. Nem ao menos se sabe que a África é o berço da humanidade ou que a África produziu inúmeros impérios ou então que, em certo momento da história da humanidade, a África estava muito mais avançada do que os países europeus. (SISSOKO, 2015).

Bamba adverte, ainda, que, apesar da insistência em buscar o nacional presente na filmografia africana, nesta “a representação da nação é, em grande parte, mais ideológica e política, que cultural” (BAMBA. In: FRANÇA e LOPES, 2010, p. 269); “na falta de nações no sentido pleno” (idem, p. 279), alguns cineastas africanos criam, “no plano simbólico e imaginário, uma espécie de pan-africanismo” (idem, ibidem), que focaliza a África como um todo harmônico, como se todas as nações africanas fossem homogêneas; geram, desse modo, concepções idealizadas de nação que não correspondem, inteiramente, à atual realidade sociopolítica e cultural dos multifacetados e multiétnicos países africanos.

De acordo com Marc Ferro, que investiga as relações entre cinema e história, “a câmera desvela segredo[s], apresenta o avesso de uma sociedade, seus lapsos” (FERRO, 2010, p. 31).  Os ensaios, reunidos no livro Pensando o cinema moçambicano, buscam apreender e interpretar sentidos ocultos da história de Moçambique em narrativas fílmicas – algumas delas postas em diálogo com obras literárias moçambicanas –, refletindo sobre o modo como tais relatos problematizam os contextos históricos por eles representados. Seguindo a orientação política de Marc Ferro, diversos dos estudos aqui publicados procuram relacionar e discutir diferentes temporalidades históricas e sociais suscitadas pelos filmes, documentários e romances analisados, uma vez que “o objeto da história não é apenas o conhecimento dos fenômenos passados, mas igualmente a análise dos elos que unem o passado ao presente, a busca de continuidades, de rupturas” (FERRO, 2010, quarta capa).

A proposta do livro Pensando o cinema moçambicano é, portanto, a partir da análise de filmes, documentários, romances, demonstrar como narrativas literárias e fílmicas podem gerar afetos capazes de levarem a questionamentos profundos acerca da história e da dimensão humana tanto em uma perspectiva existencial, como social.  Segundo Spinoza, os afetos denotam não apenas atitudes existenciais face à potência de viver, mas atitudes políticas que podem externar alegóricas manifestações de crítica e indignação. Deleuze, por sua vez, afirma que o pensamento necessita escapar aos clichês, sair da imobilidade do senso comum. O cinema, afetado por imagens descentradas, pode desempenhar um papel estimulador da potência de pensar.

Composto por uma coletânea de onze ensaios que analisam filmes e obras literárias de Moçambique, o presente livro é resultado do Encontro com Luis Carlos Patraquim, durante a III Mostra de Cinema Africano – organizada, sob minha coordenação, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, de 5 a 9 de junho de 2017 –, e do curso “Afeto, Literatura e Cinema: representações da História em obras literárias e filmes de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau” – disciplina por mim ministrada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, na Faculdade de Letras/UFRJ, no primeiro semestre de 2017. Procede, ainda, de nossa pesquisa, “Literatura, cinema e afeto: representações da História em romances e filmes de Moçambique e Guiné-Bissau”, que dialoga e mantém parceria com os projetos “NEVIS – Narrativas escritas e visuais da nação pós-colonial”, CESA/FCT, PTDC/CPC-ELT/4939/2012, e “NILUS – Narrativas do Oceano Índico no espaço lusófono”, coordenados pela Doutora Ana Mafalda Leite.

O primeiro e o segundo ensaios de Pensando o cinema moçambicano, da autoria, respectivamente, de Vanessa Ribeiro Teixeira e Marlon Augusto Barbosa, se ocupam do curta-metragem O búzio (2009), de Sol de Carvalho, cuja mensagem principal é colocar em questão as contradições de uma guerra que talvez já não sirva mais ao seu propósito. Vanessa aborda os “intervalos” dessa guerra focalizados pelo filme e se interroga sobre o espaço da fábrica abandonada que, considerada como metáfora de múltiplas possibilidades – esconderijo? abrigo? solidão? extermínio? reflexão? lúdico? criação? –, faz o protagonista Vicente emergir como um sujeito diferente e questionador. Marlon, por sua vez, partindo de três eixos presentes no filme – a amizade, a lei da escolha e o perdão –, com base em considerações de Jacques Derrida sobre a amizade e sobre o perdão, pensa como tais elementos podem se entrelaçar e se relacionar poeticamente em prol de um questionamento político do projeto revolucionário.

O terceiro ensaio, de Maria Geralda de Miranda, centrando-se em A árvore dos antepassados, de Licínio Azevedo, chega à conclusão de que o filme é uma contribuição para a afirmação das raízes identitárias e culturais moçambicanas, pois, de maneira profunda, se insere em uma política cultural mais ampla, valorizando a paz e as tradições que devem ser respeitadas.

Viviane Mendes de Moraes, no ensaio seguinte – o quarto –, faz uma leitura do filme Fogata, de João Ribeiro, que é uma adaptação cinematográfica do conto “A Fogueira”, do escritor Mia Couto. Discute a “desdramatização da morte” – ponto de tensão entre as duas obras –, avaliando a forma como as comunidades rurais de Moçambique entendem a finitude da existência humana e a relação entre morte, vida e sepultamento vivenciada pelo casal protagonista do conto e do filme. Conclui que, apesar da sensação distópica em relação ao social, tanto o filme quanto o conto, embora apresentem uma evidente dicção irônica, deixam em aberto, no final, um desejo de que o amanhã seja menos amargo e a vida, junto à família e aos mortos, possa se reestabelecer e fluir menos solitária e um pouco mais harmoniosa.

Os quinto, sexto e sétimo ensaios se debruçam sobre Ngwenya, o crocodilo, de Isabel Noronha, documentário que realiza uma biografia do pintor Malangatana Valente e da própria cineasta. A narrativa fílmica se aproxima do cinema-poesia, na medida em que põe em diálogo diversas artes – cinema, pintura, literatura – e também a história e a cultura moçambicanas. O ensaio de Beatriz de Jesus Santos Lanziero, com base nos estudos de Deleuze sobre cinema, observa no filme a construção de imagens óticas e sonoras características do regime imagem-tempo. Demonstra como Isabel Noronha, afastando-se do clichê, do previsível, descolonizando a imagem, conjuga, de forma dialética, tradição e modernidade. Lucca Tartaglia, por seu turno, procura evidenciar, em sua leitura do referido documentário, os indícios de “uma espécie de iniciação”, de uma viagem iniciática ao universo ronga e, mais especificamente, à cosmovisão do pintor, através das escolhas de Noronha – posicionamento e movimento das câmeras, escolha das personagens, profundidade de campo, etc. –, levando sempre em consideração a via íntima e pessoal, a experiência da própria Isabel no que se refere ao relato do artista. Ana Lidia da Silva Afonso, também voltada para esse mesmo documentário, estuda, com base em Deleuze, Marcel Martin e Louis Delluc, a linguagem cinematográfica de Isabel Noronha, evidenciando como a cineasta, neste filme, opta por uma dicção afetiva, dinamizadora de imagens produzidas através da fotogenia, com o objetivo de ressaltar o aspecto poético extremo dos seres e das coisas.

O oitavo ensaio, de Carla Tais dos Santos, compara o filme Virgem Margarida, de Licínio Azevedo, com o romance Entre as memórias silenciadas, de Ungulani Ba Ka Khosa, a partir de um tema comum às duas narrativas: os campos de reeducação em Moçambique. Para tanto, utiliza categorias literárias, tais como espaço, personagem, tempo e narrativa, além de elementos da história e do estudo da linguagem cinematográfica, entre outras artes, amparando-se teoricamente em Frantz Fanon, Hugo Achugar, Ismail Xavier, Márcio Seligmann-Silva, entre outros.

O nono e o décimo ensaios também abordam o filme Virgem Margarida, de Licínio Azevedo, mas o fazem a partir do tema da prostituição em Moçambique. Marlene dos Anjos efetua uma leitura comparativa entre a Margarida de Licínio Azevedo e a “Mulata Margarida”, do poema de José Craveirinha. A história moçambicana é repensada, tendo por base as histórias das duas Margaridas. Cristine Alves da Silva, por sua vez, elege o romance O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane, para dialogar com o filme Virgem Margarida, de Licínio Azevedo, examinando nessas obras situações de opressão a que o corpo negro feminino foi submetido enquanto objeto da afirmação da sexualidade masculina, tanto no regime colonial, como no governo pós-independente da FRELIMO. Discute a imagem da mulher prostituta em Moçambique, levantando questões históricas e sociais que determinaram sua inserção nesse universo de prostituição.

O último ensaio – o décimo primeiro –, da autoria de Danyelle Marques Freire da Silva, analisa a adaptação do romance Terra sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto, para o formato cinematográfico desenvolvido pela realizadora Teresa Prata. Chama atenção para o fato de que a cineasta optou por não fazer uma obra fiel ao romance, concluindo que, no processo de adaptação, o diretor tem liberdade para transpor para a linguagem fílmica sua leitura da obra literária.

Com o propósito de contribuir não apenas com a divulgação de filmes e cineastas moçambicanos, mas também com discussões teóricas sobre cinema e sobre a relação deste com a literatura, faço votos de que os ensaios aqui reunidos possibilitem um conhecimento mais profundo do assunto e um olhar mais amplo acerca do cinema moçambicano, sendo estímulo para novas edições que tratem do cinema e da literatura de outros países africanos.

Rio de Janeiro, 03 de agosto de 2018.

Carmen Lucia Tindó Secco é Profa. Titular de Literaturas Africanas, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). É colaboradora da Editora Kapulana. 

Citar como:

SECCO, Carmen L. R. T. (org.) “Pensa Kanema – escritos sobre o cinema moçambicano”. In: Pensando o cinema moçambicano. [Série Ciências e Artes]. São Paulo: Kapulana, 2018.