[Sobre] Condições Nervosas, de Tsitsi Dangarembga – por Rutendo Tavengerwei

Condições nervosas, de Tsitsi Dangarembga, é incrível.

A história se passa na Rodésia (hoje Zimbábue) na década de 1960, antes de o país conquistar a independência, e é narrada por Tambu, sedenta por uma educação que não lhe foi oferecida porque sua família é pobre e acha mais importante que seu irmão vá para a escola. No entanto, ela tem a oportunidade de estudar após a morte do irmão, e Dangarembga nos conduz pela progressão da vida de Tambu, por sua mudança da área rural, onde sempre viveu com os pais, para a escola missionária onde o tio é diretor.

A história incorpora as realidades de várias mulheres da vida de Tambu: a mãe e a tia, que apresentam as dificuldades da existência como mulheres negras, pobres e sem estudo, controladas pelas demandas de uma sociedade patriarcal; e Maiguru e Nyasha, que por terem estudado na Inglaterra, agora se veem presas no constante conflito entre a cultura africana e a ocidental, e por suas identidades perturbadas pelo colonialismo.

Condições nervosas aborda questões de extrema importância, e absolutamente merece ser chamado de clássico moderno.

Rutendo Tavengerwei
Escritora do Zimbábue, autora de
Esperança para voar (Kapulana, 2018)

Citar como: TAVENGERWEI, Rutendo. [Sobre] Condições Nervosas, de Tsitsi Dangarembga [orelha]. In: DANGAREMBGA, Tsitsi. Condições nervosas. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/codicoes-nervosas-tsitsi-dangarembga/>

A pena da Abolição, por Laurentino Gomes [sobre José do Patrocínio, a pena da Abolição, de Tom Farias]

José do Patrocínio, a pena da Abolição, de Tom Farias, é mais do que uma boa biografia de um dos maiores abolicionistas brasileiros. É também o relato minucioso, bem documentado e bem escrito de um dos momentos cruciais da história do Brasil. O movimento que levou à libertação dos escravos pela Lei Áurea em Treze de Maio de 1888, e que teve em José do Patrocínio um de seus protagonistas, foi a nossa primeira campanha genuinamente popular e de dimensões nacionais. Envolveu todas as regiões e classes sociais, carregou multidões a comícios e manifestações públicas, dominou as páginas dos jornais e os debates no parlamento e mudou de forma dramática as relações políticas e sociais que até então vigoravam no país.

Nunca antes tantos brasileiros se haviam mobilizado de forma tão intensa por uma causa comum, nem mesmo durante a Guerra do Paraguai. Como efeito colateral, deu o empurrão que faltava para a queda da monarquia e a proclamação da República, no ano seguinte. É esse o fio condutor deste livro fascinante de autoria de um dos mais respeitados e talentosos jornalistas e escritores da atualidade. Leitura fundamental para entender o fenômeno da escravidão e seu legado que ainda hoje assombra os brasileiros.

Rio de Janeiro, setembro de 2019.
Laurentino Gomes
Escritor e jornalista

Citar como:

O ARTIGO:
GOMES, Laurentino .“A pena da Abolição”. In: FARIAS, Tom. José do Patrocínio, a pena da Abolição. São Paulo: Kapulana, 2019.  Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/a-pena-da-abolicao-por-laurentino-gomes-sobre-jose-do-patrocinio-a-pena-da-abolicao-de-tom-farias/>

O LIVRO:
FARIAS, Tom. José do Patrocínio, a pena da Abolição. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/jose-do-patrocinio-a-pena-da-abolicao/>

Velho mundo, mundo novo, por Ana Paula Tavares [sobre O quase fim do mundo, de Pepetela]

Calpe pode ser tudo menos a cidade feliz e os seus centros e margens estreitam-se quando a terra se rompe e o desaparecimento sucessivo da vida (homens, mulheres, insetos e outros bichos) acontece sem que uma razão clara (peste, guerra, furacão) tudo justifique. Ao contrário de um anjo carregado de futuro aqui sobrevivem indivíduos e uma imensa solidão incapaz de suportar todo o peso do mundo para descobrir e resolver. Os que sobrevivem procuram razões para todos os acontecimentos e ainda formas de resolver os estilhaços da vida que sobrou de um imenso passado por conhecer. A dimensão da violência perturba a observação e o quotidiano dos dias e das noites que o silêncio prolonga e acentua. Com uma linguagem trabalhada o romance abre-se às vozes das várias visões do acontecido como se Calpe se tornasse no pequeno quintal do mundo onde se discutem razões, hipóteses e estratégias. Os mares estão vazios de peixes e nos rios só sobrevivem as formas elementares da vida. Sobram demasiadas coisas materiais para tão pouca vida.

Devorados por um tempo que não é o deles os sobreviventes iniciam o ciclo das viagens onde como novos sujeitos da história descobrem os destinos e vão refundar o mundo. O continente africano resolve de novo o enigma da fundação: a partir de um centro renovar os ciclos, perceber o novo sentido da vida porque Calpe e o mundo à volta só conservam os mortos. A aventura começa e tudo se renova nesta narrativa misteriosa e fundadora.

26 de agosto de 2019.

Ana Paula Tavares
Escritora e historiadora angolana

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O ARTIGO:
TAVARES, Ana Paula .“Velho mundo, mundo novo”. In: PEPETELA. O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/velho-mundo-mundo-novo-por-ana-paula-tavares-sobre-o-quase-fim-do-mundo-de-pepetela/>

O LIVRO:
PEPETELA. O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/>

O criado, o criador e outras criaturas: notas sobre As visitas do Dr. Valdez e a escrita de João Paulo Borges Coelho, por Nazir A. Can

As visitas do Dr. Valdez integra-se em um projeto literário que se apresenta, hoje, como um dos mais desafiadores dos contextos de língua portuguesa. Desde 2003, ano de sua estreia como ficcionista, com As duas sombras do rio, João Paulo Borges Coelho publicou sete romances, dois volumes de contos e três novelas. A este registro vertiginoso, que não dispensa o rigor e a experimentação estética, juntam-se três livros de histórias em quadrinhos, lançados em Maputo no início dos anos 80, e algumas narrativas curtas espalhadas em edições de natureza diversa. Embora também seja um reconhecido historiador, João Paulo Borges Coelho evita em seu trabalho artístico o caminho da restituição didática do passado. Apoiado em estratégias como a metonímia, a metáfora ou a alegoria, frequentemente mediadas pelos recursos do humor e da ironia, o jogo que propõe aponta antes para as trocas simbólicas entre o “pequeno” (cotidiano) e o “grande” (história). Virtuoso, o primeiro abre fendas no solo rígido do segundo.

Ambientado na Ilha do Ibo e na cidade da Beira, em um tempo complexo que se situa entre o já agônico colonialismo português e a eufórica independência moçambicana, As visitas do Dr. Valdez coloca em cena a experiência do interstício. A narrativa gira em torno do empregado doméstico Vicente e de suas patroas, as velhas mestiças Sá Amélia e Sá Caetana. Preocupada com os delírios da primeira, que reclamava das ausências do Dr. Valdez, entretanto já morto pelo excesso de manteiga ingerido em vida, Sá Caetana propõe um jogo a Vicente: resgatar o médico das cinzas. Assim, nos domingos de folga, Vicente disfarça-se de senhor doutor branco, em uma tripla transformação que visa devolver alguma alegria à Sá Amélia. Mas não só.

Com o disfarce do velho colono, elaborado na escuridão solitária e precária de seu quarto, o jovem empregado encontra uma criativa maneira de confrontar Sá Caetana e todo o imaginário por ela representado. Por trás da máscara, Vicente aciona um discurso estrategicamente ambíguo e passa a atuar em um dos campos que mais aflige os poderes autoritários: o da imaginação reivindicativa. A imitação que faz do Dr. Valdez, na cara e na casa da autoridade, desestabiliza a velha ordem colonial ancorada nas premissas da superioridade racial e científica e, como tal, no privilégio que decorre da primazia e da lei. O jovem procura libertar-se, portanto, de uma vida de submissão que lhe parecia destinada e acompanhar a mudança que, a um nível mais abrangente, se vai anunciando em Moçambique. Contudo, recorda com frequência as palavras de seu pai: o velho Cosme Paulino exigia-lhe que desse continuidade a uma história de servidão, cuidando das senhoras como se de sua própria família se tratasse. A vinculação quase umbilical a dois mundos opostos acentua a ambiguidade das relações entre as personagens, que são convidadas a ocupar distintas posições durante a narrativa.

Realizadas em três domingos e estruturadas em torno de outros tantos núcleos de significado (gesto, voz e olhar), as visitas do Dr. Valdez asseguram ao empregado alguma margem para expressar seu descontentamento. O discurso de Vicente, na primeira visita, adquire uma capa predominantemente visual. A maneira como se disfarça e os pensamentos que elaboram seus gestos constituem uma eficaz afirmação pública de sua rebelião privada. Executando de maneira sagaz e irônica os gestos doutorais de Valdez, avança por fronteiras até então intransponíveis: senta-se pela primeira vez no sofá, aceita o chá servido pela patroa, toma a iniciativa de observar da janela o quintal e espanta-se com o espaço miserável que é reservado aos criados… Enfim, graças ao novo lugar que lhe cabe no cenário, vê o mundo de um ângulo inédito. E se faz ouvir, mesmo quando silencia. Em contextos onde o estatuto impera, a autoridade não necessita de muitas palavras para se fazer valer. O discurso verbal da dupla Vicente/Valdez progride do comedimento, na primeira visita, para o confronto aberto, na segunda. Programada nos bastidores, depois de um inusitado encontro entre o criador Vicente e a criatura Dr. Valdez, a terceira visita sintetizará as duas anteriores, além de trazer o complemento fundamental da máscara-elmo, peça tradicional da arte maconde que se sobrepõe a do Dr. Valdez. Em dificuldade por ter que se dirigir a quem não vê totalmente, Sá Caetana perde um dos seus principais pontos de apoio: o desigual duelo de olhares.

Assim, após a performance física da primeira visita (que conforma ironicamente a imagem do colono) e da reivindicação retórica da segunda (que confirma a indignação do colonizado, mas o expõe a um risco), a terceira visita será marcada pelo impacto do olhar e de seus desdobramentos. Qualquer desses encontros terá contornos e resultados imprevisíveis, que não nos cabe aqui esmiuçar. Mas não resistimos a uma especulação: a representação de Vicente talvez nos queira dizer, entre outras coisas, que a arte é menos transformadora no momento em que explicita a raiva do que quando, sem renunciar ao compromisso político, faz a adequada mediação das estratégias que lhe são específicas (o gesto, a voz, o olhar e a necessidade de se colocar no lugar do outro). João Paulo Borges Coelho, por seu turno, parece querer complementar com uma pergunta: até quando serão necessárias as máscaras?

Cada uma dessas visitas, por outro lado, nasce de contextos específicos dentro dos quais a memória – imediata, remota, inventada – desempenha uma função relevante. Os jogos de espelhos internos à própria estrutura narrativa, que nos reenviam ao universo íntimo das personagens, complementam e orientam o sentido da teatralização. Compondo os bastidores – ou a pré-história – da encenação, o olhar retrospectivo do narrador e das personagens afigura-se como chave de leitura para as três visitas do Dr. Valdez. No que se refere a Vicente, as memórias remontam, por exemplo, ao tempo da infância, quando presenciou a humilhação pública de que foi alvo seu pai às mãos do patrão Araújo, em um dos episódios mais violentos já relatados na ficção moçambicana; indicam ainda o presente das saídas noturnas, tensão e excessos partilhados com seus amigos Jeremias e Sabonete, que também são empregados domésticos; finalmente, projetam o futuro enganador, metaforizado nas luzes de neón da Boite Primavera e na dança sinuosa de Maria Camba. As figuras do pugilista Ganda, herói nos ringues e engraxate fora deles, e do estranho dançarino que com sua arte recupera a complementaridade perdida do mundo, funcionam também como ativos lugares de memória para o empregado.

A compulsão memorial que atravessa a narrativa e a escrita de João Paulo Borges Coelho, conferindo-lhe unidade, está subordinada a uma resposta artística às formas de produção do esquecimento, especialmente aquelas que são elaboradas pelo discurso político. Este tipo de discurso possui uma natureza programática que choca com o espaço da intimidade (dos rumores e dos desejos, dos ódios e dos segredos, das ambivalências e das confluências) onde sua literatura se alimenta. Em suas obras, aliás, qualquer tipo de mergulho no passado é orientado por um presente repleto de complexidades. E vice-versa. Ao autor, por isso, interessa menos enquadrar a lembrança em um registro fixo de verdade do que ligá-la a um campo aberto de interrogações e interpelações.

Ao eleger caminhos que favorecem a sobreposição de tempos e memórias, a pluralização da geografia literária, a densidade existencial de heróis e personagens secundárias, a diversificação de posturas do narrador e a desestabilização de doxas por via de uma pesquisa estética sobre o paradoxo, João Paulo Borges Coelho consolida o romance moçambicano e constrói um novo lugar no campo literário.

Celebremos, pois, sua primeira visita ao leitor brasileiro.

Rio de Janeiro, 20 de julho de 2019.
Atualizado pelo autor em 01 de outubro de 2019.

Nazir Ahmed Can
Universidade Federal do Rio de Janeiro / FAPERJ / CNPq .
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Este texto foi escrito com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ (Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, processo nº E-26/203.025/2018) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Nível 2, processo nº 307217/2018-3).
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Citar como:

O ARTIGO:
CAN, Nazir Ahmed .“O criado, o criador e outras criaturas: notas sobre As visitas do Dr. Valdez e a escrita de João Paulo Borges Coelho ”. In: COELHO, João Paulo. As visitas do Dr. Valdez. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/as-visitas-do-dr-valdez/>

O LIVRO:
COELHO, João Paulo. As visitas do Dr. Valdez. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/as-visitas-do-dr-valdez/>

Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga (sobre o romance Asas Quebradas), por Ana Braun

Asas quebradas, romance do ficcionista moçambicano Aldino Muianga, é um livro sobre mulheres, violência e reconciliação. Estruturado a partir da perspectiva de duas moçambicanas, Macisse e Celinha, o romance narra a história de mãe e filha separadas por um episódio de brutalidade que resultará em conflitos das mais diversas ordens, em particular configurando uma ausência geradora de angústia pelo desconhecimento do próprio passado.

A representação da violência é uma das marcas da produção literária moçambicana. Tendo surgido em grande parte como resposta à barbárie que significou a implantação e o estabelecimento do sistema colonial, a literatura de autores já tidos como canônicos, como Luís Bernardo Honwana, José Craveirinha, Noémia de Sousa, entre outros, se mostrava comprometida em retratar pelo viés realista a opressão, racismo e discriminação que marcaram o período colonial em Moçambique.

Também em momentos anteriores da obra do próprio Aldino Muianga, como nos livros de contos O domador de burros e outros contos (2015) e A noiva de Kebera (2016) – ambos publicados pela Editora Kapulana –, a violência esteve tematizada, ainda que por vezes camuflada pela ironia e humor: na representação dos diferentes espaços associada à descrição das práticas sociais que denunciavam o conflito social, político e econômico como elemento estruturador das relações entre os indivíduos em Moçambique. Se, no entanto, nesses casos a representação da violência se dá a partir das dinâmicas que ocorrem em espaços públicos, no romance Asas quebradas, a violência emerge do âmbito do privado, do seio das relações familiares, e acaba amplificada por uma estrutura social que, mesmo em transformação, ainda é em grande parte insensível ao sofrimento das vítimas – em sua grande maioria mulheres – das múltiplas formas que a opressão doméstica adquire. Pois, mesmo tendo sido parte consistente e atuante da luta anticolonial, as mulheres moçambicanas ainda enfrentam nos dias de hoje uma situação de subalternização no âmbito econômico, cultural e social, experimentando em seu cotidiano diversas formas de sujeição e resistência ao modelo patriarcal.

O romance de Muianga se apresenta, nesse sentido, como representação da lógica que rege as relações de gênero na sociedade moçambicana de hoje. Divididas entre o desejo de uma vida plena e a impossibilidade dessa realização naquele contexto, as protagonistas do romance acabam personificando toda a complexidade da existência feminina no mundo africano contemporâneo, ele mesmo cindido entre o modo ancestral e as transformações sociais advindas da colonização europeia e suas práticas ocidentalizadas.

No romance, convivem – e não exatamente em harmonia – práticas associadas às sociedades tradicionais africanas (o peso do julgamento coletivo da comunidade, o saber dos mais velhos, o poder dos rituais) e esse outro mundo, estruturado por um Estado regido por leis, que, apenas em tese, alicerçariam a construção de uma nova sociedade marcada pela justiça social. Assim, se por um lado, a tradição e o sentido comunitário ancestral são relativizados pelos valores da modernidade, por outro, a narrativa nos alerta que a lógica do mundo ocidentalizado também é insuficiente para captar as especificidades das relações nesses contextos, não sendo capaz de proteger as mulheres das agressões perpetradas tanto pelos indivíduos quanto pela própria sociedade, de maneira geral. São elas, portanto, quem mais sofrerão as consequências de viver num mundo que, apesar de cindido entre essas duas lógicas, vai invariavelmente conferir às mulheres papel secundário, subalterno e de abandono. O romance mostra a tensão gerada pela impossibilidade do enfrentamento individual de uma estrutura social que criminaliza e responsabiliza a mulher pela violência à qual é submetida.

O predomínio do discurso interior das personagens, mediado por um narrador onisciente que nada esconde do leitor, coloca-nos em posição privilegiada, já que temos acesso a dados desconhecidos, ignorados pelas demais personagens. Ganhamos, por consequência, também o poder de julgar suas ações e de nos posicionar ante as injustiças vivenciadas pelas mulheres no romance. Nesse sentido, as personagens masculinas aparecem em clara desvantagem em relação ao leitor. A narrativa indica que, seja em maior ou menor grau, todos acabam de alguma forma exercendo modos de opressão que submetem as mulheres ao sofrimento, solidão e sentimento de inadequação.

Assim, do mesmo modo que o sistema colonial representou uma forma de dominação, o modo patriarcal que rege as relações entre as pessoas naquela sociedade também o é. E, à medida em que avançamos na leitura do romance, vai se tornando cada vez mais claro que a lógica do patriarcado está incorporada também no modo de ação das próprias mulheres, que se veem, muitas vezes, não apenas impedidas de serem solidárias umas com as outras mas mesmo como inimigas, em disputa pela suposta estabilidade emocional e financeira oferecida pelo relacionamento amoroso. Ao mesmo tempo, há, em vários outros momentos da narrativa, a ênfase na solidariedade feminina, no entendimento de que a chave para uma existência plena está na conciliação entre indivíduos, reatando, em parte, presente e passado.   

Sendo a literatura lugar tanto de afirmação quanto de contestação de práticas sociais, é possível ver o romance de Aldino Muianga como meio de desvelamento da complexidade da questão. Ao incorporar em sua prosa a tensão que ainda permeia as relações entre os gêneros na sociedade moçambicana contemporânea, Muianga apresenta ao leitor um exercício de reflexão inestimável.

Guarapuava, 10 de junho de 2019.

Ana Beatriz Matte Braun
Pesquisadora de literatura moçambicana e Docente na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Citar como:

O ARTIGO:
BRAUN, Ana Beatriz Matte .“Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga”. In: MUIANGA, Aldino. Asas quebradas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/mulheres-violencia-e-reconciliacao-em-aldino-muianga-sobre-o-romance-asas-quebradas/>

O LIVRO:
MUIANGA, Aldino. Asas quebradas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/produto/asas-quebradas-aldino-muianga-mocambique/>

Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco, por Jacqueline Kaczorowski

 

Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sangüínea?
(“Contemplação no banco”, Carlos Drummond de Andrade)

Após anos de ausência das livrarias brasileiras, somos finalmente agraciados com uma nova publicação desta obra-prima: Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira. O magro e denso romance angolano impacta desde a primeira frase e, como pode gerar certo estranhamento, nesta edição [1] são apresentados brevemente alguns elementos da narrativa com o objetivo de incentivar o leitor a caminhar por este labirinto refinado. Aquele que o percorrer perceberá seu esforço recompensado por uma obra que, não se rendendo a qualquer didatismo, aposta numa composição cuja elaboração ao mesmo tempo requer e oferece ferramentas para a sofisticação do olhar.

Nestes tempos em que presenciamos atônitos o ressurgimento de uma tendência global à intolerância e aos totalitarismos, dados a maniqueísmos de toda sorte, urge combater o afluxo e recorrer a exercícios de humanização. As redes sociais têm sido um bom exemplo de arena onde algoritmos ensinam a reduzir o outro: ali, via de regra, somos induzidos por certo sentido de urgência a não lhe reservar o direito ao erro, ao diálogo, ou mesmo ao processo de aprendizado, percurso que cada um trilha a seu tempo e que exige paciência. Sob aparente fugacidade, fixamos um momento do outro como dado acabado, interditando, assim, possibilidades de transformação. 

Diante de tal cenário, parece senso comum recorrer à sugestão do mergulho na literatura como remédio. A sensibilidade que aciona, o tempo que exige para contemplação, absorção e amadurecimento da apreciação, a identificação com o diferente que demanda e proporciona, a transformação de personagens diante de nossos olhos são algumas das faculdades que caminham na contramão do simplismo que facilmente se transveste em algoz. Recuperando a voz de Antonio Candido, o texto literário “não corrompe nem edifica (…); mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

Importa salientar, entretanto, que, apesar de todo o potencial de humanização que a literatura efetivamente comporta, nem sempre é esta a vocação que privilegia. Um exemplo pode ser encontrado na pena de outro grande escritor, o nigeriano Chinua Achebe, quando ensina que o “vasto arsenal de imagens depreciativas da África que foram coletadas para defender o tráfico de escravos e, mais tarde, a colonização, deu ao mundo uma tradição literária que agora, felizmente, está extinta; mas deu também uma maneira particular de olhar (ou melhor, de não olhar) a África e os africanos que, infelizmente, perdura até os dias de hoje”.

Vale recordar que, no final do século XIX, após a famigerada Conferência de Berlim, o acirramento das disputas territoriais exigia maior firmeza na ocupação das colônias, levando as metrópoles à criação de uma série de órgãos e mecanismos de controle dos territórios e de suas populações. O contexto angolano não foi exceção. Colonizado por Portugal, cujo império precário não teve a brandura que ainda defendem alguns, foi alvo de uma violência que também se expressou na constituição de um vasto repertório discursivo a serviço da dominação. Os “Concursos de Literatura Colonial” promovidos a partir de 1926 pela Agência Geral das Colônias, com alto investimento financeiro e o objetivo de “intensificar por todos os meios a propaganda das nossas colónias e da obra colonial portuguesa”, ilustram bem como a escrita literária passou a exercer função importante nesse quadro.

Ainda que tenha se prestado ao papel de instrumento a serviço da sujeição, a literatura também pôde ser tomada pelo avesso em seu potencial criativo e transformada em “arma que eu conquistei ao outro”, como define Manuel Rui, outro escritor angolano. Desde o século XIX é possível identificar, em Angola, manifestações literárias que desafiam o padrão proposto pelo opressor. No século XX já se verifica o desenvolvimento de um projeto literário autônomo, resultado do empenho de uma geração de escritores e intelectuais entre os quais podemos situar José Luandino Vieira.

Nascido em Portugal em 1935, muda-se cedo para Luanda, onde vive sua infância. É por seu compromisso radical com a luta pela libertação nacional que se torna cidadão angolano e adota o nome “Luandino”. Em decorrência de sua atuação é preso duas vezes e tem sua vida “hipotecada por muitos anos”, desde muito jovem. Conforme conta em seus Papéis da prisão, “do Aljube, em Lisboa, ao Campo de Trabalho no Tarrafal, passando por todas as cadeias disponíveis na nossa terra de Luanda, palmilhei doze anos da estrada da minha vida”. É nesta condição de exceção, portanto, que o autor desenvolve seu primoroso trabalho literário.

Suas memórias do cárcere, ao contrário do que seria esperado, sugerem um pacto com a liberdade capaz de extrapolar o espaço da cela e inscrever as ruas de Luanda e sua cultura popular em textos que, por meio da memória e da imaginação, ajudavam a substituir a vida, para tomar de empréstimo uma expressão do escritor. Confinado em espaços que impossibilitavam outras intervenções diretas, Luandino Vieira atuou dentro de seu “particular campo de acção – o estético”. Os resultados excepcionais demonstram a eficácia da apropriação da língua portuguesa como “despojo de guerra” e o empenho em construir uma voz narrativa que, desestabilizando a lógica da opressão, engendra novos modos de dizer a realidade.

Um dos frutos deste projeto literário é a escrita, em 1967, “de um só jacto”, deste romance singular, composto no Campo de Concentração do Tarrafal, onde Luandino Vieira passou oito anos. Imerso na severidade do “campo da morte lenta”, surpreende a trilha potente e lúcida que desenha para mostrar que “não há outros homens para com eles construir o mundo. É com esses mesmos que se fará – ou nunca se fará”. A capacidade de aderir radicalmente a um projeto ético e também se colocar habilmente na pele do outro, mesmo do mais antagônico, revela como a literatura pode, sim, vestir o manto diáfano da fantasia para combater a violência objetiva do real sem prescindir da “cortesia de dar a cada um o que lhe é devido”, lembrando novamente Achebe.

O início da leitura pode provocar um choque: que língua é essa que, ao mesmo tempo, sinto que conheço e desconheço? O que ela está me contando? Quem fala e de quem fala? Na primeira sentença somos lançados no meio de uma guerra, mas, logo em seguida, adentramos uma brincadeira em um dia de sol. O que aconteceu?

O leitor que aprender a ouvir o movimento do texto notará que um dos recursos utilizados pelo escritor é a justaposição de ideias, cenas e imagens que podem parecer desconexas. Ao longo da obra, no entanto, muitas delas são retomadas, desvelando aos poucos algumas associações complexas e sempre aprofundando sentidos. Com paciência é possível construir familiaridade com os procedimentos e perceber que alguns se assemelham àqueles do funcionamento da memória, que muitas vezes irrompe de maneiras imprevistas, nem sempre lineares.

Seguindo o movimento da memória de Mais-Velho, acionada pela dor, passamos a reconhecer sua voz e outras tantas que incorpora à sua, num emaranhado cada vez mais complexo, mas também mais nítido. Lembranças, projeções e muitas indagações são misturadas ao momento real que este narrador-personagem vivencia: sua caminhada em direção ao irremediável reconhecimento da morte de Maninho e do “viver de morte” que agarrou Paizinho. Nesta deambulação conhecemos os outros três protagonistas: Maninho, Paizinho e Kibiaka. A realidade asfixiante do colonialismo obriga os companheiros inseparáveis de aventuras infantis pelos capins do Makulusu a carregarem “o alegre caixão da nossa infância” na escolha de rumos inconciliáveis: Maninho, branco nascido na metrópole (assim como seu irmão Mais-Velho) integra o exército colonial português, escolha forçosa que defende com a ideia de que “só há uma maneira de a acabar, esta guerra que não queres e eu não quero: é fazer-lhe depressa, com depressa, até no fim, gastá-la toda, matar-lhe”. Paizinho, meio-irmão mestiço dos dois, participa de ações clandestinas e acaba preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Kibiaka, amigo negro morador do Bairro Operário, junta-se à guerrilha. Mais-Velho é aquele que segue imerso em dúvidas; o “escrupuloso” que, segundo o olhar de Maninho, não teve certeza suficiente para tomar uma decisão radical como as de seus companheiros e “limitou-se” ao trabalho clandestino. São “quatro ritmos e saberes e vidas diferentes” atravessados pela violência, inexorável.

No trajeto descobrimos pela voz de Mais-Velho que Maninho, “o melhor de todos nós”, era integrado à terra e aos seus, “ele é quem (…) bebia e comia, falava e ria sempre lá entre os que eu amava vagamundeando nas ruas solitárias e velhas da nossa terra de Luanda. E a ele a carabina escolhera. Simples buraco, fino e furo, toda a vida por ele saiu…”, “para ficar da cor da farda que lhe embrulha, tapado nas moscas, antes que a salva do estilo vai-lhe acordar no sonho de amor que, no ódio do próprio ódio, queria construir”. Descobrimos também que, se Kibiaka “segue na mata seu caminho de dignidade”, também pode ter saído de suas mãos, “que são as culpadas de ter homens com ideias e dignidade”, o balázio que roubou a vida de Maninho. E que Mais-Velho, em um gesto de solidariedade à luta, no Natal colocara “no sapatinho o único brinquedo que merece um homem digno como o meu amigo Kibiaka: Parabellum, de 9 milímetros”.

Paizinho, cuja cabeça “era uma peça de alta precisão, um instrumento afinadíssimo que ele cuidava diariamente com pensamento e acção”, que “nunca trai, porque é sério em tudo que em sua vida faz”, de “sangrenta presença” nos presságios do meio-irmão, é apresentado ao Mais-Velho de seis anos de idade ao mesmo tempo que a dor da mãe “Estrudes”: “cara desfeita e enrugada, alguma coisa lhe dói no dentro da alma é o que pode ser, pois não tira os olhos do miúdo encardido, seguro na mão da mulher negra, está quieto como se fosse de pau”. Dela conhecemos ainda a funda dor da perda do filho, as “mãos grossas de unhas curtas e negras do trabalho, aquelas pernas de varizes que não se equilibravam nos sapatos de salto alto”, de “apanhar azeitona dentro de Invernos frios e descalços da tua infância”, a “coragem de sempre perder” – quando pai Paulo afirma que Paizinho é seu afilhado com o “tranquilo riso de quem que sabe verdade ou mentira ele é que fala verdade sempre”.

Pai Paulo, colono pobre e racista, é exemplar tão verossímil da colonização lusa quanto o operário Brito, com sua consciência de classe que permite linchar publicamente um trabalhador negro. O lamento materno desta morte evoca o peso da violência colonial sobre toda uma coletividade: “este o grito só que oiço ou é coro de milhões de gritos iguais?”. A narrativa dialeticamente evidencia as contradições de um sistema extremamente embrutecedor e não interdita a complexidade a nenhuma das personagens, recuperando traços que marcam também a constituição subjetiva de todo um grupo.

O vigor da premissa, que é possível vislumbrar mesmo com a apresentação de poucos elementos, somado à extraordinária habilidade com que o escritor humaniza todas as personagens sem jamais elidir as relações de força entre elas, entregam ao leitor um texto pelo qual é impossível passar incólume. “Amar os homens é sempre uma alegria dolorosa”, afinal.

São Paulo, abril de 2019.

Jacqueline Kaczorowski
Pesquisadora-bolsista (CAPES – FFLCH/USP), membro do grupo de pesquisa PIELAFRICA – Pactos e impactos do espaço nas literaturas africanas de língua portuguesa (Angola e Moçambique), vinculado à UFRJ.

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O ARTIGO:
KACZOROWSKI, Jacqueline .“Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco”. In: VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/nos-os-do-makulusu-do-fundo-humano-em-cada-caco-por-jacqueline-kaczorowski/>

O LIVRO:
VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]. Disponível em: http://www.kapulana.com.br/produto/nos-os-do-makulusu/<>

João Paulo Borges Coelho visita Kapulana, editora oficial do autor no Brasil

O premiado escritor moçambicano participou de um bate-papo audiovisual com a Profª Drª Rita Chaves na sede da Kapulana, editora que lançará dois livros do autor no Brasil

A Kapulana recebeu, no dia 6 de junho, em sua sede, a visita do premiado escritor e historiador moçambicano, João Paulo Borges Coelho, que publicará, pela primeira vez no Brasil, duas obras de sua carreira, As visitas do Dr. Valdez (setembro de 2019) e Crônica da Rua 513.2 (em 2020), pela Editora Kapulana. O autor também participou de uma entrevista audiovisual, conduzida pela Profa. Dra. Rita Chaves (USP) sobre os dois livros e a sua trajetória literária.

Na conversa com Rita Chaves, Borges Coelho comentou sobre o seu processo de escrita, o começo na ficção, o desenvolvimento e o trabalho narrativo das duas obras que a Kapulana lançará, como distingue as atividades de historiador e de escritor, assim com influências literárias que marcaram a sua escrita e os estudos universitários realizados em sua obra. O bate-papo será publicado em breve no canal da Kapulana no YouTube.

Apesar de a obra do consagrado escritor já ser objeto de muitos estudos acadêmicos no Brasil, será a primeira vez a ser publicada em nosso país.

OBRAS DA KAPULANA

13 de junho da 2019.

★★★

Saiba mais:

Nós, os do Makulusu – a palavra e o outro, por Rita Chaves

De 1967, ano em que José Luandino Vieira escreveu essa extraordinária narrativa até o presente, muitos abalos têm sacudido Angola: o país conquistou sua independência em 1975, os conflitos armados se sucederam, em 2002 um acordo de paz foi assinado, a república tem agora o seu terceiro presidente, o projeto socialista foi abandonado, novos escritores fortaleceram o processo de formação da ficção angolana, outras formas de arte ganharam energia… A natureza e a intensidade de tantas mudanças nos levam certamente a levantar questões sobre a validade de uma nova edição no Brasil desta obra escrita no calor de uma hora tão particular na história do país e não só. Podemos começar por recordar, nesse sentido, que na década de 1960 o mundo à nossa volta vivia sob a luz de muitas utopias e olhava, com algum entusiasmo, as lutas de libertação que prometiam mais que a vitória sobre o colonialismo português e sua insistência em se prolongar na África. Mesmo no Brasil, imprensado sob mais um período ditatorial, havia réstias de esperança na resistência e na possibilidade de superar a truculência dos coturnos. Certamente pela primeira vez, do continente africano sempre visto como um espaço à parte no contexto mundial, alguns territórios emergem como focos de luz em um planeta que parecia sacudido por ideais de justiça e igualdade social.

Após quase meio século e as mudanças que ficaram a meio caminho do sonho, somos levados a pensar no significado de uma obra que nos fala da luta anticolonial e, sob o selo de uma inequívoca escolha ideológica, traz-nos as marcas de um pertencimento a um lado da cidade dividida tão bem descrita por Frantz Fanon em seus agudos tratados sobre o colonialismo. Como explicar a capacidade que a obra revela de se manter atual em um momento tão diverso daquele em que nasceu? Para nos aproximarmos da complexidade desses tempos (daquele passado e do nosso presente), e para examinarmos as relações da literatura com a experiência histórica que a linguagem de Luandino trabalha com maestria, é que podemos percorrer com um atormentado narrador as ruas e becos de uma cidade que é bem mais que uma paisagem, que é simultaneamente um espaço e um tempo, uma espécie de quadro vivo que, nas sensações que evoca, nos traz a dor e a perplexidade de uma geração.

Quando se fala de Angola e de seu caminho em direção ao fim do colonialismo, o conceito de geração se alarga. Não se trata de um grupo definido pela faixa etária, mas pelo compromisso com um projeto, o da libertação nacional. Desde o fim dos anos de 1940, o sonho de um país livre juntou angolanos de várias idades, raças e classes, empenhados na conquista da libertação política e social, entre os quais podemos identificar aqueles que, percebendo a escrita como uma arena, procuraram fazer da literatura mais um instrumento para a transformação. Aí encontramos José Luandino Vieira, um escritor cidadão movido desde cedo pelo compromisso de associar ao sentido ético de sua luta a dimensão estética de seus textos. Seu pacto, sempre e a um só tempo, com a ordem que desejava e com a beleza em seu sentido maior, manifesta-se nesse exercício de dupla lealdade a que ele devota seu trabalho e seu talento.

O primeiro título, A cidade e a infância, já apontava o caminho de dois temas caríssimos que serão visitados a partir de várias perspectivas, todas elas guardando a marca da complexidade que ele soube ver nas situações que aborda. Nesse conjunto de contos, uma funda familiaridade dos narradores com os espaços em que se armam os enredos, aponta para a sua capacidade de circular por áreas da cidade que permaneciam à margem e mantinham uma certa impermeabilidade à lógica imposta, a despeito das incursões nada amigáveis da violência policial, único braço do estado a se manifestar com frequência na cidade do colonizado. Poucos anos depois, em A vida verdadeira de Domingos Xavier e, principalmente, Luuanda, o processo de escrita de Luandino seria redimensionado na opção pela ruptura operada no domínio da linguagem. Será, todavia, nesse fabuloso Nós, os do Makulusu, escrito na aridez do Tarrafal (o terrível campo de concentração localizado em Cabo Verde, onde estavam presos nacionalistas que tinham ousado desafiar a opressão colonial), que as tintas da radicalidade darão nota ao projeto literário que, acompanhando as voltas e reviravoltas de Angola e do mundo, continua em curso. A condição do autor, detido e condenado a tantas formas de sujeição, torna ainda mais surpreendente o resultado de uma obra que renuncia à tentação do maniqueísmo e traz para o debate a humanização do inimigo. Não se trata de reduzir a tensão ou relativizar a dimensão do mal, mas de buscar uma reflexão mais densa sobre os embates que a História plantou naquele solo.

A morte, de que o tiro que dá início à narrativa é uma pungente metonímia, enraíza o problema da diferença de posições e dimensiona o drama, mas não dilui a necessidade de se ter em conta o lugar do angolano – esse outro invisível na sociedade colonial e na literatura produzida na metrópole, em cujas páginas ele não passaria de um elemento do cenário, como podemos observar em tantos títulos. Essa oclusão facilmente explicável no repertório mais afinado com as ideias do império, torna-se inquietante nos textos produzidos com o compromisso da denúncia social e coloca em debate a ausência do problema colonial e, consequentemente, dos africanos nas obras do Neorrealismo. Tal invisibilidade foi captada por Luandino que, contudo, não lança explicações superficiais, renunciando com firmeza o jogo da contraposição banal. Ao contrário, ao mergulhar nas águas fundas de um universo convulsionado deixa ver a contradição como traço dominante. Atento aos movimentos da História, ele põe em cena a dureza da experiência dos impasses da vida cortada pela guerra e pelos caminhos trilhados pelos quatro personagens que partilharam a infância nesse pedaço da cidade que o Makulusu inscreve.

Assim, os dilemas e a vivência algo surpreendente de personagens muito variados, coexistindo em mundos segmentados, não são apenas o tema, definindo-se como marcos da estrutura que nos coloca de frente para a profundidade da crise dinamicamente espelhada pela narrativa. O autor recusa-se a uma simples inversão de pontos de vista, conduzindo-nos, de modo muito produtivo, ao desafio de olhar a situação sob o signo da mobilidade, expondo, sem perder a medida do lado que é o seu, as hipóteses da diversidade que o maniqueísmo prefere banir. Nesse movimento, recorre à sobreposição temporal e potencializa a coexistência de tradições, línguas e códigos culturais para trazer à luz a fratura que define as relações sob a dominação colonial. O desejo de ruptura que o afasta deliberadamente da norma lusitana articula-se aos gestos de aproximação com o universo marginalizado pelo poder e o resultado é a construção de uma linguagem centrada no corte, nas elipses, no ritmo de uma sintaxe que evidencia o desconcerto do mundo à volta.

Na consciência do Mais-Velho, estilhaçada pela inviabilidade de um projeto de transformação imerso em tanto sangue, está interditada a sagração de uma mitomania nacionalista, como poderíamos esperar de um livro escrito no espaço do cárcere e na certeza de uma adesão. Aqui encontramos uma das grandes qualidades desse texto: a faculdade de perceber, para além das sombras do ressentimento, os mecanismos que acionam a incomunicabilidade e impedem qualquer hipótese de porosidade entre os seres e mundos marcados por alguma diferença. Converter a diferença em desigualdade era a tônica do sistema colonial, e pode nos parecer lógico que a resposta do combate atualize a proposta de apagar ou desumanizar o diferente. Em Nós, os do Makulusu, porém, a diversidade preenche a narrativa e nos ensina a exercitar outros olhares diante de uma realidade cortada pela perda e pelo irrevogável da morte inerentes à guerra. 

O confronto entre a década de 1960 e os nossos dias, sem dúvida, faz desfilar diante de nossos olhos um roteiro de mudanças. Se em Angola, também pela força de atores como Luandino, se pode notar a desnaturalização das barreiras raciais, que era um dos móveis da luta de libertação, sabemos que lá, como em todo o planeta, em nome de tantos deuses, sucedem-se as crises em que a recusa do Outro pode ser causa ou consequência. Os conflitos de natureza étnica em tantos países, o massacre dos refugiados na Europa, as agressões de base religiosa pelo mundo afora, os constantes ataques aos pobres no Brasil são manifestações dessa intolerância que, atentando contra a humanidade dos agredidos, exprimem a desumanidade do agressor. Diante desse panorama, somos tentados a repetir com Carlos Drummond de Andrade: “O mundo não vale o mundo, meu bem.” Como uma gota contra o desalento que daí nos vem, entretanto, vale a pena ler (e reler) Nós, os do Makulusu, e vislumbrar no jogo desgovernado de uma obra fabulosa algum sentido para a literatura. E para a vida. E, desse modo, poderemos compreender também a validade da reedição de um livro como esse.

Trouville / São Paulo, abril de 2019.

Rita Chaves
Professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa do
Depto. de Letras Clássicas e Vernáculas (FFLCH-USP), e pesquisadora do
CELP-FFLCH-USP (Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa – FFLCH-USP)

Citar como:

O ARTIGO:
CHAVES, Rita “Nós, os do Makulusu – a palavra e o outro”. In: VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/nos-os-do-makulusu-a-palavra-e-o-outro-por-rita-chaves/>

O LIVRO:
VIEIRA, José Luandino. Nós, os do Makulusu. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

Na asa da escrita, por José dos Remédios

Um romancista não terá, forçosamente, que depender do êxito ou fracasso dos seus livros,
terá que continuar, sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir.
Eduardo Paixão

“Dazanana de Araújo Simplíssimo vivia uma estranha sensação de que estava morto. Durante muitos anos cultivava em demasia a crença de que a sua vida era a morte” (p. 9). Assim inicia a história de um personagem muito particular, obstinado e comprometido com as dimensões gigantescas do seu sonho: Dazanana, do rhonga, língua falada na capital moçambicana, idiota ou palerma. Pode ser que estes dois significados encaixem no perfil do protagonista de Cemitério dos pássaros, mas apenas se se considerar à sua entrega a um propósito claramente definido: o de construir um cemitério no qual os finados da sua família reencarnariam como pássaros, alcançando, por isso, outras dimensões da existência.

Colocando a narrativa neste prisma, Adelino Timóteo, logo no princípio da diegese, questiona sobre os limites da vida na mesma proporção que minimiza a morte, afinal, a acreditarmos como Dazanana defende, nunca deixamos de viver, quando morremos. O que ocorre é um trânsito para lugares quase inimagináveis, os quais, uma vez alcançados, conferem à alma uma espécie invulgar de transcendência. Então, diante do seu maior projecto de vida, o protagonista de Cemitério dos pássaros move-se num labirinto estranho, decidido a levantar o véu dum cenário jamais desmistificado: o além. No fundo, há nessa entrega uma continuidade, a de fazer do realismo mágico uma forma de escrita. Continuidade porque esta não é a primeira vez que Timóteo atribui à existência a capacidade de vencer a morte, revelando, nessa condição, as imprecisões características. 

Dazanana é o instrumento usado pelo escritor para representar a obsessão humana em prolongar a sobrevivência, não no além, que é incerto, mas neste mesmo mundo. Logo, o personagem funciona como cicerone de uma trajectória que termina em metamorfose. Não podendo permanecer eternamente no plano real, numa condição de partida, cheia de vigor juvenil, o herói timoteano, com uma fé religiosa, põe-se a sustentar a pretensão de transformar o seu cemitério num ninho, lugar predestinado para reinventar os conceitos de gestação. Na verdade, é mesmo de evolução que estamos a falar, como se a natureza fosse exageradamente generosa para permitir a humanidade permanecer num mundo que a destrói, de múltiplas maneiras.

Por via de Dazanana, o romance de Adelino Timóteo sustenta-se na susceptibilidade de mergulhar fundo nos aspectos folclóricos, se quisermos, tradicionais de uma cultura oral ainda bem enraizada no quotidiano dos moçambicanos, e, acreditamos, dos brasileiros também. Este livro inédito ora publicado pela editora Kapulana, fruto de uma imaginação absolutamente incrível, é um lugar de propagação de crenças, sem restringir-se a isso, mesclando uma ficção delicada com uma visão holística sobre o meio e as culturas. Quiçá, essa deve ser a razão de Cemitério dos pássaros ser um livro riquíssimo do ponto de vista temático. À semelhança dos títulos anteriores, por exemplo, Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz (romance) e Na aldeia dos crocodilos (infanto-juvenil considerado “Altamente recomendável” no Brasil, e, por isso, finalista do Prémio FNLIJ) este novo livro do poeta e romancista moçambicano, natural da Beira, cidade rebelde agora afamada devido aos danos do ciclone Idai, vai buscar ao Vale do Zambeze a fertilidade indispensável para uma boa narrativa, como quem reinventa as particularidades daquele espaço mitológico cheio de muitos encontros inaugurais entre povos de diversas culturas. Com o Zambeze resgata-se o passado (e a origem da miscigenação na Zambézia, província do Centro de Moçambique), eventualmente porque, como escreve Ungulani Ba Ka Khosa no seu Gungunhana, “esta terra [Moçambique] está sendo construída sem o passado. Tudo o que é passado é coisa morta”. Ou desvalorizada. Sendo que “morta” e “desvalorizada”, neste contexto, acabam sendo a mesma coisa.

A propósito, uma vez Adelino Timóteo prometeu-nos publicar três ou mais romances sobre o Zambeze. Pode ser que a promessa esteja já a ser cumprida, e, daí, um Moçambique diferente do actual esteja a ser apresentado ao mundo, na asa da escrita, onde cabe o imaginário, os hábitos e costumes no livro bem valorizados. Portanto, Cemitério dos pássaros é um romance filantrópico em que “Salvar a história, seja onde for, impõe a liberdade de escolher ser livre ou sujeitar-se ao sacrifício” (p. 56). Dazanana, tal como o seu criador, sempre escolhem a liberdade, mesmo quando o conforto está na covardia, mesmo quando a decisão de marchar em frente custa mais que suor. A liberdade de concretizar e assumir o risco disso está tão vincada em Dazanana que Maria de Lourdes Pintassilgo, a esposa, passa a ter um companheiro no lugar de um marido. Porque perseguindo o seu ideal, aquele protagonista reinventa-nos como leitores às vezes estáticos na ousadia de alcançarmos outros voos. Bem visto, esse tipo de relações amorosas que Maria de Lourdes deseja que sejam calorosas, cor-de-rosa, não têm proeminência em Adelino Timóteo. Os casais timoteanos, quase sempre desleixados às singularidades do afecto, deixam-se prender por outras obrigações. Em Cemitério dos pássaros acontece o mesmo, por exemplo, com Dona Ana, a lembrar-nos esse registo “ninfomaníaco” recorrente na narrativa do autor. Na verdade, Dona Ana é a continuidade do carácter que o romancista estampa numa outra personagem: Luíza Michaela, em Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz.

Quanto mais Adelino Timóteo vai escrevendo, traz propostas para a libertação das pessoas das amarras sociais, questionando preconceitos, tabus, e, em derradeira instância, os cânones civilizacionais, por exemplo, esses que oprimem a mulher em cada oportunidade cedida ao homem. Se Dazanana é um exemplo de coragem na luta pelo que acredita, Dona Ana pode ser entendida como esse pássaro decidido a aprender a voar na intimidade das suas sensações, desejos e fantasias. Com o sexo no centro de tudo.

À parte tudo isto, mais uma vez, a Kapulana publica – como nos lembra Eduardo Paixão no seu Tchova, tchova – um autor que não terá que depender do êxito ou fracasso dos seus romances, terá que continuar, e continua sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir. Da Beira, onde vive, Adelino Timóteo projecta-se sempre com a sua obra, predisposto a reinventar a história, inovando-a, e, por consequência, a tornar os seus leitores melhores pastores da vida.

José dos Remédios
Jornalista
Maputo, 11 de Maio de 2019.

Citar como:

O ARTIGO:
REMÉDIOS, José. “Na asa da escrita”. In: TIMÓTEO, Adelino. Cemitério dos pássaros. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/na-asa-da-escrita-cemiterio-dos-passaros-por-jose-dos-remedios/>

O LIVRO:
TIMÓTEO, Adelino. Cemitério dos pássaros. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

Martinho, um artesão, por Tom Farias

Martinho da Vila é realmente um sujeito fora do comum. No curso dos seus implacáveis 80 anos, o bamba de Vila Isabel trabalhou como nunca em sua festejada existência. Além de dois CDs e do DVD – este a caminho, gravado no imponente e lotado Theatro Municipal do Rio de Janeiro – que colocou na rua, falo do histórico “Alô Vila Isabeeeel!!!”, que reúne os clássicos sambas da escola do bairro de Noel Rosa, e, mais para o finalzinho do ano, o bem bolado “Bandeira da fé”, uma experiência contagiante, inovadora na vida do músico e compositor, como foi o trabalho que o antecedeu, no caso o antológico “De bem com a vida”, que marcou uma mudança de atitude, única do ponto de vista do conceito, mas sem desafinar a trajetória cinquentenária de uma carreira repleta de sucessos e muitos merecidos prêmios, nacionais e internacionais.

Foi nessa pegada de grandes eventos e fortes emoções, com destaque para as homenagens, em especial da sua terra natal, a cidade de Duas Barras, onde Martinho foi tema de selo comemorativo e titular de um ano inteiro de festejos, as atividades das escolas públicas do estado do Rio de Janeiro em torno da sua história, as paparicadas da Vila Isabel, onde saiu em destaque no carnaval, desfilando no alto do carro no Sambódromo, exatamente no dia das suas oitenta primaveras, e da Unidos do Peruche, tradicional agremiação de São Paulo, que o levou como enredo para a avenida dos desfiles, volto a dizer, foi nessa pegada, que Martinho laborou, com sua indiscutível disciplina de trabalho, a escritura de um livro novo, que exigiu dele, além de tudo, tarefa quase diária de muita escrita e seguidas leituras.

Das mãos desse metódico trabalhador incansável das madrugadas silenciosas – Martinho não dorme, ele repousa -, é que nasceu a joia rara de sua artesania, na arte de artesanar, de ser artesão, que é este 2018 – Crônicas de um ano atípico.

Faz dois anos que lançou o excelente Conversas cariocas, uma antologia de textos trabalhados para atender a uma coluna de jornal popular, como é o jornal O Dia, na sua edição dominical. Já 2018 – Crônicas de um ano atípico marca um processo diferente do artista, que é, diga-se de passagem, romancista de mão cheia. São dele Memórias Póstumas de Tereza de Jesus, Lusófonos, Vermelho 17, Barras, vilas & amores, entre outros mais, como o Vamos brincar de política? ou A serra do rola-moça, num total de 15. Neste novo trabalho, Martinho se supera na tacada e no acerto, ao narrar, toda semana, assuntos os mais variados e relevantes, dando a cada um deles, obviamente, seu toque pessoal, seu ponto de vista crítico, sua opinião ida e vivida. É assim que fala das festas de fim de ano, dos festejos em sua homenagem, da expectativa da Copa do Mundo, da questão política, da prisão do Lula, a quem, com Chico Buarque, foi visitar em Curitiba e saiu impressionado com o alto astral do ex-presidente, da sua atual paixão, a Barra da Tijuca, do amor à numerosa família, das viagens, da dura vida de artista no Brasil, da paixão pelo futebol, sobretudo pelo Vasco, dos amigos e das amizades, das pescarias onde ninguém volta com o pescado, do seu “off Rio”, de Vila Isabel e do samba, com muitas histórias e a transcrição de letras memoráveis, muitas que dão gosto de lembrar e reviver. Uma dessas histórias saborosas, sobre música e gente, trata do nascimento do samba O pequeno burguês, ainda nos tempos do Exército, quando era sargenteano, como ele mesmo diz. A canção (“Felicidade, passei no vestibular/Mas a faculdade é particular”, quem não se lembra?) é referência do seu cancioneiro até hoje, desde que foi lançada, há 50 anos.

São divertidas e instrutivas as histórias contadas por Martinho da Vila. De janeiro a dezembro, vamos tomando ciência dos acontecimentos, nem sempre noticiados na grande mídia, e dos que nos passariam despercebidos, não fosse a percuciente ideia do grande bamba, através da sua escrita semanal, no passo e compasso do seu ritmo como escritor e intelectual, nos trazer à tona, nos revelar, interagir. O resultado saiu-se o melhor possível: com muita harmonia, com muito talento, esmerando e lapidando, eis a carpintaria da palavra perfeita, do verso sincopado, do partido-alto da rima, nessa engenharia artesã, que labora e explora o infinito da criação artista, sem se tornar enfadonho, e, igualmente, sem a tal da pressa, pois com ele, as coisas vão sempre no ritmo do devagar, devagarinho.

O clima é de encantamento, de viva alegria, de requintada realeza – Martinho é um diplomata da magia, é amigo de todos, é um camarada aguerrido, e é, acima de tudo, um criador. No silencioso sossego do seu lar, no convívio da rainha Cléo Ferreira, dos filhos Alegria e do Preto, elucubra consigo mesmo, confabula e urde pensamentos e questões, como exercício existencial diário para respirar e para ser.

Falando de esperança e pensando na paz, como verdadeiro embaixador que de fato é, Martinho da Vila pode ser considerado a mais viva história de superação e fé no futuro. Aquele menininho, preto e pobre, filho do Josué e da Dona Tereza, nascido no recanto de uma fazenda do interior e criado no Morro dos Pretos Forros, na Boca do Mato, faz parte hoje da rica cultura popular, como um bem, uma preciosidade. Ler os seus textos, tomar nas mãos o seu livro, como o fazemos agora, é uma forma de continuar o reverenciando e merecendo, e o prestigiando e admirando, acima de tudo.

Tom Farias – jornalista e escritor
11 de fevereiro de 2019.

Citar como:

O ARTIGO:
FARIAS, Tom. “Martinho, um artesão”. In: VILA, Martinho da. 2018, Crônicas de um ano atípico. São Paulo: Kapulana, 2019. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/martinho-um-artesao-por-tom-farias>

O LIVRO:
VILA, Martinho da. 2018, Crônicas de um ano atípico. São Paulo: Kapulana, 2019.

CineGrafias Moçambicanas – Memórias & Crônicas & Ensaios: Apresentação, por Carmen T. Secco, Ana Mafalda Leite e Luís Carlos Patraquim

Este livro resultou de trabalho conjunto, apoiado por tríplice parceria: entre Carmen Tindó Secco, Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Ana Mafalda Leite, Professora da Universidade de Lisboa; e Luís Carlos Patraquim, um dos fundadores do cinema moçambicano, cuja participação foi fundamental pelo amplo (re)conhecimento da(na) área.

É decorrência, também, de trocas e diálogos entre os projetos “Literatura, Cinema e Afeto: figurações e tramas da história em escritas literárias e fílmicas de Moçambique e Guiné-Bissau” (coordenado por Carmen Lucia Tindó Secco, apoiado pelo CNPq e FAPERJ) e “NEVIS – Narrativas Escritas e Visuais da Nação Pós-Colonial” e “NILUS – Narrativas do Oceano Índico no Espaço Lusófono” (coordenados por Ana Mafalda Leite, com apoio da FCT), cujas ações têm possibilitado produtivo intercâmbio cultural entre Brasil, Portugal e Moçambique.

A ideia da publicação de entrevistas com realizadores de Moçambique surgiu em razão de ser ainda escassa a bibliografia a respeito do cinema moçambicano e, também, por não haver mais, atualmente, em Moçambique, uma política cultural de valorização de festivais cinematográficos, como ocorria, há alguns anos, com o Dockanema que, durante várias edições, promoveu a divulgação de filmes, debates e oficinas.

Como o cinema, no período logo após a independência, foi fundamental à construção da nação moçambicana, e, ainda hoje, continua a ser um dos meios importantes de preservar a memória do país e pensar Moçambique e o mundo, consideramos ser um significativo contributo a recolha de opiniões não só de antigos e reconhecidos realizadores moçambicanos, como também de representantes das jovens gerações. Decidimos, então, reunir, no livro, entrevistas, ensaios, crônicas[1] de realizadores e de estudiosos da área, com o intuito de registrar não só a trajetória passada do cinema moçambicano, mas também reflexões acerca das condições e do papel deste no presente.

Cada vez mais, entrevistas são utilizadas, metodologicamente, como rico instrumento de pesquisa, capaz de propiciar entrelaces interdisciplinares e interartísticos. Em literatura e história, é comum entrevistar poetas, escritores. Também no âmbito cinematográfico, entrevistas a cineastas e realizadores são usadas como fontes que permitem a criação de “arquivos vivos” que captam visões pessoais e memórias subjetivas dos entrevistados acerca de seus filmes, de seus posicionamentos ideológicos sobre contextos históricos, políticos e sociais vivenciados. A relevância das entrevistas reside em possibilitar a exteriorização de pontos de vista diferentes, assim como questionamentos e interpretações críticas a respeito de momentos controversos da história.

A entrevista, nas suas diferentes aplicações, é uma técnica de interação social, de interpretação informativa (…); pode também servir à pluralização de vozes e à distribuição democrática da informação. Em todos estes ou outros usos das Ciências Humanas, constitui sempre um meio, cujo fim é o inter-relacionamento humano.[2]

Quatro das entrevistas que compõem este livro – as de Licínio Azevedo, Sol de Carvalho, João Ribeiro e Yara Costa – foram respondidas, livremente, por escrito, a partir de perguntas formuladas pelos organizadores. A de Ruy Guerra foi realizada pessoalmente por Olivier Hadouchi e Vavy Pacheco Borges, em Paris, em 2012; já as de Isabel Noronha e Camilo de Sousa foram gravadas, durante uma conversa informal, por Ana Mafalda Leite, em Lisboa, em 2017.

A escolha dos realizadores entrevistados deveu-se, por uma lado, à representatividade de cada um e, por outro, ao fato de terem aceitado nosso convite. Alguns nomes importantes relacionados ao cinema moçambicano – como o de Pedro Pimenta, Gabriel Mondlane, José Luís Cabaço, Ungulani Ba Ka Khosa, entre outros – e o de Diana Manhiça – atual presidente do projeto do Museu do Cinema Moçambicano – também foram contatados, mas, infelizmente, por motivos vários, não responderam às entrevistas.

CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios se estrutura em quatro partes, antes das quais, com a intenção de despertar a curiosidade dos leitores e instigar a leitura, foram inseridas imagens sugestivas: uma foto do velho prédio do cinema Império localizado em Maputo, fotografias de Camilo de Sousa e Isabel Noronha em antigas gravações e cenas representativas de filmes produzidos pelos realizadores entrevistados neste livro.

A primeira parte é constituída por dois ensaios: o de Guido Convents, que traça um panorama do cinema colonial moçambicano, evidenciando como este encontrava-se a serviço da propaganda do império português, e o de Luís Carlos Patraquim que reflete sobre o cinema moçambicano da pós-independência.

A segunda congrega entrevistas de realizadores incontornáveis, entre os quais: Ruy Guerra, Camilo de Sousa, Licínio Azevedo, Isabel Noronha, Sol de Carvalho, João Ribeiro, Yara Costa.

A terceira é constituída por crônicas de Ruy Guerra, Licínio Azevedo, Luís Carlos Patraquim, Sol de Carvalho e Isabel Noronha. Esta parte, a nosso ver, é de grande originalidade, uma vez que desvela os bastidores das filmagens, ou seja, o avesso das aventuras vivenciadas durante as gravações dos filmes por alguns dos realizadores.

Fechando o livro, a quarta parte contém dois ensaios: o de Júlio Machado, que analisa o filme Mueda, memória e massacre, de Ruy Guerra, marco do cinema moçambicano, e o de Ute Fendler, que investiga a presença do “fantástico” como uma das tendências existentes na filmografia moçambicana. Esta última seção é breve, contudo enriquecedora, na medida em que descortina um viés crítico, sugerindo a importância de estudos acerca de temáticas e filmes representativos do cinema moçambicano.

Das entrevistas obtidas depreende-se, de modo geral, que o cinema cumpriu a urgência de narrar a nação moçambicana, chamando atenção para questões de poder que marcaram profundamente a história de Moçambique – o colonialismo, a guerra, a miséria, a violência –, mas também apontando para a necessidade de revisitação de valores e traços africanos silenciados e para as múltiplas diversidades culturais, sociais, religiosas presentes em Moçambique e no continente africano.

Na entrevista de Ruy Guerra, desponta seu olhar de cineasta sempre atento às relações de poder, um olhar que põe em cena contradições sociais internas a serem repensadas criticamente. Em sua entrevista, Ruy enfatiza que são fortes as relações entre cinema e política; relembra, com seu humor crítico, algumas vivências relacionadas a filmagens por ele realizadas, entre as quais se encontram passagens especiais de sua parceria com Gabriel García Márquez, Chico Buarque, entre outros.

Camilo de Sousa, por sua vez, relembra sua infância na Mafalala; denuncia, nessa época, a ostensiva opressão colonial e o racismo; recorda sua tia Noémia de Sousa, sua relação com Ruy Guerra; fala sobre seus filmes. Isabel Noronha, em sua entrevista, narra suas experiências e aventuras de filmagem, relata a importância do surgimento do cinema moçambicano, a fundação e o fechamento do Instituto Nacional do Cinema em Moçambique. Com uma visão bastante lúcida e sensível, comenta que em seus filmes busca narrar histórias de pessoas que foram silenciadas. Mas observa que, para filmar “essas histórias privadas, é preciso encontrar o dispositivo certo para contornar ou quebrar a questão do silêncio político, que foi sendo e ainda é imposto”.

Licínio Azevedo, com respostas curtas e objetivas, criticamente, sintetiza a significação do cinema moçambicano, que, em sua opinião, representa “o próprio país, pois Moçambique é hoje a nação que o cinema ajudou a construir”. Sol de Carvalho, detalhadamente, avalia o importante papel do “Kuxa Kanema” em Moçambique; narra suas experiências de filmagem; fala da criação da produtora PROMARTE e comenta suas adaptações de textos literários para o cinema.

João Ribeiro também relaciona o nascimento do cinema moçambicano à construção da nação, observando que a descolonização do olhar tem sido uma espécie de clichê que persegue, em geral, o cineasta africano. Porém, enfatiza que, quando faz um filme, procura criar algo novo ou suficientemente forte para manter o suspense e surpreender o espectador. Para ele, fundamentais são as histórias contadas, as mensagens passadas, construídas de forma estética inovadora.

Já a realizadora Yara Costa critica a falta de investimentos em cinema atualmente em Moçambique e afirma ser muito difícil a realização de filmes moçambicanos, pois os apoios financeiros são quase inexistentes. Explana a respeito de seus filmes, entre os quais Entre Eu e Deus, que versa sobre a escolha radical de uma religião feita por uma jovem, num contexto de violência e intolerância religiosa.

Se as entrevistas deste livro são elementos fundamentais para a história do cinema moçambicano, as crônicas vêm acrescentar uma dimensão criativa e espetacular ao ofício dos realizadores, bem como uma tensão de reenquadramento da memória, entre outros aspectos. Com efeito, a noção de crônica, como lembra David Arrigucci[3], pressupõe a noção de tempo, presente no próprio termo, que procede do grego, chronos. É uma escrita que tece a continuidade do gesto humano na tela do tempo, que implica lembrar e escrever, relato em permanente relação com a temporalidade de onde retira a memória, enquanto sua matéria principal.

No caso dos dois textos de Sol de Carvalho, que situam alguns episódios na rodagem do seu último filme Mabata Mbata, deparamo-nos em especial com uma reflexão sobre o cinema africano e algumas das contradições existentes entre cinema pedagógico e dimensão estética, em que o realizador evoca palavras de Godard, quando o cineasta francês esteve em Moçambique, lembrando como ele considerava África como um mundo imaginário carregado de símbolos, imagens e representações, que constituem o enorme reservatório de criação de cinema inovador e, ao mesmo tempo, próximo dos seus destinatários.

Já as crônicas de Luís Carlos Patraquim retomam a posição instável e lúdica da crônica, entre jornalismo e literatura. O tempo dos leopardos situa criticamente uma época da história e do engajamento ideológico do cinema em Moçambique e narra o trabalho conjunto com Licínio de Azevedo, enquanto guionistas. A crônica “A Revolução dos Outros” evoca o encontro com a figura do realizador francês Jean-Luc Godard no Hotel Tivoli num sábado de 1978, perfazendo uma narrativa de memória pessoal e simultaneamente histórica, com a evocação das peregrinações utópicas e revolucionárias de várias figuras do cinema internacional, que por essa época passaram em Moçambique. É o caso de Florestano Vancini que esteve no Instituto Nacional de Cinema para falar da cinematografia italiana, ou de Med Hondo, da Mauritânia, que realizou um filme sobre o Sahara Ocidental – Teremos a morte para dormir – com produção moçambicana e estreia mundial em Maputo, ou ainda de Ruy Guerra com o projeto para o cinema móvel e com a realização do filme Mueda, memória e massacre. As crônicas de Patraquim, num estilo lírico-coloquial, reconfiguram historicamente a importância destes vários encontros com personalidades internacionais no quadro do cinema moçambicano, dimensão que veio também a ser documentada no filme de Margarida Cardoso, Kuxa Kanema: o nascimento do cinema (2003).

As cinco crônicas de Isabel Noronha e de Licínio de Azevedo percorrem também uma dimensão autobiográfica, mas enquanto ligação umbilical ao início dos seus percursos pessoais na entrada do mundo do cinema em Moçambique, aliando um registro histórico ao estórico, criando uma ponte de excelência entre a literatura e a história.

A primeira crônica de Isabel Noronha, “Quadro perdido, quadro partido, quadro reenquadrado – Uma das infinitas estórias do Cinema Moçambicano”, bem como “A Chegada”, de Licínio de Azevedo fazem essa travessia das estórias pessoais, quase em jeito de autoficção, para uma outra história, um outro quadro maior, agora reconfigurado, reenquadrado. A escrita dos dois realizadores confirma uma das características da crônica enquanto gênero compósito, capaz de gerir múltiplas componentes do relato: dimensão dramática, lírica, cômica. Como o próprio Licínio explica: “Mais do que uma reportagem objetiva, nós, também, procurávamos contar uma história, com personagens e ação. Falo disto porque é algo que depois foi importante para mim quando transitei para o cinema, e do documentário para a ficção, criando uma ponte entre ambos os gêneros.” E o realizador vai contando como a experiência de jornalista se reformulou no guionismo e foi, aos poucos, caminhando para a realização, passando do Instituto de Cinema para o Instituto de Comunicação Social, numa época com poucos recursos humanos e técnicos existentes em Moçambique, em que a opção de gênero cinematográfico a ser desenvolvido foi necessariamente o documentário.

No caso de Licínio de Azevedo a sua escrita é quase um exercício brechtiano, em que a reduplicação do sujeito enquanto espectador crítico e rememorativo de si próprio procura expor de forma simples, e por vezes bem-humorada, alguns aspectos da estrutura técnica do seu próprio processo compositivo. As suas crônicas mostram também a sua vertente de escritor, o gosto pelo enredo, pelas pequenas estórias ocorridas na realização dos seus documentários e filmes, em anotação quase diarística. Licínio respeita a relação com o mundo das crenças e espiritualidades, e nele mergulha para escrever e filmar, criando uma tensão criativa entre o mundo real e o mundo imaginário. Como ele afirma:

Para mim um documentário pode nascer de uma pequena notícia publicada na imprensa. Ler jornais diariamente é um hábito que adquiri lá atrás e não abandonei: um “fait divers”, a mulher agredida pelo marido, uma disputa entre vizinhos… Qualquer notícia, por mais banal que seja, pode transformar-se num bom documentário, se tratarmos o assunto da maneira correta, com respeito pelos seus protagonistas, pelas tragédias vividas pelos outros. Por vezes, um fragmento de um documentário inspira e dá lugar, anos mais tarde, a uma longa-metragem de ficção.

As crônicas de Licínio de Azevedo complementam de forma iluminante o estudo de filmes como Desobediência, A árvore dos antepassados, Virgem Margarida, Comboio de sal e açúcar, ou dos documentários Tchuma Tchato, Mariana e a Lua. Trazem as estórias e trilhos do processo, desvendam as peripécias dos vários momentos que acompanham a realização, à maneira de intermediações entre ator e plateia, como o coro do teatro grego, mostrando o processo que levou ao produto final dos seus filmes e docuficções.

Isabel Noronha perfaz também ao longo das cinco crônicas, aqui publicadas, uma cronologia de vida, desde o momento em que entra para o Instituto de Cinema, à sua experiência de trabalho e aprendizagem (“Caminhos do Ser”, “Sagrada Arrufada”), e saliento aqui, no quadro da guerra civil, muito especialmente a crônica “Satanhoco” que evoca, em termos de uma escrita dramática, a vivência de risco de todos aqueles que participavam nas filmagens de Kuxa Kanema. Nota-se na escrita de Isabel Noronha uma inflexão lírico-pessoal, uma subjetividade crítica muito intensa e simultaneamente tensa. A escritora, que Isabel Noronha também é, além de realizadora, revela-se muito especialmente com sua última crônica “O Pintor”, em que a crônica assume o esplendor da poesia, ao mesmo tempo que acompanha de forma muito sutil a origem e a realização do seu filme Ngwenya, o crocodilo (2007):

Toda a manhã, os olhares, guardados atrás das paredes de caniço, espreitariam ansiosos o cessar da chuva que, inclemente, devolvia à terra cada gesto desse estranho homem que dedicara a sua vida a colecionar pedaços vivos de luz para costurar com eles a camisa de retalhos com que cobria o seu peito, onde precocemente se tinham alojado todas as sombras da floresta.

Recuando no tempo, as crônicas de Ruy Guerra organizam-se em duas partes, as três primeiras publicadas em 1949, em Lourenço Marques, mostram o despontar do gosto do realizador pelo cinema e pela escrita, fazendo uma espécie de visitação do passado do artista enquanto jovem aprendiz. A primeira crônica “Foi assim que morreu o Bobby, o cãozinho de pelos de arame” é uma narrativa fabular, que faz lembrar, ainda que desfocadamente, Nós matamos o Cão Tinhoso!, de Luís Bernardo Honwana, e de imediato nos apela para o sentido de dependência e de liberdade e para as diferenças sociais e de sofrimento dos seres vagabundos e abandonados. Um cão da rua, sem raça, nem dono, sem nome, sobre quem Ruy escreve e se demora a caracterizar, mostrando talvez, de forma indireta, as conflitualidades latentes da sociedade colonial. Uma outra crônica “Utilidades e perigos do Cinema na formação do caráter da juventude” reflete sobre a importância do cinema e da literatura e os prejuízos do cinema comercial na formação intelectual dos jovens. Por outro lado, as duas últimas crônicas de 1997, escritas no Brasil, quase meio século depois, tratam da experiência cinéfila do realizador:

(…) ao longo da vida fui devorando vorazmente filme após filme, me alimentando de imagens, em preto e branco, coloridas, mudas, sonoras. E o meu conhecimento do mundo deve muito a essas vidas que passei nas salas escuras, os olhos fixos na tela, onde pessoas e coisas desfilavam diante de mim emoções que me foram moldando naquilo que sou.

Em “A imagem e o horror”, Ruy Guerra questiona o poder da imagem numa época em que a tecnologia nos leva para a virtualização e “em que o espetáculo toma frequentemente o lugar da realidade e se confunde com ela”. Por último, relata a sua experiência de conhecimento de Max Ophuls, quando ainda era estudante de cinema em Paris, deixando-nos mais um traço da memória do seu percurso de vida, em que a diversidade de contatos e internacionalização certamente vieram a contribuir para o transformar, no futuro, no marco do cinema, que ele é.

No último momento deste livro, fazemos a transição das crônicas dos realizadores para uma pequena seção de estudo crítico, em que se apresentam dois ensaios sobre cinema moçambicano, em que o leitor poderá aprofundar uma dimensão teórico-crítica sobre o cinema deste país. O primeiro ensaio, mais monográfico, intitula-se “Da fotografia ao teatro, da retórica à poética: reflexões sobre Mueda, memória e massacre, de Ruy Guerra”, de Júlio Cesar Machado de Paula, e mostra o caráter simultaneamente documental e ficcional do filme, ao mesmo tempo que discute a interpenetração entre as dimensões histórica e estética, considerando que o filme seja visto e debatido como parte da memória viva de Moçambique.

O segundo ensaio da autoria de Ute Fendler, “O Cinema Moçambicano – Um Cinema Fantástico?”, é mais abrangente e analisa a importante e comum dimensão do fantástico na filmografia moçambicana, considerando que o “fantástico” faz parte integral da própria visão de mundo africana. Neste sentido, a especialista afirma que, quando os cineastas utilizam elementos “sobrenaturais” ou “maravilhosos”, estes fazem parte do processo narrativo, criando um mundo imaginado, simultaneamente fictício e verdadeiro, levando os espectadores “a sonhar a realidade, em versões e variações intermináveis”.

18 de abril de 2019.

Os organizadores

  • Carmen Tindó Secco – Professora Titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ensaísta e pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro).
  • Ana Mafalda Leite – Docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com Mestrado em Literaturas Brasileira e Africanas de Língua Portuguesa e Doutora em Literaturas Africanas. Professora Associada com Agregação na Universidade de Lisboa, pesquisadora do ISEG do Cesa, com bolsa da FCT.
  • Luís Carlos Patraquim – Jornalista, roteirista, pesquisador sobre cinema moçambicano. Autor de vasta obra publicada em prosa, poesia e teatro.

[1] Todas as informações contidas nas entrevistas, ensaios e crônicas são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
[2] MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: O diálogo possível. São Paulo: Ática, 2002, p. 8.
[3] ARRIGUCCI, David. Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.51. Rio de Janeiro, 18 de junho de 2018.

Citar como:

O ARTIGO:
SECCO, C. T.; LEITE, A. M.; PATRAQUIM, L. C. “Apresentação”. CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios. São Paulo: Kapulana, 2019. [Ciências e Artes]. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/cinegrafias-mocambicanas-memorias-cronicas-ensaios-apresentacao-por-carmen-t-secco-ana-mafalda-leite-e-luis-carlos-patraquim/>

O LIVRO:
CineGrafias Moçambicanas: Memórias & Crônicas & Ensaios. São Paulo: Kapulana, 2019. [Ciências e Artes]

Entrevista com Pepetela, por José dos Remédios

PEPETELA, um dos mais importantes escritores de Angola, concedeu essa entrevista ao jornalista José dos Remédios, do jornal O País, de Moçambique.

“O escritor deve ser capaz de criar empatia com o pior da terra”  (Pepetela)

Aprendeu a gostar de histórias era ainda verde, como a cor da alface. A mãe, uma professora e um amigo de infância, sem que se apercebessem disso, ajudaram-no a descobrir um grande escritor que morava dentro de si. E a descoberta teve como consequência transformar o pequeno menino contador de estórias num autor de utopias, dedicado no futuro sem deixar de trazer ao presente as cicatrizes do passado. Escreveu sobre a sociedade angolana como ninguém e, por via disso, projectou-se para o espaço da língua portuguesa e para o mundo inteiro. É um escritor sem fronteiras. A sua obra transborda o que mais interessa à literatura: a emoção sempre em sintonia com uma técnica de escrita inigualável. Chama-se Pepetela, e nesta entrevista fala-nos das especificidades da sua escrita, das suas convicções – como a de que nunca seria um neo-liberal –, de como a literatura pode ser usada para aproximar os povos africanos e dos problemas que abalam a Humanidade.  

1- Gostava de começar com uma pergunta que, de algum modo, sintetiza a sua obra. Cada livro seu reflecte, de forma satírica ou metafórica, determinados momentos da sociedade angolana e, consequentemente, dos países que mantêm uma acentuada ligação histórica com Angola – inclusive Moçambique. O que lhe leva a fazer da sua ficção um veículo que permite os seus leitores voltarem-se para o seu contexto social com um olhar mais crítico e consciente?

R- Se consigo isso, fico satisfeito. A intenção é mesmo a de chamar a atenção para determinadas problemáticas da Humanidade, embora geralmente os temas sejam inseridos na realidade que conheço melhor, a angolana.

2- No seu repertório, dois romances apresentam uma intertextualidade firme com a Literatura Moçambicana. Refiro-me a O cão e os caluandas, que dialoga com Nós matamos o Cão-Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, e Predadores, que dialoga com Apocalipse dos predadores, de Adelino Timóteo. Pensa na possibilidade de ao escrever sobre Angola tornar-se num autor reivindicado por outras literaturas africanas do ponto de vista identitário?

R- As nossas literaturas têm muitos pontos comuns, porque as sociedades e seus dilemas não diferem tanto assim. Mas coincidências de títulos não querem dizer muito, ou mesmo nada. O que interessa é o conteúdo.

3- Na sua opinião, como é que os povos africanos, com passado e presente muito comum, podem fazer da literatura a ponte que torne os territórios virtualmente mais próximos, de modo que não precisemos sair do continente para encontrar melhores conhecimentos sobre nós próprios?

R- O primeiro passo seria o de fazer conhecer as respectivas literaturas, o que na verdade não acontece. Os livros de países africanos circulam pouco fora do seu espaço natural, nacional. Tem havido tentativas aqui ou ali, por iniciativas de editoras. Mas a primeira barreira, falando de África no seu conjunto, é a da necessidade de traduções. Para países usando a mesma língua, a barreira principal é a pobreza que impede as pessoas de acederem aos livros, seus ou de outros. Organizações como a CPLP ou SADC deveriam ser um meio privilegiado para isso.

4- A literatura angolana já esteve próxima à moçambicana e aos PALOP. Sente que os laços do passado continuam presente?

R- Acho que sim. Como disse, ambas tratam de realidades semelhantes, quase com caminhos paralelos.

5- A certa altura d’O cão e os caluandas, uma voz diz: “o escritor deve ser cruel e desumano, é essa a sua humanidade”. Como autor empírico, concorda com essa afirmação?

R- Já passou muito tempo sobre a escrita desse livro, mas imagino que quisesse dizer que para entrar na cabeça de personagens de toda a natureza, desde os santos até aos mais loucos assassinos, o escritor deve ter essa capacidade de criar empatia com o pior que existe na face da Terra para poder descrever por dentro mesmo aquilo que lhe repugna. E só o ser humano pode fazer isso.

6- A imprevisibilidade caracteriza a sua escrita. Lueji, o nascimento de um império é um exemplo disso. Neste livro, desmistifica o estereótipo de que em África só o homem pode herdar o poder e erguer um império. Reactivando o enredo desse livro, Lueji, uma personagem com o dom da liderança e que encara o inimigo nos olhos, é a representação da mulher que os africanos precisam para mudar a sua condição de submissão em relação ao Ocidente, por exemplo, já que os homens parecem incapazes?

R- Boa pergunta. A um momento dado eu deixava as minhas amigas e camaradas dizerem que se fossem elas a liderar o mundo, tudo seria diferente. Bem, hoje já aparecem mulheres nos postos mais importantes do poder. E parece que as coisas não mudaram muito apenas por causa disso. De qualquer forma, devemos em livros ou de outra forma qualquer lutar para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades dos homens. Escrever esse livro inscrevia-se nessa linha. Mas a estória é baseada em mitos reais. E se houve mitos, é porque algo aconteceu de facto.

7- Em Lueji, Yaka, O desejo de Kianda ou Mayombe liberta-se aquele desabafo de Karl Liebknecht, político alemão, a de que o inimigo mais perigoso está perto de nós, se quisermos, nos nossos países. Usa a literatura para combater esse inimigo?

R- Não concordo muito com a tentativa de fazer da literatura uma arma de combate. Houve épocas em que se tentou isso, fracassando geralmente em termos de qualidade. Mas Liebknecht tinha razão, o pior inimigo vive connosco.

8- “A virtude dos governantes é terem os defeitos dos governados”, diz José António Barreiros na introdução de O Príncipe, de Maquiavel. Qual seria a virtude dos governados para acabarem com os governantes que traem a causa nacional na mesma proporção que Malongo, Caposso ou CCC, algumas das suas personagens?

R- Os governados deveriam ter a coragem de dizer não. E só de vez em quando temos essa coragem e na maior parte das vezes de forma isolada. Um NÃO de muitos ao mesmo tempo que se ouvisse na sociedade poderia fazer tremer os outros e não nós.

9- Quem lê os seus romances, apercebe-se que subverte, diria, as teorias literárias, na medida em que introduz no enredo uma entidade que não é narrador, personagem e nem autor textual, pelo menos não logo à partida. Essa entidade, às vezes, tem a autoridade de demitir o narrador ou de revelar o final da história que contraria a do narrador. É um cenário propositado?

R- Se todos escrevêssemos da mesma maneira, segundo manuais de academias, já ninguém nos lia porque todos os leitores morreriam de tédio. É só por uma questão de sobrevivência que tento de vez em quando surpreender o leitor.

10- Com os romances Jaime Bunda (O agente secreto e A morte do americano) mergulha os seus leitores no universo da literatura policial, que se tece com humor e algumas decepções amorosas pelo meio. Estes dois livros revelam-nos um escritor sensível à configuração dos espaços urbanos de Angola e dos cidadãos que neles habitam. Isso faz parte das suas preocupações literárias?

R- Tendo sido obrigado a viver em Luanda tantos anos, é normal que o espaço urbano se torne uma estrutura daquilo que escrevo. Escrevi vários livros passados em outros espaços, alguns rurais, outros quase indefiníveis. Mas a marca urbana acaba por se impor.

11- Já agora, voltaremos a ter o agente Jaime Bunda num outro livro? Coloco-lhe esta pergunta porque no segundo livro faltou-lhe o prazer literário que sentiu ao escrever o primeiro.

R. Não sei se haverá outro. Enquanto não me apetecer muito mesmo tratar esse personagem, ele fica na geleira.

12- O que contribui para que alguns livros escreva por prazer e outros por obrigação?

R. Eu procuro sempre escrever por prazer e recuso tratar temas propostos por outrem. Acho que nem seria capaz. Talvez seja no fundo ainda uma forma de rebeldia, de defender o meu último pedaço de liberdade.

13- Qual é a obra que lhe deu mais prazer de escrever?

R. É impossível escolher. Umas são mais difíceis, mas vencer a dificuldade também dá prazer.

14- Pedi que um leitor seu, o meu amigo Jaime Malendza, lhe fizesse uma questão. E ele pergunta: “Em A geração da utopia, um personagem faz apologia ao neo-liberalismo. Diante da falência dos ideais socialistas e neo-liberais, quais são as melhores ideias para o mundo actual?

R. Se eu tivesse resposta a isso, candidatava-me para um cargo qualquer. Mas neo-liberal nunca seria, nem cortado às postas. 

15- E à volta do mundo gira um dos melhores romances seus, O quase fim do mundo. Que metáfora é esta que põe em causa a ética, a moral e questiona as relações do mundo contemporâneo?

R. A metáfora está cada vez mais perto de se concretizar. O Homem é capaz de transformar a Terra em três Luas desertas, é só darem tempo para ele encontrar os meios. Em nome de um deus qualquer ou de uma filosofia. Pretextos não faltam.

16- Neste livro, a Humanidade quase que desaparece por culpa dela mesma. Em geral, sobram algumas comunidades isoladas de África. Quis nos lembrar que, apesar de toda diferenciação social, é este o berço da Humanidade, o continente que vai continuar a sobreviver a tudo…?

R. Que pelo menos foi onde tudo começou e a haver algum recomeço só poderia ser numa verde montanha com capim e alguns gorilas.

17- Quais julga que são as mazelas que conduzem o Homem quase que a uma extinção total, neste tempo, como acontece em O quase fim do mundo?

R. Existem muitas, desde a ganância à pobreza mental e à arrogância do ignorante. Sobretudo, a incapacidade de aprender com a História.

18- É um autor do povo, que, de tanto ouvir estórias do seu amigo Thor, na infância, transformou a escrita numa roda à volta da fogueira africana. Que sonhos a sua obra transporta?

R. Gostaria que transportasse os sonhos de muitos Thor, que transportasse o que prometíamos fazer quando enfrentávamos as tropas coloniais ou dos invasores seguintes, quando éramos puros e gostávamos realmente uns dos outros. Gostaria que fosse isso. Mas tenho a noção de não ter sido capaz, porque a vida nos trai sempre.

19- Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

R. Andre Brink, escritor sul-africano morto ano passado e que merecia um Nobel. E Ngugi Wa Thiongo, queniano refugiado nos Estados Unidos, que ainda pode recebê-lo.

Maputo, 11 de Fevereiro de 2016, no jornal O País.

Citar como: PEPETELA. Entrevista a José dos Remédios. 25 fev. 2019. [Publicada originalmente em O País. 11 fev. 2016. Cedida gentilmente à Editora Kapulana por José dos Remédios.]

Saiba mais sobre Pepetelahttp://www.kapulana.com.br/pepetela/

Saiba mais sobre José dos Remédioshttp://www.kapulana.com.br/jose-dos-remedios/

Livros de Pepetela no catálogo da Kapulana

O cão e os caluandas. São Paulo: Kapulana, 2019.
http://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. (em edição)
http://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/

Volta às aulas: Kapulana faz indicações de leituras para estudantes da pré-escola ao ensino universitário

A Editora Kapulana indica livros de seu catálogo para estudantes da pré-escola ao ensino universitário para o ano de 2019!

INDICAÇÕES DE LEITURAS DA KAPULANA

PRÉ-ESCOLA

  • Sonho da lua – Sílvia Bragança – poesia – infantil – Moçambique.
  • Viagem pelo mundo num grão de pólen e outros poemas – Pedro P. Lopes– poesia – inf. – Moçambique.

FUNDAMENTAL I

  • Clarinha e Berenice e o Dicionário do Inesperado – Carolina Mondin – Brasil (inf./bilíngue).
  • Contos de Moçambique (volumes de 1 a 10) (contos infantis ilustrados)
  • Kalimba – Maria Celestina Fernandes – Angola (infantil).
  • Kambas para sempre – Maria Celestina Fernandes – Angola (infantil).
  • O jovem caçador e a velha dentuça – Lucílio Manjate – Moçambique (infantil).
  • Serei sereia? – Kely de Castro – Brasil (infantil/ inclusão social) .
  • Sonho da lua – Sílvia Bragança – Moçambique (poesia – infantil).
  • Titus e as galinhas – Aurélio de Macedo – Brasil (infantil/bilíngue).
  • Viagem pelo mundo num grão de pólen e outros poemas – Pedro P. Lopes – Moçambique (poesia – infantil).

FUNDAMENTAL II

  • A triste história de Barcolino, o homem que não sabia morrer – Lucílio Manjate – Moçambique (novela).
  • Nós matamos o Cão Tinhoso! – Luís Bernardo Honwana – Moçambique (novela).

MÉDIO

  • Esperança para voar – Rutendo Tavengerwei – Zimbábue (romance).
  • Nós matamos o Cão Tinhoso! – Luís Bernardo Honwana – Moçambique (novela).
  • A triste história de Barcolino, o homem que não sabia morrer – Lucílio Manjate – Moçambique (novela).
  • O caso de Pedro e Inês: Inês(quecível) até o fim do mundo – Francisco M. Silveira – Brasil (poesia/cordel).
  • O domador de burros e outros contos – Aldino Muianga – Moçambique (contos).
  • A noiva de Kebera, contos – Aldino Muianga – Moçambique (contos).
  • Sangue negro – Noémia de Sousa – Moçambique (poesia).

UNIVERSITÁRIO

  • Perto do Fragmento, a totalidade:  olhares sobre a literatura e o mundo – Francisco Noa – Moçambique (ensaios).
  • Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador – Ungulani Ba Ka Khosa – Moçambique (romance).
  • O cão e os caluandas – Pepetela – Angola (romance).
  • Império, mito e miopia:  Moçambique como invenção literária – Francisco Noa – Moçambique (ensaios).
  • Uns e outros na literatura moçambicana – Francisco Noa – Moçambique (ensaios).
  • Pensando o cinema moçambicano: ensaios  – Carmen Lucia Tindó Secco – Brasil (ensaios).
  • O cão e os caluandas – Pepetela – Angola (novela). em pré-venda.

31 de janeiro de 2019.

Saiba mais sobre as obras: http://www.kapulana.com.br/catalogo/

Saiba mais sobre os escritores: http://www.kapulana.com.br/nossos-autores/

 

 

 

Kapulana publica obra inédita no Brasil do premiado escritor angolano Pepetela

Em O cão e os caluandas, Pepetela faz uma análise profunda e crítica da situação do período após a Independência de Angola

Inédito no Brasil, o livro O cão e os caluandas, do consagrado escritor angolano Pepetela, narra os caminhos de um cão que, sucessivamente, é adotado por pessoas diferentes. A partir desse olhar do narrador, que revela as histórias das famílias que o adotam, o leitor passa a ter contato com o cenário histórico e político de Angola. O resultado é uma análise profunda e crítica da situação do período após a Independência de Angola. A obra já está em pré-venda e chega às livrarias na metade de fevereiro.

O livro, da série Vozes da África, criada pela Kapulana, aborda as histórias em Luanda, capital de Angola, na década de 1980, e trazem episódios e anedotas sobre as andanças do cão que leva título da obra, que invade desde passeatas até reuniões de sindicato, sempre lembrando ao leitor e os caluandas – palavra para designar os moradores de Luanda – deste pedaço do colonizador deixado para trás. Os relatos, coletados por um autor anônimo, contam as diversas versões da vida do cão, seus diferentes donos, e os muitos lugares por onde passou e onde foi visto. Há um poeta, uma prostituta, um funcionário público, um mecânico, diversas pessoas que conheceram o cão de alguma maneira.

Pepetela

Nascido em 1941, em Benguela, Angola, Pepetela é licenciado em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Autor dos clássicos As aventuras de Ngunga (1973), Mayombe (1980), A geração da utopia (1992) e O quase fim do mundo (2008). Pepetela recebeu diversas homenagens literárias, como o Prêmio Camões, em 1997, um dos maiores da literatura, pelo conjunto da obra.

Série Vozes da África

A série “Vozes da África” nasceu de um projeto da Editora Kapulana para divulgar a literatura africana no Brasil. Com esse propósito, a fundadora da editora brasileira, que é doutora em Literatura e teve experiência como docente em Moçambique, passou a coordenar, a partir de 2015, a publicação de livros de origem africana. A série é composta por obras de ficção dedicadas a crianças e adultos.

29 de janeiro de 2019.

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Saiba mais sobre a obra: http://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

Saiba mais sobre o autor: http://www.kapulana.com.br/pepetela/

Leia – A crítica de Pepetela, por Tania Macêdo: http://www.kapulana.com.br/a-critica-de-pepetela-tania-macedo/

Conheça os livros da Kapulana para 2019

O catálogo inclui autores angolanos, nigerianos, moçambicanos, zimbabuenses e brasileiros, como Pepetela, Akwaeke Emezi, Adelino Timóteo, Tsitsi Dangarembga, Walter Sousa Jr. e Marcelo Jucá

A Kapulana divulgou o seu calendário de publicações para 2019. O catálogo inclui autores angolanos, moçambicanos, zimbabuenses e brasileiros. Entre os títulos estão as obras O cão e os caluandas e O quase fim do mundo, ambas do consagrado autor angolano Pepetela, e o romance Cemitério dos pássaros, do moçambicano Adelino Timóteo. A editora também lançará duas obras infantis de autores brasileiros, com temáticas que abordam reflexões socais acerca de temas atuais: Nina tem medo de palhaço, de Walter de Sousa Júnior, e Ilha, de Marcelo Jucá – este, vencedor do concurso “Seja Nosso Autor”, promovido pela Kapulana.

Dando continuidade às publicações de autores africanos de língua inglesa – projeto que teve início em 2018 para o catálogo da editora -, a Kapulana prepara o livro Nervous conditions, da escritora e cineasta Tsitsi Dangarembga, do Zimbábue, premiado e classificado entre os 12 primeiros livros no ranking dos “100 Melhores Livros Africanos do Século XX”, e contemplado, em 2018, na lista da BBC de “100 Histórias que Formaram o Mundo”. A obra retrata a história da uma família Shona, durante o período pós-colonial, no Zimbábue (Rodésia, antes da independência). O aclamado Freshwater, de Akwaeke Emezi, da Nigéria, utiliza uma linguagem crua e, ao mesmo tempo, sensível, a obra celebra a possibilidade do ser múltiplo, os muitos “eus” que podem existir dentro de qualquer um. Já em Minha irmã, a serial killer, Oyinkan Braithwaite, também da Nigéria, conta uma história ao mesmo tempo bem-humorada e assustadora sobre duas irmãs com temperamentos e atitudes bem diferentes uma da outra.

Leia as sinopses de cada obra: http://www.kapulana.com.br/proximos-lancamentos/?mc_cid=44f2daace9&mc_eid=d9a246dbcb

Conheça os autores: http://www.kapulana.com.br/nossos-autores/

Saiba mais sobre a Editora Kapulana: http://www.kapulana.com.br/a-editora/

Editora Kapulana traz mais uma vez ao Brasil o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa para lançamento de novo livro sobre o imperador Gungunhana

O premiado escritor moçambicano esteve em novembro no Brasil para lançar seu novo livro e participar de diversos eventos culturais e acadêmicos no país

O premiado escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa esteve em novembro no Brasil para realizar o lançamento de seu novo livro Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador, publicada pela Editora Kapulana, além de participar de eventos pelo país onde conversou sobre a sua trajetória literária. O autor passou pelas cidades de São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Salvador.

O livro é composto por duas obras em um só volume. As duas obras têm o imperador Gungunhana como elo. Na primeira história, publicada em 1987, Ualalapi, classificado em rancking internacional entre “os 100 melhores romances africanos do século XX”, conta a história de Gungunhana, de sua ascensão à sua queda. Na segunda história, As mulheres do Imperador (2018), Ungulani traz de volta a mesma personagem Gungunhana, mas as protagonistas são suas mulheres, que são separadas do Imperador no exílio e retornam a Moçambique após quinze anos de isolamento.

Em São Paulo

Na Universidade de São Paulo (USP), em 5 de novembro, seu primeiro encontro no país, o escritor compartilhou com o público, durante a programação do “XVIII Encontro de Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa”, a sua carreira na escrita literária e a nova edição de Ualalapi, obra bastante estudada no país. O encontro contou com a participação da diretora da Kapulana, Rosana Weg, que explicou o processo editorial do novo volume, e da pesquisadora Jaqueline Kaczorowski, que conversou com o autor sobre Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. Segundo Ungulani:

“A literatura tem dessas pretensões de não moralizar os personagens que escolhemos, torna-se importante socializar essas figuras histórias. A minha vontade foi tentar deixar o Gungunhana mais humano. Já em “As mulheres do Imperador” eu quis encontrar o ponto certo e entrar naquele universo. O escritor escolhe um enredo e entrega o resultado de corpo e alma”.

Na Blooks Livraria, do Shopping Frei Caneca, em São Paulo, na noite do dia 12 de novembro, o autor bateu um papo com o jornalista e crítico literário Rodrigo Casarin. Durante a conversa, Ungulani destacou a homenagem que prestou às esposas de Gungunhana, e a todas as mulheres, em sua mais recente obra:

“Foi uma ideia que eu vinha tendo ultimamente e, de repente, enxerguei um tema que dá para eu tratar sobre isto. Procurei por documentos sobre elas e não encontrei nada. Anos depois recebi alguns documentos se tratando do exílio delas em São Tomé, capital de São Tomé e Príncipe, e, à medida que fui analisando, percebi o papel secundário que a História renega às mulheres”.

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Campinas-SP, no dia 14 de novembro, Ungulani esteve com estudantes de diversos cursos, inclusive estudiosos de suas obras. O encontro foi organizado pelo GELCA – Grupo de Estudos de Literaturas e Culturas Africanas e mediado pela Profa. Dra. Elena Brugioni. Contou com as presenças da pesquisadora Natasha Magno e da diretora da Kapulana, Rosana Weg.

Ainda em São Paulo, em 23 de novembro, Ungulani Ba Ka Khosa participou de mesa de debate no “II Seminário A língua portuguesa na educação, na literatura e na comunicação”, promovido pela CPCLP, Comissão para a Promoção de Conteúdo em Língua Portuguesa, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), realizado no Sesc – Centro de Pesquisa e Formação. Participaram do bate-papo o escritor moçambicano e a premiada escritora brasileira Maria Valéria Rezende, sob a mediação da escritora e jornalista Josélia Aguiar. Os convidados debateram com o público presente sobre sua produção literária, sua experiência em educação, e também sobre as principais influências culturais e literárias em suas obras. Na ocasião, Ungulani realizou o lançamento, com sessão de autógrafos, da edição brasileira de Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador.

No Rio de Janeiro

Na cidade carioca, Ungulani Ba Ka Khosa, participou de dois eventos organizados para a sétima edição da Festa Literária das Periferias, FLUP, realizada no Cais do Valongo.

Em 7 de novembro, na Flup Parque, Ungulani conversou com alunos do ensino fundamental da região sobre o seu processo de desenvolvimento do livro infantil O rei mocho – que faz parte da série Contos de Moçambique, publicada pela Kapulana -, assim como sobre sua experiência como educador.

Em 9 de novembro, na Flup, realizou o lançamento nacional da obra Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador e compartilhou a sua experiência literária ao lado dos pesquisadores e escritores brasileiros Tom Farias e Djamila Ribeiro. Em uma noite de teatro cheio, Ungulani destacou a importância da literatura no país moçambicano:

“A literatura tem desempenhado o papel de recuperar a memória, porque a memória é uma amnésia em nosso país. As elites que nascem no nosso continente muitas vezes se afastam de seu chão cultural. Desta forma, as jovens gerações perdem as suas ancestralidades. No entanto, para encontrá-los e trazê-los de volta para a nossa cultura, eu faço por meio da literatura. E se não consigo desta maneira, acabo não sendo ninguém para este mundo”

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, participou de vários encontros sobre literatura e cinema de Moçambique, em seminário organizado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco: “Literaturas Africanas & Cinema & História: olhares múltiplos, perspectivas críticas, leituras cruzadas”:

Em 21 de novembro, debate e lançamento do livro de ensaios organizado da Profa. Carmen L. T. Secco, publicado pela Editora Kapulana: Pensando o cinema moçambicano – ensaios.

Em 22 de novembro, debate e lançamento do livro da Kapulana, Gungunhana: Ualalapi e as Mulheres do Imperador, seguido de sessão de autógrafos.

Recebido por estudantes, professores, pesquisadores de sua obra literária e da cultura moçambicana em geral, Ungulani conversou sobre o seu processo criativo em geral e sobre a obra Ualalapi (1987), e sobre sua mais recente obra As mulheres do imperador (2018), juntas agora na edição brasileira da Kapulana.

Em Salvador

Em sua 13ª edição, a já tradicional “Balada Literária” convidou o escritor Ungulani Ba Ka Khosa para a sua programação realizada em Salvador (BA).

Em 17 de novembro, na Casa do Benin, no Pelourinho, o escritor moçambicano participou da mesa “Sei dos caminhos – Moçambique e Brasil”, ao lado dos professores e escritores Nelson Maca, também curador da Balada na Bahia, Wesley Correia e Rodrigo Dultra. Ungulani falou sobre o seu processo criativo e da sua paixão pela Literatura. Depois da conversa, o escritor moçambicano lançou Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador.

O escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa ainda visitou livrarias brasileiras, no Rio e em São Paulo, onde seus livros estão à venda. Lá encontrou os livros publicados pela Kapulana no Brasil: O rei mocho, Orgia dos Loucos e o mais recente Gungunhana. Nessas visitas, os profissionais do livro tiveram a oportunidade rara de conhecer pessoalmente um grande escritor de ficção moçambicana.

São Paulo, 27 de novembro de 2018.

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FOTOS das atividades:

SÃO PAULO

05/11/2018 – Encontro com o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa na USP, em São Paulo, SP.

http://www.kapulana.com.br/05-11-2018-encontro-com-o-escritor-mocambicano-ungulani-ba-ka-khosa-na-usp-em-sao-paulo-sp/

12/11/2018 – Resistência na Literatura: bate-papo com Ungulani Ba Ka Khosa, na Blooks Livraria, em São Paulo, SP.

http://www.kapulana.com.br/12-11-2018-resistencia-na-literatura-bate-papo-com-ungulani-ba-ka-khosa-na-blooks-livraria-em-sao-paulo-sp/

14/11/2018 – Encontro com o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, na Unicamp, Campinas, SP.

http://www.kapulana.com.br/14-11-2018-encontro-com-o-escritor-mocambicano-ungulani-ba-ka-khosa-na-unicamp-sp/

23/11/2018 – Lançamento de Gungunhana: Ualalapi e as Mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, no Sesc Centro de Pesquisa e Formação, em São Paulo, SP.

http://www.kapulana.com.br/lancamento-de-gungunhana-ualalapi-e-as-mulheres-do-imperador-de-ungulani-ba-ka-khosa-no-sesc-centro-de-pesquisa-e-formacao-em-sao-paulo-sp/nggallery/page/1

 

RIO DE JANEIRO

22/11/2018 – Lançamento de Gungunhana: Ualalapi e as Mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, na UFRJ, Rio de Janeiro, RJ.

http://www.kapulana.com.br/lancamento-e-sessao-de-autografos-do-livro-gungunhana-de-ungulani-ba-ka-khosa-na-ufrj-rj/

 

SALVADOR

17/11/2018 – Ungulani Ba Ka Khosa na Balada Literária de Salvador, BA.

http://www.kapulana.com.br/ungulani-ba-ka-khosa-na-balada-literaria-de-salvador-ba/

 

VÍDEOS com o escritor:

Flup Parque (07/11/2018) – Rio de Janeiro, RJ

https://www.facebook.com/FlupRJ/videos/345874612637916/

FLUP (09/11/2018) – Rio de Janeiro, RJ

https://www.facebook.com/FlupRJ/videos/vl.1966763803623029/2109192102465286/?type=1

https://www.facebook.com/FlupRJ/videos/vl.319463598867952/254753368535403/?type=1

 

ENTREVISTAS E LEITURAS de texto com o autor, para a Editora Kapulana, São Paulo, SP.

Entrevista: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-ungulani-ba-ka-khosa-autor-de-gungunhana-ualalapi-as-mulheres-do-imperador/

Entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=ZI-PMk9HrA4&t=8s

Leitura de trechos: https://www.youtube.com/watch?v=2X_t52b4xwA

 

ARTIGOS E MATÉRIAS sobre a obra:

Por Rita Chaves (Profa. da USP): http://www.kapulana.com.br/ualalapi-a-narrativa-e-os-ciclos-por-rita-chaves/

Por Carmen Lucia Tindó Secco (Profa. da UFRJ): http://www.kapulana.com.br/as-mulheres-do-imperador-entrelaces-de-historias-e-estorias-por-carmen-l-tindo-secco/

Por José dos Remédios (jornalista de Moçambique): http://www.kapulana.com.br/a-degradacao-da-personagem-em-gungunhana-por-jose-dos-remedios/

Jornal O GLOBO (RJ): Destaques culturais na Semana da Consciência Negra: https://oglobo.globo.com/cultura/selecionamos-destaques-culturais-na-semana-da-consciencia-negra-23244197

SOBRE OS LIVROS DO AUTOR publicados pela Kapulana:

Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador: http://www.kapulana.com.br/produto/gungunhana-ualalapi-as-mulheres-do-imperador/

O rei mocho: http://www.kapulana.com.br/produto/o-rei-mocho-1-contos-de-mocambique/

Orgia dos loucos: http://www.kapulana.com.br/produto/orgia-dos-loucos/

 

SOBRE O AUTOR: http://www.kapulana.com.br/ungulani-ba-ka-khosa/

Kapulana publica o livro “Um dia vou escrever sobre este lugar”, do escritor queniano Binyavanga Wainaina

Binyavanga entrelaça suas memórias de infância, adolescência e vida adulta à história contemporânea do continente africano

A Kapulana publica em novembro um dos livros mais aguardados do ano, a obra Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina. E para celebrar este incrível livro, a editora realizou uma parceria com a TAG – Experiências Literárias para as primeiras vendas dos exemplares.  A obra estará à venda na TAG Loja do período de 5 a 25 de novembro. No site da Kapulana e nas livrarias, o livro estará à venda a partir de 26 de novembro

Em Um dia vou escrever sobre este lugar, Binyavanga entrelaça suas memórias de infância, adolescência e vida adulta à história contemporânea do continente africano. Utilizando referências políticas, da cultura africana e da cultura popular mundial, o autor nos apresenta as constantes transformações acontecidas em países como Quênia, África do Sul, Uganda, Gana e Togo, a partir de seu próprio crescimento e amadurecimento como pessoa e, principalmente, escritor e constante observador do mundo ao seu redor.

Fascinado pelas diversas linguagens humanas, de palavras ao corpo, Binyavanga descreve, na obra, as diversas nuances e facetas de uma África gigante, complexa, mal compreendida, presenteando os leitores com histórias, acontecimentos e anedotas contadas com um olhar de dentro que não se pauta pelo externo, que não quer acomodar visões e conceitos restritos sobre África, mas, sim, explodi-los, para dar lugar a uma rica constelação de pessoas, impressões, línguas, costumes e situações, utilizando a própria vida, seus percalços, sua história para afogar ideias pré-concebidas e constantemente disseminadas sobre o continente africano.

A edição da Kapulana, traduzida por Carolina Kuhn Facchin, contém, ainda, o que o autor considera como um “capítulo perdido” de suas memórias, chamado “Mãe, eu sou homossexual”, publicado em 2014, três anos após o livro original. No texto, Binyavanga reinventa como teriam sido os últimos momentos de vida de sua mãe se ele tivesse viajado até o Quênia para estar com ela, e lhe contado que é um homem gay. Com muita sensibilidade, ele nos apresenta uma vida de autoconsciência mas, também, de restrição, devido ao medo, à vergonha e a profundas amarras culturais.

Em depoimento sobre o livro, o célebre escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o destacou:

“Wainaina é um cantor e pintor de palavras. Ele faz você cheirar, escutar, tocar, ver e, acima de tudo, sentir o drama e as vibrações da vida abaixo da superfície capturada de forma brilhante e concreta do Quênia e da África”.

Para a cantora e compositora Ellen Oléria, que assina o texto de orelha da versão brasileira da obra:

“em um dia vou escrever sobre este lugar pregamos e liberamos cada passo numa teia diversa de povos, costumes, idiomas de uma áfrica múltipla em visões e memórias que falam com a verdade da autonomia, da conexão ancestral, da força de laços e rompimentos”.

Um dia vou escrever sobre este lugar é uma admirável leitura sobre o retrato reflexivo de um momento recente da história da África, pela perspectiva criativa de Binyavanga, onde a linguagem é o mote fundamental para a composição destas memórias afetivas e atenciosas, dialogando com cultura pop e tradições africanas. Uma obra mais que necessária para acompanhar a profunda jornada das sensações marcantes da escrita de um dos autores mais geniais da literatura deste começo de século.

Conheça o catálogo da Kapulanahttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

 

Ualalapi: a narrativa e os ciclos – por Rita Chaves

Publicado pela primeira vez em 1987, Ualalapi permanece mobilizando corações e mentes à volta de debates que, entre outros aspectos, exprimem a dinâmica histórica de Moçambique, um país atravessado por muita instabilidade e uma grande capacidade de resistir. A longa noite colonial, a difícil luta pela independência, os sucessivos conflitos que vêm atravessando décadas e a intensa pobreza que quase inviabiliza a vida de seus habitantes têm como contraface uma notável pluralidade cultural e uma imensa vocação para se reinventar.  Ungulani Ba Ka Khosa, o autor dessa narrativa e muitos outros títulos, inscreve-se nesse contexto, procurando de diversas maneiras balançar qualquer cordão de isolamento erguido para separar as tintas e disciplinar as cores. Sua opção ao longo dos anos tem sido o caminho da insubmissão no exercício de uma escrita que se demarca de versões cristalizadas pelo discurso hegemônico.

Reeditado entre nós em muito boa hora pela Kapulana, Ualalapi é um bom exemplo desse desassossego que marca o itinerário do autor em sua circulação pelos gêneros literários e em seu compromisso com os modos de ler a História enfrentando  com energia os perigos de sua petrificação. Mesmo a afirmação que escolhe como epígrafe “A História é uma ficção controlada”, colhida à romancista portuguesa Agustina Bessa Luís, em sua narrativa convida à discussão. Em um momento pulsante da vida do recém-fundado país, Ungulani vai buscar uma figura histórica escolhida pelo novo poder para ser uma espécie de mito fundador da nacionalidade e investe no desvendamento das contradições dessa hipótese que o discurso político elegia. Nas páginas em que desfilam passagens decisivas da vida de Gungunhana, o sentido da resistência desse imperador que lutou bravamente contra a invasão colonial é emoldurado pelas cenas que nos trazem as invasões protagonizadas pelo próprio na expansão de seu império.

Uma espécie de convulsão percorre o tempo captado, levando-nos logo à desmitificação da ideia de harmonia que ainda frequenta o imaginário sobre o período pré-colonial e exporta uma equivocada ideia do continente. Contaminada pela violência dos fatos, a escrita se apoia em expressões fortes, reveladoras da dimensão dos conflitos que estavam no cotidiano daquele espaço. Se, por um lado, dilui-se o mito da paz harmônica entre os africanos antes da chegada dos invasores, por outro lado, as ações revelam o africano como sujeito ativo, desfazendo a noção de passividade que a literatura colonial desejou perpetuar. Aqui, não nos vemos diante de elementos do cenário  – como podemos encontrar até mesmo em textos paradigmáticos do cânone ocidental – mas de homens em confronto com adversários. E, ao perderem, pagam o alto preço da derrota. São de qualquer forma, homens inteiros, empenhados em suas lutas, agentes de sua própria história.

As notas da originalidade que tocam o enredo são amplificadas na estrutura da obra que se nutre de elementos variados, que vão da incorporação de passagens bíblicas ao aproveitamento de provérbios africanos, propondo um diálogo refratário à rigidez de limites entre os vários patrimônios culturais que constroem Moçambique no presente. A montagem dos fragmentos aponta para um desenho peculiar que barra, à partida, a rápida identificação de um gênero literário. Assim, em sua interdependência, as partes que compõem o todo, combinam-se em sua autonomia e nos fazem indagar se o que nos apresenta é  um romance ou um conjunto de contos, questão que não precisa ser respondida e aguça o interesse da obra, pois nos coloca de frente para a reinvenção de modelos estéticos, compromisso com que os escritores africanos têm lidado e do qual desdobram-se diferentes soluções. A presença de matrizes da oralidade é apenas uma das chaves para esse processo que resulta na mesclagem entre bens de raiz e valores trazidos com a colonização.

A desmitificação de um dos heróis sagrados pela História que a voz dominante da independência quer disseminar exprime-se na força de uma escrita hiperbólica, que, em certa medida, reforça a função conativa e espelha um desejo de convencimento. Desse modo, insinua-se a disputa de versões presentes na construção da narrativa histórica que dá corpo ao discurso da nacionalidade. A pluralidade etno-linguística, por um lado, a ocupação recente do território colonial e, consequentemente, a tardia definição do mapa moçambicano explicam a instabilidade do terreno, no plano físico e no domínio cultural, tudo  a projetar-se em uma linguagem carregada de energias. Na voz do narrador e nas falas das personagens se fazem notar sinais de uma inegável aspereza refletida na escrita por uma adjetivação empenhada em banir qualquer hipótese de estabilidade.

Ao trazer as pontas de uma história constituída sobre abalos, o escritor busca demonstrar os limites de medidas que não considerem a profundidade das fendas que os tempos impuseram ao espaço que hoje é Moçambique.  Em 1985, após uma longa negociação com instituições portuguesas, o governo do país independente recupera o que seriam as cinzas de Gungunhana e, ao transportá-las solenemente de volta à terra da qual ele foi levado como símbolo da conquista colonial, pretende consagrá-lo entre os heróis da libertação. A reorganização da memória coletiva centrada na revisão de verdades plantadas pela dominação estrangeira integrava o programa da FRELIMO, a Frente de Libertação de Moçambique, em evidente coerência com o projeto de nacionalidade que a independência animava. Ao escrever Ualalapi, seu autor, sem dúvida, mostra-se atento a uma das funções da literatura: a de colocar em causa a horizontalidade das narrativas políticas e, assim, manter aceso o debate que atesta a vivacidade das questões éticas e a necessidade de projetos estéticos capazes de acusar a transitoriedade de pensamentos que se querem únicos e definitivos. Penetrando na linguagem, a noção de descontrole parece dominar a atmosfera para sugerir a iminência de novos ciclos, afinal, como evocaria outro escritor africano, o angolano Pepetela em A geração da utopia: “só os ciclos são eternos”. Se é verdade que a nação precisa de monumentos, e a história de todos os países não nos brinda com exemplos contrastantes, Ungulani Ba Ka Khosa nos recorda que a literatura só faz sentido como movimento, compromisso que ele tem abraçado ao longo de uma já extensa travessia.

Maputo, 23 de julho de 2018.

Rita Chaves é Professora Doutora do Depto. de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (FFLCH-USP) e pesquisadora do CELP-FFLCH-USP (Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa – FFLCH-USP). É colaboradora da Editora Kapulana. 

Citar como:

O ARTIGO:
CHAVES, Rita. “Ualalapi: a narrativa e os ciclos”. In: KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana. 2018. [Série Vozes da África]. Disponível em:<http://www.kapulana.com.br/ualalapi-a-narrativa-e-os-ciclos-por-rita-chaves/>

O LIVRO:
KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana. 2018. [Série Vozes da África] 

As Mulheres do Imperador: Entrelaces de Histórias e Estórias, por Carmen L. Tindó Secco

Ao reunir em um só volume, sob o título Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do imperador, dois romances em torno de Ngungunhane, o imperador de Gaza, o escritor Ungulani Ba Ka Khosa propõe uma desconstrução crítica da controvertida figura do imperador, tão contestada pelo colonialismo, quanto louvada pelos que lutaram pela independência de Moçambique. Trinta anos separam a publicação dessas duas narrativas – Ualalapi (1987) e As Mulheres do Imperador (2017) –, o que possibilita um distanciamento capaz de propiciar uma leitura questionadora de dois significativos momentos históricos moçambicanos: o do poder e queda, em 1895, de Ngungunhane – abordados em Ualalapi – e o da história de Moçambique colonial do início do século XX, ficcionalmente narrada pelo romance mais recente, a partir das vidas das viúvas do imperador, após o retorno delas do exílio, em 1911.

Ungulani, ao principiar As Mulheres do Imperador com instigantes epígrafes sobre a memória, traz à discussão a polivalência do conceito de “verdade histórica”, ratificando quão ambivalentes são tais “verdades”, uma vez deslizarem, constantemente, entre o real e o ficcional. Deixa evidente que muito depende dos olhares dos leitores, de sua capacidade hermenêutica, a construção das “verdades históricas”, levando-se em consideração inexistirem pontos de vista únicos. Memória e esquecimento fazem parte da “oficina da história” e de sua relação com a literatura, a geografia, a etnografia e com outras ciências e artes.

As histórias e estórias do imperador de Gaza e de suas mulheres, com compassados movimentos, são tecidas por um discurso literário aberto a múltiplas “verdades”. As sete mulheres de Ngungunhane – Phatina, Malhalha, Namatuco, Lhésipe, Fussi, Muzamussi e Dabondi –, aquando da queda do imperador, foram, em 1896, exiladas junto com este para Lisboa e, depois, para os Açores. Diferentemente de Ngungunhane que aí foi mantido até sua morte em 1906, as mulheres, forçadas a deixarem os Açores, seguiram para novo exílio em São Tomé, onde viveram até 1911, ocasião em que conseguiram regressar a Lourenço Marques. Entretanto, das sete mulheres só quatro – Phatina, Malhalha, Namatuco, Lhésipe – voltaram a Moçambique, acompanhadas de Oxaca e Debeza, estas mulheres de Zilhalha, súdito de Ngungunhane.

A narrativa de As Mulheres do Imperador começa, justamente, com esse retorno das quatro mulheres de Ngungunhane a Lourenço Marques. Decorridos quinze anos fora de terras moçambicanas, regressaram a bordo do paquete África a um Moçambique colonial, pressionado, ao mesmo tempo, por interesses portugueses e capitais ingleses. Essas mulheres, segundo entrevista do próprio escritor Ungulani Ba Ka Khosa, “queriam regressar à terra, mas não sabiam que a terra se chamava Moçambique. Para elas, Moçambique nunca existiu, existia apenas o império de Gaza em que tinham vivido[1]”. 

O narrador vai delineando a cartografia da cidade de Lourenço Marques, nas primeiras décadas do século XX, sob o jugo do colonialismo português. Ele vai mostrando como os espaços eram demarcados: o dos brancos, o dos negros, o dos orientais – indianos e chineses – com suas especiarias e cheiros, o da prostituição – a Rua Araújo, conhecida como “Rua do Pecado”, onde, no início do colonialismo, só brancas e mestiças podiam oferecer seus corpos a marujos de diferentes nacionalidades. À medida em que narra, vai apreendendo, também, referências culturais da época, ressaltando, entre outras, a importância do bilinguismo do jornal O Africano, dos irmãos Albasini.

Tais cartografias expressam contradições não só espaciais, como de classe, gênero e poder. Cartografias que nos dizem de margens, de mulheres que, embora rainhas, se encontravam, em suas culturas, nas franjas do domínio masculino, mas que conseguiram fugir dos limites e, pelas fronteiras do poder, provocaram, de alguma forma, rupturas em relação às cristalizações sociais impostas.

O regresso das mulheres do imperador a Lourenço Marques leva o olhar atento do narrador a descrever o cenário que elas encontraram: uma cidade cindida, conforme observa o escritor Ungulani na entrevista já mencionada:

Havia, na altura, a estrada da Circunvalação, que dividia a parte branca da negra – parte branca, é como quem diz, porque existia uma grande comunidade chinesa e indiana que ocupava uma grande parte da cidade. E aqueles conflitos, no primeiro ano da República [portuguesa], em 1911, retratam um pouco isso. E depois havia a parte negra, que era do outro lado, onde elas sentem que estão de regresso à terra que é o espaço delas modificado[2]

Chamando atenção para a pujança da cidade colonial, com seu desenvolvimento, suas diversidades, sua economia, seus usos, costumes e, também, para muitos preconceitos e estereótipos, a instância narracional vai, criticamente, evidenciando a oposição existente entre o passado de poder do imperador – denominado o “Leão de Gaza” –, entendido como tempo da barbárie, e a colonização lusitana, compreendida como engenho e acesso à civilização.

Também são assinaladas no romance contradições percebidas a partir de atitudes e práticas exercidas pelas mulheres de Ngungunhane, principalmente, após sua morte. Nos comportamentos destas são depreendidos jogos de poder, questões étnicas, desejos, novos interesses. Phatina, Malhalha, Namatuco, Lhésipe choram e recordam Ngungunhane. Debatem e se perguntam: que futuro teriam sem seu rei, elas que foram rainhas de um vasto império? Recorrendo às tradições, Namatuco, por meio de adivinhações dos espíritos ao redor do canhoeiro, vaticina acerca dos papéis e da vida de outras mulheres do imperador. O narrador, por meio de referências a documentos históricos, vai mencionando, com olhar crítico, a África dos colonizadores; a do governador-geral Mouzinho de Albuquerque, responsável pela prisão e exílio de Ngungunhane; a de Ayres d’Ornellas, militar português que empreendeu campanhas contra o imperador de Gaza e escreveu Cartas de África; a África dos relatórios e decisões dos que dominam. Mostra, não obstante, a partir do ponto de vista das viúvas do imperador, que existia uma outra África, misteriosa e profunda, a África de Namatuco, com suas crenças e profecias animistas.

O poder, emanado da figura autoritária e tirana de Ngungunhane, vai sendo, desse modo, subvertido pelos discursos e atitudes de suas mulheres. A instância narradora assinala a soberania masculina, porém, ao mesmo tempo, insinua como o feminino, por vezes, foi capaz de burlar o domínio másculo: “A palavra está para os homens, como o olhar, a linguagem das luzes e das sombras, para as mulheres”— comenta o narrador, na parte 6 do romance, referindo-se à Debeza que soube esconder seu adultério com o príncipe Godide. Essa cartografia do olhar, da memória e da imaginação traz lembranças que escrevem uma história no feminino, uma história que dá voz às mulheres de Ngungunhane, até então esquecidas sob a poeira dos tempos. O romance As Mulheres do Imperador comprova que, mesmo em um universo predominantemente masculino, essas mulheres conseguiram desvelar outras versões possíveis da história.

Ba Ka Khosa, em seu percurso literário, efetua uma reescrita de Moçambique pelo jogo entre história e ficção, entre tradição e modernidade, entre narrativas imaginadas e episódios históricos ocorridos, entre versões da oralidade e da história oficial. Optando, no título  Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do imperador, pela grafia portuguesa da época – Gungunhana –, e usando, na escrita dos romances, Ngungunhane – que, graficamente, reproduz a forma oral, ou seja, a pronúncia própria da língua nguni –, Ungulani, intencionalmente, expressa a dualidade de pontos de vista, demonstrando que não existe uma única versão histórica. Entrelaçando literatura e história, repensa Moçambique pela voz dos que estão à margem do poder, joga com a sedução e o fascínio que o domínio da escrita literária pode oferecer tanto ao escritor como ao leitor. Este, com certeza, irá se encantar não só pelo prazer de decifrar a polêmica figura do imperador, mas também as vidas e as histórias de suas mulheres.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2018.

[1] KHOSA. “A memória é sempre costurada. É preciso escangalhá-la para abrir caminhos”. Entrevista a Nuno Ramos de Almeida. Lisboa, 03/04/2018. Disponível em: https://ionline.sapo.pt/606664. Acesso em 14/06/2018. 
[2] idem, ibidem.

Carmen Lucia Tindó Secco é Profa. Titular de Literaturas Africanas, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). É colaboradora da Editora Kapulana. 

Citar como:

O ARTIGO:
SECCO, Carmen L. T. “As Mulheres do Imperador: Entrelaces de Histórias e Estórias”. In: KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana, 2018. [Vozes da África]. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/as-mulheres-do-imperador-entrelaces-de-historias-e-estorias-por-carmen-l-tindo-secco/>

O LIVRO:
KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana, 2018. [Vozes da África]

A degradação da personagem em Gungunhana, por José dos Remédios

O ser humano não morre quando o seu coração deixa de bater.
O ser humano morre quando, de alguma forma, deixa de se sentir importante.
in O vendedor de sonhos, Jayme Monjardim

Há 31 anos, Ungulani Ba Ka Khosa estreou-se em livro, num período em que a literatura moçambicana passava, eventualmente, por um dos melhores momentos até aqui. Na década de 80, foi lançado o primeiro concurso literário do país, foi criada a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), e, enfim, foi lançada a primeira revista literária moçambicana pós-independência, a Charrua, de que o nosso escritor é co-fundador. Este foi um momento de ouro, que, inclusive, contribuiu para a afirmação de uma escrita comprometida com a estética, por nela existir, quiçá, os (des)equilíbrios cruciais à literatura.  É neste contexto de reinvenção de uma arte, num país recém-nascido, que Ba Ka Khosa ousa apresentar-se em obra, depois de muito publicar na imprensa. Nessa altura, tinha 30 anos de idade e havia vivido em todas as regiões de Moçambique.

E então, o livro escolhido para a primeira aparição foi Ualalapi, colectânea de contos, para uns, romance, para muitos, e novela, para os mais centristas. Neste livro, um dos dois que constitui Gungunhana, obra ora lançada pela editora Kapulana, Ungulani percorre os labirintos da história, e, fugaz, aldraba a morte, retirando nela um personagem controverso (ora herói, por ter travado toda uma luta contra o regime colonial português, ora vilão, por tanto ter liderado ofensivas contra os chopes, uma etnia do Sul de Moçambique): Gungunhana/ Ngungunhane. Ao ficcionar a vida do imperador de Gaza, homem extremamente violento, Khosa constrói um cenário maquiavélico, que ao tirano permite atingir o poder sem ameaças de o perder, delegando, por isso, a morte do seu irmão, Mafemane, a Ualalapi.

A partir dos conflitos, da ganância e dos jogos de interesse instituídos na narrativa, Ungulani introduz-nos no raciocínio de um ditador que, à imagem de tantos outros de terno e gravata, não medem consequências no longo percurso ao trono. Por isso, esta é uma história actual e com muitos anos de vida.

O segundo livro que compõe a obra Gungunhana é intitulado As mulheres do imperador, na qual temos um narrador didático como cicerone no prosseguimento dos caminhos trilhados pelas rainhas de Gaza, na desnecessária viagem que termina com um exílio delas na sua terra, mas longe da sua gente. Se Ualalapi, essencialmente, ergue e derroca um império nguni, essa etnia de Ngungunhane, As mulheres do imperador é mais uma história além das peripécias que ditaram o fim de um reinado. Esta história produz-se na viagem pelo Sul de Moçambique, por Portugal, São Tomé e, mais profundo, pelas crenças, dores, desassossegos e sentimentos dessas rainhas pretas, desabitadas de si mesmas por terem conquistado a preferência de Ngungunhane. Também por isso, dá-se nesta ficção a grave degradação da personagem. Mas comecemos pelo primeiro livro.

Em Ualalapi, temos pelo menos dois momentos em que a degradação da personagem acontece. No primeiro, é Damboia, tia do imperador, quem está no centro das atenções, quando morre ainda viva, vítima de uma menstruação de três meses. Devido ao cheiro nauseabundo aí causado, Damboia perde poder e influência, quando os seus movimentos ficam condicionados ao átrio domiciliar. A linguaruda, que chama cães aos súbditos, enferma, perde a capacidade de falar e é invadida por loucura: “Começou a andar de gatas e a trepar as paredes da casa como um réptil em desespero. Durante a noite uivava como os cães” (p. 48).

Num segundo momento, a degradação da personagem, em Ualalapi, acontece quando o imperador, já nas mãos dos portugueses, profere o seu último discurso ao seu povo. Sem poder nenhum, Ngungunhane transforma-se numa entidade banal, ridícula, deprimida e cheia de fel. Destarte, o outrora poderoso imperador vira um objecto falante, prémio de guerra, conduzido, na verdade, não para um exílio, mas para um museu em que ele é a síntese do passado.

Em As mulheres do imperador essa degradação continua, quer em Ngungunhane quer nas suas esposas. No caso do “leão de Gaza”, a situação é agravada porque, arrancado da sua terra com as sete das tantas mulheres que possui, em Portugal, não fica nem com uma sequer, um verdadeiro ultraje e castigo para quem tanto preza o calor feminino. Além disso, mesmo tendo-se recusado a converter-se à religião dos brancos, já dominado, o imperador é baptizado, passando a ter um nome português. Morre triste e humilhado.

Não obstante, separadas do homem, as rainhas de Gaza, igualmente, experimentam a derradeira condição do marido. Logo, com a excepção de Namatuco, tornam-se vulneráveis, passando a comer peixe e a desejarem ser amarfanhadas pelos braços dos homens. E o facto de Namatuco ser a mais sisuda, não a impede de se tornar uma personagem amarga, pois, desterrada de Moçambique, perde o contacto com os seus espíritos, daí a incapacidade de enxergar o futuro.

Portanto, este Gungunhana encerra nas suas linhas uma preocupação estética alicerçada a uma história que se vai diluindo. Esta é uma porta de entrada para quem se preocupa com o passado e com o presente de Moçambique. E faz sentido o livro ser publicado no Brasil, afinal em causa está o conhecimento sobre a humanidade, que não se esgota na fronteira dos nossos pés, que nos faz proprietários da nossa própria voz. A degradação da personagem manifesta em Gungunhana também é nossa, por aceitarmos ser parte de uma história cujos protagonistas são os narradores do esquecimento, esses que nos afastam da nossa terra e das nossas particularidades.

Maputo, 20 de outubro de 2018.

José dos Remédios é jornalista, pesquisador, resenhista e colaborador em veículos de comunicação em Moçambique como o jornal O país e a emissora de televisão STV. É colaborador da Editora Kapulana. 

Citar como:

REMÉDIOS, José dos. “A degradação da personagem em Gungunhana”. In: http://www.kapulana.com.br/artigos/

O livro: KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana, 2018. [Vozes da África]

 

Kapulana lança em outubro a obra “O pátio das sombras”, escrita por Mia Couto e com ilustrações de Malangatana

Décimo e último volume da série “Contos de Moçambique”, o livro, escrito por Mia Couto e com deslumbrantes ilustrações do célebre artista Malangatana, narra a história sobre vida e morte pela perspectiva infantil

A Editora Kapulana publica em outubro o décimo volume da série de literatura infantil “Contos de Moçambique”, o livro O pátio das sombras, escrito por Mia Couto, com ilustrações de Malangatana.  A obra já está em pré-venda.

No enredo, um menino vive com a família em uma aldeia. Um dia, a avó se nega a ir até a plantação, pois diz estar cansada. Durante o trabalho, a família escuta ruídos de festa vindos da aldeia, e todos se perguntam se a avó tinha visitantes. O menino vai checar, mas encontra a avó sozinha. O acontecimento se repete, deixando o menino cada vez mais confuso, até que a avó lhe dá explicações ensinando-lhe uma linda lição sobre a vida e a morte. Mia Couto, em depoimento para o livro, explicou o motivo da escolha desta história que faz parte da tradição oral moçambicana.  “Este conto maconde foi a história escolhida por mim como base do conto que intitulei ‘O Pátio das Sombras’ por ser um conto muito sugestivo. Através dele podemos ver que os mortos, quando lembrados, não chegam nunca a morrer […] Do ponto de vista formal, pensei que seria bom criar um clima de mistério e introduzir um núcleo de conflito que se adensaria para, no final, se resolver de forma positiva”.

O livro é composto de deslumbrantes ilustrações do artista moçambicano Malangatana. Utilizando da técnica de pintura nanquim, os desenhos dialogam com o texto de forma fluída e fascinante. Com talento reconhecido em diversas vertentes da arte, Malangatana foi também poeta, cantor, dramaturgo, músico e dançarino. Durante sua carreira artística, foi premiado e celebrado no mundo, seu nome está ligado à criação de várias instituições culturais, como o Museu Nacional de Arte, Centro de Estudos Culturais, atual Escola Nacional de Artes Visuais, Centro Cultural de Matalana, e outras organizações artísticas. Malangatana faleceu em 2011, em Portugal.

O pátio das sombras é o último volume da série “Contos de Moçambique”, que, desde 2016, é publicada no país pela Editora Kapulana, tendo como objetivo divulgar no Brasil as histórias das tradições orais moçambicanas aos leitores brasileiros. O projeto surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. São histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato.

Ilustração de Malangatana, que faz parte da obra “O pátio das sombras”

 

★★★

Saiba mais sobre a obra: http://www.kapulana.com.br/produto/o-patio-das-sombras-10-contos-de-mocambique/

Saiba mais sobre o autor: http://www.kapulana.com.br/mia-couto/

Saiba mais sobre o ilustrador: http://www.kapulana.com.br/malangatana-mocambique-patio-das-sombras/

Saiba mais sobre a ilustração: http://www.kapulana.com.br/nanquim-as-ilustracoes-de-malangatana-em-o-patio-das-sombras-de-mia-couto/

Conheça a série “Contos de Moçambique”: http://www.kapulana.com.br/serie-contos-de-mocambique/

Kapulana lança em agosto “Leona, a filha do silêncio”, nono volume da série “Contos de Moçambique”

A série apresenta histórias tradicionais recriadas com narrativas que revelam os múltiplos universos do país

A Kapulana lança em agosto o nono volume da sérire de literatura infantil “Contos de Moçambique”, chega às livrarias o livro “Leona, a filha do silencio”, de Marcelo Panguana e ilustrações a aquarela de Luís Cardoso.

Em um lugar de mil encantos, vivem o Leão, a Leoa e sua filha, Leona. Leona é muito bela e encanta a todos que enxergam sua beleza, mas é triste e há muito tempo que não fala nada, nem ri. Um dia, seus pais viajam para um reino distante e, ao retornarem, trazem um vestido de noiva e decretam que aquele que conseguisse fazer Leona falar, a levaria ao altar. O que ninguém sabe é que Leona já está apaixonada e espera a volta do seu amado. Será que algum dia seu amor vai retornar e ela vai voltar a falar e a rir?

Marcelo Panguana nasceu em 1951, na cidade de Lourenço Marques, atual Maputo, capital de Moçambique. Escreve desde o momento em que conheceu as primeiras letras do alfabeto. Começou por pequenas histórias para as páginas e revistas culturais. A página literária “Diálogo”, do Notícias da Beira, foi o espaço onde começou a amadurecer a sua escrita. Em Maputo, junta-se a um grupo de escritores do projeto da revista “Charrua”. Deste grupo nasceram alguns dos que constituem, hoje, a nata dos melhores escritores do país. Foi fundador da Editora Lithangu.

Luís Cardoso nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, em 1962. É artista e publicitário. Desde pequeno conviveu com o universo das cores, das artes. Participou, desde muito jovem, de núcleos de arte e cultura, onde estabeleceu seu primeiro contato com as várias vertentes das artes plásticas. Teve formação como professor de Português e História, e, mais tarde, como designer. Desenvolve, também, projetos de ilustração, onde utiliza várias técnicas como a fotografia, o desenho, a aquarela e a ilustração digital.

Arte de Luis Cardoso

CONTOS DE MOÇAMBIQUE

A série “Contos de Moçambique” surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. A Editora Kapulana fez uma parceria com a Escola Portuguesa de Moçambique para publicar no Brasil a coleção, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro um pouco da cultura moçambicana. A série é composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique. São histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato.

Arte de Luis Cardoso

20 de julho de 2018

★★★

Saiba mais sobre a obra: http://www.kapulana.com.br/produto/leona-a-filha-do-silencio/

Saiba mais sobre o autor: http://www.kapulana.com.br/marcelo-panguana/

Saiba mais sobre o ilustrador: http://www.kapulana.com.br/luis-cardoso/

Saiba mais sobre a ilustração: http://www.kapulana.com.br/ilustracoes-de-leona-a-filha-do-silencio-aquarela/

Conheça a série “Contos de Moçambique”: http://www.kapulana.com.br/serie-contos-de-mocambique/

À VENDA NAS SEGUINTES LIVRARIAS:

Amazon.com.br: https://amzn.to/2mvBrwz
Livraria Cultura: https://bit.ly/2mxlVjX
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Martins Fontes Paulista: https://bit.ly/2O426NG
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Mundo da Leitura: https://bit.ly/2uPhTHq

Escritora Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue, participa de sessões de lançamento de seu livro no Brasil

Rutendo Tavengerwei, jovem escritora do Zimbábue, esteve no Brasil, nas cidades de São Paulo (SESC Paulista) e Salvador (Flipelô), de 4 a 12 de agosto de 2018, para promover seu novo livro Esperança para voar, da Editora Kapulana

Em dois bate-papos e visitas a livrarias, a autora conversou sobre seu livro Esperança para voar (Hope is our only wing), seu processo criativo e de escrita, suas opiniões e visões sobre a literatura africana e literatura negra, sua existência como mulher, negra e africana, além de questões sobre a política e a economia do Zimbábue em 2008, época dos acontecimentos do livro. Conversou também sobre a situação atual no Zimbábue e da conexão com o momento político brasileiro.

Em 7 de agosto, terça-feira, participou do bate-papo “Vozes da África”, em São Paulo, no SESC Avenida Paulista, na companhia de Luciana Bento, do Instagram @amaepreta e do canal Quilombo Literário, no YouTube, e de Bianca Gonçalves, do blog “Bianca Não É Branca” e idealizadora do projeto “Leia Mulheres Negras”.

A conversa focou na construção das personagens do livro, na dinâmica de escrita da autora e na questão dos autores negros e, principalmente, autoras negras no Brasil e no mundo, além da situação da literatura africana dentro do mercado editorial brasileiro e mundial. O público, que se envolveu ativamente nas perguntas e nos comentários acerca dos assuntos trazidos durante o evento, fez fila para cumprimentar a autora, levar para casa livros assinados e tirar fotos com Rutendo.

No dia seguinte, 8 de agosto, a escritora, acompanhada de equipe da Editora Kapulana, embarcou para Salvador, capital do estado da Bahia. A convite da “Fundação Casa de Jorge Amado”, marcou presença na 2ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) onde, no dia 9, quinta-feira, participou de bate-papo com a historiadora Profa. Luiza Reis (UFPE) sobre literatura “Esperança para voar – uma conversa sobre África”.

Em Salvador, as questões principais foram sobre o livro Esperança para voar, como as referências literárias presentes na obra, dentre elas os nigerianos Chimamanda Ngozi Adichie e Chinua Achebe, e a presença musical no livro, representada pela mbira, instrumento tradicional africano, que é uma personagem dentro da história.

O público, que lotou o auditório do SESC-SENAC Pelourinho, também quis conhecer as impressões de Rutendo sobre o Brasil e a Bahia e as aproximações possíveis entre Brasil e Zimbábue. Após o debate, que contou com a participação ativa do público, houve fila para a sessão de autógrafos e fotos com a autora.

Além das duas mesas de conversa para as quais foi convidada, Rutendo, acompanhada da equipe da Kapulana, também visitou diversas livrarias, nas quais assinou exemplares de seu livro que estão disponíveis para compra e fez sessões de fotos. Em São Paulo, a autora foi sempre muito bem recebida pelas equipes das livrarias Martins Fontes Paulista, Cultura do Conjunto Nacional, Giostri na Casa das Rosas e  Blooks do Shopping Frei Caneca. Em Salvador, visitou e deu autógrafos na LDM, livraria oficial da Flipelô, e foi recepcionada na Livraria Cultura do Salvador Shopping.

As atividades da escritora foram divulgadas por alguns dos maiores veículos de comunicação brasileiros, como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Carta Capital e Geledés.

Nos bate-papos, nas visitas, nas entrevistas e em outros momentos em que trocou ideias com o público brasileiro, Rutendo Tavengerwei esteve sempre acompanhada da intérprete da Kapulana, Carolina Kuhn Facchin, a tradutora de seu livro para o Português.

A Kapulana agradece às equipes da “Fundação Casa de Jorge Amado”, de Salvador, Bahia, e do SESC Unidade Av. Paulista, de São Paulo, SP, pelo apoio dado à escritora no Brasil.

São Paulo, 17 de agosto de 2018.

 

LINKS:

Livro: http://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=TnIMNidh-8g&t=11s

 

FOTOS:

Na Flipelô:

http://www.kapulana.com.br/09-08-2018-rutendo-tavengerwei-na-flipelo-festa-literaria-internacional-do-pelourinho-em-salvador-ba/

No Sesc Av. Paulista:

http://www.kapulana.com.br/07-08-2018-bate-papo-com-rutendo-tavengerwei-lu-bento-e-bianca-goncalves-no-sesc-avenida-paulista-em-sao-paulo-sp/

Nas livrarias:

http://www.kapulana.com.br/04-a-11-08-2018-rutendo-tavengerwei-nas-livrarias-brasileiras-sao-paulo-e-salvador/

Na Editora Kapulana:

http://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei-no-brasil/

“Serei sereia?”, da Editora Kapulana, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo

A Kapulana participa da Bienal Internacional do Livro de São Paulo com duas mesas, uma com a autora e a ilustradora do livro, e outra com a diretora editorial Rosana M. Weg

A 25ª edição da Bienal Internacional de Livro de São Paulo terá um estande dedicado exclusivamente a livros publicados em múltiplos formatos acessíveis e inclusivos, destinados não apenas ao público com deficiência, mas a todos os tipos de leitores. Cada obra reúne vários recursos de acessibilidade, como narração em áudio, texto original e/ou em Leitura Fácil, interpretação em Libras e descrição das imagens em áudio. Os livros contam ainda com animações e trilhas sonoras desenvolvidas especialmente para as versões acessíveis.

Foram produzidos livros em domínio público, que poderão ser acessados por todo público, e livros proprietários que, segundo a legislação brasileira, são conectados de forma gratuita por pessoas com deficiência, a Coleção de Livros Acessíveis.

A coleção tem 10 títulos da literatura infantil e infantojuvenil: Uma nova amiga, de Lia Crespo; O discurso do urso, de Julio Cortàzar e O menino no espelho, de Fernando Sabino; Peter Pan, de J. M. Barrie; A volta ao mundo em 80 Dias, de Júlio Verne; Frritt-Flacc, de Júlio Verne; A bolsa amarela, de Lygia Bojunga; Bem do seu tamanho, de Ana Maria Machado e Sei por ouvir dizer, de Bartolomeu Campos de Queiros.

Publicado pela Kapulana, o livro infantil Serei sereia?, de Kely de Castro, com ilustrações de Amanda Azevedo, também faz parte dessa importante Coleção de Livros Acessíveis

Programação na BIENAL: Mesas de conversas

06/08 – 14h – estande O030: A Kapulana estará presente, na segunda-feira, 6 de agosto, na Bienal, com duas mesas de conversas. Será realizada a roda de conversa “Livro e leitura para todos”, com Rosana M. Weg, diretora da Editora Kapulana.

06/08 – 16h – estande O030: acontecerá um bate-papo com a autora Kely de Castro e a ilustradora Amanda de Azevedo.

A venda de livros será feita no Clube do Livro (estande A098).

Sobre o livro

Serei sereia? é a história de Inaê, uma menina que já nasceu com um grande desafio a vencer: o fato de não poder andar. Nessa narrativa, contada pela artista Kely de Castro, Inaê, como todas as crianças, passa por momentos de tristeza, alegria, conflito e tranquilidade. A bordo de sua cadeira de rodas, enfrenta obstáculos e, aos poucos, com o apoio de sua mãe, descobre que pode construir sua própria história. O livro é ilustrado por Amanda de Azevedo e por fotos de bonecas confeccionadas pela autora.

A Bienal

A 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo acontecerá de 03 a 12 de Agosto de 2018 no Pavilhão de Exposições do Anhembi. O evento é palco para o encontro das principais editoras, livrarias e distribuidoras do país, apresentando seus mais importantes lançamentos para aproximadamente 700 mil visitantes em um espaço total de 70 mil m². Além da grande oferta de livros, a Bienal do Livro ainda conta com uma programação cultural abrangente, mesclando literatura, gastronomia, cultura e negócios.

3 de agosto de 2018

 

 

Saiba mais:

Sobre as atividades: http://www.kapulana.com.br/eventos/kapulana-na-bienal-internacional-do-livro-de-sao-paulo/

Sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/kely-de-castro/

Sobre a ilustradora: http://www.kapulana.com.br/amanda-de-azevedo/

Sobre a diretora editorialhttp://www.kapulana.com.br/rosana-morais-weg/

Sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/serei-sereia/

Sobre a Bienalhttp://www.bienaldolivrosp.com.br/

Conheça a Kapulanahttp://kapulana.com.br/a-editora/

 

Leia as resenhas internacionais sobre o livro “O que acontece quando um homem cai do céu”, de Lesley Nneka Arimah, que a Kapulana lança no Brasil

O foco de Arimah é na construção do enredo que permeia a originalidade de contar surpreendentes histórias

Elogiado por jornais e revistas internacionais, o livro O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah, finalmente chega ao Brasil em uma extraordinária publicação da Editora Kapulana.

Em doze contos, a autora aborda histórias contadas majoritariamente de uma perspectiva feminina, e trazem questões como maternidade e relação mãe e filha, sacrifício, feminilidade, amadurecimento e violência. Alguns dos contos apresentam aspectos da literatura fantástica e afrofuturismo, outros são mais realistas. A autora ganhou o “Kirkus Prize” e recentemente o “Young Lions Fiction Award”, promovido por The New York Public Library, premiação que celebra os autores em ascensão no mundo da literatura. O livro também foi indicado para o “John Leonard Prize”, da National Book Critics Circle.

O foco de Arimah é na construção do enredo que permeia a originalidade de contar surpreendentes histórias. Sua habilidade narrativa é fascinante em textos concisos que abordam as relações humanas. Elogiada por diversos jornais e revistas internacionais, Arimah aborda o rompimento da rotina e a vulnerabilidade de seus personagens. O livro, traduzido por Carolina Kuhn Facchin, será lançado no dia 12 de julho. 

Com a publicação em julho, O que acontece quando um homem cai do céu é o segundo livro de autores das literaturas africanas de língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em maio, a editora publicou o romance Esperança para voar, da jovem escritora Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue, e em novembro será a vez do livro de memórias Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

Confira os trechos de resenhas e críticas na imprensa internacional:

 

“A voz de Arimah é vibrante e nova, os assuntos que ela traz são, ao mesmo tempo, oportunos e atemporais […] Este é um volume curto e raro que fui forçado a colocar nas mãos de amigos dizendo ‘Você tem que ler isso’.” (Washington Post, EUA, 13 de abril de 2017)

 

“[…] uma escritora surpreendente, cujas palavras desafiam o coração e a mente a permanecerem impassíveis. Com sua mistura fluida de humor sombrio, tristeza e visitas a um realismo mágico, algumas das histórias de Arimah parecem com as de Octavia Butler e Shirley Jackson. Porém, não há nada derivativo aqui. A escrita de Arimah é deliciosamente imprevisível. As palavras dela pulsam, verdadeiras.” (Boston Globe, EUA, 14 de abril de 2017)

 

“Arrepiante, surreal, frequentemente arrebatador… As histórias de Arimah são espirituosas, poéticas e queimantes, cheias de personagens com falhas, mas amáveis, e imagens que fazem o leitor querer reler algumas passagens. A autora tem um senso apurado de fantasia e do absurdo, e o seu trabalho se baseia em experiências e impulsos que parecem muito familiares.” (The Seattle Times, EUA, 16 de abril de 2017)

 

“Estranho e maravilhoso… uma contadora de histórias sagaz, oblíqua e provocativa, Arimah consegue encaixar a história de uma família em poucas páginas, e inventar parábolas utópicas, fábulas mágicas e cenários aterrorizante, movendo-se com desembaraço entre um distanciamento cômico e um realismo psicológico perspicaz […] As suas histórias de ficção científica, que trazem questões feministas e relativas ao meio-ambiente, lembram as de Margaret Atwood.” (New York Times Book Review, EUA, 11 de maio 2017)

 

“Arimah capta o senso de tempo narrativo e muda o tom caótico. Contos rápidos e impiedosos, deixando os enredos fora de nossas mãos”. (The Guardian, Reino Unido, 2 de setembro de 2017)

 

“Em sua coleção de estreia, Lesley Nneka Arimah mistura realismo mágico e elementos de ficção científica para criar um conjunto de histórias realmente únicas sobre família, amizade e a ideia de um lar, que vão deixar o leitor faminto para ler mais do seu trabalho.” (Cosmopolitan, EUA, 11 de dezembro de 2017)

 

“Deslumbrante… Cada história no conjunto de estreia de Arimah consegue cumprir a tarefa difícil de ser, ao mesmo tempo, complexa e convidativa. Parte da atração se deve às frases maravilhosas construídas por Arimah. Os temas são duros, e as situações são frequentemente desesperadoras, mas há algo estranhamente reconfortante sobre essas histórias. Talvez seja o fato de que nesses mundos problemáticos há personagens com os quais conseguimos nos conectar. Ou talvez seja mais simples do que isso. Talvez eles sejam nós.” (Critical Mass, EUA, 16 de janeiro de 2018)

26 de junho de 2018

★★★

Saiba mais sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/lesley-nneka-arimah/

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/o-que-acontece-quando-um-homem-cai-do-ceu/

Saiba mais sobre a tradutora: http://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-faccin/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

 

EM PRÉ-VENDA NAS SEGUINTES LIVRARIAS:

“Esperança para voar”, de Rutendo Tavengerwei, disponível em e-book

Kapulana lançou em maio o romance “Esperança para voar”, da jovem autora do Zimbábue, Rutendo Tavengerwei. E uma grande novidade, o livro também está disponível em e-book 

A obra de estreia da jovem autora narra a história de amizade de duas adolescentes. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. Ocorrido em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, o livro mostra um lugar destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. Abre-se um enredo de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo. O livro foi traduzido por Carolina Kuhn Facchin.

 

Confira as livrarias com o romance disponível em e-book:

Amazon.com.br: https://amzn.to/2Iar9KR
Livraria Cultura: https://bit.ly/2IoUscH
Apple iBooks Store: https://apple.co/2lzBwPu
Google: http://bit.ly/2yGdlbs
Kobo: https://bit.ly/2Mpg2jN

Esperança para voar é o primeiro livro de literatura em língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em 12 de julho, será publicado o livro de contos O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah. Em novembro, ocorrerá a publicação do livro de memórias, Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

 

★★★

Saiba mais sobre a escritorahttp://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei/

Saiba mais sobre o livrohttp://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

Saiba mais sobre a tradutorahttp://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-faccin/

Uma entrevista com Rutendo Tavengerwei: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-rutendo-tavengerwei-autora-de-esperanca-para-voar/

Assista ao vídeo com Rutendo Tavengerwei: https://www.youtube.com/watch?v=0oZBCwnbfTk&t=3s

Assista o booktrailer: https://www.youtube.com/watch?v=Vu0x0XTGnkw

Leia a resenha de Lu Bentohttp://www.kapulana.com.br/esperanca-para-voar-um-livro-envolvente-e-emocionante-por-luciana-bento/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

[Sobre] O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley N. Arimah, por Roberta Estrela D’Alva

O povo negro sempre teve suas contadoras de histórias. Lembro-me de Dona Rosa, minha saudosa e enérgica avó, tecendo suas narrativas para uma plateia de netos um tanto atônita, um tanto maravilhada. Boas contadoras de história têm a capacidade de mover nossos sentidos com suas vozes. Foi exatamente assim que me senti ao ouvir Lesley Nneka Arimah. Sim, porque ainda que escrita, é uma voz que se escuta, e que faz com que muitas outras sejam escutadas, e às quais não há como se passar incólume. Vozes negras de um feminino diaspórico, que sempre chegando ou partindo de algo (uma pessoa, uma lembrança, um país, um medo) criam territórios imaginários, emocionais, familiares que nos transportam para o centro da ação. Uma negritude não- maniqueísta, onde não só a poesia e a virtude, mas também a crueldade de mulheres que se encontram dentro de sistemas com os quais tem que contracenar, e dos quais não conseguem escapar, estão expostas. Sombras de passados, luzes do presente, adestramento de cabelos e caráteres aos quais desde muito cedo mulheres negras são submetidas. Sem ranço, com ironia, humor e um tanto de imaginação fantástica que nos faz tirar os pés do chão (e cá pra nós, estamos precisando).

São Paulo, 4 de junho de 2018.

Roberta Estrela D’Alva é atriz, Mc, diretora, diretora musical, ativista, apresentadora e slammer. Formada em Artes Cênicas pela USP (Universidade de São Paulo), Roberta também fez mestrado em Semiótica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), onde atualmente cursa o doutorado.

Citar como: ESTRELA D’ALVA, Roberta.  In: ARIMAH, Lesley Nneka. O que acontece quando um homem cai do céu. (orelha) São Paulo: Kapulana, 2018.

 

 

Confira a capa do livro “O que acontece quando um homem cai do céu”, de Lesley Nneka Arimah, com lançamento em julho

São histórias contadas majoritariamente de uma perspectiva feminina, e trazem questões como maternidade e relação mãe/filha, sacrifício, feminilidade, amadurecimento e violência

Conheça a capa brasileira do próximo lançamento da Kapulana. Em julho, a editora publica O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley Nneka Arimah. Em doze contos, a autora, de origem nigeriana, desenvolve diversas formas literárias que abrangem a distopia, as memórias da guerra na Nigéria, as relações complexas entre mãe e filha e a convivência humana com as tecnologias, muitas vezes com uma visão afrofuturista. Lesley ganhou o “Kirkus Prize”, além de o livro estar em várias listas dos mais lidos e mais recomendados de 2017. A obra é traduzida por Carolina Kuhn Facchin.

 

 

“A voz de Arimah é vibrante e nova, os assuntos que ela traz são, ao mesmo tempo, oportunos e atemporais”

(Washington Post, EUA, 13 de abril de 2017)

“Estranho e maravilhoso… uma contadora de histórias sagaz, oblíqua e provocativa, Arimah consegue encaixar a história de uma família em poucas páginas, e inventar parábolas utópicas, fábulas mágicas e cenários aterrorizante, movendo-se com desembaraço entre um distanciamento cômico e um realismo psicológico perspicaz”

 (New York Times Book Review, EUA, 11 de maio 2017)

“Arimah capta o senso de tempo narrativo e muda o tom caótico. Contos rápidos e impiedosos, deixando os enredos fora de nossas mãos”.

(The Guardian, Reino Unido, 2 de setembro de 2017)

 

Conheça a capa:

 

Com o lançamento em julho, O que acontece quando um homem cai do céu é o segundo livro de autores das literaturas africanas de língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em maio, a editora publicou o romance Esperança para voar, da jovem autora Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue, e em novembro será a vez do livro de memórias Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

22 de maio de 2018

★★★

 

Saiba mais sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/lesley-nneka-arimah/

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/o-que-acontece-quando-um-homem-cai-do-ceu/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

 

Revelação do Zimbábue, Rutendo Tavengerwei lança pela Kapulana, no Brasil, o romance “Esperança para voar”

Rutendo Tavengerwei aborda uma emocionante história, com extraordinárias personagens, dialogando e refletindo sobre as mudanças da adolescência, as questões político-sociais e, claro, a importância da amizade

Já à venda nas livrarias o novo livro publicado pela Editora Kapulana, o romance Esperança para voar, de Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue. A obra de estreia da jovem autora narra a história de amizade de duas adolescentes. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. Ocorrido em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, o livro mostra um lugar destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. Abre-se um enredo de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo.

“Quando refleti sobre 2008, percebi que a maioria das minhas lembranças e a maneira como eu via o mundo era da perspectiva de uma adolescente, então fez sentido para mim que as protagonistas fossem adolescentes”, explicou a autora em entrevista exclusiva para a Kapulana. “Ainda mais porque lições sobre esperança e perseverança são importantes, e eu queria compartilhá-las especialmente com o público jovem”, concluiu.

Promissora e com hábil desenvolvimento narrativo, Rutendo aborda uma emocionante história, com extraordinárias personagens, dialogando e refletindo sobre as mudanças da adolescência, as questões político-sociais e, claro, a importância da amizade. “De certa maneira, eu traço paralelos entre minha escrita e meu cotidiano. Acho que é importante, se você quer que a história fique plausível, usar situações reais e adicioná-las à história. Então, em alguns casos, se eu escuto algo interessante ou engraçado, às vezes eu tento incorporar isso à história. Mas tanto de minha vida está na minha escrita. Eu escrevo sobre música e os sons que escuto, escrevo sobre cenários que eu acho maravilhosos. Basicamente, eu tento compartilhar tudo que me toca com o mundo”, destacou a escritora. “O mundo é muito caótico, e muitas coisas frustrantes acontecem em nossos países e nas nossas vidas pessoais também. A história da Shamiso e da Tanyaradzwa é sobre lutar para sair de tempos difíceis, e preservar a esperança em momentos sombrios. Meu desejo é que esta história sobre esperança inspire a vida dos leitores, mesmo que de uma maneira singela”, desejou a autora.

Em seu texto na versão brasileira na orelha do romance, a blogueira Luciana Bento apontou: “Este é um YA (Young Adult) contemporâneo que apresenta questões universais , sem perder a essência africana […] Rutendo Tavengerwei tem uma voz própria que cala estereótipos sobre África ressoando jovialidade e leveza na escrita mesmo diante de temas áridos. Esperança para voar nos apresenta um novo momento da literatura de língua inglesa africana”.

Esperança para voar é o primeiro livro de literatura em língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em julho, será publicado o livro de contos O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah. Em novembro, ocorrerá a publicação do livro de memórias, Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

 

 

★★★

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Saiba mais sobre o livrohttp://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

Uma entrevista com Rutendo Tavengerwei: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-rutendo-tavengerwei-autora-de-esperanca-para-voar/

Assista ao vídeo com Rutendo Tavengerwei: https://www.youtube.com/watch?v=0oZBCwnbfTk&t=3s

Assista o booktrailer: https://www.youtube.com/watch?v=Vu0x0XTGnkw

Leia a resenha de Lu Bentohttp://www.kapulana.com.br/esperanca-para-voar-um-livro-envolvente-e-emocionante-por-luciana-bento/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

 

À VENDA NAS SEGUINTES LIVRARIAS:

Confira a capa do romance ‘Esperança para voar’, da jovem escritora Rutendo Tavengerwei

O romance, com lançamento para maio, é a primeira obra das literaturas de língua inglesa que a Kapulana publica neste ano. Os títulos, inéditos e com primeiras traduções em língua portuguesa, são de diversas temáticas e estilos literários

Esperança para voar narra a história de superação e amizade de duas adolescentes. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. O cenário é o Zimbábue, em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. Abre-se um enredo de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo.

Rutendo Tavengerwei nasceu, cresceu e estudou no Zimbábue, onde morou até os dezoito anos. Em seu primeiro romance, a jovem autora constrói uma emocionante narrativa, com extraordinárias personagens, dialogando diretamente com o público jovem, além de abordar as mudanças da adolescência, a superação e, claro, a importância da amizade. A obra, traduzida por Carolina Kuhn Facchin, será lançada no Brasil pela Editora Kapulana.

Veja abaixo a capa:

O romance é o primeiro das literaturas de língua inglesa que a editora lança neste ano. Os títulos, inéditos e com primeiras traduções em língua portuguesa, são de diversas temáticas e estilos literários. Em julho será publicado o livro de contos O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah. E em novembro ocorrerá o lançamento do livro de memórias Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

Saiba mais:

Kapulana celebra o Dia da Mulher Moçambicana

A data é comemorada em 7 de abril e homenageia Josina Machel

O Dia da Mulher Moçambicana é comemorado no dia 7 de abril. Na ocasião, é lembrado do aniversário de morte de Josina Machel (1945-1971), segunda esposa de Samora Machel (1933-1986), primeiro presidente de Moçambique após a independência. Josina, que se juntou à Luta Armada de Libertação Nacional ainda jovem, é destacada como heroína de Moçambique, por batalhar a favor da independência de seu país, além de ser inspiração do movimento feminino moçambicano.

A Kapulana tem muito orgulho de publicar as obras literárias de magníficas autoras moçambicanas e homenagear a data simbólica do país africano.

Josina Machel

Confira as autoras moçambicanas que fazem parte do catálogo da editora:

Lica Sebastião – Nasceu em Maputo, capital de Moçambique. Fez a licenciatura em Ensino do Português em 1994. Concilia a atividade docente com as artes plásticas e a poesia desde 2006. Participou de exposições coletivas e realizou várias mostras individuais. É membro do “Núcleo de Arte” em Maputo.

Livro publicado pela Kapulana: 

de terra, vento e fogo, da série “Vozes da África”, é uma coletânea inédita de poemas da escritora moçambicana. Em seu primeiro livro publicado no Brasil, a poeta expressa um lirismo incontido quando expõe corajosamente suas alegrias e angústias. Para o título, escolheu três dos quatro elementos da natureza, terra, vento e fogo. O quarto elemento, a água, aparecerá para o leitor durante a leitura deste precioso conjunto de versos. Amanda de Azevedo criou as delicadas vinhetas para esta edição.

 

Noémia de Sousa – Nasceu em 1926, em Catembe, vila no litoral Sul de Moçambique, banhada pelo Oceano Índico, na baía de Maputo, bem em frente à capital de Moçambique. Faleceu em 2002, em Cascais, Portugal. Por sua influência nas gerações de poetas de Moçambique, ficou conhecida como “Mãe dos poetas moçambicanos”. É autora de densa obra poética, que representa a resistência da mulher africana e luta do povo moçambicano por sua liberdade. 

Livro publicado pela Kapulana: 

Seu único livro, Sangue negro, é composto por 49 poemas, escritos entre os anos de 1948 e 1951 do século passado, que circularam em jornais como O brado africano. Em 2001, seus poemas foram reunidos no livro Sangue negro, publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e, dez anos mais tarde, uma nova edição foi publicada pela editora moçambicana Marimbique. No ano de 2016, a Editora Kapulana publicou a primeira edição brasileira da obra, com os 49 poemas mais marcantes da literatura moçambicana.

 

Sílvia Bragança – Nasceu em Goa, na Índia, e vive em Moçambique há muitos anos. É professora, pintora, poeta e escritora. Sempre teve paixão por crianças e dedica-se a projetos de educação com crianças moçambicanas. É artista bastante conhecida internacionalmente e faz várias exposições de arte na Índia, em Portugal e em Moçambique. Silvia foi casada com Aquino de Bragança, figura importante na libertação dos povos africanos e na luta contra o sistema colonial português. Aquino morreu em 1986 em um acidente de avião, no qual se encontrava toda a comitiva do então presidente de Moçambique, Samora Machel, também falecido na ocasião, de quem era muito próximo.

Livro publicado pela Kapulana: 

Na obra Sonho da Lua, da série “Vozes da África”, a escritora Sílvia Bragança, com vasta e profunda vivência em Moçambique, nos oferece dez poemas infantis sobre o universo, apresentando às crianças o mundo que está ao seu redor, visível ou não. As ilustrações da brasileira Amanda de Azevedo enriquecem ainda mais as pequenas joias poéticas de Sílvia sobre a lua, o vento, a chuva, o elefante, a aranha, as flores, os pássaros, o arco-íris e outros elementos da natureza.

 

 

Sónia Sultuane – Nasceu em Maputo, em 4 de março de 1971. É uma artista multifacetada: poeta, artista plástica e curadora. Sultuane é uma voz afirmada na poesia, desde a estreia com a obra Sonhos, em 2001. Ganhou notoriedade em Imaginar o poetizado, 2006, e No colo da lua, 2009. Publicou igualmente o conto infantojuvenil A Lua de N’weti, 2014. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), onde ocupou o cargo de Secretária da Assembleia Geral.

 

Livro publicado pela Kapulana: 

Em Roda das encarnações, da série “Vozes da África”, a poeta moçambicana emociona o leitor ao revelar suas impressões mais profundas, como mulher, mãe, poeta e trabalhadora. Os poemas levam o leitor por um universo sensorial e místico em que as vivências espiritual e terrena se misturam, numa viagem por Moçambique, pela Índia e pelo interior vivo e profundo da poeta. Amanda de Azevedo criou delicadas vinhetas para esta edição.

 

Tatiana Pinto – Nasceu na Zambézia, província do norte de Moçambique, em 1985. Em Moçambique, viveu 17 anos da sua vida. Após isso, foi viver mais uns tantos em Timor-Leste, país de sua mãe. Em 2006 mudou-se para Portugal para estudar Jornalismo. Após  terminar o curso, decidiu regressar para Moçambique.

Livro publicado pela Kapulana: 

A viagem é o terceiro volume da série “Contos de Moçambique”. Masud e Wimbo tinham dois filhos, Agot e Mbuio, e uma filha, Inaya, que deseja ter o mesmo tratamento que seus irmãos. Ela sai de sua aldeia para salvá-los em outra cidade. Durante seu caminho, descobre sua força e coragem. Luís Cardoso usa diversas técnicas para dar vida aos bonecos tradicionais de Tomás Muchanga, ilustrando belamente esta história moçambicana.

Saiba mais:

Em 2018, Kapulana lança três livros de autores de literaturas africanas de língua inglesa

Rutendo Tavengerwei, Lesley Arimah e Binyavanga Wainaina são os autores dos  títulos inéditos da Kapulana, que tratam de diversas temáticas em cenários do Zimbábue, Nigéria e Quênia

 

Neste ano, a Editora Kapulana amplia seu catálogo e publica três obras de autores africanos de língua inglesa. Em maio, chegará aos leitores brasileiros o romance Esperança para voar, da zimbabuense Rutendo Tavengerwei. Já em julho, será lançado o premiado livro de contos de Lesley Nneka Arimah, de origem nigeriana – O que acontece quando um homem cai do céu. E em novembro ocorrerá a publicação do livro de memórias, do queniano Binyavanga Wainaina – Um dia vou escrever sobre este lugar.

Confira as sinopses dos três livros:

Esperança para voar, de Rutendo Tavengerwei, jovem escritora do Zimbábue, é a história de superação e amizade de duas adolescentes, Shamiso e Tanyaradzwa. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. O cenário é o Zimbábue, em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. É a história de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Esse delicado e emocionante livro, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo.

O que acontece quando um homem cai do céu é o livro de estreia da premiada Lesley N. Arimah. Elogiado por jornais e revistas do mundo todo, o livro discute, em doze contos, diversas temáticas contemporâneas como o insólito, a distopia, as memórias da guerra na Nigéria, a convivência humana com as tecnologias, a infância, a mulher na sociedade, e o embate entre as tradições familiares e a cultura na América – a autora nasceu no Reino Unido, viveu na Nigéria e agora mora em Minnesota, nos Estados Unidos.

Um dia vou escrever sobre este lugar, do escritor queniano Binyavanga Wainaina, conta suas memórias desde a infância, de forma bastante lírica, dando grande ênfase às questões linguísticas e culturais, revelando muito da história do Quênia e de outros países da África, como Uganda e África do Sul. O autor é um digital influencer bastante ativo em questões relativas à África e ao ativismo LGBTQ+, já participou de TED Talks e escreveu para grandes revistas e jornais, como National Geographic e NY Times. Em 2017, a Times o elegeu como “Uma das 100 pessoas mais influentes do mundo”. A edição da Kapulana inclui texto inédito do autor: “I am a homosexual, mum”.

Conheça os próximos lançamentos: http://www.kapulana.com.br/proximos-lancamentos/

Conheça as biografias dos novos escritores: http://www.kapulana.com.br/nossos-autores/

 

 

Ana Mafalda Leite, escritora e pesquisadora, participa de eventos no Brasil

Em fevereiro e março deste ano, a professora da Universidade de Lisboa e escritora portuguesa Ana Mafalda Leite participou de palestras com lançamento de seu novo livro de poemas

Ana Mafalda Leite, pesquisadora, professora, ensaísta e poeta, autora de ensaios e de livros de poesia veio ao nosso país para participar de palestras, cursos e sessões de lançamento de seu mais novo livro: Outras fronteiras: fragmentos de narrativas, da Editora Kapulana.

Em 27 e 28/02/2018, Ana Mafalda Leite participou de ciclo de debates sobre o Cinema da Guiné Bissau e fez palestra com leitura de poemas de seu novo livro, com sessão de autógrafos. O evento foi promovido Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e contou com a presença da curadora Profa. Dra. Carmen Tindó Secco e da Profa. Dra. Rosana M. Weg, diretora da Kapulana.

 Na semana de 5 a 10 de março, a escritora participou de atividades promovidas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (UFRS), como palestras, cursos e, no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, fez o lançamento com sessão de autógrafos de seu livro Outras fronteiras: fragmentos de narrativas. O evento foi promovido pela Escola de Humanidades e organizado pelo Prof. Paulo Ricardo Kralik Angelini.

No dia 13 de março, a escritora Ana Mafalda Leite participou de atividades na sede da Editora Kapulana, em São Paulo, com gravação de entrevista, leitura de trechos de seu novo livro e sessão de fotos.

A Editora Kapulana agradece à estimada escritora Ana Mafalda Leite, por presença no Brasil e por sua disposição e divulgar a literatura em nossa país.

A Kapulana agradece também à organização da URFJ e da PUCRS, pela oportunidade de participar de eventos literários de tanta importância.

Ainda este ano a escritora voltará ao Brasil a convite de outras instituições universitárias quando terá a oportunidade de participar de novas mesas de debate sobre poesia, sempre com o apoio da Kapulana.

São Paulo, 15 de março de 2018.

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/outras-fronteiras-fragmentos-de-narrativas/

Saiba mais sobre a autora Ana Mafalda Leite: http://www.kapulana.com.br/ana-mafalda-leite/

Veja fotos das atividades: http://www.kapulana.com.br/28-02-a-13-03-2018-ana-mafalda-leite-no-brasil/

Assista aos vídeos com a autora

 

 

 

 

Literatura colonial: a presença moçambicana, por Rosana M. Weg

“Contudo, apesar da atitude de desconfiança ou de rejeição que gerou, a literatura colonial é um fato consumado.” (NOA, Francisco. Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária. São Paulo: Kapulana, 2015, p. 39.)

Francisco Noa, moçambicano, é Doutor em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa, de Portugal. Ensaísta e professor de Literatura Moçambicana na Universidade Eduardo Mondlane (Maputo, Moçambique), é atualmente Reitor da Universidade Lúrio (UniLúrio), também em Moçambique. Estuda colonialidade, nacionalidade e transnacionalidade literária, a literatura como conhecimento e o diálogo intercultural no Oceano Índico, a partir da literatura. É autor de artigos e livros de análise e crítica literária[i]. Dentre eles, Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária, livro que ora destacamos.

A obra no espaço e no tempo

Sua tese de Doutoramento “Literatura Colonial. Representação e Legitimação – Moçambique como invenção literária, defendida em 2001, deu origem à edição portuguesa de Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária (2002).  Em 2015, a Editora Kapulana publicou a primeira edição brasileira. A grafia foi adaptada para a versão brasileira da língua portuguesa em conformidade com o acordo ortográfico em vigor, com exceção das citações, que tiveram sua grafia original preservada.

O todo e as partes

Na Introdução, o leitor é apresentado ao foco da análise que encontrará pela frente. O autor destaca o caráter multifacetado e problemático do tema que escolheu tratar: a literatura colonial em Moçambique.  No capítulo I, “Literatura colonial: enquadramento teórico e periodológico”, o escritor expõe os conceitos que norteiam sua pesquisa, o contexto em que ela se insere e o objeto de seu trabalho. Nos capítulos seguintes, o grande tema Representação é analisado a partir dos romances elencados, segundo aspectos como a verossimilhança, a representação do espaço, a representação do tempo, figuras, papéis e vozes, culminando com a legitimação do texto frente à crítica.

[…]

Leia o artigo na íntegra em:

Revista de Estudos Avançados. v. 31, no. 89. São Paulo, jan./abr. 2017. p. 465-468.

versão impressa ISSN 0103-4014

versão On-line ISSN 1806-9592: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142017000100465&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

versão em pdf: http://www.scielo.br/pdf/ea/v31n89/0103-4014-ea-31-89-0465.pdf

Saiba mais sobre Francisco Noa: http://www.kapulana.com.br/francisco-noa/

 

Conheça as obras do autor publicadas pela Kapulana

Perto do fragmento, a totalidade: http://www.kapulana.com.br/produto/perto-do-fragmento-a-totalidade-olhares-sobre-a-literatura-e-o-mundo/

Império, mito e miopia, Moçambique como invenção literáriahttp://www.kapulana.com.br/produto/imperio-mito-e-o-miopia-mocambique-como-invencao-literaria/ 

Uns e outros na literatura moçambicana: http://www.kapulana.com.br/produto/uns-e-outros-na-literatura-mocambicana/

Assista abaixo uma entrevista com o escritor:

Kapulana lança em São Paulo dois volumes da série ‘Contos de Moçambique’

A série, originalmente publicada em Moçambique, apresenta histórias orais recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de reconhecimento internacional

A Editora Kapulana estará presente na Mostra de Literatura Negra – Ciclo Contínuo, que acontecerá entre os dias 16 e 18 deste mês, com descontos nas vendas dos livros do catálogo. Durante a mostra, será realizado o lançamento dos volumes 7 e 8 da série de livros infantis Contos de Moçambique, que são Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo, e O caçador de ossos, de Carlos dos Santos.  Integram nas páginas das obras as pinturas a óleo de Silva Dunduro e as esculturas maconde de Emanuel Lipanga.

O evento ocorrerá no domingo (18), às 11h00, no Centro Cultural Olido, na Sala Vermelha.  Para apresentar as obras, os artistas Mariana Rhormens e Marcial Macome realizarão uma performance teatral, a partir de música, representação cênica e manipulação de bonecos. O espetáculo é aberto a todo público.

‘O caçador de ossos’, arte de Emanuel Lipanga

OBRAS

Na aldeia dos crocodilos (Vol. 7) –  A aldeia dos crocodilos fica na beira do rio, onde tudo que é semeado, cresce. Lá vivem Mandoguinhas e seu avô Boaventura, que conta ao neto que os crocodilos que ficam na beira das águas não são animais, mas, sim, gente. Quando o avô desaparece, Mandoguinhas tem que desvendar o mistério dos crocodilos.

O caçador de ossos (Vol. 8) – Sinaportar era um grande caçador, porém, se negava a caçar em grupo; ia sempre à caça apenas com seus cachorros. O que ninguém sabe é que ele depende dos cães para abater qualquer animal. Quando os cães passam a se negar a caçar, Sinaportar deve resolver esse problema antes que o seu segredo seja revelado.

 

‘Na aldeia dos crocodilos’, arte de Silva Dunduro

A série Contos de Moçambique surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. A Editora Kapulana fez uma parceria com a Escola Portuguesa de Moçambique para publicar no Brasil a série, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro um pouco da cultura moçambicana. Composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique, são histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato. 

Para conhecer mais sobre as publicações anteriores, acesse o site da editora: www.kapulana.com.br.

 

‘O caçador de ossos’, arte de Emanuel Lipanga

 

ARTISTAS

MARIANA RHORMENS – é atriz graduada em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, doutoranda e mestra no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena na UNICAMP com o projeto intitulado “Um olhar sobre as máscaras de Mapiko: apropriação técnica, simbólica e criativa da máscara”, com orientação de Matteo Bonfitto Júnior. Com a Kapulana, Mariana participou de diversas apresentações, como no lançamento de O rei mocho, de Ungulani Ba Ka Khosa e nas contações das obras O caso de Pedro e Inês(quecível) até o fim do mundo, de Francisco Maciel Silveira, e das performances literárias das obras A triste história de Barcolino, Mesmos barcos e Orgia dos loucos.

MARCIAL MACOME – Ator e jornalista moçambicano, concluiu licenciatura em teatro na Escola de Comunicação e Arte, da Universidade Eduardo Mondlane. Com vasta carreira teatral, Macome encenou o livro O gato e o escuro, de Mia Couto, e as peça Naque ou o de actores e piolhos, de Sanchis Sinisterra, A mãe, de Bertolt Brecht, Antígona, de Sofocles, entre outras.  Escreveu e encenou lobolo do Cadaver, em 2016. Macome é membro fundador da ASSITEJ – Moçambique (Associação internacional de Teatro para jovens e Adolescentes), também trabalha como diretor de dança.

Mariana Rhormens e Marcial Macome

 

Lançamento dos livros ‘Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo, e ‘O caçador de ossos’, de Carlos dos Santos.

Data: domingo, 18 de março

Hora: das 11:00 às 12:00

Local: Centro Cultural Olido – Sala Vermelha (Av. São João, 473. São Paulo, SP)

‘Na aldeia dos crocodilos’, arte de Silva Dunduro

Orgia dos loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa

Orgia dos loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa

FINALISTA DO PRÊMIO JABUTI 2017, categoria ILUSTRAÇÃO!

Em Orgia dos Loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa, a artista Mariana Fujisawa fotografou recortes de papeis sobrepostos, em tons de branco, preto e cinza, de diferentes texturas. Os papeis foram talhados e fotografados, com incidência do sol, e sobrepostos sem colagem ou pintura. O resultado é um jogo de sombras com efeito tridimensional.

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Roda das encarnações, de Sónia Sultuane

Roda das encarnações, de Sónia Sultuane

PRÉMIO FEMINA 2017 – MÉRITO NAS LETRAS – POESIA!

Em seu mais recente livro, Roda das encarnações, a poeta moçambicana Sónia Sultuane emociona o leitor ao revelar suas impressões mais profundas, como mulher, mãe, poeta e trabalhadora. Os poemas levam o leitor por um universo sensorial e místico em que as vivências espiritual e terrena se misturam.

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