MARTINHO DA VILA

O autor – MARTINHO DA VILA

MARTINHO DA VILA, Martinho José Ferreira, nasceu em Duas Barras, Estado do Rio, em 12 de fevereiro de 1938. Filho de lavradores da Fazenda do Cedro Grande, veio para o Rio de Janeiro com apenas quatro anos, e foi morar no Morro dos Pretos Forros, numa localidade chamada Boca do Mato.

É músico, ativista cultural e escritor. Desde 1965, suas atividades culturais e musicais estão vinculadas à escola de Samba Unidos de Vila Isabel, daí seu nome artístico – Martinho da Vila. Ficou conhecido nacionalmente a partir de 1967, quando se apresentou no III Festival da Record, com o partido alto “Menina Moça”. A partir de então, sua vasta produção musical cresceu e foi reconhecida nacional e internacionalmente. Particularmente, Martinho da Vila dedicou-se, e dedica-se, a incentivar o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa, por meio de sua discografia e em turnês a países como Moçambique e Angola.

Como escritor, Martinho da Vila tem livros publicados desde 1986, tanto de ficção quanto de não ficção, lançados no Brasil e em Portugal, e alguns deles traduzidos para o Francês. Tem se dedicado ao romance e à crônica, com regular colaboração para jornais e revistas. 

Continua em plena atividade como artista e como escritor, fazendo turnês nacionais e internacionais, e, em 2019, lança pela Kapulana seu mais novo livro, 2018 – Crônicas de um ano atípico.

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Vamos brincar de política? São Paulo: Editora Global, 1986. (Infantojuvenil)
  • Kizombas, andanças e festanças. São Paulo: Leo Christiano Editorial, 1992 / Editora Record, 1998. (Autobiográfico)
  • Joana e Joanes, um romance fluminense Rio de Janeiro: Zfm Editora, 1999. (Romance). Publicado em Portugal com o título de Romance fluminense, pela Eurobrap, 1999, e na França com o título de Joana et Joanes: romance dans l’etat de Rio, pela Yvelinédition, 2011.
  • Ópera Negra. São Paulo: Editora Global, 2001. (Ficção). Publicado em francês com o título de Opéra Noir du Brésil, pela Yvelinédition, 2013.
  • Memórias póstumas de Teresa de Jesus. Editora Ciência Moderna, 2003. (Romance)
  • Os lusófonos. Editora Ciência Moderna, 2005. (Romance). Publicado em francês com o título de Lusophonies: La langue portugaise dans le monde, pela Yvelinédition, 2015.
  • Vermelho 17. Rio de Janeiro: Zfm Editora, 2007. (Romance)
  • A rosa vermelha e o cravo branco. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2009. (Série Lazuli Infantil)
  • A serra do rola-moça. Rio de Janeiro: Zfm Editora, 2009. (Romance)
  • A rainha da bateria. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2009. (Série Lazuli Infantil)
  • Fantasias, Crenças e Crendices. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2011. (Literatura Musical)
  • O nascimento do samba. Rio de Janeiro: Zfm, 2013. (Literatura Musical)
  • Sambas e enredos. Rio de Janeiro: Zfm Editora, 2014. (Literatura Musical)
  • Barras, vilas e amores. São Paulo: Sesi, 2015. (Romance)
  • Conversas cariocas. Rio de Janeiro: Malê, 2017. (Crônicas)

PRÊMIOS E HOMENAGENS

  • Título honorário de Embaixador Cultural de Angola e Embaixador da Boa Vontade da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), por ser um incentivador das relações linguísticas do Português e divulgador da lusofonia.
  • Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.
  • Título de Doutor Honoris Causa, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
  • Comendas mineiras Tiradentes e JK. É Comendador da República da Ordem do Barão do Rio Branco, em grau de Oficial.

ANITA M. R. DE MORAES

ANITA M. R. DE MORAES nasceu em São Carlos, São Paulo. É professora pesquisadora.
É Doutora em Teoria e História Literária pela Universidade de Campinas (Unicamp), com pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (USP).
Desde 2012, atua como professora de Teoria da Literatura na Universidade Federal Fluminense (UFF).

OBRAS DA KAPULANA

MORAES, Anita M. R. de.MARTIN, VIMA L. R. O Brasil na poesia africana de língua portuguesa – antologia. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

MORAES, Anita M. R. de.MARTIN, VIMA L. R.”O Brasil e a poesia moçambicana: perspectivas de leitura“. Posfácio in: .O Brasil na poesia moçambicana – antologia. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Para além das palavras: representação e realidade em Antonio Candido. 1. ed. São Paulo: Editora da Unesp, 2015. v. 1.
  • O inconsciente teórico: investigando estratégias interpretativas de Terra Sonâmbula, de Mia Couto. 1. ed. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2009.
  • Revista Via Atlântican. 16. São Paulo: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas FFLCH-USP, 2009. (Org. com MACÊDO, T. CHAVES; R.)

O Brasil e a poesia africana de língua portuguesa: perspectivas de leitura, por Anita M. R. de Moraes e Vima L. R. Martin

O interesse pelas literaturas africanas no Brasil tem sido crescente neste século XXI. Nas universidades e escolas, a pesquisa e o ensino se incrementaram. O meio editorial abriu-se para a publicação de obras africanas e a imprensa tem dado destaque aos autores do continente. Tais fatos certamente estão relacionados com a sanção da Lei 10.639, de janeiro de 2003, responsável por garantir o estudo de história e culturas africanas e afro-brasileira em nossas instituições de ensino. Especialmente nas áreas de artes, letras e história, observa-se, assim, a necessária abordagem de aspectos históricos e culturais dos diversos povos que participaram da formação de nosso país.

Tendo em vista esse cenário, e a partir de nossa área de atuação, preparamos este livro buscando contribuir para o acesso do público brasileiro à produção poética dos países africanos de língua oficial portuguesa. Trata-se do resultado de uma pesquisa desenvolvida desde 2009 que, felizmente, encontra agora espaço para maior divulgação. Para sua realização, agradecemos o apoio das pesquisadoras Simone Caputo Gomes e Tania Macêdo e dos poetas e familiares que gentilmente cederam os direitos autorais dos poemas selecionados.

O ponto de partida do trabalho é o reconhecimento das trocas culturais associadas ao processo de colonização, responsável por aproximar América e África. No campo dos estudos literários, as marcas da presença brasileira na formação das literaturas produzidas nos países africanos colonizados por Portugal foram identificadas já nos anos de 1980, em artigos pioneiros de Maria Aparecida Santilli que apontam para a criação de um patrimônio cultural forjado a partir de um intenso diálogo estabelecido entre brasileiros e africanos.

Esta antologia traz a público poemas que, de alguma maneira, fazem referência ao Brasil ou à cultura brasileira. Desse modo, o conjunto de textos aqui reunidos, organizados por país de origem, permite que sejam conhecidas diferentes dimensões de um diálogo intercultural, favorecendo a visibilidade de algo do Brasil que se fez e se faz presente na África. Ao longo de nossa pesquisa, voltamo-nos para antologias consagradas (como No reino de Caliban, de Manuel Ferreira), antologias recentes (como Poesia africana de língua portuguesa, organizada por Lívia Apa, Arlindo Barbeitos e Maria Alexandre Dáskalos, e  Antologia da nova poesia angolana, organizada por Francisco Soares) e livros de autoria individual (no caso de poetas que consideramos manter uma relação de intensa proximidade com o Brasil). Apesar de termos consultado fontes diversificadas, temos consciência de que nosso estudo pode – e deve – ser ampliado, uma vez que não esgotamos as fontes e que o diálogo com o Brasil ainda se mantém vigoroso nos países africanos de língua oficial portuguesa. 

Este livro conta com um glossário, contendo tanto termos relacionados ao universo africano e da diáspora africana, como também nomes próprios citados nos poemas. Ao final do volume, uma lista de poemas veicula os resultados mais gerais de nosso estudo, configurando um mapeamento, ainda que parcial, da presença do Brasil na poesia africana de língua portuguesa.

***

Ao longo dos cinco últimos séculos, os laços históricos que aproximaram o Brasil e a África foram, como se sabe, muito fortes. Desde o século XVI, a formação social brasileira foi determinada por relações coloniais e escravistas, que se materializaram a partir da circulação de um grande contingente de pessoas através do Atlântico. Como esclarece Alberto da Costa e Silva,

Há toda uma história do Atlântico. Uma história de disputas comerciais e políticas, de desenvolvimento da navegação e de migrações consentidas e forçadas. Mas há também uma longa e importante história que se vai tornando, aos poucos, menos discreta. A dos africanos libertos e seus filhos, a dos mulatos, cafuzos e brancos que foram ter ao continente africano, retornaram ao Brasil, voltaram à África ou se gastaram a flutuar entre as duas praias. (COSTA e SILVA, 2003, p. 236)

O trânsito intenso estabelecido entre as duas margens do Atlântico favoreceu a constituição de ideias e ideais e a construção de um forte imaginário ancorado em experiências concretas. Alguns dos poemas levantados em nosso mapeamento focalizam justamente o legado brutal, em terras africanas e americanas, das migrações forçadas – o tráfico de pessoas sequestradas para serem escravizadas. Trata-se, então, de lidar com a memória do horror, com o trauma da escravidão. Em poemas como “Epopeia”, do santomense Francisco José Tenreiro, escrito nos anos de 1950, por exemplo, o Brasil é sobretudo o trágico destino dos escravizados.

Já no soneto oitocentista que integra esta antologia, intitulado “O sonho dantesco”, do também santomense Caetano da Costa Alegre, é numa situação amena de leitura que emerge, incompreensível, o evento da escravidão: trata-se da leitura, feita por uma jovem, de “O navio negreiro”, de Castro Alves.

Observamos, assim, dois aspectos do relacionamento da poesia africana de língua portuguesa com o nosso país: 1) temos visibilizada uma história colonial comum, marcada pela escravidão e pelo sofrimento dela decorrente; 2) e encontramos um diálogo literário efetivado por autores que frequentemente encontraram em nossa realidade cultural fonte de inspiração.

Parte da poesia do angolano José da Silva Maia Ferreira marca-se por tais relações literárias.  Maia Ferreira estudou no Brasil de 1834 a 1844 e aqui entrou em contato com nossos textos românticos, muitos deles reivindicativos de uma identidade nacional. De volta a Angola, publica em 1849 Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas. Dessa obra, pelo menos dois poemas apresentam relações intertextuais com um texto de Gonçalves Dias, o notório “Canção do exílio” (1843), que ficou célebre na tradição literária brasileira. Trata-se de “À minha terra” e “A minha terra”, que apresentam, além do tema da valorização da terra natal, a métrica e o vocabulário muito próximos do poema de Gonçalves Dias. Vejamos algumas passagens de “À minha terra”, que integra esta antologia:

De leite o mar – lá desponta
Entre as vagas sussurrando
A terra em que cismando
Vejo ao longe branquejar!
É baça e proeminente,
Tem da África o sol ardente,
Que sobre a areia fervente
Vem-me a mente acalentar.
(…)
 
Bem-vinda sejas ó terra,
Minha terra primorosa,
Despe as galas – que vaidosa
Ante mim queres mostrar:
Mesmo simples teus fulgores,
Os teus montes têm primores,
Que às vezes falam de amores
A quem os sabe adorar!
 
(…)

Como se vê, o poeta caracteriza a sua terra natal com um entusiasmo relativo, admitindo a simplicidade de seus “fulgores”. Entretanto, já se nota no texto um sentimento nativista, de identificação com o espaço angolano. Nas palavras de Tania Macêdo:

(…) a leitura de “Canção do exílio” realizada pelo autor angolano, que se pode depreender, focalizará sobretudo o “cá”, da terra angolana, deixando na penumbra o “lá”, de onde ele chega [Brasil]. Sob esse particular, o poeta afirma a “singeleza” de sua terra, mas faz questão de apontar que ela tem primores “a quem os sabe adorar”, indicando uma explicitação de sua “pertença”, o que indica a presença de um nativismo nascente. (MACÊDO, 2002, p. 43)

Também no longo poema “A minha terra”, igualmente presente nesta antologia, a ambiguidade se instala, estando o poeta mais uma vez entre a valorização emocionada de sua terra natal e a avaliação de que se trata de um espaço sem os encantos das terras portuguesas e brasileiras e carente de seus grandes vates. Vemos, inclusive, que o sentimento de participação no “mundo português” é forte, cantando-se e louvando-se a valentia dos heróis do império. É interessante perceber que, ao lado de Portugal, o Brasil avulta como um espaço privilegiado, capaz também de causar inveja ao poeta. Trata-se de uma referência explícita ao Brasil independente, de estatuto elevado, confirmando a admiração pelo território já naquela altura liberto do domínio político português.

Décadas mais tarde, já em meados do século XX, chama a atenção a força com que a produção literária brasileira funcionou como uma espécie de estímulo para a produção literária das então colônias portuguesas, constituindo-se como uma referência cultural alternativa às imposições metropolitanas. É certo que a nossa literatura não foi a única a marcar as produções do período. Ecos da poesia escrita pelo norte-americano Langston Hughes, pelo haitiano Jacques Roumain e pelo cubano Nicolás Guillén, por exemplo, estão presentes nos poemas africanos, cujos autores intentavam romper com o cânone oficial. Numa atmosfera intelectual marcada pela Négritude, difundida sobretudo por Aimé Césaire e Senghor, um número importante de escritores africanos de língua portuguesa buscavam – também eles – consolidar uma noção de identidade negra.

Entretanto, ainda que essas referências sejam determinantes, é fato que as experiências e realizações do primeiro modernismo brasileiro e a literatura produzida na década de 1930 deixaram marcas profundas na formação das modernas literaturas africanas de língua portuguesa. Nos espaços então colonizados, a busca pela autonomia literária se deu paralelamente à organização e à luta pela autonomia política. Daí a relevância das propostas do nosso modernismo e da chamada literatura “regionalista”, com sua forte opção pelos excluídos, como modelos inspiradores das transformações que se buscavam no momento da afirmação das identidades nacionais.

A revista angolana Mensagem (1951), cujo lema era “Vamos descobrir Angola!”, a pioneira revista Claridade (1936), em Cabo Verde, e a revista Msaho (1952), em Moçambique, foram espaços de expressão de movimentos literários que, como já havia ocorrido no Brasil, reclamavam uma cultura “autêntica”, enfatizando as realidades locais e as aspirações de liberdade popular. Sobre a forte presença das letras brasileiras em Angola, declara o crítico angolano Costa Andrade em 1963:

Entre a nossa literatura e a vossa, amigos brasileiros, os elos são muito fortes. Experiências semelhantes e influências simultâneas se verificaram. É fácil, ao observador corrente, encontrar Jorge Amado e os seus capitães de areia nos nossos melhores escritores. Drummond de Andrade, Graciliano, Jorge de Lima, Cruz e Sousa, Mário de Andrade e Solano Trindade, Guimarães Rosa, têm uma presença grata e amiga, uma presença de mestres das novas gerações de escritores angolanos. E por isso mesmo, pelo impacto que têm junto do nosso povo, são vetados pelos colonialistas. Eles estão presentes, porém, nas preocupações literárias dos que lutam pela liberdade. (ANDRADE, 1980, p. 26)

Para termos uma dimensão mais exata desse interesse, que toma a forma de um encantamento cultivado por parcela significativa de intelectuais e escritores dos países africanos, evoquemos as enfáticas palavras de outro angolano, Ernesto Lara Filho, presentes em crônica publicada no periódico Notícia (entre 1960 e 1962):

Rubem Braga, o “sabiá” da crônica do Brasil, anda nos nossos recortes literários. Henrique Pongetti é lido por nós, também, Raquel de Queiroz e Nelson Rodrigues, esses tratamo-los por tu. São-nos familiares. Todo o angolano, do Dirico a Cabinda, do Luso ao Lobito, lê o “Cruzeiro”, ri com as piadas de Millôr Fernandes e chora com as reportagens de David Nasser sobre Aida Curi.
Esses são afinal os nossos ídolos. Se pudéssemos votar, muitos de nós, angolanos de nascença, havíamos de ir às urnas depor o nosso voto nas próximas eleições brasileiras, pelo espetacular Jânio Quadros, o Jânio da “Vassoura”. Sabemos quem é Leandro Maciel, Carlos Lacerda, Pascoal Carlos Magno. Sabemos de cor frases como esta: “O petróleo é nosso”. (LARA FILHO, 1990, p. 58)

Em um texto bem mais recente, intitulado “O sertão brasileiro na savana moçambicana” (2005), Mia Couto também reconhece a importância capital do Brasil na formação da literatura moçambicana. Aliás, logo no início de sua reflexão, o escritor narra, de maneira idealizada, numa chave romântica, aquele que teria sido o momento inaugural da poesia em seu país: a união da moçambicana Juliana e do poeta brasileiro desterrado Tomás Antônio Gonzaga e os inúmeros serões ocorridos em sua casa, na Ilha de Moçambique, espaço onde teria florescido o primeiro núcleo de poetas e escritores da então colônia. Depois de evocar esse casamento, espécie de “presságio” de um “entrosamento maior”, continua Mia Couto:

O nascimento da poesia moçambicana está marcado por um encontro que seria bem mais do que um casamento entre duas pessoas. Havia ali uma espécie de presságio daquilo que seria um entrosamento maior que iria prevalecer.
Mais de um século depois, nascia em Moçambique uma corrente de intelectuais ocupados em procurar a moçambicanidade. Já era, então, clara a necessidade de ruptura com Portugal e os modelos europeus. Escritores como Rui de Noronha, Noémia de Souza, Orlando Mendes, Rui Nogar, ensaiavam uma escrita que fosse mais ligada à terra e à gente moçambicana.
Necessitava-se de uma literatura que ajudasse a descoberta e a revelação da terra. Uma vez mais, a poesia brasileira veio em socorro dos moçambicanos (…) os moçambicanos descobriram nesses escritores e poetas a possibilidade de escrever de um outro modo, mais próximo do sotaque da terra, sem cair na tentação do exotismo. (COUTO, 2005, p. 103)

No que diz respeito às relações entre as literaturas do Brasil e de Cabo Verde, é necessário sublinhar o papel decisivo exercido pela literatura social de 1930 na produção de escritores como Baltazar Lopes e Manuel Lopes, ambos vinculados à já referida revista Claridade. A similaridade climática entre o nordeste brasileiro e as ilhas de Cabo Verde favoreceu ainda mais as ressonâncias dos romances regionalistas em textos, de prosa e poesia, que buscavam afirmar a “cabo-verdianidade”. As palavras do poeta Gabriel Mariano, recolhidas por Michel Laban, atestam essa relação:

(…) Foi um alumbramento porque eu lia um Jorge Amado e estava a ver Cabo Verde. De Jorge Amado, o Quincas Berro d’Água, quando eu o li pela primeira vez, a personagem, as características psicológicas da personagem, a reação das pessoas, quando souberam da morte de Quincas Berro d’Água, eu li isso tudo e eu estava a ver a Ilha de São Vicente, Cabo Verde… Estava a ver a Rua de Passá Sabe… (In: LABAN, 1992, p. 331)

Também é bastante significativa a leitura que os autores cabo-verdianos fizeram da poesia de Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Ribeiro Couto. Desse conjunto de poetas, Manuel Bandeira se destaca como um interlocutor privilegiado, fazendo-se presente em vários poemas, e não apenas de autores de Cabo Verde. Sua dicção pretensamente simples, a intensa valorização da oralidade e o lirismo de seus poemas certamente seduziram os poetas africanos que lhe dedicaram versos e estabeleceram pontes com a sua poesia.

Exemplar dessas relações é a intertextualidade verificada no conjunto de poemas escritos em diálogo explícito com “Vou-me embora pra Pasárgada” (1930). Como observamos a partir de nosso mapeamento, na série “Itinerário de Pasárgada”, que consta de cinco poemas escritos em 1946 pelo cabo-verdiano Osvaldo Alcântara (pseudônimo de Baltazar Lopes para sua produção poética), o tom oscila do nostálgico ao contestatório, mas afinal o poeta afirma – como no poema brasileiro – a utopia de um futuro desejado. Mais tarde, outro poeta, Ovídio Martins, retomará o tema em seu poema “Anti-evasão” (1974), dessa vez rejeitando a “viagem para Pasárgada” e afirmando a necessidade de permanecer em Cabo Verde para construir um futuro qualitativamente diferente para o país. Na presente antologia, a referência a Manuel Bandeira surge em outro poema cabo-verdiano, bem mais recente, atestando a continuidade desse diálogo intertextual: trata-se de “Os meninos”, da escritora Vera Duarte. Nesse poema em prosa, a interlocução com a poesia de Manuel Bandeira dá-se pela menção, não de sua utópica Pasárgada, mas da sua também muito conhecida “Estrela da Manhã”, igualmente signo de inconformidade.

Podemos notar que a produção africana de língua portuguesa aponta para a permanência da ligação estabelecida entre africanos e brasileiros. De fato, referências a escritores, livros e espaços geográficos e ficcionais do Brasil ainda estão presentes em produções contemporâneas de diferentes autores de ficção e poesia. Em publicações das últimas décadas, além de Manuel Bandeira, escritores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Manoel de Barros, Raduan Nassar e Adélia Prado têm acolhida marcante. Por exemplo, nos poemas “Drummondiana” e “Metamorfose”, publicados nesta antologia, o poeta moçambicano Luís Carlos Patraquim trava diálogo explícito com a poesia de Carlos Drummond de Andrade. No primeiro, o título é convite para que se persigam sutis alusões a poemas como “A máquina do mundo” e “A flor e a náusea”; já no impressivo “Metamorfose”, a leitura de Drummond é referida como marco temporal, desdobrando-se a relação intertextual com a alusão ao famoso poema “O sentimento do mundo”. Por fim, em “Poesia verde”, do poeta angolano José Luís Mendonça, também presente nesta antologia, é pela referência ao conhecido verso “no meio do caminho tinha uma pedra” que a intertextualidade com Carlos Drummond de Andrade se estabelece.

Um dos poemas do angolano Ondjaki presente neste livro intitula-se “Chão” e apresenta uma dedicatória que merece destaque: “palavras para manoel de barros”. O nome do poeta brasileiro está grafado em letra minúscula, assim como todas as palavras que compõem o poema. O efeito dessa escolha parece ser o de desautomatizar o uso da língua portuguesa, efeito reforçado pelos neologismos, pelas inversões sintáticas e pelo uso não convencional da pontuação. De viés filosófico, o poema se vale de imagens lúdicas e desconcertantes para expressar o desejo de autoconhecimento, em busca de uma identidade primordial. Trata-se de empreender um inusitado processo de retorno ao reino mineral (areia, barro, chão), numa metamorfose voltada sempre para dentro e para baixo, como se essa involução à terra fosse capaz de revelar uma verdade essencial. Ao “chãonhe-ser-se”, amalgamando-se ao mundo natural, o poeta simultaneamente se mineraliza e se humaniza, num gesto forte e delicado que parece abdicar da artificialidade que, de certo modo, pauta o mundo social. Como se vê, a relação do poema angolano com a poética de Manoel de Barros ultrapassa a singela dedicatória e manifesta-se no próprio fazer poético que atualiza as linhas de força do projeto literário do escritor cuiabano.

Referências à música brasileira também são recorrentes na poesia africana de língua portuguesa. Lembremos do poema “Samba”, datado de 1949, em que a poetisa moçambicana Noémia de Sousa toma esse gênero musical como atestado da presença cultural africana no Brasil, aludindo a um ritmo de histórias entrelaçadas e lutas partilhadas. Referências mais recentes a Tom Jobim, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Roberto Carlos e Milton Nascimento evidenciam a continuidade do interesse pela música brasileira em terras africanas. Destaca-se, nesse sentido, o poema “Setenta e seis”, aqui publicado, do poeta e letrista angolano Carlos Ferreira, em que a familiaridade com “a canção de roberto” é sugerida (numa alusão certa ao cantor Roberto Carlos e ao famoso verso da canção “Baby”, de Caetano Veloso).

O poema “Canção para Milton Nascimento”, do angolano João Melo, é outro exemplo  do diálogo da poesia africana com a nossa música. Nos primeiros versos, marcados por assonâncias e aliterações, o poeta evoca as origens africanas do compositor e cantor da nossa Música Popular Brasileira, que se notabilizou por abordar temas como liberdade e solidariedade.

Canção para Milton Nascimento

A lonjura da tua voz não é apenas dos amplos vales de Minas Gerais:
abarca a negra imensidão do oceano azul que em galeras te levou
das praias invadidas do Congo, Ndongo e Benguela,
alcança os planaltos ancestrais
de onde te arrancaram ao coração da terra,
sem suspeitar que na tua voz
ia a alma de todos os homens do mundo.

Na sequência, o texto afirma que na voz de Milton ressoam não apenas instrumentos musicais africanos (ngomas), mas também instrumentos ibéricos e ameríndios, capazes de iluminar “os dilacerados quadris da memória reconstruída”. Trata-se, aqui, não apenas de celebrar a riqueza da heterogeneidade cultural brasileira, que ganha materialidade no trabalho do compositor, mas, sobretudo, de sublinhar a dimensão trágica de uma história, assentada no colonialismo e na escravidão, cuja memória se encontra em processo de reconstrução. Por isso, como bem revelam os versos finais, a voz de Milton nem sempre é alegre e ele precisa de coragem para “cantar sozinho no meio da escuridão”.

É importante considerar que não apenas a poesia, mas também a prosa africana de língua portuguesa tem mantido diálogo fecundo com o Brasil. Alguns ficcionistas destacam, em entrevistas e ensaios, a importância do contato com, por exemplo, a escrita de João Guimarães Rosa, como os angolanos Luandino Vieira e Ruy Duarte de Carvalho (este, também importante poeta) e o já mencionado escritor moçambicano Mia Couto. Ruy Duarte de Carvalho, em seu livro Desmedida, de 2006, relata:

Quando aí por 1965, numa tabacaria da Gabela, interior do Kwanza-Sul, dei encontro com o Grande sertão: veredas em edição, a 5ª parece-me, da Livraria José Olympio, o facto foi, de fato e de várias maneiras, muito importante na minha vida. Foi um daqueles livros que vêm, literalmente, ao nosso encontro (…). (…) Defrontei-me então muito arduamente com as primeiras páginas do Grande sertão e deixei-me depois entrar naquilo para tornar-me, a partir daí e até agora, um leitor compulsivo, permanente e perpétuo, de Guimarães Rosa. (…)
Mas para o que talvez possa interessar agora, eu estava a encontrar ali, finalmente, um tipo de escrita e de ficção adequadas à geografia e à substância humana que eu andava então, técnico da Junta do Café, a frequentar e a fazer-me delas por Angola afora. (…) E nas paisagens que Guimarães Rosa me descrevia, eu estava a reconhecer aquelas que tinha por familiares. Já porque de natureza a mesma que muitas paisagens de Angola – e em algumas das paisagens de Angola eu reconhecia aquelas, enquanto o lia – já porque a gente que ele tratava, gente de matos e de grotas, de roças e capinzais, era também em Angola aquela com quem durante muitos anos andei a lidar pela via do ofício de viver. (CARVALHO, 2006, p. 85-86)

A leitura de Grande sertão: veredas, na década de 1960, chamou a atenção de Ruy Duarte de Carvalho, gerando uma sensação de familiaridade. E as semelhanças entre as paisagens e as gentes do Brasil e Angola são aspectos que ele viria a explorar em obras futuras, como no próprio livro Desmedida, aqui citado.

Nesta antologia, contudo, dedicada apenas à poesia, o diálogo entre prosadores, tão intenso, não é explorado. Por essa razão, do conjunto da obra escrita por Ruy Duarte de Carvalho, o texto que está presente em nosso levantamento é o poema intitulado “Fala de um brasileiro ao capitão-mor Lopo Soares de Lasso”, de 1974, que traz justamente a fala (ficcional) de um brasileiro do século XVII em terras angolanas. Esse poema evidencia antigos laços entre Angola e Brasil, dando voz a um brasileiro que abandona projetos de conquista e escolhe seguir novo – e próprio – rumo na nova terra (Angola), tendo, agora, conhecido “as muitas coisas boas”, “sabida outra maneira de aqui estar”. Para os leitores da prosa de Ruy Duarte de Carvalho, o destino desse brasileiro ecoa o de alguns de seus personagens, como o inglês Archibald Perkings (protagonista de Os papéis do inglês), Severo (protagonista de As paisagens propícias) e o próprio autor ficcionalizado (narrador-personagem dos romances da trilogia Os filhos de Próspero, cujo primeiro volume, o já mencionado Os papéis do inglês, está publicado no Brasil).

Podemos perceber diferentes formas de impacto da prosa sobre a poesia, e mesmo encontrar a homenagem, na forma de poema, a prosadores brasileiros. No conjunto desta antologia, chama especial atenção, nesse sentido, o “Poema a Jorge Amado”, de Noémia de Sousa. Vejamos sua estrofe inicial:

O cais…

O cais é um cais como muitos cais do mundo…
As estrelas também são iguais
às que se acendem nas noites baianas
de mistério e macumba…
(Que importa, afinal, que as gentes sejam moçambicanas
ou brasileiras, brancas ou negras?)
Jorge Amado, vem!
Aqui, nesta povoação africana
o povo é o mesmo também
é irmão do povo marinheiro da Baía,
companheiro de Jorge Amado,
amigo do povo, da justiça e da liberdade!
(…)

Os versos de Noémia de Sousa, de 1949, estabelecem uma identificação plena entre Moçambique e Brasil (Bahia), sublinhando elementos que aproximariam os dois espaços (cais, estrelas, povo). Numa perspectiva humanista, que se constrói para além da nacionalidade e cor da pele “(Que importa, afinal, que as gentes sejam moçambicanas/ ou brasileiras, brancas ou negras?)”, o texto propõe o estabelecimento de uma rede solidária entre “as gentes”, pautada em valores como justiça e liberdade, dos quais Jorge Amado seria o porta-voz. Ao convocar a presença companheira do escritor baiano em terras moçambicanas, a poetisa expressa uma utopia libertária, enraizada na cultura popular, que naquele contexto funcionava simultaneamente como crítica à presença colonialista e aspiração de independência política.

O veemente combate à brutal configuração de um sujeito racial nos processos coloniais é traço marcante da poesia de Noémia de Sousa. A luta que se propõe é de todos, sem discriminação, uma luta contra qualquer forma de racialização – em sintonia, assim, com proposições recentes, como as do filósofo camaronês Achille Mbembe (pensamos especialmente em Crítica da razão negra, publicado no Brasil em 2018). A questão racial nos leva, contudo, a lidar com uma referência bem mais antiga: a do lusotropicalismo defendido pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que celebrava no Brasil uma espécie de espaço exemplar de liberdade e democracia racial. Lembremos que sua obra magna, Casa Grande e senzala, publicada em 1933, impactou fortemente não apenas a intelectualidade brasileira, mas também intelectuais portugueses e africanos dos países que então eram colônias de Portugal. Outros livros, como O mundo que o português criou (1940) e Aventura e rotina (1953), serão centrais para a difusão do lusotropicalismo. Para Fernando Arenas,

As bases teóricas do que seria o lusotropicalismo estender-se-ão eventualmente a praticamente todo o império colonial português a partir de uma série de conferências proferidas [por Gilberto Freyre] na Europa em 1937 e reunidas na obra O mundo que o português criou (1940), onde se exalta a miscigenação e a mestiçagem, sobretudo relativamente ao Brasil, embora projetando-se para o resto do império. (ARENAS, 2010)

Entre 1951 e 1952, Gilberto Freyre foi convidado pelo governo português para viajar pelas terras do império. É preciso lembrar que após a Segunda Grande Guerra tornou-se internacionalmente mais difundida a condenação de regimes de natureza colonial. O governo de Salazar – ditador português de 1928 a 1968 – recorre, então, ao lusotropicalismo freyriano para reformular sua ideologia colonial, apelando para a ideia do “bom colono português”. Com a apropriação salazarista do pensamento do sociólogo brasileiro na década de 1950, nota-se o afastamento, por parte de muitos escritores e intelectuais africanos, das teses lusotropicalistas de Freyre. O poema “Presença de Gilberto Freyre”, do caboverdiano Guilherme Rocheteau, publicado em 1951, evidencia, contudo, a força do lusotropicalismo nos países africanos de língua oficial portuguesa ainda no início da década de 1950, especialmente em Cabo Verde.

É importante destacar que, em nossa perspectiva, na poesia de Noémia de Sousa não há, de modo algum, negação ou suavização da violência colonial portuguesa. O “Poema de João”, presente nesta antologia, denuncia justamente sua brutalidade, afirmando também a força da resistência. Mais uma vez, Achille Mbembe vem a nosso auxílio. No já citado Crítica da razão negra, Mbembe sugere haver traços de um imaginário cristão em discursos e práticas de combate à escravidão e ao colonialismo. No poema de Noémia de Sousa, a morte violenta é vencida pela ressurreição simbólica: ao invés de morto, João ressurge vivo no seio do povo, tornando-se uma espécie de mártir. O “Poema de João” pode, nesse sentido, ser comparado ao romance A vida verdadeira de Domingos Xavier, de Luandino Vieira, cujo protagonista constrói-se sob o signo do sacrifício (de 1961, este livro foi censurado e só veio a ser publicado em 1974).

A questão racial recoloca-se, com contundência, nos textos “Poema preto de fome” e “A cor da Humanidade”, de José Luís Mendonça, também aqui publicados. No primeiro, talvez algo do devir-negro proposto por Mbembe se delineie. Para o filósofo, a exploração capitalista, que remonta à escravidão nas plantations das Américas, implica a invenção do “negro” como destituído de humanidade plena. Contudo, Mbembe afirma também que aqueles que assim se viram brutalmente tratados reafirmaram sua condição humana invertendo o rótulo “negro” em chave afirmativa. Sinais de tal duplicidade aparecem no poema de José Luís Mendonça, em que o signo “preto” remete tanto à condição de vítima histórica como à força da resistência daqueles que lutaram e lutam contra a violência e a exploração.

No poema “A cor da Humanidade” é a própria farsa do rótulo racial que se vê denunciada. Como em “A viagem profana”, do moçambicano Nelson Saúte, estamos diante de um sujeito em deslocamento, uma espécie de sujeito global ou globalizado. Contudo, no poema de Saúte, tal sujeito se configura numa chave subjetiva, trata-se de um viajante apaixonado que traça suas afinidades eletivas, suas preferências tanto literárias como espaciais (ocupando, o Brasil, lugar afetivo privilegiado). Já no poema de Mendonça, configura-se um sujeito coletivo que parece implicar todo aquele que possa ser estigmatizado, apanhado na armadilha da racialização. Se o mundo se oferece com generosidade ao poeta em “A viagem profana”, no poema angolano toma a forma do impedimento, arma-se contra o sujeito. Assim, em “A cor da Humanidade”, a onipresença das categorias raciais é problematizada, afirmando-se, com Martin Luther King e Nelson Mandela, a inalienável condição humana de toda pessoa.

***

Como apontamos inicialmente, este trabalho busca visibilizar as trocas culturais que aproximaram – e ainda aproximam – o Brasil e os países africanos de língua oficial portuguesa, ao longo de séculos de uma história de entrelaçamentos. No diálogo poético estabelecido desde o século XIX até a contemporaneidade, capaz de aproximar as duas margens do Atlântico, a solidariedade e a criatividade emergem como marcas efetivas da aproximação estabelecida.

O conjunto de poemas reunidos em nosso mapeamento, ponto de partida da presente antologia, aponta para representações diversas: há poemas que apenas mencionam o Brasil, entre outros países do continente americano, como destino de africanos escravizados; há poemas que estabelecem alguma relação intertextual com obras da literatura brasileira; outros enaltecem o Brasil, desde uma perspectiva idealizada, por vezes até mesmo exotizante ou turística; há aqueles que se referem com admiração a personalidades brasileiras (escritores, compositores, intelectuais etc.); há, ainda, poemas que mencionam a opressão – e a resistência a formas de opressão – dos negros no Brasil. Como se vê, de maneira múltipla, o Brasil se faz presente.

Dessa maneira, como conclusão parcial, podemos reter que, por vezes, o Brasil é rememorado na poesia africana como destino de brutal tráfico humano (com destaque para poemas do período colonial); e, outras, imaginado como espaço utópico de liberdade política e harmonia racial (imbuindo-se, então, de traços do lusotropicalismo freyriano); de modo geral, nosso país emerge como um território cúmplice, de onde emanam vozes capazes de compreender e se irmanar com realidades sociais e culturais percebidas a partir de uma óptica comparatista.

Entendemos que os textos levantados sugerem que, seja no profícuo diálogo literário, seja na menção a traços da cultura brasileira veiculada em terras africanas, seja ainda no recurso a uma memória colonial comum de assombrosa violência e na afirmação de resistência (o negro que luta, na África e nas Américas, contra o racismo, por exemplo), o Brasil está fortemente presente no repertório poético africano de língua portuguesa.

Trata-se de uma presença viva, de um diálogo em curso, como atestam os textos de escritores que, em publicações recentes, continuam a mencionar nosso país. Nos poemas selecionados de autores contemporâneos, as referências ao Brasil, sua paisagem e sua cultura – nomeadamente nos campos da literatura e da música – demonstram que o país ainda ocupa um espaço privilegiado no imaginário dos autores africanos. Há certamente muito ainda a descobrir. Os poemas reunidos por nós não esgotam a questão dos trânsitos culturais entre o Brasil e os países africanos de língua oficial portuguesa. Ao contrário, esta seleção pretende abrir caminhos e instigar o estudo de aspectos da presença do Brasil nas literaturas africanas de língua portuguesa, inclusive a investigação de novas formas e possibilidades de diálogo.

Referências:
ANDRADE, Costa. Literatura angolana (opiniões). Lisboa: Edições 70, 1980.
ARENAS, Fernando. “Reverberações lusotropicais: Gilberto Freyre em África”. In: Buala – Cultura Contemporânea Africana, 2010. Acessível em: http://www.buala.org/pt/a-ler/reverberacoes-lusotropicais-gilberto-freyre-em-africa-1-cabo-verde
CARVALHO, Ruy Duarte de. Desmedida: crônicas do Brasil (Luanda – São Paulo – São Francisco e volta). Lisboa: Cotovia, 2006.
COSTA e SILVA, Alberto da. Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Editora UFRJ, 2003.
COUTO, Mia. Pensatempos: textos de opinião. Lisboa/Maputo: Editorial Ndjira, 2005.
LABAN, Michel. Cabo Verde. Encontro com escritores. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1992.
LARA Filho, Ernesto. Crônicas da roda gigante. Porto: Afrontamento, 1990.
MACÊDO, Tania. Angola e Brasil: estudos comparados. São Paulo: Editora Arte e Ciência, 2002.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: Edições N-1, 2018.

 São Paulo, janeiro de 2019.

Anita M. R. de Moraes é Doutora em Teoria e História Literária pela Universidade de Campinas (Unicamp), com pós-doutorado pela Universidade de São Paulo e Professora de Teoria da Literatura na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Vima Lia de Rossi Martin é Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e Professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na mesma instituição (FFLCH-USP).

Citar como:

O ARTIGO:
MORAES, Anita M. R.; MARTIN, Vima L. R. “O Brasil e a poesia africana de língua portuguesa: perspectivas de leitura “. Posfácio. In. MORAES, Anita M. R.; MARTIN, Vima L. R. O Brasil na poesia africana de língua portuguesa: antologia. São Paulo: Kapulana, 2019.[Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/o-brasil-e-a-poesia-africana-de-lingua-portuguesa-perspectivas-de-leitura/>

O LIVRO:
MORAES, Anita M. R.; MARTIN, Vima L. R. O Brasil na poesia africana de língua portuguesa: antologia. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

“Nina tem medo de palhaço”: Kapulana promove sessões de autógrafos e mesas de conversas de seu mais recente livro infantil

Os eventos ocorrerão nas livrarias da Vila e Cultura, além de participações nas programações culturais nas Cidade do Circo e Unesp

A Kapulana realizará sessões de autógrafos e mesas de conversas de sua mais recente publicação, o livro infantil  Nina tem medo de palhaço, com as participações de Walter de Sousa e Mariana Fujisawa – autor e ilustradora da obra – e Gabi Winter, atriz e a palhaça Jurubeba, homenageada no livro.

Na obra, a jovem Nina perdeu a casa em uma tragédia e passa a viver em um campo de refugiados. O que fazer para enfrentar os medos e anseios durante a infância? É o que acontece quando Nina conhece a palhaça Jurubeba! A palhaça conforta e conversa com a protagonista sobre muitas coisas e lugares que podem ser a nossa casa. Este incrível livro, escrito por Walter de Sousa e ilustrado pela artista Mariana Fujisawa, é uma homenagem ao trabalho social e cultural da palhaça brasileira Jurubeba (Gabi Sigaud Winter), e de todas as palhaças e palhaços que divertem e confortam crianças pelo mundo todo.

 Os eventos acontecerão na cidade de São Paulo em:

★★★

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

Confira as obras da Kapulana disponíveis no formato e-book

São mais de 15 obras da editora em e-book nas diversas plataformas digitais para compra

Já está disponível o catálogo – obras em prosa – da Kapulana em formato e-book. Os livros podem ser adquiridos nas plataformas digitais Amazon Brasil, Apple Books, Google Play, Kobo, Livraria Cultura e Wook.

A Kapulana é uma editora voltada para a publicação e divulgação da literatura de autores brasileiros e estrangeiros. Atualmente, o catálogo da editora é composto por livros de ficção e científicos, para adultos e crianças, em prosa e poesia. Os autores são de países como Brasil, Angola, Moçambique, Nigéria, Portugal, Quênia e Zimbábue.

 

 

Confira as seguintes obras disponíveis em e-book:

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Para conhecer o catálogo da Kapulana, acessehttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

Quatro autores da Kapulana estarão presentes na primeira edição da “Travessia das Letras”, festa infantojuvenil realizada em Portugal

Kely de Castro, Lucílio Manjate, Ungulani Ba Ka Khosa e Maria Celestina Fernandes conversarão sobre o exercício do pensamento, das ideias, da construção de relações sociais e afetivas que se iniciam na infância

Os escritores da Kapulana, Kely de Castro (Brasil), Maria Celestina Fernandes (Angola),  Laucílio Manjate e Ungulani Ba Ka Khosa (Moçambique) estarão presentes na Travessia das Letras1ª Festa Infantojuvenil da Língua Portuguesa, que será realizada em Oeiras, Portugal, nos dias 30 e 31 de março, no Parque dos Poetas – Templo de Poesia. A editora é membro apoiador do evento.

A participação desses escritores no evento é uma das atividades da Editora Kapulana sobre o Dia da Língua Portuguesa, dia 05 de maio. Essa data é comemorada pelos países da língua portuguesa que fazem parte da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

O evento conta com o apoio institucional da Missão do Brasil na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), da Embaixada do Brasil em Lisboa, do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua (I. P. do Camões,) do Centro Cultural Português em Maputo e da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas do Governo Português (DGLAB).

OBRAS DOS AUTORES CONVIDADOS

A Kapulana publicou no Brasil as seguintes obras dos escritores presentes no evento:

 

Travessia das Letras – 1ª Festa Infantojuvenil da Língua Portuguesa:

Data: 30 e 31 de março

Horário: das 10h às 18h

Entrada Gratuita

Endereço: Parque dos Poetas – Templo da Poesia (Rua José de Azambuja Proença, 2780-257, Oeiras – Portugal)

Programação oficial da Travessia das Letras: http://travessia2019.blogspot.com

14 de março de 2019

★★★

Para conhecer o catálogo da Kapulana, acesse: http://www.kapulana.com.br/catalogo/

 

Entrevista com Pepetela, por José dos Remédios

PEPETELA, um dos mais importantes escritores de Angola, concedeu essa entrevista ao jornalista José dos Remédios, do jornal O País, de Moçambique.

“O escritor deve ser capaz de criar empatia com o pior da terra”  (Pepetela)

Aprendeu a gostar de histórias era ainda verde, como a cor da alface. A mãe, uma professora e um amigo de infância, sem que se apercebessem disso, ajudaram-no a descobrir um grande escritor que morava dentro de si. E a descoberta teve como consequência transformar o pequeno menino contador de estórias num autor de utopias, dedicado no futuro sem deixar de trazer ao presente as cicatrizes do passado. Escreveu sobre a sociedade angolana como ninguém e, por via disso, projectou-se para o espaço da língua portuguesa e para o mundo inteiro. É um escritor sem fronteiras. A sua obra transborda o que mais interessa à literatura: a emoção sempre em sintonia com uma técnica de escrita inigualável. Chama-se Pepetela, e nesta entrevista fala-nos das especificidades da sua escrita, das suas convicções – como a de que nunca seria um neo-liberal –, de como a literatura pode ser usada para aproximar os povos africanos e dos problemas que abalam a Humanidade.  

1- Gostava de começar com uma pergunta que, de algum modo, sintetiza a sua obra. Cada livro seu reflecte, de forma satírica ou metafórica, determinados momentos da sociedade angolana e, consequentemente, dos países que mantêm uma acentuada ligação histórica com Angola – inclusive Moçambique. O que lhe leva a fazer da sua ficção um veículo que permite os seus leitores voltarem-se para o seu contexto social com um olhar mais crítico e consciente?

R- Se consigo isso, fico satisfeito. A intenção é mesmo a de chamar a atenção para determinadas problemáticas da Humanidade, embora geralmente os temas sejam inseridos na realidade que conheço melhor, a angolana.

2- No seu repertório, dois romances apresentam uma intertextualidade firme com a Literatura Moçambicana. Refiro-me a O cão e os caluandas, que dialoga com Nós matamos o Cão-Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, e Predadores, que dialoga com Apocalipse dos predadores, de Adelino Timóteo. Pensa na possibilidade de ao escrever sobre Angola tornar-se num autor reivindicado por outras literaturas africanas do ponto de vista identitário?

R- As nossas literaturas têm muitos pontos comuns, porque as sociedades e seus dilemas não diferem tanto assim. Mas coincidências de títulos não querem dizer muito, ou mesmo nada. O que interessa é o conteúdo.

3- Na sua opinião, como é que os povos africanos, com passado e presente muito comum, podem fazer da literatura a ponte que torne os territórios virtualmente mais próximos, de modo que não precisemos sair do continente para encontrar melhores conhecimentos sobre nós próprios?

R- O primeiro passo seria o de fazer conhecer as respectivas literaturas, o que na verdade não acontece. Os livros de países africanos circulam pouco fora do seu espaço natural, nacional. Tem havido tentativas aqui ou ali, por iniciativas de editoras. Mas a primeira barreira, falando de África no seu conjunto, é a da necessidade de traduções. Para países usando a mesma língua, a barreira principal é a pobreza que impede as pessoas de acederem aos livros, seus ou de outros. Organizações como a CPLP ou SADC deveriam ser um meio privilegiado para isso.

4- A literatura angolana já esteve próxima à moçambicana e aos PALOP. Sente que os laços do passado continuam presente?

R- Acho que sim. Como disse, ambas tratam de realidades semelhantes, quase com caminhos paralelos.

5- A certa altura d’O cão e os caluandas, uma voz diz: “o escritor deve ser cruel e desumano, é essa a sua humanidade”. Como autor empírico, concorda com essa afirmação?

R- Já passou muito tempo sobre a escrita desse livro, mas imagino que quisesse dizer que para entrar na cabeça de personagens de toda a natureza, desde os santos até aos mais loucos assassinos, o escritor deve ter essa capacidade de criar empatia com o pior que existe na face da Terra para poder descrever por dentro mesmo aquilo que lhe repugna. E só o ser humano pode fazer isso.

6- A imprevisibilidade caracteriza a sua escrita. Lueji, o nascimento de um império é um exemplo disso. Neste livro, desmistifica o estereótipo de que em África só o homem pode herdar o poder e erguer um império. Reactivando o enredo desse livro, Lueji, uma personagem com o dom da liderança e que encara o inimigo nos olhos, é a representação da mulher que os africanos precisam para mudar a sua condição de submissão em relação ao Ocidente, por exemplo, já que os homens parecem incapazes?

R- Boa pergunta. A um momento dado eu deixava as minhas amigas e camaradas dizerem que se fossem elas a liderar o mundo, tudo seria diferente. Bem, hoje já aparecem mulheres nos postos mais importantes do poder. E parece que as coisas não mudaram muito apenas por causa disso. De qualquer forma, devemos em livros ou de outra forma qualquer lutar para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades dos homens. Escrever esse livro inscrevia-se nessa linha. Mas a estória é baseada em mitos reais. E se houve mitos, é porque algo aconteceu de facto.

7- Em Lueji, Yaka, O desejo de Kianda ou Mayombe liberta-se aquele desabafo de Karl Liebknecht, político alemão, a de que o inimigo mais perigoso está perto de nós, se quisermos, nos nossos países. Usa a literatura para combater esse inimigo?

R- Não concordo muito com a tentativa de fazer da literatura uma arma de combate. Houve épocas em que se tentou isso, fracassando geralmente em termos de qualidade. Mas Liebknecht tinha razão, o pior inimigo vive connosco.

8- “A virtude dos governantes é terem os defeitos dos governados”, diz José António Barreiros na introdução de O Príncipe, de Maquiavel. Qual seria a virtude dos governados para acabarem com os governantes que traem a causa nacional na mesma proporção que Malongo, Caposso ou CCC, algumas das suas personagens?

R- Os governados deveriam ter a coragem de dizer não. E só de vez em quando temos essa coragem e na maior parte das vezes de forma isolada. Um NÃO de muitos ao mesmo tempo que se ouvisse na sociedade poderia fazer tremer os outros e não nós.

9- Quem lê os seus romances, apercebe-se que subverte, diria, as teorias literárias, na medida em que introduz no enredo uma entidade que não é narrador, personagem e nem autor textual, pelo menos não logo à partida. Essa entidade, às vezes, tem a autoridade de demitir o narrador ou de revelar o final da história que contraria a do narrador. É um cenário propositado?

R- Se todos escrevêssemos da mesma maneira, segundo manuais de academias, já ninguém nos lia porque todos os leitores morreriam de tédio. É só por uma questão de sobrevivência que tento de vez em quando surpreender o leitor.

10- Com os romances Jaime Bunda (O agente secreto e A morte do americano) mergulha os seus leitores no universo da literatura policial, que se tece com humor e algumas decepções amorosas pelo meio. Estes dois livros revelam-nos um escritor sensível à configuração dos espaços urbanos de Angola e dos cidadãos que neles habitam. Isso faz parte das suas preocupações literárias?

R- Tendo sido obrigado a viver em Luanda tantos anos, é normal que o espaço urbano se torne uma estrutura daquilo que escrevo. Escrevi vários livros passados em outros espaços, alguns rurais, outros quase indefiníveis. Mas a marca urbana acaba por se impor.

11- Já agora, voltaremos a ter o agente Jaime Bunda num outro livro? Coloco-lhe esta pergunta porque no segundo livro faltou-lhe o prazer literário que sentiu ao escrever o primeiro.

R. Não sei se haverá outro. Enquanto não me apetecer muito mesmo tratar esse personagem, ele fica na geleira.

12- O que contribui para que alguns livros escreva por prazer e outros por obrigação?

R. Eu procuro sempre escrever por prazer e recuso tratar temas propostos por outrem. Acho que nem seria capaz. Talvez seja no fundo ainda uma forma de rebeldia, de defender o meu último pedaço de liberdade.

13- Qual é a obra que lhe deu mais prazer de escrever?

R. É impossível escolher. Umas são mais difíceis, mas vencer a dificuldade também dá prazer.

14- Pedi que um leitor seu, o meu amigo Jaime Malendza, lhe fizesse uma questão. E ele pergunta: “Em A geração da utopia, um personagem faz apologia ao neo-liberalismo. Diante da falência dos ideais socialistas e neo-liberais, quais são as melhores ideias para o mundo actual?

R. Se eu tivesse resposta a isso, candidatava-me para um cargo qualquer. Mas neo-liberal nunca seria, nem cortado às postas. 

15- E à volta do mundo gira um dos melhores romances seus, O quase fim do mundo. Que metáfora é esta que põe em causa a ética, a moral e questiona as relações do mundo contemporâneo?

R. A metáfora está cada vez mais perto de se concretizar. O Homem é capaz de transformar a Terra em três Luas desertas, é só darem tempo para ele encontrar os meios. Em nome de um deus qualquer ou de uma filosofia. Pretextos não faltam.

16- Neste livro, a Humanidade quase que desaparece por culpa dela mesma. Em geral, sobram algumas comunidades isoladas de África. Quis nos lembrar que, apesar de toda diferenciação social, é este o berço da Humanidade, o continente que vai continuar a sobreviver a tudo…?

R. Que pelo menos foi onde tudo começou e a haver algum recomeço só poderia ser numa verde montanha com capim e alguns gorilas.

17- Quais julga que são as mazelas que conduzem o Homem quase que a uma extinção total, neste tempo, como acontece em O quase fim do mundo?

R. Existem muitas, desde a ganância à pobreza mental e à arrogância do ignorante. Sobretudo, a incapacidade de aprender com a História.

18- É um autor do povo, que, de tanto ouvir estórias do seu amigo Thor, na infância, transformou a escrita numa roda à volta da fogueira africana. Que sonhos a sua obra transporta?

R. Gostaria que transportasse os sonhos de muitos Thor, que transportasse o que prometíamos fazer quando enfrentávamos as tropas coloniais ou dos invasores seguintes, quando éramos puros e gostávamos realmente uns dos outros. Gostaria que fosse isso. Mas tenho a noção de não ter sido capaz, porque a vida nos trai sempre.

19- Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

R. Andre Brink, escritor sul-africano morto ano passado e que merecia um Nobel. E Ngugi Wa Thiongo, queniano refugiado nos Estados Unidos, que ainda pode recebê-lo.

Maputo, 11 de Fevereiro de 2016, no jornal O País.

Citar como: PEPETELA. Entrevista a José dos Remédios. 25 fev. 2019. [Publicada originalmente em O País. 11 fev. 2016. Cedida gentilmente à Editora Kapulana por José dos Remédios.]

Saiba mais sobre Pepetelahttp://www.kapulana.com.br/pepetela/

Saiba mais sobre José dos Remédioshttp://www.kapulana.com.br/jose-dos-remedios/

Livros de Pepetela no catálogo da Kapulana

O cão e os caluandas. São Paulo: Kapulana, 2019.
http://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

O quase fim do mundo. São Paulo: Kapulana, 2019. (em edição)
http://www.kapulana.com.br/produto/o-quase-fim-do-mundo/

Conheça as ilustrações do livro “Nina tem medo de palhaço”, realizadas pela artista Mariana Fujisawa

Além de abordar o conteúdo sobre o medo na infância, o livro também abrange as questões sociais e políticas no mundo, como as crianças em situação de risco e que passaram por várias perdas, fornecendo, assim, importante reflexão da atualidade

Nina tem medo de palhaço, escrito por Walter de Sousa, é o novo livro infantil publicado pela Kapulana. Na obra, Nina é uma menina que perdeu a casa e vive com mãe em um campo de refugiados. Corajosa, ela enfrenta de tudo, a única questão é o seu medo de palhaço. Mas e de palhaça? É quando conhece a palhaça Jurubeba que Nina aprende sobre as coisas e lugares e que o medo é um sentimento normal. Além de abordar o conteúdo sobre o medo na infância, o livro também abrange as questões sociais e políticas no mundo, como as crianças em situação de risco e que passaram por várias perdas, fornecendo, assim, importante reflexão da atualidade.

O livro é uma homenagem ao trabalho social e cultural da palhaça brasileira Gabi Sigaud Winter, a Jurubeba, e de todas as palhaças e palhaços que divertem e confortam crianças pelo mundo todo. A obra também homenageia os Palhaços sem Fronteiras (Clowns without Borders International) organização que atua desde 1993.

Nina tem medo de palhaço conta com as ilustrações de Mariana Fujisawa. Leia abaixo um depoimento da artista sobre o processo de desenvolvimento das maravilhosas artes presentes no livro:

Ilustrei o ‘Nina tem medo de palhaço’ sempre em contato com o autor e, principalmente, com a Gabi Winters – a palhaça Jurubeba. Foi uma grande preocupação que eu pudesse retratar esta história ao mesmo tempo com liberdade e fidelidade à situação vivida por crianças nos campos de refugiados ao redor do mundo. Para isso, recebi dezenas de fotos dos trabalhos da Gabi em vários países e campos, e me baseei nelas para compor personagens e cenários.  A técnica utilizada foi tinta guache e lápis de cor sobre um papel de cor terrosa. Enquanto o guache apresenta cores vibrantes, o lápis de cor enriquece as ilustrações com textura.  Procurei manter formas simples nos desenhos: a ideia é de que todos possam reconhecer e se empatizar rapidamente pelas situações vividas por Nina e seus amigos – mesmo que estas realidades pareçam muito distantes.
 
22 de fevereiro de 2019
 

Kapulana publica a obra infantil “Nina tem medo de palhaço”

O livro trata de um tema bastante recorrente no universo infantil: os medos das crianças e como lidar com eles

Em março, a Kapulana publica Nina tem medo de palhaço, obra infantil escrita pelo brasileiro Walter de Sousa e com ilustrações da artista Mariana Fujisawa. O livro trata de um tema bastante recorrente no universo infantil: os medos das crianças e como lidar com eles. Nina, a personagem título, passa a enfrentar seus medos após conhecer a palhaça Jurubeba.  A obra já está em pré-venda.

Em um ambiente indefinido – sem fronteira e sem espaço -, e além de abordar conteúdo sobre o medo na infância, a obra também abrange as questões sociais e políticas no mundo, como as crianças em situações de risco devido as condições dos refugiados na atualidade, fornecendo, assim, uma importante reflexão. Em um trecho, pode-se destacar a competente narrativa desenvolvida pelo autor, transformando em leitura fundamental para todas as idades:

– Você tem medo de alguma coisa? – perguntou Nina.
– Todo mundo tem medo. Até palhaça.
– Tem medo de ficar sem casa?
– Tenho medo de não poder mais dar risada.
Nina entendeu que rir era a casa de Jurubeba.

HOMENAGEM

O livro Nina tem medo de palhaço é uma homenagem ao trabalho social e cultural da palhaça brasileira Gabi Sigaud Winter, a Jurubeba, e de todas as palhaças e palhaços que divertem e confortam crianças pelo mundo todo, particularmente aquelas crianças em situação de risco, vulneráveis e que passaram por várias perdas, como as crianças de campos de refugiados. A obra também é uma homenagem aos Palhaços sem Fronteiras (Clowns without Borders International) organização que atua desde 1993.

15 de fevereiro de 2019

★★★

Saiba mais sobre a obrahttp://www.kapulana.com.br/produto/nina-tem-medo-de-palhaco/

Saiba mais sobre o autorhttp://www.kapulana.com.br/walter-sousa-jr/

Saiba mais sobre a ilustradorahttp://www.kapulana.com.br/mariana-fujisawa/

Saiba mais sobre a homenageadahttp://www.kapulana.com.br/gabi-sigaud-winter-palhaca-jurubeba/

Saiba mais sobre Palhaços sem Fronteirashttp://palhacossemfronteiras.org.br/?gclid=EAIaIQobChMImJz1_9y94AIViRCRCh0GFgQJEAAYASAAEgJzjfD_BwE

Confira cinco curiosidades sobre o livro “O cão e os caluandas”, de Pepetela

A Kapulana destaca cinco curiosidades importantes sobre o seu próximo lançamento, a obra do premiado escritor angolano Pepetela

  1. PRIMEIRA PUBLICAÇÃO NO BRASIL: Clássico da literatura angolana, publicado originalmente em 1985 em Angola e Portugal, a obra é inédita no Brasil – em pré-venda – e conta com um maravilhoso projeto editorial da Kapulana, assim como uma incrível ilustração de capa feita pela artista Mariana Fujisawa, que explicou o seu processo para esta obra:

“A ilustração da capa foi feita com aquarela. As cores remetem à praia. Por cima da tinta foi utilizado sal, que em contato com a tinta absorve parte da umidade e cria texturas e manchas, além de novamente remeter ao mar. A imagem do cão foi feita em carvão, técnica que permite pouca definição. Isso foi pensado porque a figura do cão na obra é construída de forma fragmentada e difusa”.

  1. ORIGINALIDADE NA ESCRITA: Em mais um enredo singular da trajetória literária de Pepetela, a obra aborda as histórias em Luanda, capital de Angola, na década de 1980, e trazem episódios e anedotas sobre as andanças do cão que leva título da obra. Os relatos, coletados por um autor anônimo, contam as diversas versões da vida do cão, seus diferentes donos, e os muitos lugares por onde passou e onde foi visto. Em O cão e os caluandas, Pepetela faz uma análise profunda e crítica do período após a Independência de Angola.

 

  1. O AUTOR: Nascido em 1941, em Benguela, Angola, Pepetela é licenciado em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Autor dos clássicos As aventuras de Ngunga (1973), Mayombe (1980), A geração da utopia (1992) e O quase fim do mundo (2008) – que também será publicado pela Kapulana -. Pepetela recebeu diversas homenagens literárias, como o Prêmio Camões, em 1997, um dos maiores da literatura, pelo conjunto da obra.

 

  1. SÉRIE VOZES DA ÁFRICA: A série nasceu de um projeto da Editora Kapulana para divulgar a literatura africana no Brasil. Com esse propósito, a fundadora da editora brasileira, que é doutora em Literatura e teve experiência como docente em Moçambique, passou a coordenar, a partir de 2015, a publicação de livros de origem africana. A série é composta por obras de ficção em prosa e poesia, dedicadas a crianças e a adultos. Já foram publicadas as obras de Ungulani Ba Ka Khosa, Luís Bernardo Honwana, Suleiman Cassamo, Noémia de Sousa, entre outros.

 

  1. LEIA UM TRECHO:

As cenas que se vão narrar passaram no ano de 1980 e seguintes, nessa nossa cidade de Luanda. No século passado, portanto. Século sibilino.

Peço esforço para compreenderem a linguagem, que é a da época em que aconteceram os casos. Os que conheceram o cão pastor-alemão deixaram os documentos escritos ou gravados, que me resumi a pôr em forma publicável. Foi preciso um inquérito rigoroso, muitas solas gastas, a procurar as pessoas e, sobretudo, convencê-las a falar, a escrever, ou a darem-me na candonga fotocópias de documentos. O pouco conseguido aí está. E ficou guardado muitos anos na gaveta, por promessa feita a alguns dos informadores benévolos. Hoje, passado tanto tempo, será difícil descobrir a maior parte dos narradores. Há pessoas mal intencionadas que só leem livros para neles encontrarem alusões a conhecidos. Mas aqui os segredos ficam resguardados. E mesmo os herdeiros não me podem vir exigir os direitos de autor, o que é uma vantagem.

Trata-se pois de estórias dum cão pastor-alemão na cidade de Luanda. Também se trata duma toninha, ser todo de espuma, algas como cabelos, que talvez só tenha vivido na minha cabeça. E na do cão, claro. Será mesmo só isso? Responda o leitor.

Mais previno que qualquer dissemelhança com fatos ou pessoas pretendidos reais foi involuntária.

Calpe, ano de 2002.

O autor.

 

1 de fevereiro de 2019

 

★★★

A obra: http://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

O autor: http://www.kapulana.com.br/pepetela/

Leia também – A crítica de Pepetela, por Tania Macêdo: http://www.kapulana.com.br/a-critica-de-pepetela-tania-macedo/

Volta às aulas: Kapulana faz indicações de leituras para estudantes da pré-escola ao ensino universitário

A Editora Kapulana indica livros de seu catálogo para estudantes da pré-escola ao ensino universitário para o ano de 2019!

INDICAÇÕES DE LEITURAS DA KAPULANA

PRÉ-ESCOLA

  • Sonho da lua – Sílvia Bragança – poesia – infantil – Moçambique.
  • Viagem pelo mundo num grão de pólen e outros poemas – Pedro P. Lopes– poesia – inf. – Moçambique.

FUNDAMENTAL I

  • Clarinha e Berenice e o Dicionário do Inesperado – Carolina Mondin – Brasil (inf./bilíngue).
  • Contos de Moçambique (volumes de 1 a 10) (contos infantis ilustrados)
  • Kalimba – Maria Celestina Fernandes – Angola (infantil).
  • Kambas para sempre – Maria Celestina Fernandes – Angola (infantil).
  • O jovem caçador e a velha dentuça – Lucílio Manjate – Moçambique (infantil).
  • Serei sereia? – Kely de Castro – Brasil (infantil/ inclusão social) .
  • Sonho da lua – Sílvia Bragança – Moçambique (poesia – infantil).
  • Titus e as galinhas – Aurélio de Macedo – Brasil (infantil/bilíngue).
  • Viagem pelo mundo num grão de pólen e outros poemas – Pedro P. Lopes – Moçambique (poesia – infantil).

FUNDAMENTAL II

  • A triste história de Barcolino, o homem que não sabia morrer – Lucílio Manjate – Moçambique (novela).
  • Nós matamos o Cão Tinhoso! – Luís Bernardo Honwana – Moçambique (novela).

MÉDIO

  • Esperança para voar – Rutendo Tavengerwei – Zimbábue (romance).
  • Nós matamos o Cão Tinhoso! – Luís Bernardo Honwana – Moçambique (novela).
  • A triste história de Barcolino, o homem que não sabia morrer – Lucílio Manjate – Moçambique (novela).
  • O caso de Pedro e Inês: Inês(quecível) até o fim do mundo – Francisco M. Silveira – Brasil (poesia/cordel).
  • O domador de burros e outros contos – Aldino Muianga – Moçambique (contos).
  • A noiva de Kebera, contos – Aldino Muianga – Moçambique (contos).
  • Sangue negro – Noémia de Sousa – Moçambique (poesia).

UNIVERSITÁRIO

  • Perto do Fragmento, a totalidade:  olhares sobre a literatura e o mundo – Francisco Noa – Moçambique (ensaios).
  • Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador – Ungulani Ba Ka Khosa – Moçambique (romance).
  • O cão e os caluandas – Pepetela – Angola (romance).
  • Império, mito e miopia:  Moçambique como invenção literária – Francisco Noa – Moçambique (ensaios).
  • Uns e outros na literatura moçambicana – Francisco Noa – Moçambique (ensaios).
  • Pensando o cinema moçambicano: ensaios  – Carmen Lucia Tindó Secco – Brasil (ensaios).
  • O cão e os caluandas – Pepetela – Angola (novela). em pré-venda.

31 de janeiro de 2019.

Saiba mais sobre as obras: http://www.kapulana.com.br/catalogo/

Saiba mais sobre os escritores: http://www.kapulana.com.br/nossos-autores/

 

 

 

Kapulana publica obra inédita no Brasil do premiado escritor angolano Pepetela

Em O cão e os caluandas, Pepetela faz uma análise profunda e crítica da situação do período após a Independência de Angola

Inédito no Brasil, o livro O cão e os caluandas, do consagrado escritor angolano Pepetela, narra os caminhos de um cão que, sucessivamente, é adotado por pessoas diferentes. A partir desse olhar do narrador, que revela as histórias das famílias que o adotam, o leitor passa a ter contato com o cenário histórico e político de Angola. O resultado é uma análise profunda e crítica da situação do período após a Independência de Angola. A obra já está em pré-venda e chega às livrarias na metade de fevereiro.

O livro, da série Vozes da África, criada pela Kapulana, aborda as histórias em Luanda, capital de Angola, na década de 1980, e trazem episódios e anedotas sobre as andanças do cão que leva título da obra, que invade desde passeatas até reuniões de sindicato, sempre lembrando ao leitor e os caluandas – palavra para designar os moradores de Luanda – deste pedaço do colonizador deixado para trás. Os relatos, coletados por um autor anônimo, contam as diversas versões da vida do cão, seus diferentes donos, e os muitos lugares por onde passou e onde foi visto. Há um poeta, uma prostituta, um funcionário público, um mecânico, diversas pessoas que conheceram o cão de alguma maneira.

Pepetela

Nascido em 1941, em Benguela, Angola, Pepetela é licenciado em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Autor dos clássicos As aventuras de Ngunga (1973), Mayombe (1980), A geração da utopia (1992) e O quase fim do mundo (2008). Pepetela recebeu diversas homenagens literárias, como o Prêmio Camões, em 1997, um dos maiores da literatura, pelo conjunto da obra.

Série Vozes da África

A série “Vozes da África” nasceu de um projeto da Editora Kapulana para divulgar a literatura africana no Brasil. Com esse propósito, a fundadora da editora brasileira, que é doutora em Literatura e teve experiência como docente em Moçambique, passou a coordenar, a partir de 2015, a publicação de livros de origem africana. A série é composta por obras de ficção dedicadas a crianças e adultos.

29 de janeiro de 2019.

★★★

Saiba mais sobre a obra: http://www.kapulana.com.br/produto/o-cao-e-os-caluandas/

Saiba mais sobre o autor: http://www.kapulana.com.br/pepetela/

Leia – A crítica de Pepetela, por Tania Macêdo: http://www.kapulana.com.br/a-critica-de-pepetela-tania-macedo/

TANIA MACÊDO

TANIA MACÊDO fez Graduação, Mestrado e Doutorado na USP. É professora aposentada da Unesp (Universidade Estadual Paulista), campus de Assis.

Atualmente é Professora Titular de Literaturas Africanas na Universidade de São Paulo (USP), onde leciona cursos de Graduação e Pós-Graduação. 

Sua trajetória acadêmica e como pesquisadora foi voltada, majoritariamente, para os estudos da voltados para as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, especialmente de Angola.

 OBRAS DA KAPULANA

“A crítica de Pepetela”. Prefácio. In: O cão e os caluandas, de Pepetela, 2019.

 

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Angola e Brasil: estudos comparados. São Paulo: Arte e Ciência, Via Atlântica, 2002.
  • Luanda, cidade e literatura. São Paulo: Fundação Editora Unesp, 2008.
  • Mia Couto, um convite à diferença (em coautoria). São Paulo: Humanitas, 2013.
  • Les littératures du Maghreb et d’Afrique subsaharienne (em coautoria). Frankfurt: Peter Lang, 2016.

A crítica de Pepetela, por Tania Macêdo

Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, é um dos marcos incontornáveis da literatura angolana contemporânea. Nascido em Benguela, sua trajetória política liga-se intimamente ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), quer pela participação ativa na guerra pela independência de seu país – em que chegou ao posto de Comandante – quer pelas funções que no jovem Estado passou a assumir, dentre as quais a de Vice-Ministro da Educação.

Com uma experiência vinculada aos caminhos de Angola e ao partido que assumiu o poder logo após a independência a 11 de novembro de 1975, Pepetela, entretanto, não deixa à margem as críticas ao Partido e aos (des)caminhos da administração de seu país. Desde os seus primeiros romances, como As aventuras de Ngunga (1979) ou Mayombe (1980), percebe-se que  os deslizes e falhas das autoridades e do governo como um todo são revelados e discutidos, fazendo com que o leitor  possa situar-se frente ao texto e à realidade por ele narrada.

O pequeno livro de Pepetela, O cão e os caluandas (calus), traz uma grande história e remete a Luanda, na medida em que “caluanda” é como os habitantes de Luanda são chamados. Composto de pequenos quadros da cidade capital no pós-independência, é a partir da figura de um cão pastor alemão, que ninguém sabe a quem pertence, que os vários estratos da sociedade angolana dos anos pós 1975 são focalizados. Se o cachorro é o ponto de ligação entre as várias personagens, que por um breve tempo pretendem-se seus donos, chama a atenção que as informações sobre ele são dadas por personagens de várias camadas sociais, em depoimentos a um narrador.

Entre os vários depoimentos em primeira pessoa, temos desde um jovem que se pretende poeta, mas na verdade é um indolente e aprendeu o vocabulário da luta de classes a partir de citações de textos de Marx lidos no jornal, representante daqueles que somente recitam o que o partido afirmava nos meios de comunicação, mas não colaboravam de fato para a construção da jovem nação, até o funcionário público corrupto ou o “tribalista” que fomentava as diferenças entre as várias etnias de Angola. A partir de diversos depoimentos ao romancista que deseja saber mais sobre o cão, desenha-se um retrato bastante crítico da Angola dos primeiros tempos da independência, na medida em que Luanda é uma espécie de metonímia de todo o país. Dessa forma, é possível verificar como a postura socialista adotada pelo governo é apenas superficial nas pessoas, que vivem e propõem “esquemas”, ou seja, “jeitinhos” que, afinal, são formas diversas, mais ou menos, brandas de corrupção.

Tendo em vista que o livro apresenta maneiras diferentes de contar a história do cão cujo nome varia de dono para dono, utilizando discursos como o da Ata de reunião de uma fábrica, uma peça de teatro ou ainda um artigo de jornal, percebe-se que o narrado vai além das peripécias de um cão e suas andanças, pois vão surgindo as vidas de várias camadas sociais logo depois da independência de Angola, além dos dramas pessoais, como o adultério ou os ciúmes. E, assim, aguça-se ainda mais a curiosidade do leitor: o que e a quem pertenceria de fato o Cão?

Além das diversas formas de narrar, surgem ainda uma árvore e um animal marinho, respectivamente a buganvília (Bougainvilleas) – árvore conhecida entre nós como primavera, três-marias ou flor-de-papel, que não para de crescer e se fortalecer – e a doninha.

Sobre a árvore, vemos que ela se relaciona com o cão, na medida em que o seu crescimento é cada vez mais inquietante para ele, que passa a odiá-la. Ao pensarmos que o animal não se liga a personagens corruptas ou venais, podemos pensar que a árvore poderia remeter a tudo de mal que o corpo social daquele período apresentava, ao contrário do cão que procurava por valores autênticos.

Quanto à doninha, é melhor deixar ao leitor uma reflexão a respeito, lembrando como ela pode remeter à beleza, à extensão do mar e ao amor.

Como afirmamos,  O cão e os caluandas é um pequeno livro que conta uma grande história: a história de um país heroico que fez a sua independência, resistiu a uma guerra, mas também a história menos nobre do mesmo país assolado pela corrupção, pelas assimetrias internas, inclusive de gênero. Dessa forma, O cão e os caluandas é um texto indispensável para quem quiser conhecer boa literatura e a Angola contemporânea.

São Paulo, 14 de dezembro de 2018.

Tania Macêdo é Professora Titular de Literaturas Africanas da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo)

Citar como:

O ARTIGO:
MACÊDO, Tania. “A crítica de Pepetela”, Prefácio. In. PEPETELA. O cão e os caluandas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África] Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/a-critica-de-pepetela-tania-macedo/>

O LIVRO:
PEPETELA. O cão e os caluandas. São Paulo: Kapulana, 2019. [Vozes da África]

Em parceria com a Kapulana, Biblioteca Mário de Andrade realiza clube de leitura da obra “O que acontece quando um homem cai do céu”, de Lesley Nneka Arimah

Encontro literário abordou a originalidade dos contos escritos pela autora 

Na última quarta-feira, 9 de janeiro,  a Biblioteca Mário de Andrade realizou o Clube de Prosa da Mário com o livro O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley Nneka Arimah, publicado pela Kapulana. Com mais de trinta leitores e leitoras, foram discutidos os doze contos que contemplam a obra, destacando a originalidade e a atualidade dos temas desenvolvidos pela autora. 

Em seu livro de estreia, Arimah desenvolve as diversas formas literárias que abrangem o insólito, a distopia, as memórias da guerra na Nigéria, as relações entre mãe e filha, a convivência humana com as tecnologias, a infância e o embate entre as tradições de seus familiares e o cotidiano na América, muitas vezes com uma visão afrofuturista. Lesley nasceu no Reino Unido, viveu na Nigéria e agora mora nos EUA. O livro fez parte das listas de “Melhores de 2018” nas mídias especializadas em literatura, como o “Suplemento Pernambuco”, a “CartaCapital” e o “Plano Crítico”.

★★★

Saiba mais sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/lesley-nneka-arimah/

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/o-que-acontece-quando-um-homem-cai-do-ceu/

GABI SIGAUD WINTER, palhaça JURUBEBA

GABI SIGAUD WINTER é a palhaça brasileira JURUBEBA, criadora e diretora da “Clownbaret”, companhia de palhaços que atua desde 2009 Brasil afora. É colaboradora das organizações “Clowns Without Borders EUA” e do “Palhaços sem Fronteiras Brasil”, trabalhando em locais de vulnerabilidade social ou após alguma catástrofe natural como terremotos ou furacões.

El Salvador, Equador, San Martin, Turquia, México e Quênia (Kakuma, um dos maiores campos de refugiados do mundo), foram alguns dos locais onde já esteve pelo mundo, além de projetos dentro do Brasil e principalmente na cidade de São Paulo. Gabi é diretora de teatro e treinadora de palhaços dentro do seu projeto “Aclowndemia de Treinamento Palhacístico”.

OBRA DA KAPULANA

  • Gabi, a palhaça Jurubeba, é homenageada pelo escritor Walter de Sousa,  em seu livro Nina tem medo de palhaço, da Editora Kapulana.

PRÊMIO

  • Melhor atriz no festival Sofie Awards de NY com o curta “Entre Lágrimas e Risos”. Direção: Marcos Alberti, Leo Saito e Rubens Marinelli. Roteiro: Matheus Hruschka e Rubens Marinelli.

Conheça os livros da Kapulana para 2019

O catálogo inclui autores angolanos, nigerianos, moçambicanos, zimbabuenses e brasileiros, como Pepetela, Akwaeke Emezi, Adelino Timóteo, Tsitsi Dangarembga, Walter Sousa Jr. e Marcelo Jucá

A Kapulana divulgou o seu calendário de publicações para 2019. O catálogo inclui autores angolanos, moçambicanos, zimbabuenses e brasileiros. Entre os títulos estão as obras O cão e os caluandas e O quase fim do mundo, ambas do consagrado autor angolano Pepetela, e o romance Cemitério dos pássaros, do moçambicano Adelino Timóteo. A editora também lançará duas obras infantis de autores brasileiros, com temáticas que abordam reflexões socais acerca de temas atuais: Nina tem medo de palhaço, de Walter de Sousa Júnior, e Ilha, de Marcelo Jucá – este, vencedor do concurso “Seja Nosso Autor”, promovido pela Kapulana.

Dando continuidade às publicações de autores africanos de língua inglesa – projeto que teve início em 2018 para o catálogo da editora -, a Kapulana prepara o livro Nervous conditions, da escritora e cineasta Tsitsi Dangarembga, do Zimbábue, premiado e classificado entre os 12 primeiros livros no ranking dos “100 Melhores Livros Africanos do Século XX”, e contemplado, em 2018, na lista da BBC de “100 Histórias que Formaram o Mundo”. A obra retrata a história da uma família Shona, durante o período pós-colonial, no Zimbábue (Rodésia, antes da independência). O aclamado Freshwater, de Akwaeke Emezi, da Nigéria, utiliza uma linguagem crua e, ao mesmo tempo, sensível, a obra celebra a possibilidade do ser múltiplo, os muitos “eus” que podem existir dentro de qualquer um. Já em Minha irmã, a serial killer, Oyinkan Braithwaite, também da Nigéria, conta uma história ao mesmo tempo bem-humorada e assustadora sobre duas irmãs com temperamentos e atitudes bem diferentes uma da outra.

Leia as sinopses de cada obra: http://www.kapulana.com.br/proximos-lancamentos/?mc_cid=44f2daace9&mc_eid=d9a246dbcb

Conheça os autores: http://www.kapulana.com.br/nossos-autores/

Saiba mais sobre a Editora Kapulana: http://www.kapulana.com.br/a-editora/

TSITSI DANGAREMBGA

TSITSI DANGAREMBGA nasceu na Rodésia, hoje Zimbábue. É escritora, cineasta, dramaturga, poeta, professora e mentora. Atualmente vive em Harare, capital do Zimbábue, com seu marido e dois filhos.

Fez seus anos escolares iniciais no Zimbábue, e seus estudos universitários na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e na Universidade do Zimbábue. Tem mestrado, com honras, em Cinematografia pela Academia Alemã da Cinema e Televisão de Berlim (1996).

Tsitsi é feminista e ativista. É idealizadora e diretora de diversos projetos e programas que dão suporte financeiro e técnico para mulheres que atuam como artistas e cineastas no Zimbábue e na África como um todo. Entre eles estão o Institute of Creative Arts for Progress in Africa que, sob o lema “Quando mudamos a África, mudamos o mundo”, financia peças de arte transformadoras, com especial ênfase na abertura de portas e caminhos para jovens que trabalham com cinema, especialmente mulheres.

Outro projeto é African Women Filmmakers’ Hub (AWFH), um programa pan-africano de treinamento, mentoria e desenvolvimento de capacidades para cineastas africanas, presente em onze países da África. Esse projeto continua o trabalho que ela começou como Presidente do Women Filmmakers of Zimbabwe, posição que ocupou de 2000 a 2005. 

Além de atuar na área do cinema, sua obra inclui livros de literatura e peças para teatro.

Tsitsi Dangarembga foi a primeira mulher negra do Zimbábue a publicar um livro em inglês: Nervous conditions (1988).  É o primeiro volume da trilogia Tambudzai, da qual fazem parte Nervous conditions (1988), The book of Not (2006) e This mournable body (2018).

Atualmente, ela está trabalhando em seu quarto livro, Sai-sai and the great ancestor of fire, uma obra young adult de ficção de distopia especulativa.

Em teatro, um dos destaques é o livro She no longer weeps, atualmente adotado nas escolas secundárias do Zimbábue.

OBRA DA KAPULANA:

 
OBRA SELECIONADA:

Literatura e Teatro

  • 1983 – The lost of the soil. Harare: Universidade do Zimbábue.
  • 1987 – She no longer weeps (peça). Harare: College Press Publishers.
  • 1985 – “The letter” (conto), em Whispering Land: An Anthology of Stories by African Women. Estocolmo: Tsitsi Dangaremba e Swedish International Development Agency.
  • 1988 – Nervous conditions. Reino Unido: The Women’s Press Ltd.
  • 2004 – Nervous conditions. Reino Unido: Ayebia Clarke Publishing Ltd.
  • 2006 – The book of Not. Reino Unido: Ayebia Clarke Publishing Ltd.
  • 2018 – This mournable body. Estados Unidos: Graywolf Press. 

Cinema

  • 1993 – Neria (autoria).
  • 1996 – Everyone’s child (coautoria e direção).
  • 2000 – Hard earth: land rights in Zimbabwe. Nyerai Films.
  • 2004 – Mother’s day (curta-metragem). Melhor Curta Africano, Cinema Africano, Milão, em 2005; Melhor Curta no Festival Internacional de Cinema do Zanzibar, 2005; Melhor Curta no Festival de Cinema do Zimbábue, 2004).
  • 2010 – I want a wedding dress (longa-metragem).
  • 2011 – Nyami Nyami and the evil eggs (curta-metragem musical).
  • 2012 – Kuyambuka (Going Over): cross boarder traders. (documentário; produção).

PRÊMIOS e DESTAQUES

  • 1989 – Nervous conditions: vencedor do The Commonwealth Writer’s prize Africa.
  • 2007 – National Arts Merits Awards Arts Personality of the Year.
  • 2008 – National Arts Merit Award for Service to the Arts.
  • 2008 – Zimbabwe Institute of Management Award for National Contribution.
  • 2012 – Zimbabwe International Film Festival Trust Safirio Madzikatire for Distinguished Contribution to Film.
  • 2018 – Nervous conditions:  Um dos 100 livros que moldaram o mundo (BBC).

Saiba mais sobre a escritora:

AKWAEKE EMEZI

AKWAEKE EMEZI nasceu em 1987, na Nigéria, em Umuahia, mas cresceu em Aba. Atualmente vive nos Estados Unidos.

Em 2017, recebeu uma bolsa do “Global Arts Fund”para realizar a videoarte de seu projeto The Unblinding, e uma bolsa “Sozopol Fellowship for Creative Nonfiction”.

Akwaeke identifica-se como Ọgbanje, palavra da cultura Igbo que significa um espírito intruso que nasce em uma forma humana, e que resultaria em uma criança com um terceiro gênero. Traduzindo isto para sua realidade terrena, Akweke nasceu em um corpo feminino, mas não é mulher, identificando-se como trans e utilizando pronomes neutros para se referir a si. No texto Transition: My surgeries were a bridge across realities, a spirit customizing its vessel to reflect its nature, publicado no site The Cut, Akwaeke fala de suas cirurgias e experiências para adequar seu espírito à realidade física.

OBRA DA KAPULANA

Água doce. Tradução: Carolina Kuhn Facchin. São Paulo, 2019. (Em tradução)

OBRA ORIGINAL

  • Who is like God (conto). Londres: Granta Publications, 2017.
  • Freshwater. Nova York: Grove Press, 2018.

DESTAQUES

  • Em 2017, seu conto Who is like God ganhou o “Commonwealth Short Story Prize for Africa”.
  • Água doce (Freshwater), uma autobiografia ficcionalizada, é a obra de estreia de Akwaeke Emezi, lançada em 2018.
  • Akwaeke Emezi está entre os homenageados da National Book Foundation ‘5 Under 35’, de 2018.
  • Água doce (Freshwater) é finalista do “First Novel Prize da Center for Fiction” e foi pré-finalista do “Aspen Words Literary Prize”.
  • Traduzido para seis línguas, o livro é um dos “100 Notable Books de 2018”, do jornal New York Times.
  • O livro foi pré-finalista do “Carnegie Medal of Excellence” e do “The Brooklyn Public Library Literary Prize”.
  • O livro foi “Escolha do Editor”, do New York Times Book Review e recebeu resenhas elogiosas do New York Times, Wall Street Journal, New Yorker, Guardian e LA Times, entre outros.
  • Os textos de Akwaeke foram publicados pela T Magazine, Dazed Magazine, The Cut, Buzzfeed, Granta Online, Vogue.com, e Commonwealth Writers, entre outros.

Kapulana participa de roda de conversa “Como Montar e Gerir Uma Editora Independente” no Sesc Paulista

Diretora e fundadora da Kapulana conversou sobre o desenvolvimento da editora em encontro no Sesc Avenida Paulista

A diretora editorial da Kapulana, Rosana Weg, participou, em novembro, no Sesc Avenida Paulista, de uma roda de conversa sobre como desenvolver uma editora independente. Intitulada “Como Montar e Gerir uma Editora Independente”, o bate-papo contou também com as presenças dos editores Eduardo Lacerda, da Patuá; Marcelo Nocelli, da Reformatório; e Marciano Ventura, da Ciclo Contínuo.  A mediação ficou a cargo do escritor e produtor cultural Jorge Ialanji Filholini. 

No encontro, os quatro editores conversaram sobre as fases do mercado editorial brasileiro, como são escolhidas as obras e autores que farão parte do catálogo, a elaboração do material físico e/ou virtual do livro, os meios de comunicação na divulgação e promoção dos livros, o lançamento, relação com as livrarias, os eventos literários e, assim, as vendas. O bate-papo aprofundou um pouco do desenvolvimento e dinâmica das editoras independentes no Brasil.

 

Editora Kapulana traz mais uma vez ao Brasil o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa para lançamento de novo livro sobre o imperador Gungunhana

O premiado escritor moçambicano esteve em novembro no Brasil para lançar seu novo livro e participar de diversos eventos culturais e acadêmicos no país

O premiado escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa esteve em novembro no Brasil para realizar o lançamento de seu novo livro Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador, publicada pela Editora Kapulana, além de participar de eventos pelo país onde conversou sobre a sua trajetória literária. O autor passou pelas cidades de São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Salvador.

O livro é composto por duas obras em um só volume. As duas obras têm o imperador Gungunhana como elo. Na primeira história, publicada em 1987, Ualalapi, classificado em rancking internacional entre “os 100 melhores romances africanos do século XX”, conta a história de Gungunhana, de sua ascensão à sua queda. Na segunda história, As mulheres do Imperador (2018), Ungulani traz de volta a mesma personagem Gungunhana, mas as protagonistas são suas mulheres, que são separadas do Imperador no exílio e retornam a Moçambique após quinze anos de isolamento.

Em São Paulo

Na Universidade de São Paulo (USP), em 5 de novembro, seu primeiro encontro no país, o escritor compartilhou com o público, durante a programação do “XVIII Encontro de Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa”, a sua carreira na escrita literária e a nova edição de Ualalapi, obra bastante estudada no país. O encontro contou com a participação da diretora da Kapulana, Rosana Weg, que explicou o processo editorial do novo volume, e da pesquisadora Jaqueline Kaczorowski, que conversou com o autor sobre Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. Segundo Ungulani:

“A literatura tem dessas pretensões de não moralizar os personagens que escolhemos, torna-se importante socializar essas figuras histórias. A minha vontade foi tentar deixar o Gungunhana mais humano. Já em “As mulheres do Imperador” eu quis encontrar o ponto certo e entrar naquele universo. O escritor escolhe um enredo e entrega o resultado de corpo e alma”.

Na Blooks Livraria, do Shopping Frei Caneca, em São Paulo, na noite do dia 12 de novembro, o autor bateu um papo com o jornalista e crítico literário Rodrigo Casarin. Durante a conversa, Ungulani destacou a homenagem que prestou às esposas de Gungunhana, e a todas as mulheres, em sua mais recente obra:

“Foi uma ideia que eu vinha tendo ultimamente e, de repente, enxerguei um tema que dá para eu tratar sobre isto. Procurei por documentos sobre elas e não encontrei nada. Anos depois recebi alguns documentos se tratando do exílio delas em São Tomé, capital de São Tomé e Príncipe, e, à medida que fui analisando, percebi o papel secundário que a História renega às mulheres”.

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Campinas-SP, no dia 14 de novembro, Ungulani esteve com estudantes de diversos cursos, inclusive estudiosos de suas obras. O encontro foi organizado pelo GELCA – Grupo de Estudos de Literaturas e Culturas Africanas e mediado pela Profa. Dra. Elena Brugioni. Contou com as presenças da pesquisadora Natasha Magno e da diretora da Kapulana, Rosana Weg.

Ainda em São Paulo, em 23 de novembro, Ungulani Ba Ka Khosa participou de mesa de debate no “II Seminário A língua portuguesa na educação, na literatura e na comunicação”, promovido pela CPCLP, Comissão para a Promoção de Conteúdo em Língua Portuguesa, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), realizado no Sesc – Centro de Pesquisa e Formação. Participaram do bate-papo o escritor moçambicano e a premiada escritora brasileira Maria Valéria Rezende, sob a mediação da escritora e jornalista Josélia Aguiar. Os convidados debateram com o público presente sobre sua produção literária, sua experiência em educação, e também sobre as principais influências culturais e literárias em suas obras. Na ocasião, Ungulani realizou o lançamento, com sessão de autógrafos, da edição brasileira de Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador.

No Rio de Janeiro

Na cidade carioca, Ungulani Ba Ka Khosa, participou de dois eventos organizados para a sétima edição da Festa Literária das Periferias, FLUP, realizada no Cais do Valongo.

Em 7 de novembro, na Flup Parque, Ungulani conversou com alunos do ensino fundamental da região sobre o seu processo de desenvolvimento do livro infantil O rei mocho – que faz parte da série Contos de Moçambique, publicada pela Kapulana -, assim como sobre sua experiência como educador.

Em 9 de novembro, na Flup, realizou o lançamento nacional da obra Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador e compartilhou a sua experiência literária ao lado dos pesquisadores e escritores brasileiros Tom Farias e Djamila Ribeiro. Em uma noite de teatro cheio, Ungulani destacou a importância da literatura no país moçambicano:

“A literatura tem desempenhado o papel de recuperar a memória, porque a memória é uma amnésia em nosso país. As elites que nascem no nosso continente muitas vezes se afastam de seu chão cultural. Desta forma, as jovens gerações perdem as suas ancestralidades. No entanto, para encontrá-los e trazê-los de volta para a nossa cultura, eu faço por meio da literatura. E se não consigo desta maneira, acabo não sendo ninguém para este mundo”

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, participou de vários encontros sobre literatura e cinema de Moçambique, em seminário organizado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco: “Literaturas Africanas & Cinema & História: olhares múltiplos, perspectivas críticas, leituras cruzadas”:

Em 21 de novembro, debate e lançamento do livro de ensaios organizado da Profa. Carmen L. T. Secco, publicado pela Editora Kapulana: Pensando o cinema moçambicano – ensaios.

Em 22 de novembro, debate e lançamento do livro da Kapulana, Gungunhana: Ualalapi e as Mulheres do Imperador, seguido de sessão de autógrafos.

Recebido por estudantes, professores, pesquisadores de sua obra literária e da cultura moçambicana em geral, Ungulani conversou sobre o seu processo criativo em geral e sobre a obra Ualalapi (1987), e sobre sua mais recente obra As mulheres do imperador (2018), juntas agora na edição brasileira da Kapulana.

Em Salvador

Em sua 13ª edição, a já tradicional “Balada Literária” convidou o escritor Ungulani Ba Ka Khosa para a sua programação realizada em Salvador (BA).

Em 17 de novembro, na Casa do Benin, no Pelourinho, o escritor moçambicano participou da mesa “Sei dos caminhos – Moçambique e Brasil”, ao lado dos professores e escritores Nelson Maca, também curador da Balada na Bahia, Wesley Correia e Rodrigo Dultra. Ungulani falou sobre o seu processo criativo e da sua paixão pela Literatura. Depois da conversa, o escritor moçambicano lançou Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador.

O escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa ainda visitou livrarias brasileiras, no Rio e em São Paulo, onde seus livros estão à venda. Lá encontrou os livros publicados pela Kapulana no Brasil: O rei mocho, Orgia dos Loucos e o mais recente Gungunhana. Nessas visitas, os profissionais do livro tiveram a oportunidade rara de conhecer pessoalmente um grande escritor de ficção moçambicana.

São Paulo, 27 de novembro de 2018.

***

FOTOS das atividades:

SÃO PAULO

05/11/2018 – Encontro com o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa na USP, em São Paulo, SP.

http://www.kapulana.com.br/05-11-2018-encontro-com-o-escritor-mocambicano-ungulani-ba-ka-khosa-na-usp-em-sao-paulo-sp/

12/11/2018 – Resistência na Literatura: bate-papo com Ungulani Ba Ka Khosa, na Blooks Livraria, em São Paulo, SP.

http://www.kapulana.com.br/12-11-2018-resistencia-na-literatura-bate-papo-com-ungulani-ba-ka-khosa-na-blooks-livraria-em-sao-paulo-sp/

14/11/2018 – Encontro com o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, na Unicamp, Campinas, SP.

http://www.kapulana.com.br/14-11-2018-encontro-com-o-escritor-mocambicano-ungulani-ba-ka-khosa-na-unicamp-sp/

23/11/2018 – Lançamento de Gungunhana: Ualalapi e as Mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, no Sesc Centro de Pesquisa e Formação, em São Paulo, SP.

http://www.kapulana.com.br/lancamento-de-gungunhana-ualalapi-e-as-mulheres-do-imperador-de-ungulani-ba-ka-khosa-no-sesc-centro-de-pesquisa-e-formacao-em-sao-paulo-sp/nggallery/page/1

 

RIO DE JANEIRO

22/11/2018 – Lançamento de Gungunhana: Ualalapi e as Mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, na UFRJ, Rio de Janeiro, RJ.

http://www.kapulana.com.br/lancamento-e-sessao-de-autografos-do-livro-gungunhana-de-ungulani-ba-ka-khosa-na-ufrj-rj/

 

SALVADOR

17/11/2018 – Ungulani Ba Ka Khosa na Balada Literária de Salvador, BA.

http://www.kapulana.com.br/ungulani-ba-ka-khosa-na-balada-literaria-de-salvador-ba/

 

VÍDEOS com o escritor:

Flup Parque (07/11/2018) – Rio de Janeiro, RJ

https://www.facebook.com/FlupRJ/videos/345874612637916/

FLUP (09/11/2018) – Rio de Janeiro, RJ

https://www.facebook.com/FlupRJ/videos/vl.1966763803623029/2109192102465286/?type=1

https://www.facebook.com/FlupRJ/videos/vl.319463598867952/254753368535403/?type=1

 

ENTREVISTAS E LEITURAS de texto com o autor, para a Editora Kapulana, São Paulo, SP.

Entrevista: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-ungulani-ba-ka-khosa-autor-de-gungunhana-ualalapi-as-mulheres-do-imperador/

Entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=ZI-PMk9HrA4&t=8s

Leitura de trechos: https://www.youtube.com/watch?v=2X_t52b4xwA

 

ARTIGOS E MATÉRIAS sobre a obra:

Por Rita Chaves (Profa. da USP): http://www.kapulana.com.br/ualalapi-a-narrativa-e-os-ciclos-por-rita-chaves/

Por Carmen Lucia Tindó Secco (Profa. da UFRJ): http://www.kapulana.com.br/as-mulheres-do-imperador-entrelaces-de-historias-e-estorias-por-carmen-l-tindo-secco/

Por José dos Remédios (jornalista de Moçambique): http://www.kapulana.com.br/a-degradacao-da-personagem-em-gungunhana-por-jose-dos-remedios/

Jornal O GLOBO (RJ): Destaques culturais na Semana da Consciência Negra: https://oglobo.globo.com/cultura/selecionamos-destaques-culturais-na-semana-da-consciencia-negra-23244197

SOBRE OS LIVROS DO AUTOR publicados pela Kapulana:

Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador: http://www.kapulana.com.br/produto/gungunhana-ualalapi-as-mulheres-do-imperador/

O rei mocho: http://www.kapulana.com.br/produto/o-rei-mocho-1-contos-de-mocambique/

Orgia dos loucos: http://www.kapulana.com.br/produto/orgia-dos-loucos/

 

SOBRE O AUTOR: http://www.kapulana.com.br/ungulani-ba-ka-khosa/

Cinco curiosidades sobre “Um dia vou escrever sobre este lugar”, de Binyavanga Wainaina

A Kapulana destacou cinco curiosidades importantes sobre o seu próximo lançamento, a obra de memórias de um dos escritores mais geniais da atualidade

  1. O Livro

Publicado pela primeira vez em Língua Portuguesa, com impecável trabalho editorial da Kapulana, em Um dia vou escrever sobre este lugar, Binyavanga Wainaina, a partir de suas memórias da infância à vida adulta, apresenta-nos nessa preciosa obra literária, um retrato pessoal, político e cultural da África, a partir de sua vivência no  Quênia, seu país natal, e em outros países onde viveu, como a África do Sul, Uganda, Gana e Togo. Para celebrar este livro incrível, a editora realizou uma parceria com a TAG – Experiências Literárias. O livro está à venda na TAG Loja (compre aqui) do período de 5 a 25 de novembro. No site da Kapulana e nas demais livrarias, o livro estará à venda a partir de 26 de novembro.

  1. O Autor

Binyavanga Wainaina é um defensor incansável da África, do poder do continente africano a partir de suas raízes e seu povo. Fala abertamente sobre questões referentes à realidade LGBTQ+ na África em comparação à realidade de outros países. Nasceu em Nakuru, Quênia, em 18 de janeiro de 1971.

Estudou Economia na África do Sul, mas desistiu do curso até perceber que sua vocação era, de fato, a escrita. Em 2002, ganhou o “Caine Prize for African Writing”, com “Discovering home”, sobre uma viagem com a família para Uganda. No ano de 2008, com o ensaio “How to write about Africa” ganhou reconhecimento mundial.  Em 2011 lançou o livro One day I will write about this place, seu livro de memórias. No ano de 2016, Dia Mundial de Combate à AIDS, o autor assumiu, em seu perfil do Twitter, que é HIV positivo e vive muito bem. 

  1. A obra foi indicada pela escritora Chimamanda Adichie 

Em outubro de 2017, quando foi curadora do clube de assinantes da TAG – Experiências Literárias, a renomada escritora nigeriana Chimamanda Adichie destacou Um dia vou escrever sobre este lugar, que ainda não havia sido publicado no Brasil, como um dos seus cinco livros favoritos. Confira aqui.

  1. Um livro aclamado pela crítica mundial 

“Wainaina é um cantor e pintor de palavras. Ele faz você cheirar, escutar, tocar, ver e, acima de tudo, sentir o drama e as vibrações da vida abaixo da superfície capturada de forma brilhante e concreta do Quênia e da África. Estas memórias explodem com vida e risadas e compaixão em todas as linhas e parágrafos” (Ngũgĩ wa Thiong’o, aclamado escritor queniano)

“O caminho de Wainaina até se tornar um escritor está entrelaçado à sua busca por sua identidade, por pertencer à sua família e, ao mesmo tempo, criar um retrato hilário, inteligente e cheio de nuances do que é ser Um Queniano-Ugandense-Gikuyu-Mufunbira-filho-irmão-estrangeiro-cidadão-artista no mundo, hoje” (por Caitlin Chandler, em Africa is a country)

“A linguagem é, claramente, o modo preferido pelo autor para estruturar o mundo, mas também é o brinquedo que ele usa com elegância idiossincrática e imediatismo brilhante para capturar ‘as sensações esparsas, oscilantes’ de memórias e emoções do passado” (Kirkus Prize, da edição na “BEA Big Books”)

  1. Edição brasileira conta com “capítulo perdido”

Em janeiro de 2014, após uma série de leis anti-homossexualidade terem sido aprovadas na África, Binyavanga escreveu o texto “Eu sou homossexual, Mãe”, no qual reinventa os eventos da morte da mãe, imaginando como teria sido lhe contar que é um homem gay. O texto, nomeado pelo autor como um “capítulo perdido” de suas memórias, publicadas em 2011, saiu inicialmente no site Africa is a country, e posteriormente foi publicado também no The Guardian e outros veículos da grande imprensa. Por sua coragem de se assumir como homossexual no Quênia, país no qual a homossexualidade é punida criminalmente, Binyavanga foi eleito, em 2014, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, pela TIME. A edição brasileira de Um dia vou escrever sobre este lugar inclui este comovente e importante capítulo da vida de Binyavanga.

Leia um trecho do texto:

“- Nunca abri meu coração para você, Mamãe. Você nunca me pediu para fazer isso.

Só minha mente diz. Isso. Não minha boca. Mas com certeza o solavanco da minha respiração e do meu coração, ali, ao lado dela, foi percebido? Ela está me deixando entrar?

Ninguém, ninguém na minha vida ouviu isso, nunca. Nunca, mamãe. Eu não confiei em você. Mamãe. E. Eu. Puxei o ar com uma força e o segurei em uma bola no meu umbigo, e soltei pela boca devagar e continuamente, regular e sem tropeços, alto e claro por cima de um ombro, em seu ouvido.

– Mamãe, eu sou homossexual”.

 

Conheça o catálogo da Kapulanahttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

Entrevista com Carmen Lucia Tindó Secco, brasileira, organizadora do livro de ensaios “Pensando o cinema moçambicano”

CARMEN LUCIA TINDÓ SECCO, da UFRJ, professora e pesquisadora de cinema e literatura de Moçambique, concede entrevista à Editora Kapulana sobre o novo livro de ensaios que organizou, Pensando o cinema moçambicano.

1- Sendo docente da área de Literatura, como surgiu seu interesse pelo Cinema, especificamente o moçambicano?

R- Há tempos venho trabalhando a correspondência entre as artes: literatura, pintura. Trabalhei Literaturas Africanas de Língua Portuguesa em diálogo com telas de importantes pintores de Moçambique, Angola , Cabo Verde. Depois, convidada a participar do Projeto “NARRATIVAS ESCRITAS E VISUAIS DA NAÇÃO PÓS-COLONIAL”- (NEVIS), coordenado por Ana Mafalda Leite da Universidade de Lisboa, me interessei também pelo cinema produzido nos países africanos de língua oficial portuguesa. Nas minhas aulas na UFRJ, projetei alguns filmes e houve uma motivação grande por parte dos alunos. A África tão distante destes ganhou uma visibilidade um pouco maior, o que propiciou diálogos mais fecundos entre narrativas literárias e cinematográficas. Ofereci várias disciplinas na Pós e na Graduação da UFRJ, propondo leituras comparadas entre literatura e cinema. Foram cursos bastante produtivos.

2- Como surgiu a iniciativa de produzir o Pensando o Cinema Moçambicano para um público brasileiro?

R- Ministrei um curso na Pós-Graduação em Letras Vernáculas na UFRJ no primeiro semestre de 2017. Os alunos gostaram muito e fizeram  monografias sobre filmes em diálogo com obras literárias de Moçambique, Angola, Guiné-Bissau. Realizamos, também, ao final do curso, uma Mostra de Cinema e trouxemos o escritor moçambicano Luis Carlos Patraquim, um dos fundadores do cinema moçambicano. A palestra proferida por ele motivou muito os alunos. Acredito que, por isso, a maioria das monografias versou sobre o cinema moçambicano e foram de qualidade. Então, resolvi publicar um livro reunindo esses trabalhos dos alunos.

Já  estou a organizar um outro livro sobre cinema, intitulado CineGrafias Moçambicanas,  em parceria com Luis Carlos Patraquim e Ana Mafalda Leite, cujos textos aprofundarão bastante a discussão sobre o cinema moçambicano ainda pouco conhecido no Brasil. Este segundo livro deve sair no ano que vem e reunirá ensaios de reconhecidos pesquisadores da área do cinema, entrevistas e crônicas de realizadores e cineastas de Moçambique, entre os quais: Camilo de Sousa, Ruy Guerra, Licínio Azevedo, Isabel de Noronha, Sol de Carvalho, João Ribeiro. Esse segundo livro lançará um outro olhar sobre o cinema moçambicano, trazendo reflexões importantes dos cineastas e realizadores.

3- É possível traçar paralelos entre o Cinema moçambicano e o brasileiro?

R- Sim. Há uma profunda ligação entre o cinema moçambicano e o brasileiro. No período logo após a independência de Moçambique, o cinema teve importante função na construção da nação moçambicana recém- libertada. Ruy Guerra, nascido em 1931 em Moçambique, residente no Brasil desde 1958, ao lado de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, participou da criação do Cinema Novo brasileiro e do processo de criação do Instituto Nacional de Cinema em Moçambique, levando cineastas e colaboradores brasileiros para Moçambique, entre os quais José Celso Martinez Corrêa, Chico Carneiro. Ruy Guerra ajudou a pensar o Instituto Nacional de Cinema em Moçambique. Mostrou que era possível fazer cinema de uma forma bem simples e não cara, com poucos meios e utilizando a realidade. Na opinião de cineastas de Moçambique, como Sol de Carvalho, “não houve uma influência estética do Ruy Guerra no cinema moçambicano. Na verdade, a influência do Ruy esteve exatamente na produção. Ele trouxe um grupo grande de brasileiros para ajudar a organizar o sistema de produção de Moçambique. Daquilo que podemos chamar os modelos de produção, há uma influência do Ruy, mas não é uma influência brasileira, é de alguns cineastas brasileiros que foram liderados por ele”. Também o cineasta brasileiro Licínio de Azevedo, radicado em Moçambique desde 1975, tem a mesma opinião. Segundo ele, “entre o cinema de Moçambique e o do Brasil, a influência, se existiu, foi ‘ao contrário’ ”.

4- Grandes títulos da produção cinematográfica moçambicana partem de obras literárias do país. Por que existe este diálogo tão intenso entre as duas linguagens?

R- Literatura e cinema em muitos países são artes que dialogam. A adaptação cinematográfica de obras literárias é encontrada em diversas partes do mundo. No caso específico de Moçambique, penso que tanto a Literatura, como o Cinema tiveram um papel importante na época da independência e também no período logo após a independência. Colônia de Portugal há séculos, assim como Angola e outros países, Moçambique precisava contar sua própria história, pensar a nação recém-libertada. Romances e filmes, como grandes relatos, são narrativas propícias a esse ato de ‘narrar a nação’, ou seja, (re)escrever a nação moçambicana, a partir de um olhar descolonizador. O projeto “NARRATIVAS ESCRITAS E VISUAIS DA NAÇÃO PÓS-COLONIAL”- (NEVIS), coordenado por Ana Mafalda Leite, do qual participei, evidencia justamente isso.

5- O Cinema africano em geral parece ser ainda pouco conhecido no Brasil. Qual você acredita que seja o caminho para que estes filmes entrem no repertório brasileiro?

R- Realmente, o cinema africano em geral é no Brasil ainda bastante desconhecido. É considerado um cinema periférico. E, como se afasta do cinema hollyoodiano, não é apoiado, nem divulgado, porque não dá lucro. O caminho, na minha opinião, seria um maior investimento das políticas públicas da Cultura e da Educação na área do cinema, principalmente dos cinemas considerados marginais. Seriam importantes festivais cinematográficos com prêmios regularmente realizados, cursos e oficinas de cinema oferecidos ao público, mostras de cinema com debates, incentivo a projetos que trabalhassem e divulgassem filmes africanos. 

6- Você teria alguma projeção sobre o futuro do Cinema moçambicano?

R- Atualmente, em Moçambique, os apoios e incentivos ao cinema desapareceram quase por completo. Vários cineastas que participaram do nascimento do cinema moçambicano apresentam um olhar bastante pessimista em relação às políticas públicas moçambicanas no que se refere à área cultural. Contudo, há uma resistência: cineastas e realizadores antigos continuam produzindo, com muitas dificuldades, mas não desistem. Há grupos de jovens também buscando outras formas cinematográficas de resistência. Há o projeto do Museu do Cinema de Moçambique. Há eventos de divulgação de filmes. Agora mesmo, entre 17 e 20 de outubro de 2018, ocorreu em Maputo a mostra intitulada “Cruzamentos Cinematográficos”. Portanto, mesmo com pouco investimento do governo moçambicano em relação ao cinema, há exibição de filmes. Há um interesse muito grande do povo moçambicano. Exemplos disso são os inúmeros prêmios conseguidos pelo filme “Comboio de Sal e Açúcar”, de Licínio Azevedo, bem como a recente concorrida estreia do longa-metragem “O Dia em que Explodiu Mabata-bata”, de Sol de Carvalho, que, mesmo debaixo de uma chuva fortíssima, colocou 400 pessoas no cinema Scala, em Maputo. Assim, embora não possa fazer uma projeção exata sobre o futuro do cinema moçambicano, penso que, como esse cinema foi muito importante após a independência, o gosto pela sétima arte está entranhado em muitos realizadores e cineastas –antigos e jovens – que continuam produzindo e hão de resistir preparando um futuro.

7- O que você indica para as pessoas interessadas em conhecer mais sobre o Cinema moçambicano e africano em geral?

R- Muitos filmes já se encontram na internet (no yotube, vimeo, etc). Há, também, escolas, oficinas e fóruns sobre cinema, há sites, projetos, publicações em livros e revistas, festivais, mostras. Vou aqui divulgar alguns. No Rio de Janeiro, há a Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Há em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outros estados, mostras, como a da Caixa Cultural, nas quais foram exibidos muitos filmes africanos e moçambicanos. Há Centros de Estudos sobre Cinema em diversas universidades brasileiras. Há fóruns de cinema, como o Making off, em que podemos encontrar vários filmes. Há estudos na Rebeca – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (https://rebeca.socine.org.br/1). Há Centro Afro Carioca de Cinema, com Joel Zito Araújo, Janaína Oliveira e outros que promovem encontros sobre cinema africano. Há o Cineclube Atlântico Negro, com o cineasta Clementino Jr. que também divulga filmes africanos. Há publicações importantes na Revista Mulemba 17, número inteiramente dedicado ao cinema africano (https://revistas.ufrj.br/index.php/mulemba); há, ainda, publicações na Revista Cerrados, uma publicação da Universidade de Brasília (http://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/issue/view/1362/showToc). Há blogues, como INCINERRANTE, coordenado pelo Professor Marcelo Ribeiro, da UFBA, reconhecido estudioso de cinema (https://www.incinerrante.com/textos/cinema-internacional-cinemas-africanos). Há os arquivos do Festival CINEPORT (http://www.festivalcineport.com.br/).

Há o meu site CinÁfrica, com meu projeto intitulado “LITERATURA, CINEMA E AFETO: REPRESENTAÇÕES DA HISTÓRIA EM ROMANCES E FILMES DE MOÇAMBIQUE E GUINÉ-BISSAU” (http://cinafrica.letras.ufrj.br/index.php), que nasceu como desdobramento do “Projecto NEVIS – NARRATIVAS ESCRITAS E VISUAIS DA NAÇÃO PÓS-COLONIAL”, CESA / FCT , PTDC / CPC-ELT / 4939 / 2012, coordenado pela Doutora Ana Mafalda Leite, Professora da Universidade de Lisboa, cujo link é o seguinte: http://www.nevisproject.com/page/presentation.

Há também centros de estudos em países estrangeiros. Há livros sobre o cinema em português editados em Portugal, entre os quais o de Maria do Carmo Piçarra, o de Manuela Penafria, entre outros. No Brasil, foi publicada pela Editora Boitempo de São Paulo, em 2017, a biografia escrita por Vavy Pacheco Borges, intitulada Ruy Guerra: Paixão Escancarada.

Enfim, sabendo procurar, podem ser encontrados materiais instigantes e de relevante importância para os estudos sobre cinema. Penso que o livro que organizei e o que estou organizando (ambos serão publicados pela Editora Kapulana de São Paulo) contribuirão sobremaneira para um maior conhecimento acerca do cinema africano e, especialmente, do cinema moçambicano.

18 de outubro de 2018.

Citar como:

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Entrevista. São Paulo: Kapulana, 18 out. 2018. Disponível em: http://www.kapulana.com.br/entrevista-com-carmen-lucia-tindo-secco-organizadora-do-livro-de-ensaios-pensando-o-cinema-mocambicano/

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/pensando-o-cinema-mocambicano-ensaios-carmen-tindo-secco/

Saiba mais sobre a organizadora: http://www.kapulana.com.br/carmen-tindo-secco/

Leia o artigo “Pensa Kanema – escritos sobre o cinema moçambicano – por Carmen Lucia Tindó Secco”: http://www.kapulana.com.br/pensa-kanema-escritos-sobre-o-cinema-mocambicano-por-carmen-lucia-tindo-secco/

 

WALTER DE SOUSA

WALTER DE SOUSA, brasileiro, é escritor e professor Doutor pela Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo). Faz pesquisa sobre temas relacionados ao lúdico na literatura, particularmente sobre a importância dos clowns (palhaços) na vida das pessoas.

Além de autor de Nina tem medo de palhaço, em homenagem à palhaça Jurubeba, (Gabi Sigaud Winter), do grupo “Palhaços sem Fronteiras”, escreveu outros livros.

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • Moda inviolada – Uma história da música caipira” (2006)
  • Mixórdia no picadeiro – Circo-teatro em São Paulo (2011)
  • Piolin, o corpo e a alma do circo (2016)

PARTICIPAÇÕES

  • Participa do coletivo “Jacaré na porta”, de autores e ilustradores de literatura infantojuvenil.

[Sobre] Um dia vou escrever sobre este lugar, de Binyavanga Wainaina – por Ellen Oléria

imagens feitas de sonhos.

palavras que nos conduzem ao mundo dos sonhos. 

nesta obra autobiográfica de binyavanga wainaina saboreamos a viagem como uma garfada inteligentemente mista num prato colorido, nutritivo, bem montado e saboroso. 

atravessamos o atlântico mais uma vez e, como nunca antes, pra sentir o calor do sol do quênia aquecendo nossa pele. outras décadas costuradas à essa nossa pela condição humana e pela morosidade de toda gente. 

em um dia vou escrever sobre esse lugar pregamos e liberamos cada passo numa teia diversa de povos, costumes, idiomas de uma áfrica múltipla em visões e memórias que falam com a verdade da autonomia, da conexão ancestral, da força de laços e rompimentos.

violência e solidariedade, governo e tribo com texturas de cultura pop afro-estadunidense. miragens de tradições em nakuru universalizadas nesse espelho capitalizado virado pro mundo inteiro. revivemos o choque da diferença numa terra entrecortada por fronteiras estreitas. 

bravio, sensível, perspicaz e agudo, wainaina, corta nossa carne e transfunde nosso sangue nesse livro que é um convite pra libertar o olhar do imperialismo colonial e expandir em muitas cores nossas noções de pertencimento.

São Paulo, 13 de outubro de 2018.

Ellen Oléria, brasileira, é compositora, cantora, atriz, apresentadora e ativista política voltada para questões da negritude.

Citar como: OLÉRIA, Ellen.  In: WAINAINA, Binyavanga. Um dia vou escrever sobre este lugar (orelha) São Paulo: Kapulana, 2018.

 

 

ELLEN OLÉRIA

ELLEN OLÉRIA, brasileira, é compositora, cantora, atriz, apresentadora e ativista política voltada para questões da negritude. Nasceu e cresceu em Brasília, onde se  formou em Artes Cênicas na Universidade de Brasília. Há quase duas décadas dedica-se à música, tendo lançado cinco discos e realizado turnês nacionais e internacionais, recebendo muitos prêmios em festivais. A soprano dramática é bastante conhecida pelo público por apresentar um repertório bem brasileiro com entusiasmo e alegria. Como atriz, atualmente está em temporada de seu primeiro musical por vários estados brasileiros. Apresenta programa próprio “Estação Plural”, semanalmente, na TV Brasil.

OBRA DA KAPULANA

texto da orelha de: WAINAINA, Binyavanga. Um dia vou escrever sobre este lugar, 2018.

ÁLBUNS

  • 2009: Peça (Independente)
  • 2013: Ellen Oléria (Universal Music)
  • 2016: Afrofuturista (independente)

DESTAQUES

Indicada como melhor cantora (canção popular) pelo “Prêmio da Música Brasileira” por seu mais recente disco e com este trabalho a artista tem se apresentado pelo Brasil.

OYINKAN BRAITHWAITE

OYINKAN BRAITHWAITE nasceu na Nigéria, na cidade de Lagos, onde ainda reside. Ela tem graduação em Escrita Criativa e em Direito, pela Kingston University, de Londres. Depois de se formar, trabalhou como assistente editorial na “Kachifo”, uma editora nigeriana, e como gerente de produção na “Ajapaworld”, uma empresa de educação e entretenimento infantil. Atualmente, Oyinkan atua como escritora e editora freelancer.

Em 2014, foi indicada entre as dez melhores artistas spoken word (declamação) no concurso de poesia slam “Eko Poetry Slam”, em Lagos, Nigéria. Em 2016, foi finalista do “Commonwealth Short Story Prize”, que premia os melhores textos ainda não publicados do ano.

Em 2019, seu livro Minha irmã, a serial killer (My sister, the serial killer), foi indicado como finalista no “The Booker Prize 2019”, importante prêmio literário internacional. Até agosto de 2019, a obra havia sido traduzida e publicada em 26 idiomas.

OBRA DA KAPULANA

OBRA ORIGINAL

  • Icatha – The Soul Eater (Naija Stories Anthology Book 2). (Participação em antologia de reconto de contos tradicionais da Nigéria, 2014.
  • My sister, the serial killer,  2018. 

DESTAQUES

  • My sister the serial killer: 293 reviews no site Goodreads.
  • My sister the serial killer: n°1 da LibraryReads para novembro de 2018.
  • My sister the serial killer: um dos “Amazon Best Book” de novembro de 2018.
  • Sobre o prêmio The Book Prize 2019: https://thebookerprizes.com/fiction

Kapulana publica o livro “Um dia vou escrever sobre este lugar”, do escritor queniano Binyavanga Wainaina

Binyavanga entrelaça suas memórias de infância, adolescência e vida adulta à história contemporânea do continente africano

A Kapulana publica em novembro um dos livros mais aguardados do ano, a obra Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina. E para celebrar este incrível livro, a editora realizou uma parceria com a TAG – Experiências Literárias para as primeiras vendas dos exemplares.  A obra estará à venda na TAG Loja do período de 5 a 25 de novembro. No site da Kapulana e nas livrarias, o livro estará à venda a partir de 26 de novembro

Em Um dia vou escrever sobre este lugar, Binyavanga entrelaça suas memórias de infância, adolescência e vida adulta à história contemporânea do continente africano. Utilizando referências políticas, da cultura africana e da cultura popular mundial, o autor nos apresenta as constantes transformações acontecidas em países como Quênia, África do Sul, Uganda, Gana e Togo, a partir de seu próprio crescimento e amadurecimento como pessoa e, principalmente, escritor e constante observador do mundo ao seu redor.

Fascinado pelas diversas linguagens humanas, de palavras ao corpo, Binyavanga descreve, na obra, as diversas nuances e facetas de uma África gigante, complexa, mal compreendida, presenteando os leitores com histórias, acontecimentos e anedotas contadas com um olhar de dentro que não se pauta pelo externo, que não quer acomodar visões e conceitos restritos sobre África, mas, sim, explodi-los, para dar lugar a uma rica constelação de pessoas, impressões, línguas, costumes e situações, utilizando a própria vida, seus percalços, sua história para afogar ideias pré-concebidas e constantemente disseminadas sobre o continente africano.

A edição da Kapulana, traduzida por Carolina Kuhn Facchin, contém, ainda, o que o autor considera como um “capítulo perdido” de suas memórias, chamado “Mãe, eu sou homossexual”, publicado em 2014, três anos após o livro original. No texto, Binyavanga reinventa como teriam sido os últimos momentos de vida de sua mãe se ele tivesse viajado até o Quênia para estar com ela, e lhe contado que é um homem gay. Com muita sensibilidade, ele nos apresenta uma vida de autoconsciência mas, também, de restrição, devido ao medo, à vergonha e a profundas amarras culturais.

Em depoimento sobre o livro, o célebre escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o destacou:

“Wainaina é um cantor e pintor de palavras. Ele faz você cheirar, escutar, tocar, ver e, acima de tudo, sentir o drama e as vibrações da vida abaixo da superfície capturada de forma brilhante e concreta do Quênia e da África”.

Para a cantora e compositora Ellen Oléria, que assina o texto de orelha da versão brasileira da obra:

“em um dia vou escrever sobre este lugar pregamos e liberamos cada passo numa teia diversa de povos, costumes, idiomas de uma áfrica múltipla em visões e memórias que falam com a verdade da autonomia, da conexão ancestral, da força de laços e rompimentos”.

Um dia vou escrever sobre este lugar é uma admirável leitura sobre o retrato reflexivo de um momento recente da história da África, pela perspectiva criativa de Binyavanga, onde a linguagem é o mote fundamental para a composição destas memórias afetivas e atenciosas, dialogando com cultura pop e tradições africanas. Uma obra mais que necessária para acompanhar a profunda jornada das sensações marcantes da escrita de um dos autores mais geniais da literatura deste começo de século.

Conheça o catálogo da Kapulanahttp://www.kapulana.com.br/catalogo/

 

“Ilha”, de Marcelo Jucá, foi a obra selecionada pelo processo Seja Nosso Autor da Editora Kapulana

Além da qualidade literária do texto, a obra se destaca por trazer à tona a discussão de temas de relevância cultural que fazem parte do mundo da criança

Ilha, do brasileiro Marcelo Jucá, retrata, de maneira sensível, a vida de Dado, garoto que vive em um lixão. Com suas descobertas e brincadeiras, Dado tenta entender a vida na “ilha” e imaginar o mundo que fica fora dela. Para onde vão as pessoas que conseguem ir embora, mas nunca retornam? Um livro delicado sobre questões sociais difíceis para serem enfrentadas por uma criança , como fome, pobreza e trabalho infantil. É obra infantil, ilustrada, que remete adultos e crianças a fazerem reflexões sobre a realidade.

Além da qualidade literária do texto, a obra se destaca por trazer à tona a discussão de temas de relevância cultural que fazem parte do mundo da criança. Desta forma, sensibiliza tanto as crianças como os adultos a refletirem sobre questões sociais como fome, moradia inadequada, relações de afeto. O livro atende tanto ao leitor já alfabetizado, que pode fazer uma leitura independente, ao mediador de leitura, momento em que um leitor alfabetizado pode ler o texto para uma criança. As ilustrações também funcionam como complemento para a compreensão do texto, como forma de sensibilizar as crianças.

Sobre o autor

MARCELO JUCÁ, brasileiro, é escritor, educador e jornalista. É mestre em Comunicação e Semiótica com orientação psicanalítica. Tem desenvolvido sua pesquisa e produção a partir das relações, do lúdico e do tempo. É autor de obras infantis e infantojuvenis, tendo conquistado reconhecimentos literários. No processo de seleção da Editora Kapulana, edição de 2018, foi o primeiro classificado, com seu livro Ilha, dedicado ao público infantil. Atua como artista-educador em oficinas e programas da prefeitura. Como jornalista colaborou em jornais, revistas e agências de comunicação. 

 

MARCELO JUCÁ

MARCELO JUCÁ, brasileiro, é escritor, educador e jornalista.

É autor de obras infantis e infantojuvenis que alcançaram reconhecimento literário.

No processo de seleção da Editora Kapulana, edição de 2018, foi o primeiro classificado, com seu livro Ilha, dedicado ao público infantil.

O que pegamos emprestado dos outros teve seu projeto aprovado e selecionado  pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, também em 2018, com publicação em 2019 pela Kapulana.

Atua como arte-educador em oficinas e programas da prefeitura. Como jornalista, colaborou em jornais, revistas e agências de comunicação. 

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES:

  • A vida seria mais fácil se eu fosse um monstro, 2019.
  • A lista de Olívia, 2018.
  • Você faz, eu faço também, 2018.
  • Hora da soneca, 2017.
  • O que você quer ser quando comer?, 2017.
  • Meu cãopanheiro, 2017.
  • O sapato-pato de Pablo, 2016.
  • Ora bolas, que horas são no seu coração?, 2016.
  • As mentiras do Zodíaco, 2014.
  • A coleção de Maya, 2014.

PRÊMIOS

  • Selecionado no 2º Edital de Publicação de Livros da Prefeitura de São Paulo, com a obra O que pegamos emprestado dos outros. (2018)
  • Selecionado no “Seja Nosso Autor”, da Editora Kapulana, com a obra Ilha. (2018)
  • Selecionado pelo programa “Eu faço cultura”, do Ministério da Cultura, com as obras Meu cãopanheiro e O que você quer ser quando comer?. (2017 )
  • Contemplado pelo ProAC para a produção do livro infantil Ora bolas, que horas são no seu coração?. (2016) 
  • Finalista do “Prêmio Barco a Vapor”, com a obra O sapato-pato de Pablo. (2015)

Premiado escritor moçambicano, Ungulani Ba Ka Khosa vem ao Brasil lançar a obra “Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador”

O autor moçambicano participa de mesas de conversas nas cidades de São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Salvador, além de realizar sessões de autógrafos de sua recente obra publicada pela Kapulana

O premiado escritor moçambicano virá ao Brasil em novembro para realizar o lançamento de sua obra Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador, publicada pela Editora Kapulana, além de participar de eventos pelo país sobre a sua trajetória literária. O autor estará presente nas cidades de São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Salvador.

O livro Gungunhana é composto por duas obras em um só volume. As duas obras têm o imperador Gungunhana como elo. Na primeira história, publicada em 1987, Ualalapi recebe a missão de matar o rei Mafename, a mando de seu próprio irmão Ngungunhane (Gungunhana) que se torna, assim, o imperador de Gaza. Este imperador é famoso pela resistência que opôs aos portugueses nos finais do séc. XIX, mas a narrativa revela que Ngungunhane era um homem cruel e violento, um tirano para o seu povo. Eleito um dos cem melhores romances africanos do século XX, conta a história de Gungunhana de sua ascensão até sua queda. Na segunda história, As mulheres do Imperador (2018), Ungulani Ba Ka Khosa traz de volta a mesma personagem Gungunhana, mas as protagonistas são suas mulheres, que acompanham o Imperador ao exílio e retornam a Moçambique após quinze anos de isolamento.

Em depoimento para a editora, Ungulani destacou o seu trabalho de pesquisa histórica e a realização de escrita de suas obras:

“Quando escrevo, deixo-me levar pelo texto, pelos personagens. Não tenho um guião à priori. O tema do livro dá-me a estrutura e o movimento dos personagens. O que me ficou dos tempos de aprendizagem, ou seja, o meu mote, foi o de construir uma narrativa que tivesse por base os movimentos do cavalo: passo, trote e galope. Quero que o texto vibre como os tambores que ressoam pela noite adentro na savana tropical. O resto não me interessa”.

<http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-ungulani-ba-ka-khosa-autor-de-gungunhana-ualalapi-as-mulheres-do-imperador/>

Com uma longa trajetória literária, o autor e também professor, em 2018 recebeu o Prêmio de Literatura José Craveirinha, um dos maiores da área literária de Moçambique. Foi também condecorado, pelo Governo do Brasil, com o grau de comendador ao receber a “Ordem de Rio Branco”.  

Ungulani participará no Brasil de encontros culturais e universitários, assim como de conversas com o público sobre o seu processo criativo e a pesquisa para a elaboração da história de uma das  figuras simbólicas de Moçambique: Gungunhana.

Confira abaixo a agenda de Ungulani Ba Ka Khosa no Brasil:

SÃO PAULO – SP

5 de novembro, segunda-feira – 19h30

LANÇAMENTO DO LIVRO GUNGUNHANA na

Universidade de São Paulo (USP), Faculdade de Letras, no

XVIII Encontro de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa.

Mesa: “Encontro com o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa”

Mediação: Profa. Dra. Tania Macedo (USP)

 

12 de novembro, segunda-feira – 19h00

LANÇAMENTO DO LIVRO GUNGUNHANA na

Blooks Livraria (Shopping Frei Caneca)

Mesa: “Resistências literárias” – Bate-papo com Ungulani Ba Ka Khosa

Mediação: Rodrigo Casarin, jornalista e editor do blog literário “Página Cinco”, do UOL

 

14 de novembro, quarta-feira (cidade de Campinas) – 15h

LANÇAMENTO DO LIVRO GUNGUNHANA na

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)/ IEL

“Encontro com o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa”

Mediação: Profa. Dra. Elena Brugioni

 

23 de novembro, sexta-feira – 10h30

LANÇAMENTO DO LIVRO GUNGUNHANA no

SESC – Centro de Pesquisa e Formação, durante o

II Seminário “A língua portuguesa na educação, na literatura e na comunicação”

Mesa: “Brasil e Moçambique: leituras, influências e produção literária”, ao lado da premiada escritora Maria Valéria Rezende

Mediação: Josélia Aguiar, jornalista e escritora

 

RIO DE JANEIRO – RJ

7 de novembro, quarta-feira – 10h40

ENCONTRO LITERÁRIO NA FLUP PARQUE (Festa Literária das Periferias)

Mesa: “Encontro literário: música e literatura”, ao lado de Carlos Carvalho

Mediação: Janine Rodrigues, professora e escritora

 

9 de novembro, sexta-feira – 18h00

LANÇAMENTO DO LIVRO GUNGUNHANA na Flup (Festa Literária das Periferias)

Mesa: “Nossos passos vêm de longe”,  ao lado da escritora e pesquisadora Djamila Ribeiro e do escritor e biógrafo Tom Farias.

Mediação: Thiago Ansel, professor e escritor

 

21 de novembro, quarta-feira – 15h25

Participação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Faculdade de Letras, no evento

“Literaturas Africanas & Cinema & História: olhares múltiplos, perspectivas críticas, leituras cruzadas”

Debate sobre o filme O silêncio da mulher, do cineasta moçambicano Gabriel Mondlane

 

22 de novembro, quinta-feira – 15h25

LANÇAMENTO DO LIVRO GUNGUNHANA na

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Faculdade de Letras, no evento

Mesa de debate sobre o livro com:

Profa. Dra. Rita Chaves (USP)

Profa. Dra. Carmen L. T. Secco (UFRJ)

Rosana M. Weg (Mediadora – Ed. Kapulana)

 

SALVADOR – BA

Balada Literária

(Ainda em desenvolvimento)

 

São Paulo, 31 de outubro de 2018.

 

LINKS

Saiba mais sobre o autor: http://kapulana.com.br/ungulani-ba-ka-khosa/

Saiba mais sobre “Gungunhana: Ualalapi | As mulheres do Imperadorhttp://kapulana.com.br/produto/gungunhana-ualalapi-as-mulheres-do-imperador/

Saiba mais sobre “Orgia dos loucos”: http://kapulana.com.br/produto/orgia-dos-loucos/

Saiba mais sobre “O rei mocho”: http://kapulana.com.br/produto/o-rei-mocho-1-contos-de-mocambique/

Leia – “A degradação da personagem em Gungunhana – por José dos Remédios”: http://www.kapulana.com.br/a-degradacao-da-personagem-em-gungunhana-por-jose-dos-remedios/

Leia – “As Mulheres do Imperador: Entrelaces de Histórias e Estórias – por Carmen L. Tindó Secco”: http://www.kapulana.com.br/as-mulheres-do-imperador-entrelaces-de-historias-e-estorias-por-carmen-l-tindo-secco/

Leia – “Ualalapi: a narrativa e os ciclos – por Rita Chaves”: http://www.kapulana.com.br/ualalapi-a-narrativa-e-os-ciclos-por-rita-chaves/

Leia – “Escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa é condecorado pelo Brasil com a Ordem de Rio Branco”: http://www.kapulana.com.br/escritor-mocambicano-ungulani-ba-ka-khosa-e-condecorado-pelo-brasil-com-a-ordem-de-rio-branco/

Leia – “Orgia dos Loucos: Moçambique sem saída de emergência – por Vanessa Ribeiro Teixeira”: http://www.kapulana.com.br/orgia-dos-loucos-mocambique-sem-saida-de-emergencia-por-vanessa-ribeiro-teixeira/

Leia – “A instabilidade social em O rei mocho, de Ungulani Ba Ka Khosa – por José dos Remédios”: http://www.kapulana.com.br/a-instabilidade-social-em-o-rei-mocho-de-ungulani-ba-ka-khosa-por-jose-dos-remedios/

 

★★

 

 

PEPETELA

PEPETELA (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) nasceu em Benguela, Angola, em 1941, onde fez o Ensino Secundário. Em 1958, partiu para Portugal onde frequentou a Universidade em Lisboa. Por razões políticas, em 1962 saiu de Portugal para França, e seis meses depois foi para a Argélia, onde se licenciou em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e no Centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar.

Em 1969, foi chamado para participar diretamente na luta de libertação angolana, em Cabinda, tendo então adotado o nome de guerra PEPETELA, que mais tarde utilizaria como pseudônimo literário. Em Cabinda foi simultaneamente guerrilheiro e responsável no setor da educação.

Em 1972 foi transferido para a Frente Leste de Angola, onde desempenhou a mesma atividade até ao acordo de paz de 1974 com o governo português.

Em Novembro de 1974 integrou a primeira delegação do MPLA, que se fixou em Luanda, desempenhando os cargos de Diretor do Departamento de Educação e Cultura e do Departamento de Orientação Política.

Em 1975, até à data da independência de Angola, foi membro do Estado Maior da Frente Centro das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola) e participou na fundação da União de Escritores Angolanos.

De 1976 a 1982 foi vice-ministro da Educação, passando posteriormente a lecionar Sociologia na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, até 2008. Desde sua fundação, desempenhou cargos diretivos na União de Escritores Angolanos e foi Presidente da Assembleia Geral da Associação Cultural “Chá de Caxinde” e da Sociedade de Sociólogos Angolanos. É membro da Academia de Ciências de Lisboa. Em 2016 foi eleito para Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Academia Angolana de Letras, de que é membro-fundador.

OBRAS DA KAPULANA

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • As aventuras de Ngunga, 1973.
  • Muana Puó, 1978.
  • A revolta da casa dos ídolos, 1979.
  • Mayombe, 1980.
  • Yaka, 1985.
  • O cão e os caluandas, 1985.
  • Lueji, 1989.
  • Luandando, 1990.
  • A geração da utopia, 1992.
  • O desejo de Kianda, 1995.
  • Parábola do cágado velho, 1996.
  • A gloriosa família, 1997.
  • A montanha da água lilás, 2000.
  • Jaime Bunda, agente secreto, 2001.
  • Jaime Bunda e a morte do americano, 2003.
  • Predadores, 2005.
  • O terrorista de Berkeley, Califórnia, 2007.
  • O quase fim do mundo, 2008.
  • Contos de morte, 2008.
  • O planalto e a estepe, 2009.
  • Crónicas com fundo de guerra, 2011.
  • A sul. O sombreiro, 2011.
  • O tímido e as mulheres, 2013.
  • Como se o passado não tivesse asas, 2016.
  • Sua Excelência, de corpo presente, 2018.

PRÊMIOS

  • Prêmio Nacional de Literatura de 1980, pelo livro Mayombe.
  • Prêmio Nacional de Literatura de 1985, pelo livro Yaka.
  • Prêmio especial dos críticos de arte de São Paulo (Brasil) em 1993, pelo livro A Geração da utopia.
  • Prêmio Camões de 1997, pelo conjunto da obra.
  • Prêmio Prinz Claus (Holanda) de 1999, pelo conjunto da obra.
  • Prêmio Nacional de Cultura e Artes de 2002, pelo conjunto da obra.
  • Prêmio Internacional para 2007 da Associação dos Escritores Galegos (Espanha).
  • Prêmio do Pen da Galiza “Rosália de Castro”, 2014.
  • Prêmio Fonlon-Nichols Award da ALA (African Literature Association), 2015.
  • Prêmio Oceanos – finalista com o romance Sua Excelência, de corpo presente, 2019.
  • Prémio Literário Casino da Póvoa – 21a. ed. do Festival Correntes d’Escritas 2020, pelo livro Sua Excelência, de corpo presente (a ser publicado pela Kapulana em 2020).

DESTAQUES

  • Medalha de Mérito de Combatente da Libertação pelo MPLA, 1985.
  • Medalha de Mérito Cívico da Cidade de Luanda , 1999.
  • Ordem do Rio Branco da República do Brasil com o grau de Oficial, 2003.
  • Medalha do Mérito Cívico pela República de Angola, 2005.
  • Ordem do Mérito Cultural da República do Brasil, grau de Comendador, 2006.
  • Nomeado pelo Governo Angolano Embaixador da Boa Vontade para a Desminagem e Apoio às Vítimas de Minas, 2007.
  • Doutor Honoris Causa pela Universidade do Algarve (Portugal), 2010.

Ualalapi: a narrativa e os ciclos – por Rita Chaves

Publicado pela primeira vez em 1987, Ualalapi permanece mobilizando corações e mentes à volta de debates que, entre outros aspectos, exprimem a dinâmica histórica de Moçambique, um país atravessado por muita instabilidade e uma grande capacidade de resistir. A longa noite colonial, a difícil luta pela independência, os sucessivos conflitos que vêm atravessando décadas e a intensa pobreza que quase inviabiliza a vida de seus habitantes têm como contraface uma notável pluralidade cultural e uma imensa vocação para se reinventar.  Ungulani Ba Ka Khosa, o autor dessa narrativa e muitos outros títulos, inscreve-se nesse contexto, procurando de diversas maneiras balançar qualquer cordão de isolamento erguido para separar as tintas e disciplinar as cores. Sua opção ao longo dos anos tem sido o caminho da insubmissão no exercício de uma escrita que se demarca de versões cristalizadas pelo discurso hegemônico.

Reeditado entre nós em muito boa hora pela Kapulana, Ualalapi é um bom exemplo desse desassossego que marca o itinerário do autor em sua circulação pelos gêneros literários e em seu compromisso com os modos de ler a História enfrentando  com energia os perigos de sua petrificação. Mesmo a afirmação que escolhe como epígrafe “A História é uma ficção controlada”, colhida à romancista portuguesa Agustina Bessa Luís, em sua narrativa convida à discussão. Em um momento pulsante da vida do recém-fundado país, Ungulani vai buscar uma figura histórica escolhida pelo novo poder para ser uma espécie de mito fundador da nacionalidade e investe no desvendamento das contradições dessa hipótese que o discurso político elegia. Nas páginas em que desfilam passagens decisivas da vida de Gungunhana, o sentido da resistência desse imperador que lutou bravamente contra a invasão colonial é emoldurado pelas cenas que nos trazem as invasões protagonizadas pelo próprio na expansão de seu império.

Uma espécie de convulsão percorre o tempo captado, levando-nos logo à desmitificação da ideia de harmonia que ainda frequenta o imaginário sobre o período pré-colonial e exporta uma equivocada ideia do continente. Contaminada pela violência dos fatos, a escrita se apoia em expressões fortes, reveladoras da dimensão dos conflitos que estavam no cotidiano daquele espaço. Se, por um lado, dilui-se o mito da paz harmônica entre os africanos antes da chegada dos invasores, por outro lado, as ações revelam o africano como sujeito ativo, desfazendo a noção de passividade que a literatura colonial desejou perpetuar. Aqui, não nos vemos diante de elementos do cenário  – como podemos encontrar até mesmo em textos paradigmáticos do cânone ocidental – mas de homens em confronto com adversários. E, ao perderem, pagam o alto preço da derrota. São de qualquer forma, homens inteiros, empenhados em suas lutas, agentes de sua própria história.

As notas da originalidade que tocam o enredo são amplificadas na estrutura da obra que se nutre de elementos variados, que vão da incorporação de passagens bíblicas ao aproveitamento de provérbios africanos, propondo um diálogo refratário à rigidez de limites entre os vários patrimônios culturais que constroem Moçambique no presente. A montagem dos fragmentos aponta para um desenho peculiar que barra, à partida, a rápida identificação de um gênero literário. Assim, em sua interdependência, as partes que compõem o todo, combinam-se em sua autonomia e nos fazem indagar se o que nos apresenta é  um romance ou um conjunto de contos, questão que não precisa ser respondida e aguça o interesse da obra, pois nos coloca de frente para a reinvenção de modelos estéticos, compromisso com que os escritores africanos têm lidado e do qual desdobram-se diferentes soluções. A presença de matrizes da oralidade é apenas uma das chaves para esse processo que resulta na mesclagem entre bens de raiz e valores trazidos com a colonização.

A desmitificação de um dos heróis sagrados pela História que a voz dominante da independência quer disseminar exprime-se na força de uma escrita hiperbólica, que, em certa medida, reforça a função conativa e espelha um desejo de convencimento. Desse modo, insinua-se a disputa de versões presentes na construção da narrativa histórica que dá corpo ao discurso da nacionalidade. A pluralidade etno-linguística, por um lado, a ocupação recente do território colonial e, consequentemente, a tardia definição do mapa moçambicano explicam a instabilidade do terreno, no plano físico e no domínio cultural, tudo  a projetar-se em uma linguagem carregada de energias. Na voz do narrador e nas falas das personagens se fazem notar sinais de uma inegável aspereza refletida na escrita por uma adjetivação empenhada em banir qualquer hipótese de estabilidade.

Ao trazer as pontas de uma história constituída sobre abalos, o escritor busca demonstrar os limites de medidas que não considerem a profundidade das fendas que os tempos impuseram ao espaço que hoje é Moçambique.  Em 1985, após uma longa negociação com instituições portuguesas, o governo do país independente recupera o que seriam as cinzas de Gungunhana e, ao transportá-las solenemente de volta à terra da qual ele foi levado como símbolo da conquista colonial, pretende consagrá-lo entre os heróis da libertação. A reorganização da memória coletiva centrada na revisão de verdades plantadas pela dominação estrangeira integrava o programa da FRELIMO, a Frente de Libertação de Moçambique, em evidente coerência com o projeto de nacionalidade que a independência animava. Ao escrever Ualalapi, seu autor, sem dúvida, mostra-se atento a uma das funções da literatura: a de colocar em causa a horizontalidade das narrativas políticas e, assim, manter aceso o debate que atesta a vivacidade das questões éticas e a necessidade de projetos estéticos capazes de acusar a transitoriedade de pensamentos que se querem únicos e definitivos. Penetrando na linguagem, a noção de descontrole parece dominar a atmosfera para sugerir a iminência de novos ciclos, afinal, como evocaria outro escritor africano, o angolano Pepetela em A geração da utopia: “só os ciclos são eternos”. Se é verdade que a nação precisa de monumentos, e a história de todos os países não nos brinda com exemplos contrastantes, Ungulani Ba Ka Khosa nos recorda que a literatura só faz sentido como movimento, compromisso que ele tem abraçado ao longo de uma já extensa travessia.

Maputo, 23 de julho de 2018.

Rita Chaves é Professora Doutora do Depto. de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (FFLCH-USP) e pesquisadora do CELP-FFLCH-USP (Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa – FFLCH-USP). É colaboradora da Editora Kapulana. 

Citar como:

O ARTIGO:
CHAVES, Rita. “Ualalapi: a narrativa e os ciclos”. In: KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana. 2018. [Série Vozes da África]. Disponível em:<http://www.kapulana.com.br/ualalapi-a-narrativa-e-os-ciclos-por-rita-chaves/>

O LIVRO:
KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana. 2018. [Série Vozes da África] 

As Mulheres do Imperador: Entrelaces de Histórias e Estórias, por Carmen L. Tindó Secco

Ao reunir em um só volume, sob o título Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do imperador, dois romances em torno de Ngungunhane, o imperador de Gaza, o escritor Ungulani Ba Ka Khosa propõe uma desconstrução crítica da controvertida figura do imperador, tão contestada pelo colonialismo, quanto louvada pelos que lutaram pela independência de Moçambique. Trinta anos separam a publicação dessas duas narrativas – Ualalapi (1987) e As Mulheres do Imperador (2017) –, o que possibilita um distanciamento capaz de propiciar uma leitura questionadora de dois significativos momentos históricos moçambicanos: o do poder e queda, em 1895, de Ngungunhane – abordados em Ualalapi – e o da história de Moçambique colonial do início do século XX, ficcionalmente narrada pelo romance mais recente, a partir das vidas das viúvas do imperador, após o retorno delas do exílio, em 1911.

Ungulani, ao principiar As Mulheres do Imperador com instigantes epígrafes sobre a memória, traz à discussão a polivalência do conceito de “verdade histórica”, ratificando quão ambivalentes são tais “verdades”, uma vez deslizarem, constantemente, entre o real e o ficcional. Deixa evidente que muito depende dos olhares dos leitores, de sua capacidade hermenêutica, a construção das “verdades históricas”, levando-se em consideração inexistirem pontos de vista únicos. Memória e esquecimento fazem parte da “oficina da história” e de sua relação com a literatura, a geografia, a etnografia e com outras ciências e artes.

As histórias e estórias do imperador de Gaza e de suas mulheres, com compassados movimentos, são tecidas por um discurso literário aberto a múltiplas “verdades”. As sete mulheres de Ngungunhane – Phatina, Malhalha, Namatuco, Lhésipe, Fussi, Muzamussi e Dabondi –, aquando da queda do imperador, foram, em 1896, exiladas junto com este para Lisboa e, depois, para os Açores. Diferentemente de Ngungunhane que aí foi mantido até sua morte em 1906, as mulheres, forçadas a deixarem os Açores, seguiram para novo exílio em São Tomé, onde viveram até 1911, ocasião em que conseguiram regressar a Lourenço Marques. Entretanto, das sete mulheres só quatro – Phatina, Malhalha, Namatuco, Lhésipe – voltaram a Moçambique, acompanhadas de Oxaca e Debeza, estas mulheres de Zilhalha, súdito de Ngungunhane.

A narrativa de As Mulheres do Imperador começa, justamente, com esse retorno das quatro mulheres de Ngungunhane a Lourenço Marques. Decorridos quinze anos fora de terras moçambicanas, regressaram a bordo do paquete África a um Moçambique colonial, pressionado, ao mesmo tempo, por interesses portugueses e capitais ingleses. Essas mulheres, segundo entrevista do próprio escritor Ungulani Ba Ka Khosa, “queriam regressar à terra, mas não sabiam que a terra se chamava Moçambique. Para elas, Moçambique nunca existiu, existia apenas o império de Gaza em que tinham vivido[1]”. 

O narrador vai delineando a cartografia da cidade de Lourenço Marques, nas primeiras décadas do século XX, sob o jugo do colonialismo português. Ele vai mostrando como os espaços eram demarcados: o dos brancos, o dos negros, o dos orientais – indianos e chineses – com suas especiarias e cheiros, o da prostituição – a Rua Araújo, conhecida como “Rua do Pecado”, onde, no início do colonialismo, só brancas e mestiças podiam oferecer seus corpos a marujos de diferentes nacionalidades. À medida em que narra, vai apreendendo, também, referências culturais da época, ressaltando, entre outras, a importância do bilinguismo do jornal O Africano, dos irmãos Albasini.

Tais cartografias expressam contradições não só espaciais, como de classe, gênero e poder. Cartografias que nos dizem de margens, de mulheres que, embora rainhas, se encontravam, em suas culturas, nas franjas do domínio masculino, mas que conseguiram fugir dos limites e, pelas fronteiras do poder, provocaram, de alguma forma, rupturas em relação às cristalizações sociais impostas.

O regresso das mulheres do imperador a Lourenço Marques leva o olhar atento do narrador a descrever o cenário que elas encontraram: uma cidade cindida, conforme observa o escritor Ungulani na entrevista já mencionada:

Havia, na altura, a estrada da Circunvalação, que dividia a parte branca da negra – parte branca, é como quem diz, porque existia uma grande comunidade chinesa e indiana que ocupava uma grande parte da cidade. E aqueles conflitos, no primeiro ano da República [portuguesa], em 1911, retratam um pouco isso. E depois havia a parte negra, que era do outro lado, onde elas sentem que estão de regresso à terra que é o espaço delas modificado[2]

Chamando atenção para a pujança da cidade colonial, com seu desenvolvimento, suas diversidades, sua economia, seus usos, costumes e, também, para muitos preconceitos e estereótipos, a instância narracional vai, criticamente, evidenciando a oposição existente entre o passado de poder do imperador – denominado o “Leão de Gaza” –, entendido como tempo da barbárie, e a colonização lusitana, compreendida como engenho e acesso à civilização.

Também são assinaladas no romance contradições percebidas a partir de atitudes e práticas exercidas pelas mulheres de Ngungunhane, principalmente, após sua morte. Nos comportamentos destas são depreendidos jogos de poder, questões étnicas, desejos, novos interesses. Phatina, Malhalha, Namatuco, Lhésipe choram e recordam Ngungunhane. Debatem e se perguntam: que futuro teriam sem seu rei, elas que foram rainhas de um vasto império? Recorrendo às tradições, Namatuco, por meio de adivinhações dos espíritos ao redor do canhoeiro, vaticina acerca dos papéis e da vida de outras mulheres do imperador. O narrador, por meio de referências a documentos históricos, vai mencionando, com olhar crítico, a África dos colonizadores; a do governador-geral Mouzinho de Albuquerque, responsável pela prisão e exílio de Ngungunhane; a de Ayres d’Ornellas, militar português que empreendeu campanhas contra o imperador de Gaza e escreveu Cartas de África; a África dos relatórios e decisões dos que dominam. Mostra, não obstante, a partir do ponto de vista das viúvas do imperador, que existia uma outra África, misteriosa e profunda, a África de Namatuco, com suas crenças e profecias animistas.

O poder, emanado da figura autoritária e tirana de Ngungunhane, vai sendo, desse modo, subvertido pelos discursos e atitudes de suas mulheres. A instância narradora assinala a soberania masculina, porém, ao mesmo tempo, insinua como o feminino, por vezes, foi capaz de burlar o domínio másculo: “A palavra está para os homens, como o olhar, a linguagem das luzes e das sombras, para as mulheres”— comenta o narrador, na parte 6 do romance, referindo-se à Debeza que soube esconder seu adultério com o príncipe Godide. Essa cartografia do olhar, da memória e da imaginação traz lembranças que escrevem uma história no feminino, uma história que dá voz às mulheres de Ngungunhane, até então esquecidas sob a poeira dos tempos. O romance As Mulheres do Imperador comprova que, mesmo em um universo predominantemente masculino, essas mulheres conseguiram desvelar outras versões possíveis da história.

Ba Ka Khosa, em seu percurso literário, efetua uma reescrita de Moçambique pelo jogo entre história e ficção, entre tradição e modernidade, entre narrativas imaginadas e episódios históricos ocorridos, entre versões da oralidade e da história oficial. Optando, no título  Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do imperador, pela grafia portuguesa da época – Gungunhana –, e usando, na escrita dos romances, Ngungunhane – que, graficamente, reproduz a forma oral, ou seja, a pronúncia própria da língua nguni –, Ungulani, intencionalmente, expressa a dualidade de pontos de vista, demonstrando que não existe uma única versão histórica. Entrelaçando literatura e história, repensa Moçambique pela voz dos que estão à margem do poder, joga com a sedução e o fascínio que o domínio da escrita literária pode oferecer tanto ao escritor como ao leitor. Este, com certeza, irá se encantar não só pelo prazer de decifrar a polêmica figura do imperador, mas também as vidas e as histórias de suas mulheres.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2018.

[1] KHOSA. “A memória é sempre costurada. É preciso escangalhá-la para abrir caminhos”. Entrevista a Nuno Ramos de Almeida. Lisboa, 03/04/2018. Disponível em: https://ionline.sapo.pt/606664. Acesso em 14/06/2018. 
[2] idem, ibidem.

Carmen Lucia Tindó Secco é Profa. Titular de Literaturas Africanas, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). É colaboradora da Editora Kapulana. 

Citar como:

O ARTIGO:
SECCO, Carmen L. T. “As Mulheres do Imperador: Entrelaces de Histórias e Estórias”. In: KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana, 2018. [Vozes da África]. Disponível em: <http://www.kapulana.com.br/as-mulheres-do-imperador-entrelaces-de-historias-e-estorias-por-carmen-l-tindo-secco/>

O LIVRO:
KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana, 2018. [Vozes da África]

A degradação da personagem em Gungunhana, por José dos Remédios

O ser humano não morre quando o seu coração deixa de bater.
O ser humano morre quando, de alguma forma, deixa de se sentir importante.
in O vendedor de sonhos, Jayme Monjardim

Há 31 anos, Ungulani Ba Ka Khosa estreou-se em livro, num período em que a literatura moçambicana passava, eventualmente, por um dos melhores momentos até aqui. Na década de 80, foi lançado o primeiro concurso literário do país, foi criada a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), e, enfim, foi lançada a primeira revista literária moçambicana pós-independência, a Charrua, de que o nosso escritor é co-fundador. Este foi um momento de ouro, que, inclusive, contribuiu para a afirmação de uma escrita comprometida com a estética, por nela existir, quiçá, os (des)equilíbrios cruciais à literatura.  É neste contexto de reinvenção de uma arte, num país recém-nascido, que Ba Ka Khosa ousa apresentar-se em obra, depois de muito publicar na imprensa. Nessa altura, tinha 30 anos de idade e havia vivido em todas as regiões de Moçambique.

E então, o livro escolhido para a primeira aparição foi Ualalapi, colectânea de contos, para uns, romance, para muitos, e novela, para os mais centristas. Neste livro, um dos dois que constitui Gungunhana, obra ora lançada pela editora Kapulana, Ungulani percorre os labirintos da história, e, fugaz, aldraba a morte, retirando nela um personagem controverso (ora herói, por ter travado toda uma luta contra o regime colonial português, ora vilão, por tanto ter liderado ofensivas contra os chopes, uma etnia do Sul de Moçambique): Gungunhana/ Ngungunhane. Ao ficcionar a vida do imperador de Gaza, homem extremamente violento, Khosa constrói um cenário maquiavélico, que ao tirano permite atingir o poder sem ameaças de o perder, delegando, por isso, a morte do seu irmão, Mafemane, a Ualalapi.

A partir dos conflitos, da ganância e dos jogos de interesse instituídos na narrativa, Ungulani introduz-nos no raciocínio de um ditador que, à imagem de tantos outros de terno e gravata, não medem consequências no longo percurso ao trono. Por isso, esta é uma história actual e com muitos anos de vida.

O segundo livro que compõe a obra Gungunhana é intitulado As mulheres do imperador, na qual temos um narrador didático como cicerone no prosseguimento dos caminhos trilhados pelas rainhas de Gaza, na desnecessária viagem que termina com um exílio delas na sua terra, mas longe da sua gente. Se Ualalapi, essencialmente, ergue e derroca um império nguni, essa etnia de Ngungunhane, As mulheres do imperador é mais uma história além das peripécias que ditaram o fim de um reinado. Esta história produz-se na viagem pelo Sul de Moçambique, por Portugal, São Tomé e, mais profundo, pelas crenças, dores, desassossegos e sentimentos dessas rainhas pretas, desabitadas de si mesmas por terem conquistado a preferência de Ngungunhane. Também por isso, dá-se nesta ficção a grave degradação da personagem. Mas comecemos pelo primeiro livro.

Em Ualalapi, temos pelo menos dois momentos em que a degradação da personagem acontece. No primeiro, é Damboia, tia do imperador, quem está no centro das atenções, quando morre ainda viva, vítima de uma menstruação de três meses. Devido ao cheiro nauseabundo aí causado, Damboia perde poder e influência, quando os seus movimentos ficam condicionados ao átrio domiciliar. A linguaruda, que chama cães aos súbditos, enferma, perde a capacidade de falar e é invadida por loucura: “Começou a andar de gatas e a trepar as paredes da casa como um réptil em desespero. Durante a noite uivava como os cães” (p. 48).

Num segundo momento, a degradação da personagem, em Ualalapi, acontece quando o imperador, já nas mãos dos portugueses, profere o seu último discurso ao seu povo. Sem poder nenhum, Ngungunhane transforma-se numa entidade banal, ridícula, deprimida e cheia de fel. Destarte, o outrora poderoso imperador vira um objecto falante, prémio de guerra, conduzido, na verdade, não para um exílio, mas para um museu em que ele é a síntese do passado.

Em As mulheres do imperador essa degradação continua, quer em Ngungunhane quer nas suas esposas. No caso do “leão de Gaza”, a situação é agravada porque, arrancado da sua terra com as sete das tantas mulheres que possui, em Portugal, não fica nem com uma sequer, um verdadeiro ultraje e castigo para quem tanto preza o calor feminino. Além disso, mesmo tendo-se recusado a converter-se à religião dos brancos, já dominado, o imperador é baptizado, passando a ter um nome português. Morre triste e humilhado.

Não obstante, separadas do homem, as rainhas de Gaza, igualmente, experimentam a derradeira condição do marido. Logo, com a excepção de Namatuco, tornam-se vulneráveis, passando a comer peixe e a desejarem ser amarfanhadas pelos braços dos homens. E o facto de Namatuco ser a mais sisuda, não a impede de se tornar uma personagem amarga, pois, desterrada de Moçambique, perde o contacto com os seus espíritos, daí a incapacidade de enxergar o futuro.

Portanto, este Gungunhana encerra nas suas linhas uma preocupação estética alicerçada a uma história que se vai diluindo. Esta é uma porta de entrada para quem se preocupa com o passado e com o presente de Moçambique. E faz sentido o livro ser publicado no Brasil, afinal em causa está o conhecimento sobre a humanidade, que não se esgota na fronteira dos nossos pés, que nos faz proprietários da nossa própria voz. A degradação da personagem manifesta em Gungunhana também é nossa, por aceitarmos ser parte de uma história cujos protagonistas são os narradores do esquecimento, esses que nos afastam da nossa terra e das nossas particularidades.

Maputo, 20 de outubro de 2018.

José dos Remédios é jornalista, pesquisador, resenhista e colaborador em veículos de comunicação em Moçambique como o jornal O país e a emissora de televisão STV. É colaborador da Editora Kapulana. 

Citar como:

REMÉDIOS, José dos. “A degradação da personagem em Gungunhana”. In: http://www.kapulana.com.br/artigos/

O livro: KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do Imperador. São Paulo: Kapulana, 2018. [Vozes da África]

 

Conheça o projeto gráfico e a capa do livro de memórias “Um dia vou escrever sobre este lugar”, de Binyavanga Wainaina – por Mariana Fujisawa e Daniela Miwa Taira

 
Capa de Mariana Fujisawa: A arte da capa de Um dia vou escrever sobre este lugar surgiu após cuidadosa leitura da obra, tendo como base a ideia de mapeamento, fazendo referência aos diversos locais geográficos e sensíveis pelos quais o autor passou ao longo de sua vida. Optou-se pela utilização de formas abstratas coloridas, preenchidas com padrões distintos em cada cor, sugerindo ao mesmo tempo diversidade e construção minuciosa – fatores marcantes da obra literária de Binyavanga Wainaina. A pintura foi elaborada com tinta acrílica sobre papel, técnica que permite cores vibrantes e interessantes texturas. No conjunto, as cores e padronagens lembram estampas de tecidos quenianos.
 
Projeto gráfico de Daniela Miwa Taira: O projeto gráfico do livro foi pensado especialmente para o leitor. Tivemos como objetivo um visual limpo e elegante. Escolhemos tipografias projetadas especialmente para textos que proporcionam ao leitor um conforto na leitura e melhor apreciação da obra. O livro foi projetado para ser menor e impresso em folhas de gramatura mais fina, de modo a ser leve e de fácil manuseio e transporte. Os guias internos, como numeração de página, foram dispostos em locais a não atrapalhar a leitura. O projeto gráfico é pensado cuidadosamente para dar a melhor experiência ao leitor de acordo com a análise do conteúdo e necessidade da obra.
 
5 de outubro de 2018
 
 
O catálogo da Kapulanahttp://www.kapulana.com.br/catalogo/
 

Entrevista com Ungulani Ba Ka Khosa, moçambicano, autor de “Gungunhana: Ualalapi | As mulheres do Imperador”

UNGULANI BA KA KHOSA, escritor moçambicano, autor de Gungunhana: Ualalapi | As mulheres do Imperador, concede uma entrevista à Editora Kapulana

1. Você publicou Ualalapi em 1987, marcando o cenário da ficção histórica moçambicana. O que o fez escrever apenas recentemente As mulheres do Imperador, dando prosseguimento a Ualalapi?

As motivações por detrás de um livro estão, muitas das vezes, na esfera do imponderável: as vezes é uma ideia que surge, outras, uma paisagem, por vezes, uma frase, enfim, vários motivos. As mulheres  do Imperador foram-me martelando a cabeça depois da edição do livro Entre as memórias silenciadas. Isto em 2013. Anunciei a intenção aos amigos mais próximos. E quis com o livro prestar uma singela homenagem às mulheres sempre secundarizadas na História maiúscula. Mas o livro não conseguia sair das primeiras três páginas. Faltava-lhe alma. Até então eu não conhecia o nome das mulheres do Imperador que regressaram a Moçambique depois de quinze anos de exílio. E andei à busca delas em tudo o que era arquivo em Moçambique. Estive em S. Tomé, terra em que elas passaram catorze anos e nove meses de exílio, e nada encontrei. E foi graças ao meu editor  português, o João Rodrigues, que consegui ter os nomes das mulheres. Encontrei a alma. E o livro arrancou. Isto em 2016

E por ocasião dos trinta anos de Ualalapi, quis fechar o ciclo sobre o império de Gaza, trazendo à luz As mulheres do Imperador.

2. Qual você acredita que pode ser a importância de republicar Ualalapi atualmente, para Moçambique?

Ualalapi tem, felizmente, tido edições sucessivas em Moçambique. É um livro de leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário e médio e universitário. E tem, estoicamente, resistido ao  desgaste do tempo. Isso satisfaz qualquer autor. O que falta ao Ualalapi é uma maior divulgação no exterior. Acabou de sair, ainda este ano, a edição americana –Ualalapi, fragments from the end of empire, pela prestigiosa editora Tagus Press, da Universidade de Massachusetts Dartmouth. Na colecção constam autores como Eduardo Lourenço,  Luís de Camões, Eça de Queirós, Sophia de Mello Breyner, entre outros. É prestigiante. Aqui no Brasil, a editora Kapulana prepara uma edição conjunta com As mulheres do Imperador. Em Portugal já saiu a edição conjunta, o Gungunhana. Enfim, os bons ventos estão dando vida ao Ualalapi e As Mulheres do Imperador.

3. Um dos pontos mais reiterados por pesquisadores de suas obras literárias é o fato de suas narrativas não serem maniqueístas no tratamento dos personagens, negando a estrutura de heróis x vilões. Isto é uma preocupação sua durante a escrita?

Na verdade, pouco leio o que têm escrito sobre a minha obra. Sei de uma quantidade de teses e dissertações, para além de críticas avulsas que as leio na diagonal.

Quando escrevo, deixo-me levar pelo texto, pelos personagens. Não tenho um guião à priori. O tema do livro dá-me a estrutura e o movimento dos personagens. O que me ficou dos tempos de aprendizagem, ou seja, o meu mote, foi o de construir uma narrativa que tivesse por base os movimentos do cavalo: passo, trote e galope. Quero que o texto vibre como os tambores que ressoam pela noite adentro na savana tropical. O resto não me interessa.

4. Se sim, qual a importância desta perspectiva, sobretudo em relação a uma figura histórica controversa como Gungunhana?

Tu queres tocar o Gungunhana. É provável que a tal perspectiva se encaixe no imperador. Mas quando escrevi sobre Gungunhana, em Ualalapi, tive em mente retratar a imagem do Gungunhana que sobrevive na história oral: um tirano, um invasor, um colonizador. Esta leitura difere da que é oficialmente veiculada: o grande herói da resistência anticolonial. O que de facto foi. Mas que não retira o seu lado tirano.

Eu enveredei por essa via da chamada tradição oral. Fiquei-me por aquilo que ouvi dos meus avós e outros da mesma geração.

5. De que maneira a Literatura pode contribuir com a História, e especificamente com a História moçambicana?

Hoje é já um lugar comum estudar-se uma época e recorrer-se a literatura de então. Penso que a literatura vai além do preenchimento dos espaços vazios ou dos interstícios da História maiúscula; ela dá alma a uma época, humaniza um período histórico.

Quando os alunos me perguntam como é que eu consegui retratar o Gungunhana daquela maneira, pensando eles que aquilo é verdade e não ficção, fico feliz porque a tal  verosimilhança que os académicos tanto apregoam, deu certo. E quando isto acontece, a literatura sai a ganhar.

 

6. Por que existe sua preocupação como autor em manter em suas obras diversos vocábulos das línguas locais?

Dei-me conta, ainda cedo, que certos vocábulos das línguas locais não têm correspondência na língua portuguesa e vice-versa. E isso levou-me a construir a minha narrativa sem me socorrer ao glossário. Vou explicando, dentro da narrativa, os significados dos vocábulos locais ou a interpretação do vocábulo português na língua local. Mas por vezes, em edições brasileiras,  veem-se forçados a usar um glossário por causa de alguns vocábulos que necessitam de uma explicação mais detalhada. Esta minha bantunização do português, como um académico se referiu à minha obra, torna a língua portuguesa mais moçambicana. Explico-me:

Mais do que debater a validade ou não do acordo ortográfico, eu sou dos que defendem a inclusão, nesta língua comum que é o português, dos  significados locais. Penso que a língua portuguesa só sai a ganhar na diversidade de significados.

7. Tanto Ualalapi quanto As mulheres do Imperador giram em torno de acontecimentos históricos moçambicanos bastante específicos, porém são obras que geram extremo interesse por parte dos leitores brasileiros. Por que você acredita que isso ocorre?

Todo o escritor, é minha opinião já arreigada, tem que partir do seu Macondo, do seu nicho cultural, do seu espaço, e dar alma a esse espaço. Craveirinha conseguiu fazer da Mafalala algo universal. Luís Bernardo Honwana, pegou na sua Moamba, terreola a cerca de 70 quilómetros de Maputo, e deu-nos um livro imortal: Nós Matamos o Cão Tinhoso. Malangatana, com os seus espíritos ancestrais, deu-nos quadros memoráveis. Estes meus três mestres ensinaram-me que é a partir do local, do teu espaço vital, que podes ir ao mundo. O mundo, esse mundo globalizado, vai entender essa alma local porque é uma alma por todos partilhada. As cores, as matizes, mudam, mas a alma, nas suas várias gradações, é universal.

8. Qual a importância de tratar especificamente das mulheres de Gungunhana neste novo texto?

Acho que respondi parcialmente a pergunta  em questões anteriores. Mas avanço, dizendo que As mulheres do Imperador é uma homenagem a todas as mulheres. Estas mulheres ocuparam um lugar tão secundário na História, que só lhes deram a graça de ter  o nome  ao lado do imperador. A História foi sempre machista. É chegada a altura de  se criarem outras narrativas, outros ângulos de observação, outros olhares à História.

Ao tempo delas, era normal, nos portos e em alguns jornais, constar a lista de passageiros a desembarcar. No caso, nada ficou grafado. Sabe-se apenas que desembarcaram em Lourenço Marques, no ano de 1911. O resto é ficção. É triste o que a História maiúscula reserva a certas personagens.

9. Além desta obra, você publicou no Brasil (também pela Kapulana) um livro de contos (Orgia dos loucos) e um de literatura infantil (O rei mocho). Como autor, quais são as diferenças em seu processo de escrita para gêneros literários tão diversos?

O conto, gênero difícil porque ou se agarra no princípio ou se perde, é um grande gênero. E é necessário para quem se aventura na narrativa. Já o conto infanto-juvenil exige outro músculo. É um gênero a que não me atrevo a mergulhar de qualquer maneira. Corre-se sempre o risco de fazer trapaça. E muito do que por aí circula no gênero infanto-juvenil é texto de segunda categoria. É preciso ter uma grande alma para escrever um conto infanto-juvenil. Vou ancorando noutros portos da narrativa. Sinto-me seguro aí.

Maputo, 24 de setembro de 2018.

Citar como:

KHOSA, Ungulani Ba Ka. Entrevista. São Paulo: Kapulana, 24 set. 2018. Disponível em: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-ungulani-ba-ka-khosa-autor-de-gungunhana-ualalapi-as-mulheres-do-imperador/

Saiba mais sobre o autor: http://kapulana.com.br/ungulani-ba-ka-khosa/

Saiba mais sobre “Gungunhana: Ualalapi | As mulheres do Imperadorhttp://kapulana.com.br/produto/gungunhana-ualalapi-as-mulheres-do-imperador/

Saiba mais sobre “Orgia dos loucos”: http://kapulana.com.br/produto/orgia-dos-loucos/

Saiba mais sobre “O rei mocho”: http://kapulana.com.br/produto/o-rei-mocho-1-contos-de-mocambique/

Leia – “Escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa é condecorado pelo Brasil com a Ordem de Rio Branco”: http://www.kapulana.com.br/escritor-mocambicano-ungulani-ba-ka-khosa-e-condecorado-pelo-brasil-com-a-ordem-de-rio-branco/

Leia – “Orgia dos Loucos: Moçambique sem saída de emergência – por Vanessa Ribeiro Teixeira”: http://www.kapulana.com.br/orgia-dos-loucos-mocambique-sem-saida-de-emergencia-por-vanessa-ribeiro-teixeira/

Leia – “A instabilidade social em O rei mocho, de Ungulani Ba Ka Khosa – por José dos Remédios”: http://www.kapulana.com.br/a-instabilidade-social-em-o-rei-mocho-de-ungulani-ba-ka-khosa-por-jose-dos-remedios/

Kapulana lança em outubro a obra “O pátio das sombras”, escrita por Mia Couto e com ilustrações de Malangatana

Décimo e último volume da série “Contos de Moçambique”, o livro, escrito por Mia Couto e com deslumbrantes ilustrações do célebre artista Malangatana, narra a história sobre vida e morte pela perspectiva infantil

A Editora Kapulana publica em outubro o décimo volume da série de literatura infantil “Contos de Moçambique”, o livro O pátio das sombras, escrito por Mia Couto, com ilustrações de Malangatana.  A obra já está em pré-venda.

No enredo, um menino vive com a família em uma aldeia. Um dia, a avó se nega a ir até a plantação, pois diz estar cansada. Durante o trabalho, a família escuta ruídos de festa vindos da aldeia, e todos se perguntam se a avó tinha visitantes. O menino vai checar, mas encontra a avó sozinha. O acontecimento se repete, deixando o menino cada vez mais confuso, até que a avó lhe dá explicações ensinando-lhe uma linda lição sobre a vida e a morte. Mia Couto, em depoimento para o livro, explicou o motivo da escolha desta história que faz parte da tradição oral moçambicana.  “Este conto maconde foi a história escolhida por mim como base do conto que intitulei ‘O Pátio das Sombras’ por ser um conto muito sugestivo. Através dele podemos ver que os mortos, quando lembrados, não chegam nunca a morrer […] Do ponto de vista formal, pensei que seria bom criar um clima de mistério e introduzir um núcleo de conflito que se adensaria para, no final, se resolver de forma positiva”.

O livro é composto de deslumbrantes ilustrações do artista moçambicano Malangatana. Utilizando da técnica de pintura nanquim, os desenhos dialogam com o texto de forma fluída e fascinante. Com talento reconhecido em diversas vertentes da arte, Malangatana foi também poeta, cantor, dramaturgo, músico e dançarino. Durante sua carreira artística, foi premiado e celebrado no mundo, seu nome está ligado à criação de várias instituições culturais, como o Museu Nacional de Arte, Centro de Estudos Culturais, atual Escola Nacional de Artes Visuais, Centro Cultural de Matalana, e outras organizações artísticas. Malangatana faleceu em 2011, em Portugal.

O pátio das sombras é o último volume da série “Contos de Moçambique”, que, desde 2016, é publicada no país pela Editora Kapulana, tendo como objetivo divulgar no Brasil as histórias das tradições orais moçambicanas aos leitores brasileiros. O projeto surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. São histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato.

Ilustração de Malangatana, que faz parte da obra “O pátio das sombras”

 

★★★

Saiba mais sobre a obra: http://www.kapulana.com.br/produto/o-patio-das-sombras-10-contos-de-mocambique/

Saiba mais sobre o autor: http://www.kapulana.com.br/mia-couto/

Saiba mais sobre o ilustrador: http://www.kapulana.com.br/malangatana-mocambique-patio-das-sombras/

Saiba mais sobre a ilustração: http://www.kapulana.com.br/nanquim-as-ilustracoes-de-malangatana-em-o-patio-das-sombras-de-mia-couto/

Conheça a série “Contos de Moçambique”: http://www.kapulana.com.br/serie-contos-de-mocambique/

Pensa Kanema – escritos sobre o cinema moçambicano, por Carmen Lucia Tindó Secco

A palavra kanema – que, na língua macua do norte de Moçambique, quer dizer “imagem”, “cinema” – foi bastante empregada após a independência moçambicana, quando Samora Machel, em 1975, incentivou a criação do Instituto Nacional de Cinema (INC) e promoveu intensa ação cultural por intermédio de unidades móveis que percorriam aldeias, levando ao interior do país o Kuxa Karema, cinejornal, cujo nome significa “o nascimento do cinema”.

O presidente Samora, conhecedor do poder da imagem, buscou construir a nova nação indepentente, incentivando o cinema em Moçambique. Seu lema era filmar imagens do povo para devolvê-las ao próprio povo.

Luís Carlos Patraquim, um dos cineastas moçambicanos que participou das edições do Kuxa Kanema, defende que

[…] o cinema moçambicano é parte do acervo histórico nacional e uma ferramenta poética para perceber o presente e perspectivar futuros; é patrimônio cultural, a par da nossa literatura, da pintura, da escultura, do teatro, do canto e da dança, podendo espelhá-las todas, essas belas e malasartes, mais a intensa riqueza linguística e diversidade de que é feita a invenção real e utópica da nossa plural identidade. (PATRAQUIM, 2011).

No caso particular de Moçambique, as produções cinematográficas tiveram o importante papel de pensar e representar, por intermédio de imagens, a nação recém-libertada, propiciando reflexões diversas acerca das culturas de várias etnias que habitavam o território antes da colonização portuguesa, acerca do colonialismo, acerca da guerra de libertação, acerca de problemas que afeta(va)m o povo moçambicano.

Considerado “a sétima arte”, o cinema funda um modo de pensamento que opera com imagens, sons, cores, luzes, movimentos, tempo, espaço. E, na medida em que pode gerar reflexões críticas, questionamentos, encontra-se em íntima correlação com a Filosofia, cuja principal característica é “fazer pensar”.

Para Gilles Deleuze, há dois tipos de cinema: o clássico e o moderno. No primeiro, há o predomínio da ação; a montagem segue uma lógica de causa e efeito, concatenando as imagens por intermédio de uma linearidade narrativa que se direciona para a resolução dos conflitos. Esse tipo de cinema é designado por Deleuze como “imagem-movimento”, distinguindo-se por apresentar um esquema sensório-motor que trabalha com enredos e mensagens, até certo ponto, previsíveis. Já o cinema moderno opera com a “imagem-tempo”, rompendo com conexões sensório-motoras esperadas e com ações sucessivas e sequenciadas. Essa segunda forma de cinema explora o espaço-tempo, não se preocupando com a narrativa, mas, sim, com uma constante produção crítica de reflexões, pensamentos. Essa modalidade de cinema é mais cerebral; nela não ocorre um encadeamento linear de imagens: “Em vez de uma imagem depois da outra, há uma imagem mais outra e cada plano é desenquadrado em relação ao enquadramento do plano seguinte” (DELEUZE, 2007, p. 255).

Para Mahomed Bamba, a África tem uma produção cinematográfica ainda incipiente; por isso, o cinema africano, de modo geral, ainda se encontra preocupado com processos de construção e consolidação das nações africanas, uma vez que, historicamente, muitas destas são recentes, tendo sido criadas com suas independências, na segunda metade do século XX. Por tais razões, há, nos filmes africanos, em geral, uma recorrente temática de procura e definição do nacional.  Diversos cineastas africanos, entre os quais o premiado Cheick Oumar Sissoko, natural do Mali, são adeptos do “cinema da verdade”, considerando função das narrativas cinematográficas

portar para a tela as imagens da África, as maneiras de  viver, as maneiras de amar, de sentir prazer, de sofrer, de lutar; a maneira de viver das sociedades africanas é um desafio. Isso porque hoje as imagens da África são quase ausentes do universo das imagens. Nós não as vemos. É importante essa missão porque a África não está inclusa. A África é apresentada como o continente de todas as calamidades, de conflitos, de guerra, de epidemias, da falta, da seca. O continente da pobreza. É isso que os países do norte mostram ao seu povo. A África é marginalizada, excluída. Nem ao menos se sabe que a África é o berço da humanidade ou que a África produziu inúmeros impérios ou então que, em certo momento da história da humanidade, a África estava muito mais avançada do que os países europeus. (SISSOKO, 2015).

Bamba adverte, ainda, que, apesar da insistência em buscar o nacional presente na filmografia africana, nesta “a representação da nação é, em grande parte, mais ideológica e política, que cultural” (BAMBA. In: FRANÇA e LOPES, 2010, p. 269); “na falta de nações no sentido pleno” (idem, p. 279), alguns cineastas africanos criam, “no plano simbólico e imaginário, uma espécie de pan-africanismo” (idem, ibidem), que focaliza a África como um todo harmônico, como se todas as nações africanas fossem homogêneas; geram, desse modo, concepções idealizadas de nação que não correspondem, inteiramente, à atual realidade sociopolítica e cultural dos multifacetados e multiétnicos países africanos.

De acordo com Marc Ferro, que investiga as relações entre cinema e história, “a câmera desvela segredo[s], apresenta o avesso de uma sociedade, seus lapsos” (FERRO, 2010, p. 31).  Os ensaios, reunidos no livro Pensando o cinema moçambicano, buscam apreender e interpretar sentidos ocultos da história de Moçambique em narrativas fílmicas – algumas delas postas em diálogo com obras literárias moçambicanas –, refletindo sobre o modo como tais relatos problematizam os contextos históricos por eles representados. Seguindo a orientação política de Marc Ferro, diversos dos estudos aqui publicados procuram relacionar e discutir diferentes temporalidades históricas e sociais suscitadas pelos filmes, documentários e romances analisados, uma vez que “o objeto da história não é apenas o conhecimento dos fenômenos passados, mas igualmente a análise dos elos que unem o passado ao presente, a busca de continuidades, de rupturas” (FERRO, 2010, quarta capa).

A proposta do livro Pensando o cinema moçambicano é, portanto, a partir da análise de filmes, documentários, romances, demonstrar como narrativas literárias e fílmicas podem gerar afetos capazes de levarem a questionamentos profundos acerca da história e da dimensão humana tanto em uma perspectiva existencial, como social.  Segundo Spinoza, os afetos denotam não apenas atitudes existenciais face à potência de viver, mas atitudes políticas que podem externar alegóricas manifestações de crítica e indignação. Deleuze, por sua vez, afirma que o pensamento necessita escapar aos clichês, sair da imobilidade do senso comum. O cinema, afetado por imagens descentradas, pode desempenhar um papel estimulador da potência de pensar.

Composto por uma coletânea de onze ensaios que analisam filmes e obras literárias de Moçambique, o presente livro é resultado do Encontro com Luis Carlos Patraquim, durante a III Mostra de Cinema Africano – organizada, sob minha coordenação, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, de 5 a 9 de junho de 2017 –, e do curso “Afeto, Literatura e Cinema: representações da História em obras literárias e filmes de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau” – disciplina por mim ministrada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, na Faculdade de Letras/UFRJ, no primeiro semestre de 2017. Procede, ainda, de nossa pesquisa, “Literatura, cinema e afeto: representações da História em romances e filmes de Moçambique e Guiné-Bissau”, que dialoga e mantém parceria com os projetos “NEVIS – Narrativas escritas e visuais da nação pós-colonial”, CESA/FCT, PTDC/CPC-ELT/4939/2012, e “NILUS – Narrativas do Oceano Índico no espaço lusófono”, coordenados pela Doutora Ana Mafalda Leite.

O primeiro e o segundo ensaios de Pensando o cinema moçambicano, da autoria, respectivamente, de Vanessa Ribeiro Teixeira e Marlon Augusto Barbosa, se ocupam do curta-metragem O búzio (2009), de Sol de Carvalho, cuja mensagem principal é colocar em questão as contradições de uma guerra que talvez já não sirva mais ao seu propósito. Vanessa aborda os “intervalos” dessa guerra focalizados pelo filme e se interroga sobre o espaço da fábrica abandonada que, considerada como metáfora de múltiplas possibilidades – esconderijo? abrigo? solidão? extermínio? reflexão? lúdico? criação? –, faz o protagonista Vicente emergir como um sujeito diferente e questionador. Marlon, por sua vez, partindo de três eixos presentes no filme – a amizade, a lei da escolha e o perdão –, com base em considerações de Jacques Derrida sobre a amizade e sobre o perdão, pensa como tais elementos podem se entrelaçar e se relacionar poeticamente em prol de um questionamento político do projeto revolucionário.

O terceiro ensaio, de Maria Geralda de Miranda, centrando-se em A árvore dos antepassados, de Licínio Azevedo, chega à conclusão de que o filme é uma contribuição para a afirmação das raízes identitárias e culturais moçambicanas, pois, de maneira profunda, se insere em uma política cultural mais ampla, valorizando a paz e as tradições que devem ser respeitadas.

Viviane Mendes de Moraes, no ensaio seguinte – o quarto –, faz uma leitura do filme Fogata, de João Ribeiro, que é uma adaptação cinematográfica do conto “A Fogueira”, do escritor Mia Couto. Discute a “desdramatização da morte” – ponto de tensão entre as duas obras –, avaliando a forma como as comunidades rurais de Moçambique entendem a finitude da existência humana e a relação entre morte, vida e sepultamento vivenciada pelo casal protagonista do conto e do filme. Conclui que, apesar da sensação distópica em relação ao social, tanto o filme quanto o conto, embora apresentem uma evidente dicção irônica, deixam em aberto, no final, um desejo de que o amanhã seja menos amargo e a vida, junto à família e aos mortos, possa se reestabelecer e fluir menos solitária e um pouco mais harmoniosa.

Os quinto, sexto e sétimo ensaios se debruçam sobre Ngwenya, o crocodilo, de Isabel Noronha, documentário que realiza uma biografia do pintor Malangatana Valente e da própria cineasta. A narrativa fílmica se aproxima do cinema-poesia, na medida em que põe em diálogo diversas artes – cinema, pintura, literatura – e também a história e a cultura moçambicanas. O ensaio de Beatriz de Jesus Santos Lanziero, com base nos estudos de Deleuze sobre cinema, observa no filme a construção de imagens óticas e sonoras características do regime imagem-tempo. Demonstra como Isabel Noronha, afastando-se do clichê, do previsível, descolonizando a imagem, conjuga, de forma dialética, tradição e modernidade. Lucca Tartaglia, por seu turno, procura evidenciar, em sua leitura do referido documentário, os indícios de “uma espécie de iniciação”, de uma viagem iniciática ao universo ronga e, mais especificamente, à cosmovisão do pintor, através das escolhas de Noronha – posicionamento e movimento das câmeras, escolha das personagens, profundidade de campo, etc. –, levando sempre em consideração a via íntima e pessoal, a experiência da própria Isabel no que se refere ao relato do artista. Ana Lidia da Silva Afonso, também voltada para esse mesmo documentário, estuda, com base em Deleuze, Marcel Martin e Louis Delluc, a linguagem cinematográfica de Isabel Noronha, evidenciando como a cineasta, neste filme, opta por uma dicção afetiva, dinamizadora de imagens produzidas através da fotogenia, com o objetivo de ressaltar o aspecto poético extremo dos seres e das coisas.

O oitavo ensaio, de Carla Tais dos Santos, compara o filme Virgem Margarida, de Licínio Azevedo, com o romance Entre as memórias silenciadas, de Ungulani Ba Ka Khosa, a partir de um tema comum às duas narrativas: os campos de reeducação em Moçambique. Para tanto, utiliza categorias literárias, tais como espaço, personagem, tempo e narrativa, além de elementos da história e do estudo da linguagem cinematográfica, entre outras artes, amparando-se teoricamente em Frantz Fanon, Hugo Achugar, Ismail Xavier, Márcio Seligmann-Silva, entre outros.

O nono e o décimo ensaios também abordam o filme Virgem Margarida, de Licínio Azevedo, mas o fazem a partir do tema da prostituição em Moçambique. Marlene dos Anjos efetua uma leitura comparativa entre a Margarida de Licínio Azevedo e a “Mulata Margarida”, do poema de José Craveirinha. A história moçambicana é repensada, tendo por base as histórias das duas Margaridas. Cristine Alves da Silva, por sua vez, elege o romance O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane, para dialogar com o filme Virgem Margarida, de Licínio Azevedo, examinando nessas obras situações de opressão a que o corpo negro feminino foi submetido enquanto objeto da afirmação da sexualidade masculina, tanto no regime colonial, como no governo pós-independente da FRELIMO. Discute a imagem da mulher prostituta em Moçambique, levantando questões históricas e sociais que determinaram sua inserção nesse universo de prostituição.

O último ensaio – o décimo primeiro –, da autoria de Danyelle Marques Freire da Silva, analisa a adaptação do romance Terra sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto, para o formato cinematográfico desenvolvido pela realizadora Teresa Prata. Chama atenção para o fato de que a cineasta optou por não fazer uma obra fiel ao romance, concluindo que, no processo de adaptação, o diretor tem liberdade para transpor para a linguagem fílmica sua leitura da obra literária.

Com o propósito de contribuir não apenas com a divulgação de filmes e cineastas moçambicanos, mas também com discussões teóricas sobre cinema e sobre a relação deste com a literatura, faço votos de que os ensaios aqui reunidos possibilitem um conhecimento mais profundo do assunto e um olhar mais amplo acerca do cinema moçambicano, sendo estímulo para novas edições que tratem do cinema e da literatura de outros países africanos.

Rio de Janeiro, 03 de agosto de 2018.

Carmen Lucia Tindó Secco é Profa. Titular de Literaturas Africanas, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). É colaboradora da Editora Kapulana. 

Citar como:

SECCO, Carmen L. R. T. (org.) “Pensa Kanema – escritos sobre o cinema moçambicano”. In: Pensando o cinema moçambicano. [Série Ciências e Artes]. São Paulo: Kapulana, 2018.

[Sobre] O pátio das sombras, por Mia Couto

“Este conto maconde foi a história escolhida por mim como base do conto que intitulei “O Pátio das Sombras” por ser um conto muito sugestivo. Através dele podemos ver que os mortos, quando lembrados, não chegam nunca a morrer. Contudo, pareceu-me que esta história se enquadra na crença generalizada nas sociedades rurais que as mulheres viúvas e velhas se convertem em feiticeiras. É esta a razão que leva a mulher idosa a ser morta, no final da história. Estes valores devem ser questionados hoje e senti ser necessário reconverter esta história alterando o seu desfecho.

Do ponto de vista formal, pensei que seria bom criar um clima de mistério e introduzir um núcleo de conflito que se adensaria para, no final, se resolver de forma positiva.”

Mia Couto nasceu em 1955, na cidade da Beira, em Moçambique. Em 1972 foi para Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, para estudar Medicina, mas não terminou o curso. Nos anos 70 dedicou-se ao trabalho de jornalista em diversos órgãos de informação. Voltou aos estudos universitários e formou-se em Biologia, passando, então a exercer atividades como biólogo e escritor. Está traduzido em mais de 30 idiomas e recebeu importantes prêmios, nacionais e internacionais, como o Prémio Camões, que recebeu em 2013. Desde 1987, colabora com grupos de teatro, havendo múltiplas adaptações de contos e romances para teatro e cinema, tanto em Moçambique como no estrangeiro. Da sua vasta e rica obra destaca-se o romance Terra sonâmbula que foi considerado um dos 12 melhores romances africanos do século XX.

Citar como:

COUTO, Mia. O pátio das sombras. Ilustrações de Malangatana. São Paulo: Kapulana, 2018 [Contos de Moçambique, v. 10]

Nanquim – As ilustrações de Malangatana em “O pátio das sombras”, de Mia Couto

O Nanquim é uma técnica antiga, que se originou na China, na região da cidade de Nanjing, que já foi a capital chinesa. Essa tinta também foi muito utilizada na Índia, mas ganhou popularidade pelo seu uso no Japão. O nanquim é um material muito usado para a escrita, a pintura e também para o desenho.

Documentos de cerca de 2 mil a. C. comprovam que, na China, o nanquim já era utilizado em manuscritos. Geralmente, a tinta era utilizada em papel, pergaminho ou telas de seda, com pincéis e canetas de bambu (o que originou artes tradicionais como a Caligrafia e o Sumiê). Na Europa, o nanquim era utilizado com canetas bico-de-pena, que, no início, eram feitas de penas de corvos com a extremidade apontada; depois, evoluiu para penas de aço e canetas recarregáveis.

Por muito tempo, o nanquim foi obtido a partir da tinta preta liberada por moluscos marinhos da família dos octópodes. Atualmente, as tintas são fabricadas a partir de uma combinação de cânfora, gelatina e um pó de cor escura conhecido como pó de sapato (fuligem ou negro de fumo), muito usado na pigmentação de outros produtos de cor negra. Ele é uma das variedades mais puras de carvão.

O nanquim é uma tinta que dá ao artista a possibilidade de criar texturas lineares e dar um aspecto detalhista às obras. A tinta tem uma cor saturada e intensa, dando nitidez e clareza aos desenhos.

O livro “O pátio das sombras”, escrito por Mia Couto, e décimo volume da série “Contos de Moçambique”, é composto com as deslumbrantes ilustrações do artista moçambicano Malangatana. Utilizando da técnica de pintura nanquim, os desenhos dialogam com o texto de forma fluída e fascinante. Com talento reconhecido em diversas vertentes da arte, Malangatana foi também poeta, cantor, dramaturgo, músico e dançarino. Durante sua carreira artística, foi premiado e celebrado no mundo, seu nome está ligado à criação de várias instituições culturais, como o Museu Nacional de Arte, Centro de Estudos Culturais, atual Escola Nacional de Artes Visuais, Centro Cultural de Matalana, e outras organizações artísticas. Malangatana faleceu em 2011, em Portugal.

Citar como:

COUTO, Mia. O pátio das sombras. Ilustrações de Malangatana. São Paulo: Kapulana, 2018 [Contos de Moçambique, v. 10]

Poeta e artista plástica moçambicana Sónia Sultuane participa de eventos no Brasil em setembro

Sónia Sultuane realiza mesas de conversas e sessões de autógrafos em eventos culturais nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Paraíba

A Editora Kapulana trouxe em setembro para o Brasil a poeta e artista plástica moçambicana Sónia Sultuane, que publicou pela editora o livro Roda das encarnações. A poesia de Sultuane passa pelo feminismo, tradições africanas, principalmente as de Moçambique, maternidade, assim como pelo universo sensorial e místico. A poeta realizou mesas de conversas e sessões de autógrafos em eventos nas cidades de São Paulo, Campinas, São José dos Campos e Rio de Janeiro. No final do mês, a poeta ainda fará encontros literários em Recife, capital de Pernambuco, e João Pessoa, na Paraíba.

Com um vasto trabalho cultural, Sónia, além de poeta, é artista plástica e curadora de eventos. Sua poesia emociona ao trazer à tona suas impressões mais profundas, reveladoras das marcas de seu percurso como mulher, mãe, poeta e trabalhadora. Seus versos transportam o leitor por um universo sensorial e místico, com movimentos harmoniosos, no tempo e no espaço, muitas vezes em diálogo com a dicotomia vida e morte. Seus poemas transitam por mares, ares e terras, em meio a odores, sons, imagens e texturas surpreendentes.

Em São Paulo

Na cidade de São Paulo, Sónia participou, na quarta-feira (12), de bate-papo na “IV Feira Literária da Zona Sul” (Felizs), na Biblioteca Marcos Rey, em Campo Limpo, bairro da capital paulistana, ao lado do professor e escritor José de Nicola e do poeta angolano Ermi Panzo. Com a mediação da docente Érica Cristina Ferreira, a conversa teve como tema “Literatura Africana de Língua Portuguesa – Das heranças aos processos identitário de resistência”. Durante a conversa, Sónia contou sobre o seu processo criativo na literatura e nas artes plásticas, inclusive em relação à construção de seus poemas:

“A palavra para mim tem muito poder. Ela está sempre em trânsito, principalmente aqui no Brasil, onde pude trazer as linguagens que produzo no meu país, tendo sempre que buscar uma nova interpretação da linguagem”. Com um público de sua maioria professores da rede pública, Sónia destacou que “são os professores que nos formam e é incrível poder conversar e mostrar as diversidades literária de Moçambique”.

Sobre o trabalho artístico, a poeta abordou as recompensas que as artes fornecem:

“A arte tem a função de tornar as pessoas mais ricas intelectualmente. Sou mulher e sou da África e, destas formas, quero, de alguma maneira, escrever poemas de como enxergo o mundo”.

Em Campinas, na quinta-feira (13), na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), localizada no interior de São Paulo, Sultuane realizou uma roda de conversa com alunos do curso de Letras, sob a mediação da mestranda Jéssica Fabricia da Silva. O evento contou com o apoio do Grupo de Estudos de Literaturas e Culturas Africanas (GELCA), do IEL-Unicamp. Sónia falou sobre as suas motivações na escrita de Roda das Encarnações:

“Eu tive um câncer e poderia ser que eu não tivesse mais a possibilidade de escrever outro livro, queria terminar o Roda das encarnações pelas pessoas que eu amo e que me apoiaram. O amor é dá genuinamente sem estar à espera de nada e o Roda foi o meu ato de amor”.

Durante a sua fala, Sónia comentou sobre a interlocução com as artes plásticas e poesias:

“A poesia e as artes plásticas têm lugares em diversas outras formas, principalmente em transmitirmos a nossa evolução artística para as pessoas”.

De volta à capital paulista, Sónia esteve presente, na sexta-feira (14), na palestra com os alunos da Universidade da São Paulo (USP). O evento, com coordenação da Profa. Dra. Tania Macêdo e da Profa. Dra. Rita Chaves, contou com apoio do Centro de Estudos Africanos (CEA) e do Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa (CELP), da FFLCH-USP, e teve a mediação da pesquisadora de doutorado Jacqueline Kaczorowski. A poeta moçambicana conversou sobre Literatura e o começo de sua escrita: “Fiquei grávida muito cedo, aos treze anos, e, como forma de comunhão, comecei a escrever, de modo a compartilhar os meus sentimentos”.

Sónia também falou sobre seu projeto artístico “Walking Words”, em que se veste com uma roupa confeccionada com diversas palavras, tendo como intuito caminhar pelas ruas de Moçambique a compartilhar as variadas maneiras que a linguagem fornece: “Este projeto é essencial para tornar as palavras em algo físico, que se sente, para que elas não se diluem”.

No sábado, 15 de setembro, Sónia fez parte da programação da “V Festa Literomusical” (FLIM) do Parque Vicentina Aranha, na cidade de São José dos Campos, interior de São Paulo. O evento, realizado entre os dias 14 e 16 deste mês, teve a curadoria do escritor Marcelino Freire. A mesa literária com o tema “Por dentro dos gêneros” contou com as participações de Sónia Sultuane, da poeta e editora Jarid Arraes e da cantora e compositora Ellen Oléria, sob a mediação da apresentadora do programa Metrópolis, da TV Cultura, Adriana Couto. Muito emocionada, Sultuane comentou com o público sobre a produção de escrita de seu livro de poemas Roda das encarnações:

“A poesia para mim é um lugar sagrado. Quem escreve poesia conta sempre um pouco de nosso interior, ou seja, é parte de nós”. “O Roda das encarnações vem todo de um processo de minha luta pelo câncer, e é uma possibilidade de estar aqui no mundo”.

No Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, Sónia participou de palestras e debates sobre a cultura moçambicana, nos dias 18 e 19 de setembro, com alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e realizou sessão de autógrafos de seu livro de poesia publicado pela Kapulana, Roda das encarnações. O evento, intitulado “África & Brasil – trânsitos culturais: literatura, cinema e educação”, foi organizado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco. Durante sua participação, Sónia falou com professores, estudantes e outros pesquisadores, sobre a sua produção poética, literatura infantil e o cinema moçambicano.

Em Pernambuco

Na capital de Pernambuco, Recife, em sua última semana no Brasil, a poeta moçambicana Sónia Sultuane participou de rodas de conversas e sessões de autógrafos em duas faculdades: Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Universidade Rural de Pernambuco (UFRPE).  Sultuane falou sobre o seu processo criativo e a publicação no Brasil, do livro de poemas Roda das encarnações. As atividades foram conduzidas pelo Prof. Dr. Sávio de Freitas (UFRPE) e Profa. Dra. Luiza Reis  (UFPE).

“Escrevi este livro pensando que seria a última vez que a literatura seria o porto seguro para minhas confidências, mas o Senhor Deus mostrou que me ama e me deu a oportunidade de fazer minha roda girar no mundo como um objeto de cura da alma”

Além das participações em mesas de conversas, debates e palestras, Sónia Sultuane foi muito bem recebida em centros culturais, exposições de artes e nas grandes livrarias, tendo, assim, a oportunidade de vivenciar um pouco da vida cultural brasileira e de reencontrar seu próprio livro nas estantes à disposição do leitor brasileiro.

Na Paraíba

Em João Pessoa, capital da Paraíba, a poeta e artista plástica moçambicana Sónia Sultuane realizou uma roda de conversa sob a mediação dos docentes acadêmicos Vanessa Riambau e Sávio Freitas. No encontro, Sónia abordou o desenvolvimento do seu livro de poemas Roda das encarnações, publicado pela Kapulana, e seus mais de dezessete anos dedicados às artes. O evento aconteceu na terça-feira, 25 de setembro, às 10h00, na sala 401 CCHLA, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

“Sou mulher e mestiça, não me considero negra, respeito as discussões sobre raça, mas não devemos alimentar o discurso racista, minha literatura é livre, universal, dialoga com os propósitos da humanidade. A literatura é uma arte, não faço poesia combate, pois José Craveirinha e Noémia de Sousa já o fizeram”.

São Paulo, 20 de setembro de 2018

Saiba mais sobre o livro Roda das Encarnações:

http://www.kapulana.com.br/produto/roda-das-encarnacoes/

Saiba mais sobre a escritora Sónia Sultuane:

http://www.kapulana.com.br/sonia-sultuane/

 

Veja fotos das atividades:

SÃO PAULO

11/09/2018 – Sónia Sultuane na Editora Kapulana, em São Paulo, SP:

http://www.kapulana.com.br/sonia-sultuane-na-editora-kapulana-em-sao-paulo-sp/

12/09/2018 – Sónia Sultuane na IV Feira Literária da Zona Sul (FELIZS), em São Paulo, SP:

http://www.kapulana.com.br/sonia-sultuane-na-iv-feira-literaria-da-zona-sul-felizs-em-sao-paulo-sp/

13/09/2018 – Sónia Sultuane no IEL-Unicamp, em Campinas, SP:

http://www.kapulana.com.br/sonia-sultuane-na-unicamp-iel-em-campinas-sp/

14/09/2018 – Mesa de conversa com Sónia Sultuane na FFLCH-USP, em São Paulo, SP:

http://www.kapulana.com.br/mesa-de-conversa-com-sonia-sultuane-na-fflch-usp-em-sao-paulo-sp/

11/09/2018 – Sónia Sultuane nas livrarias brasileiras:

http://www.kapulana.com.br/sonia-sultuane-nas-livrarias-brasileiras-sao-paulo/

15/09/2018 – Sónia Sultuane na Festa Literomusical do Parque Vicentina Aranha (FLIM), em São José dos Campos, SP:

http://www.kapulana.com.br/sonia-sultuane-na-festa-literomusical-do-parque-vicentina-aranha-flim-em-sao-jose-dos-campos-sp/

RIO DE JANEIRO

19/09/2018 – Debate sobre o cinema moçambicano com Sónia Sultuane na UFRJ, no Rio de Janeiro, RJ.

LINK: http://www.kapulana.com.br/palestra-e-sessao-de-autografos-com-sonia-sultuane-na-ufrj-no-rio-de-janeiro-rj/

Assista aos vídeos com a escritora:

Entrevista: 

https://www.youtube.com/watch?v=EH1R5-uOy0c

Leitura dos poemas do livro “Roda das encarnações”: 

https://www.youtube.com/watch?v=9p7SA1VeGjQ&feature=youtu.be

Vídeo 3ª Mesa Literária: POR DENTRO DOS GÊNEROS

https://www.youtube.com/watch?v=fGXR2Pm9NkU

 

 

 

MALANGATANA

MALANGATANA Valente Ngwenya, conhecido nacional e internacionalmente como MALANGATANA, nasceu em Matalana, Moçambique, em 6 de junho de 1936. Trabalhou como criado e apanhador de bolas antes de ser encorajado a desenhar e a pintar, pelo biólogo Augusto Cabral e, posteriormente, pelo arquiteto Pancho Miranda Guedes.

Seu talento é reconhecido em várias formas de arte como desenho, aquarela, tapeçaria, cerâmica, gravura, escultura monumental em ferro e em cimento, em murais. Foi também poeta, cantor, dramaturgo, músico e dançarino.

Em 1959, expôs pela primeira vez, no salão de Artes Plásticas de Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique. Nos anos de 1960, foi preso pela polícia política portuguesa (PIDE), acusado de ligações com a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique, hoje partido político). Em 1961, realizou sua primeira exposição individual.

Depois da Independência de Moçambique (1975), participou de numerosas exposições coletivas dentro e fora do país. Em 1986, realizou uma retrospectiva em Maputo. Na década de 1990, exerceu funções políticas como deputado da FRELIMO e na Assembleia Municipal de Maputo, tendo sido reeleito em 2003.

Seu nome está ligado à criação de várias instituições culturais, como o Museu Nacional de Arte, Centro de Estudos Culturais, atual Escola Nacional de Artes Visuais, Centro Cultural de Matalana, e outras organizações artísticas.

Faleceu em 5 de janeiro de 2011, em Matosinhos, Portugal. 

OBRA DA KAPULANA

O pátio das sombras, de Mia Couto, Contos de Moçambique, v. 10 , 2018.

PRÊMIOS E DESTAQUES

1997 – Recebeu a medalha Nachingwea, pela sua contribuição para a cultura moçambicana e foi investido como Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Foi nomeado “Artista pela Paz”, pela UNESCO. Recebeu o prêmio Príncipe Claus.

2010 – Recebeu o título de “Doutor Honoris Causa” pela Universidade de Évora e a condecoração, atribuída pelo governo francês, de “Comendador das Artes e das Letras”.

Escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa é condecorado pelo Brasil com a Ordem de Rio Branco

O premiado autor foi consagrado pela Governo do Brasil, pelos serviços meritórios e virtudes cívicas, estimulando a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção

O escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa foi condecorado com o grau de comendador, pelo governo brasileiro, através do decreto de 18 de Abril de 2018,  pelos seus 30 anos de carreira literária, iniciada com a publicação de Ualalapi, em 1987, clássico livro do autor e considerado uma das 100 melhores obras africanas do século XX.

A “Ordem de Rio Branco” foi instituída, em 1963, com o objetivo de homenagear personalidades brasileiras e estrangeiras que, pelos seus serviços ou méritos excepcionais, são merecedoras desta distinção. A cerimônia de entrega aconteceu na última quinta-feira, 30 de agosto, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo, e contou com as presenças do Embaixador do Brasil Rodrigo Baena Soares e do Ministro da Cultura e Turismo Silva Armando Dunduro.

Com onze livros publicados, o autor é uma das principais referências da literatura moçambicana, tendo também recebido o prêmio literário José Craveirinha, em 2007. Ainda sobre a obra “Ualalapi”, que foi aclamado como o primeiro romance histórico moçambicano, além de vencer, em 1990, o Grande Prêmio de Ficção Narrativa Moçambicana e, mais tarde, em 1994, Prémio Nacional de Ficção.

O autor publicou pela a Editora Kapulana o livro infantil O rei mocho, primeiro volume da série “Contos de Moçambique”, e a obra Orgia dos loucos (2016), originalmente publicado em Moçambique no ano de 1990, é uma compilação de histórias sobre cruéis enchentes, secas devastadoras, devaneios e alucinações em que animais, fantasmas e gente compartilham os mesmos momentos.

Ungulani Ba Ka Khosa, nome tsonga (grupo étnico do sul de Moçambique) de Francisco Esaú Cossa, nasceu em 1º de agosto de 1957, em Inhaminga, distrito de Cheringoma, província de Sofala, Moçambique. Professor de carreira, exerceu funções importantes em Moçambique como as de Diretor do Instituto Nacional do Livro e do Disco e Diretor Adjunto do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual de Moçambique. Durante a década de 90, foi cronista assíduo de vários jornais. Atualmente exerce as funções de Diretor do Instituto Nacional do Livro e do Disco (INLD) e Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).

O célebre escritor tem  forte vínculo com a cultura brasileira, tendo participado de vários eventos culturais e acadêmicos no Brasil, como FlinkSampa (São Paulo/SP), Afrolic (Recife/PE), FliPoços (Poços de Caldas – MG), USP (São Paulo/SP) e Unicamp (Campinas/SP).

Ungulani durante cerimônia de entrega da Ordem de Rio Branco (Crédito: Centro Cultural Brasil-Moçambique)

Ordem de Rio Branco

A Ordem de Rio Branco foi instituída pelo Decreto nº 51.697, de 5 de fevereiro de 1963, com o objetivo de, ao distinguir serviços meritórios e virtudes cívicas, estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção.

A Ordem de Rio Branco, assim intitulada em homenagem ao Patrono da diplomacia brasileira – o Barão do Rio Branco -, consta de 5 graus, a saber: Grã-Cruz, Grande Oficial, Comendador, Oficial e Cavaleiro, além de uma Medalha anexa à Ordem.

A Ordem é dividida em dois Quadros – Ordinário e Suplementar. O primeiro, com vagas limitadas, reúne os diplomatas brasileiros da ativa e o segundo congrega os diplomatas aposentados e todas as demais pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras, que venham a ser agraciadas com a Ordem.

O Conselho da Ordem é constituído pelo Presidente da República, Grão-Mestre da Ordem, pelo Ministro de Estado das Relações Exteriores, na qualidade de Chanceler da Ordem, pelos Chefes das Casas Civil e Militar da Presidência da República e pelo Secretário-Geral do Ministério das Relações Exteriores. O Chefe do Cerimonial do Itamaraty é o Secretário da Ordem.

31 de agosto de 2018

★★★

Sobre O rei mochohttp://www.kapulana.com.br/produto/o-rei-mocho/

Sobre Orgia dos loucoshttp://www.kapulana.com.br/produto/orgia-dos-loucos/

Sobre o autor: http://www.kapulana.com.br/ungulani-ba-ka-khosa/

Ordem de Rio Branco: http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/cerimonial/5698-ordem-de-rio-branco

Crédito das fotos: Centro Cultural Brasil-Moçambique

Kapulana lança em agosto “Leona, a filha do silêncio”, nono volume da série “Contos de Moçambique”

A série apresenta histórias tradicionais recriadas com narrativas que revelam os múltiplos universos do país

A Kapulana lança em agosto o nono volume da sérire de literatura infantil “Contos de Moçambique”, chega às livrarias o livro “Leona, a filha do silencio”, de Marcelo Panguana e ilustrações a aquarela de Luís Cardoso.

Em um lugar de mil encantos, vivem o Leão, a Leoa e sua filha, Leona. Leona é muito bela e encanta a todos que enxergam sua beleza, mas é triste e há muito tempo que não fala nada, nem ri. Um dia, seus pais viajam para um reino distante e, ao retornarem, trazem um vestido de noiva e decretam que aquele que conseguisse fazer Leona falar, a levaria ao altar. O que ninguém sabe é que Leona já está apaixonada e espera a volta do seu amado. Será que algum dia seu amor vai retornar e ela vai voltar a falar e a rir?

Marcelo Panguana nasceu em 1951, na cidade de Lourenço Marques, atual Maputo, capital de Moçambique. Escreve desde o momento em que conheceu as primeiras letras do alfabeto. Começou por pequenas histórias para as páginas e revistas culturais. A página literária “Diálogo”, do Notícias da Beira, foi o espaço onde começou a amadurecer a sua escrita. Em Maputo, junta-se a um grupo de escritores do projeto da revista “Charrua”. Deste grupo nasceram alguns dos que constituem, hoje, a nata dos melhores escritores do país. Foi fundador da Editora Lithangu.

Luís Cardoso nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, em 1962. É artista e publicitário. Desde pequeno conviveu com o universo das cores, das artes. Participou, desde muito jovem, de núcleos de arte e cultura, onde estabeleceu seu primeiro contato com as várias vertentes das artes plásticas. Teve formação como professor de Português e História, e, mais tarde, como designer. Desenvolve, também, projetos de ilustração, onde utiliza várias técnicas como a fotografia, o desenho, a aquarela e a ilustração digital.

Arte de Luis Cardoso

CONTOS DE MOÇAMBIQUE

A série “Contos de Moçambique” surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. A Editora Kapulana fez uma parceria com a Escola Portuguesa de Moçambique para publicar no Brasil a coleção, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro um pouco da cultura moçambicana. A série é composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique. São histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato.

Arte de Luis Cardoso

20 de julho de 2018

★★★

Saiba mais sobre a obra: http://www.kapulana.com.br/produto/leona-a-filha-do-silencio/

Saiba mais sobre o autor: http://www.kapulana.com.br/marcelo-panguana/

Saiba mais sobre o ilustrador: http://www.kapulana.com.br/luis-cardoso/

Saiba mais sobre a ilustração: http://www.kapulana.com.br/ilustracoes-de-leona-a-filha-do-silencio-aquarela/

Conheça a série “Contos de Moçambique”: http://www.kapulana.com.br/serie-contos-de-mocambique/

À VENDA NAS SEGUINTES LIVRARIAS:

Amazon.com.br: https://amzn.to/2mvBrwz
Livraria Cultura: https://bit.ly/2mxlVjX
Livraria Travessa: https://bit.ly/2NzlNvN
Martins Fontes Paulista: https://bit.ly/2O426NG
Cia dos Livros: https://bit.ly/2uRQXXp
Fnac: https: //bit.ly/2LE8ZUo
Mundo da Leitura: https://bit.ly/2uPhTHq

Escritora Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue, participa de sessões de lançamento de seu livro no Brasil

Rutendo Tavengerwei, jovem escritora do Zimbábue, esteve no Brasil, nas cidades de São Paulo (SESC Paulista) e Salvador (Flipelô), de 4 a 12 de agosto de 2018, para promover seu novo livro Esperança para voar, da Editora Kapulana

Em dois bate-papos e visitas a livrarias, a autora conversou sobre seu livro Esperança para voar (Hope is our only wing), seu processo criativo e de escrita, suas opiniões e visões sobre a literatura africana e literatura negra, sua existência como mulher, negra e africana, além de questões sobre a política e a economia do Zimbábue em 2008, época dos acontecimentos do livro. Conversou também sobre a situação atual no Zimbábue e da conexão com o momento político brasileiro.

Em 7 de agosto, terça-feira, participou do bate-papo “Vozes da África”, em São Paulo, no SESC Avenida Paulista, na companhia de Luciana Bento, do Instagram @amaepreta e do canal Quilombo Literário, no YouTube, e de Bianca Gonçalves, do blog “Bianca Não É Branca” e idealizadora do projeto “Leia Mulheres Negras”.

A conversa focou na construção das personagens do livro, na dinâmica de escrita da autora e na questão dos autores negros e, principalmente, autoras negras no Brasil e no mundo, além da situação da literatura africana dentro do mercado editorial brasileiro e mundial. O público, que se envolveu ativamente nas perguntas e nos comentários acerca dos assuntos trazidos durante o evento, fez fila para cumprimentar a autora, levar para casa livros assinados e tirar fotos com Rutendo.

No dia seguinte, 8 de agosto, a escritora, acompanhada de equipe da Editora Kapulana, embarcou para Salvador, capital do estado da Bahia. A convite da “Fundação Casa de Jorge Amado”, marcou presença na 2ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) onde, no dia 9, quinta-feira, participou de bate-papo com a historiadora Profa. Luiza Reis (UFPE) sobre literatura “Esperança para voar – uma conversa sobre África”.

Em Salvador, as questões principais foram sobre o livro Esperança para voar, como as referências literárias presentes na obra, dentre elas os nigerianos Chimamanda Ngozi Adichie e Chinua Achebe, e a presença musical no livro, representada pela mbira, instrumento tradicional africano, que é uma personagem dentro da história.

O público, que lotou o auditório do SESC-SENAC Pelourinho, também quis conhecer as impressões de Rutendo sobre o Brasil e a Bahia e as aproximações possíveis entre Brasil e Zimbábue. Após o debate, que contou com a participação ativa do público, houve fila para a sessão de autógrafos e fotos com a autora.

Além das duas mesas de conversa para as quais foi convidada, Rutendo, acompanhada da equipe da Kapulana, também visitou diversas livrarias, nas quais assinou exemplares de seu livro que estão disponíveis para compra e fez sessões de fotos. Em São Paulo, a autora foi sempre muito bem recebida pelas equipes das livrarias Martins Fontes Paulista, Cultura do Conjunto Nacional, Giostri na Casa das Rosas e  Blooks do Shopping Frei Caneca. Em Salvador, visitou e deu autógrafos na LDM, livraria oficial da Flipelô, e foi recepcionada na Livraria Cultura do Salvador Shopping.

As atividades da escritora foram divulgadas por alguns dos maiores veículos de comunicação brasileiros, como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Carta Capital e Geledés.

Nos bate-papos, nas visitas, nas entrevistas e em outros momentos em que trocou ideias com o público brasileiro, Rutendo Tavengerwei esteve sempre acompanhada da intérprete da Kapulana, Carolina Kuhn Facchin, a tradutora de seu livro para o Português.

A Kapulana agradece às equipes da “Fundação Casa de Jorge Amado”, de Salvador, Bahia, e do SESC Unidade Av. Paulista, de São Paulo, SP, pelo apoio dado à escritora no Brasil.

São Paulo, 17 de agosto de 2018.

 

LINKS:

Livro: http://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=TnIMNidh-8g&t=11s

 

FOTOS:

Na Flipelô:

http://www.kapulana.com.br/09-08-2018-rutendo-tavengerwei-na-flipelo-festa-literaria-internacional-do-pelourinho-em-salvador-ba/

No Sesc Av. Paulista:

http://www.kapulana.com.br/07-08-2018-bate-papo-com-rutendo-tavengerwei-lu-bento-e-bianca-goncalves-no-sesc-avenida-paulista-em-sao-paulo-sp/

Nas livrarias:

http://www.kapulana.com.br/04-a-11-08-2018-rutendo-tavengerwei-nas-livrarias-brasileiras-sao-paulo-e-salvador/

Na Editora Kapulana:

http://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei-no-brasil/

Rutendo Tavengerwei, escritora do Zimbábue, no Sesc Av. Paulista

Rutendo Tavengerwei participou de mesa literária no Sesc Paulista e conversou com o público de São Paulo sobre o seu romance “Esperança para voar”

A escritora Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue, que lançou pela Kapulana o romance young adult Esperança para voar, está no Brasil para participar de conversas literárias e conhecer o seu público leitor no país. Na última terça-feira (7), a autora realizou uma mesa de conversa no Sesc Avenida Paulista ao lado das blogueiras Lu Bento, do portal A Mãe Preta e canal Quilombo Literário, e Bianca Gonçalves, do site Bianca não é Branca e do projeto Leia Mulheres Negras. A mesa também contou com a participação da tradutora da obra, Carolina Kuhn Facchin

Durante a conversa, a jovem autora comentou sobre o processo de desenvolvimento do livro e das personagens Shamiso e Tanyaradzwa, assim como da sua infância no país africano em que se passa o enredo. “O livro é muito querido por mim, pois é narrado da perspectiva de quem nasceu no Zimbábue. Isto é muito importante, que um habitante do país contasse a história e situação que ocorreu naquela época”. A obra se passa no Zimbábue de 2008, ano de forte crise financeira, social e política. Sobre as personagens, Rutendo apontou que “as duas são formadas a partir de mim, dos meus sentimentos. Elas apresentam um pouco das minhas características. Mas as circunstâncias desenvolvidas no livro foram por causa do que eu observava, além de escutar os problemas que meus amigos me passaram e nos assuntos que meus pais comentavam sobre o país”.

Em relação à sua forma de escrita, Rutendo comentou: “A primeira dica é sempre escrever. Escreva do jeito e sobre o que quiser. Não importa, pratique cada vez mais a sua escrita. Volte, releia e, dessa forma, você melhorará o seu texto”. “O mercado editorial pode ser muito cruel, mas acredite no que você escreve e terá sempre uma boa história para contar”, finalizou.

A escritora ainda participa de um bate-papo em Salvador, durante a 2ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ), na quinta-feira, 9 de agosto, às 18h00, no Teatro Sesc-Senac, ao lado da professora e historiadora Luiza Reis.

Bianca Gonçalves, Carolina Kuhn Facchin, Rutendo Tavengrwei e Lu Bento durante conversa

Sobre o livro

Em Esperança para voar, Rutendo narra a história de amizade de duas adolescentes. Depois de anos morando no Reino Unido, Shamiso precisa voltar para o Zimbábue após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. A obra apresenta um lugar destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo, mas amado por seu povo resiliente. Abre-se um enredo sobre como jovens do século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é contada de forma a mostrar que aqueles fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país, em qualquer tempo.

Sobre a autora

Rutendo Tavergerwei – jovem escritora africana nasceu, cresceu e estudou no Zimbábue, onde morou até os 18 anos. Continuou, então, seus estudos na África do Sul, na área de Direito na Universidade de Witwatersrand, onde recebeu o diploma de especialização em Direito Comercial Internacional. Na Suíça, completou um Mestrado no World Trade Institute, Universidade de Berna. Atualmente, trabalha na Organização Mundial do Comércio, em Genebra. Esperança para voar (Hope is our only wing) é seu primeiro livro de ficção publicado no Brasil em 2018, pela Kapulana.

8 de agosto de 2018

★★★

 

Confira as fotos do evento: http://www.kapulana.com.br/07-08-2018-bate-papo-com-rutendo-tavengerwei-lu-bento-e-bianca-goncalves-no-sesc-avenida-paulista-em-sao-paulo-sp/

Saiba mais sobre a escritorahttp://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei/

Saiba mais sobre o livrohttp://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

Saiba mais sobre a tradutorahttp://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-faccin/

Uma entrevista com Rutendo Tavengerwei: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-rutendo-tavengerwei-autora-de-esperanca-para-voar/

Assista ao vídeo com Rutendo Tavengerwei: https://www.youtube.com/watch?v=0oZBCwnbfTk&t=3s

Assista o booktrailer: https://www.youtube.com/watch?v=Vu0x0XTGnkw

Leia a resenha de Lu Bentohttp://www.kapulana.com.br/esperanca-para-voar-um-livro-envolvente-e-emocionante-por-luciana-bento/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

 

“Serei sereia?”, da Editora Kapulana, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo

A Kapulana participa da Bienal Internacional do Livro de São Paulo com duas mesas, uma com a autora e a ilustradora do livro, e outra com a diretora editorial Rosana M. Weg

A 25ª edição da Bienal Internacional de Livro de São Paulo terá um estande dedicado exclusivamente a livros publicados em múltiplos formatos acessíveis e inclusivos, destinados não apenas ao público com deficiência, mas a todos os tipos de leitores. Cada obra reúne vários recursos de acessibilidade, como narração em áudio, texto original e/ou em Leitura Fácil, interpretação em Libras e descrição das imagens em áudio. Os livros contam ainda com animações e trilhas sonoras desenvolvidas especialmente para as versões acessíveis.

Foram produzidos livros em domínio público, que poderão ser acessados por todo público, e livros proprietários que, segundo a legislação brasileira, são conectados de forma gratuita por pessoas com deficiência, a Coleção de Livros Acessíveis.

A coleção tem 10 títulos da literatura infantil e infantojuvenil: Uma nova amiga, de Lia Crespo; O discurso do urso, de Julio Cortàzar e O menino no espelho, de Fernando Sabino; Peter Pan, de J. M. Barrie; A volta ao mundo em 80 Dias, de Júlio Verne; Frritt-Flacc, de Júlio Verne; A bolsa amarela, de Lygia Bojunga; Bem do seu tamanho, de Ana Maria Machado e Sei por ouvir dizer, de Bartolomeu Campos de Queiros.

Publicado pela Kapulana, o livro infantil Serei sereia?, de Kely de Castro, com ilustrações de Amanda Azevedo, também faz parte dessa importante Coleção de Livros Acessíveis

Programação na BIENAL: Mesas de conversas

06/08 – 14h – estande O030: A Kapulana estará presente, na segunda-feira, 6 de agosto, na Bienal, com duas mesas de conversas. Será realizada a roda de conversa “Livro e leitura para todos”, com Rosana M. Weg, diretora da Editora Kapulana.

06/08 – 16h – estande O030: acontecerá um bate-papo com a autora Kely de Castro e a ilustradora Amanda de Azevedo.

A venda de livros será feita no Clube do Livro (estande A098).

Sobre o livro

Serei sereia? é a história de Inaê, uma menina que já nasceu com um grande desafio a vencer: o fato de não poder andar. Nessa narrativa, contada pela artista Kely de Castro, Inaê, como todas as crianças, passa por momentos de tristeza, alegria, conflito e tranquilidade. A bordo de sua cadeira de rodas, enfrenta obstáculos e, aos poucos, com o apoio de sua mãe, descobre que pode construir sua própria história. O livro é ilustrado por Amanda de Azevedo e por fotos de bonecas confeccionadas pela autora.

A Bienal

A 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo acontecerá de 03 a 12 de Agosto de 2018 no Pavilhão de Exposições do Anhembi. O evento é palco para o encontro das principais editoras, livrarias e distribuidoras do país, apresentando seus mais importantes lançamentos para aproximadamente 700 mil visitantes em um espaço total de 70 mil m². Além da grande oferta de livros, a Bienal do Livro ainda conta com uma programação cultural abrangente, mesclando literatura, gastronomia, cultura e negócios.

3 de agosto de 2018

 

 

Saiba mais:

Sobre as atividades: http://www.kapulana.com.br/eventos/kapulana-na-bienal-internacional-do-livro-de-sao-paulo/

Sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/kely-de-castro/

Sobre a ilustradora: http://www.kapulana.com.br/amanda-de-azevedo/

Sobre a diretora editorialhttp://www.kapulana.com.br/rosana-morais-weg/

Sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/serei-sereia/

Sobre a Bienalhttp://www.bienaldolivrosp.com.br/

Conheça a Kapulanahttp://kapulana.com.br/a-editora/

 

Kapulana participa de eventos na Flip – 2018

A Kapulana participa de programação no Sesc Paraty  e se reúne com outras editoras na Casa Paratodxs

A Editora Kapulana estará na 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece de 25 a 29 de julho, em Paraty (RJ). Durante a festa, a Kapulana participa da Casa Paratodxs, ao lado das editoras Nós, Edith, Demônio Negro, Relicário, Dublinense, TAG – Experiências Literárias, assim como da Papel Pólen, com vendas de livros de seu catálogo.

A Paratodxs também está recheada de programação, com mesas de conversas, sessões de autógrafos, lançamentos e pocket show. A casa ficará localizada na Galeria Aecio Sarti (Rua Dr. Samuel Costa, 254), no Centro Histórico da cidade carioca. 

No dia 29 de julho, domingo, às 11h00, na Casa Edições Sesc (Rua Marechal Santos Dias, 43 – Rua da Matriz), no Centro Histórico, acontece a mesa de conversa “Promoção Internacional da Língua Portuguesa”. A mesa reúne profissionais que atuam na promoção da língua portuguesa junto aos países e comunidades que falam esse idioma. 

Com Paula Alves de Souza, bacharel em Relações Internacionais pelo Richmond College, mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics and Political Science e atual Diretora do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores, que abordará a agenda brasileira de promoção da língua portuguesa no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa; Lúcia Riff, agente literária que representa mais de 50 autores brasileiros e seus herdeiros, falará sobre o seu trabalho de gestão do capital literário de alguns dos nossos principais escritores; Rosana Weg, Doutora em Letras Clássicas pela USP, sócia e diretora editorial da Kapulana, falará sobre a publicação de autores africanos de língua portuguesa, no Brasil; Leonardo Tonus, professor da Paris-Sorbonne IV e criador do projeto Printemps Littèraires, tratará de alguns cenários para a divulgação de escritores brasileiros contemporâneos no mundo. Mediação: Francis Manzoni, coordenador editorial nas Edições Sesc e coordenador da Comissão para Promoção de Conteúdo em Língua Portuguesa, da Câmara Brasileira do Livro.

 

23 de julho de 2018

★★★

Saiba mais sobre a programação da Casa Paratodxshttp://www.kapulana.com.br/eventos/casa-paratodxs-kapulana-na-flip-2018/

Saiba mais sobre a programação do Sesc na Fliphttps://www.sescsp.org.br/programacao/161348_INTERCAMBIOS+DA+LINGUA+PORTUGUESA

Saiba mais sobre Rosana Morais Weghttp://www.kapulana.com.br/rosana-morais-weg/

Saiba mais sobre a Flip 2018http://flip.org.br/

Revelação literária do Zimbábue, Rutendo Tavengerwei participa de eventos no Brasil

A jovem escritora e revelação literária do Zimbábue, Rutendo Tavengerwei, virá ao Brasil para participar em agosto de dois eventos. Em São Paulo, no Sesc Paulista, e em Salvador, na Flipelô.

Em 07/08/2018, 3a. feira, em São Paulono Sesc Paulista, Rutendo Tavengerwei, autora do livro Esperança para voar, da Editora Kapulana, participará da atividade “Vozes da África – Rutendo Tavengerwei”, um bate-papo com as blogueiras Lu Bento e Bianca Gonçalves, e a tradutora de seu livro.  .

Saiba mais sobre Rutendo no Sesc Paulista:

https://www.sescsp.org.br/programacao/161881_VOZES%20DA%20AFRICA%20RUTENDO%20TAVENGERWEI

Em 09/08/2018, 5a. feira, em Salvador, na Flipelô (2ª Festa Literária Internacional do Pelourinho), participará da “Roda de Conversa – Esperança para voar – Uma conversa sobre a África”, na companhia da Profa. Luiza Reis e da tradutora do livro, Carolina Kuhn Facchin. O evento será no Teatro do Sesc-Senac, no Pelourinho. Durante o evento, a autora, que lançou recentemente no Brasil pela Kapulana o romance young adult “Esperança para voar”, conversará sobre a obra de estreia, assim como o seu  processo criativo, a literatura young adult (jovem adulto), a  construção da narrativa, das personagens, repressão e do país em que cresceu, no Zimbábue de 2008, ano em que o país sofreu uma forte crise financeira. 

Saiba mais sobre a programação da Flipelô: www.flipelo.com.br

 

Sobre a autora

Rutendo Tavergerwei – jovem escritora africana nasceu, cresceu e estudou no Zimbábue, onde morou até os 18 anos. Continuou, então, seus estudos na África do Sul, na área de Direito na Universidade de Witwatersrand, onde recebeu o diploma de especialização em Direito Comercial Internacional. Na Suíça, completou um Mestrado no World Trade Institute, Universidade de Berna. Atualmente, trabalha na Organização Mundial do Comércio, em Genebra. Esperança para voar (Hope is our only wing) é seu primeiro livro de ficção publicado no Brasil em 2018, pela Kapulana.

Sobre o livro

Em Esperança para voar, Rutendo narra a história de amizade de duas adolescentes. Depois de anos morando no Reino Unido, Shamiso precisa voltar para o Zimbábue após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. A obra apresenta um lugar destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo, mas amado por seu povo resiliente. Abre-se um enredo sobre como jovens do século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é contada de forma a mostrar que aqueles fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país, em qualquer tempo.

“Quando refleti sobre 2008, percebi que a maioria das minhas lembranças e a maneira como eu via o mundo era da perspectiva de uma adolescente, então fez sentido para mim que as protagonistas fossem adolescentes”, explicou Rutendo em entrevista para a Kapulana. “Ainda mais porque lições sobre esperança e perseverança são importantes, e eu queria compartilhá-las especialmente com o público jovem”, concluiu.

2º FLIPELÔ – FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DO PELOURINHO

A 2ª Festa Literária Internacional do Pelourinho – FLIPELÔ tem como tema  a frase de Jorge Amado “a amizade é o sal da vida” e é em homenagem ao escritor itaparicano João Ubaldo Ribeiro, grande amigo de Jorge. Assim, de 8 a 12 de agosto a 2ª FLIPELÔ, uma realização da Fundação Casa de Jorge Amado, ganha as ruas, largos, praças e casarões do Centro Histórico e promove, em 13 espaços de cultura, de forma absolutamente gratuita,  uma ampla programação com mais de 50 atividades. Nos cinco do evento são esperados cerca de 50 mil participantes, apaixonados pelo mundo das palavras.

Autores locais, nacionais e internacionais estarão em contato direto com o público em mesas de debates, bate-papos com jovens, lançamentos de livros, saraus de poesia e slans e na programação infantil. Haverá também exposições, apresentações teatrais e shows musicais e, pela primeira vez, a Rota Gastronômica Amados Sabores, que contará com a participação de 20 restaurantes do Centro Histórico, que produzirão pratos com preços especiais com receitas inspiradas no livro de Paloma Amado, “A Comida Baiana de Jorge Amado”.

Nos dias da Flipelô haverá uma programação paralela promovida por instituições com sede no Centro Histórico e 46 lojas da região oferecerão descontos nas compras realizadas durante os cinco dias do evento. Nas ruas, monitores cuidarão da orientação ao público.

A 2ª edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho, a FLIPELÔ 2018, conta com o patrocínio do Ministério da Cultura, Instituto CCR, Banco do Nordeste do Brasil e TPC Logística, por meio da Lei Rouanet,  e do Estado da Bahia e Bahiagás. O evento tem ainda o apoio da CCR Metrô e do Shopping da Bahia, corealização do SESC, produção da Sole Produções e realização da Fundação Casa de Jorge Amado.

A Fundação Casa de Jorge Amado é mantida com apoio do Fundo de Cultura do Estado da Bahia e é considerada um ponto de referência na geografia cultural de Salvador.

18 de julho de 2018

★★★

Saiba mais sobre a escritorahttp://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei/

Saiba mais sobre o livrohttp://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

Saiba mais sobre a tradutorahttp://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-faccin/

Uma entrevista com Rutendo Tavengerwei: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-rutendo-tavengerwei-autora-de-esperanca-para-voar/

Assista ao vídeo com Rutendo Tavengerwei: https://www.youtube.com/watch?v=0oZBCwnbfTk&t=3s

Assista o booktrailer: https://www.youtube.com/watch?v=Vu0x0XTGnkw

Leia a resenha de Lu Bentohttp://www.kapulana.com.br/esperanca-para-voar-um-livro-envolvente-e-emocionante-por-luciana-bento/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

Aquarela – Ilustrações de Luís Cardoso em “Leona, a filha do silêncio”, de Marcelo Panguana

Aquarela é uma técnica de pintura criada há cerca de 2000 anos na China. Esta tinta é famosa e inigualável por ser extremamente translúcida. Por trás das pinceladas, o papel branco é revelado e a pintura parece brilhar de dentro para fora, o que permite que a luz seja representada de forma única, diferente de outros materiais.

Nas pinturas em aquarela, os pigmentos coloridos são diluídos em água ou suspensos sobre o suporte. As tintas fluem sobre a água de maneira bastante livre, o que pode criar manchas e texturas muito expressivas, sejam ela planejadas ou acidentais. Os papéis de qualidade mais usados são os de fibras de algodão, linho e cascas de árvore, com uma gramatura alta para que não enruguem com a grande quantidade de água usada.

Artistas europeus popularizaram esta técnica, que foi utilizada por grandes pintores, como o alemão Albert Dürer, o inglês William Turner – que produziu mais de 19 mil telas utilizando a aquarela e influenciou pintores impressionistas -, o francês Paul Cézanne e o suíço Paul Klee. No Brasil, o renomado artista Carybé pintava usando a aquarela, assim como a pintora Anita Malfatti.

Citar como: Panguana, Marcelo. Leona, a filha do silêncio. Ilustrações de Luís Cardoso. São Paulo: Kapulana, 2018. [Contos de Moçambique, v. 9]

Luís Cardoso, artista moçambicano, é ilustrador de vários livros da Editora Kapulana, dentre 

Os recentes lançamentos da Kapulana, “O que acontece quando um homem cai do céu” e “Esperança para voar”, já estão disponíveis em e-book

As obras estão disponíveis nas plataformas da Amazon.com.br, Livraria Cultura, Apple iBooks Store, Google e Kobo

Os dois novos lançamentos deste ano também estão disponíveis em e-book.  Os livros Esperança para voar, de Rutendo Tavengerwei, e O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley Nneka Arimah, já estão disponíveis nas plataformas da Amazon.com.br, Livraria Cultura, Apple iBooks Store, Google e Kobo

A obra de estreia da jovem autora narra a história de amizade de duas adolescentes. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. Ocorrido em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, o livro mostra um lugar destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. Abre-se um enredo de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo. O livro foi traduzido por Carolina Kuhn Facchin.

Confira as livrarias com o romance disponível em e-book:

Amazon.com.br: https://amzn.to/2Iar9KR
Livraria Cultura: https://bit.ly/2QIJaJq
Apple iBooks Store: https://apple.co/2lzBwPu
Google: http://bit.ly/2yGdlbs
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Em O que acontece quando um homem cai do céu, a escritora Lesley Nneka desenvolve, em doze contos, diversas formas literárias que abrangem o insólito, a distopia, as memórias da guerra na Nigéria, as relações complexas entre mãe e filha, a convivência humana com as tecnologias,  a infância e o embate entre as tradições de seus familiares e o cotidiano na América, muitas vezes com uma visão afrofuturista. Lesley nasceu no Reino Unido, viveu na Nigéria e agora mora em Minnesota, nos Estados Unidos. A obra original foi publicada nos Estados Unidos, em 2017, com o título de What it means when a man falls from the sky, e será lançada pela Editora Kapulana em julho de 2018. A escritora ganhou o “Kirkus Prize”, além da obra ter recebido aclamação da crítica e de leitores internacionais.  O livro também foi traduzido por Carolina Kuhn Facchin.

Confira as livrarias com o livro de contos disponível em e-book:

Amazon.com.br: https://amzn.to/2uFfUVR
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★★★

Saiba mais sobre Lesley Nneka Arimah: http://www.kapulana.com.br/lesley-nneka-arimah/

Saiba mais sobre “O que acontece quando um homem cai do céu”: http://www.kapulana.com.br/produto/o-que-acontece-quando-um-homem-cai-do-ceu/

Saiba mais sobre Rutendo Tavengerweihttp://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei/

Saiba mais sobre “Esperança para voar”http://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

Saiba mais sobre a tradutora: http://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-faccin/

 

Kapulana lança o aclamado livro de contos “O que acontece quando um homem cai do céu”, de Lesley Nneka Arimah

Evocativo e provocativo, O que acontece quando um homem cai do céu anuncia a chegada de uma autora com capacidade narrativa extraordinária, uma nova voz da literatura contemporânea

A Kapulana lança no Brasil nesta quinta-feira, 12 de julho, o elogiado O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah.

Em seu livro de estreia, a escritora desenvolve, em doze contos, diversas formas literárias que abrangem o insólito, a distopia, as memórias da guerra na Nigéria, as relações complexas entre mãe e filha, a convivência humana com as tecnologias, a infância e o embate entre as tradições de seus familiares e o cotidiano na América, muitas vezes com uma visão afrofuturista.

Aclamado pela crítica internacional, a autora ganhou o “Kirkus Prize” e recentemente o “Young Lions Fiction Award”, promovido por The New York Public Library, premiação que celebra os autores em ascensão no mundo da literatura. O livro também foi indicado para o “John Leonard Prize”, da National Book Critics Circle.

Evocativo e provocativo, O que acontece quando um homem cai do céu anuncia a chegada de uma autora com capacidade narrativa extraordinária, uma nova voz da literatura contemporânea. O The Washington Post, na resenha da jornalista Tayla Burney, destacou: “A voz de Arimah é vibrante e nova, os assuntos que ela traz são, ao mesmo tempo, oportunos e atemporais. Este é um volume raro que fui forçada a colocar nas mãos de amigos dizendo ‘Você tem que ler isso’”. Segundo o The New York Times Book Review, o livro é “estranho e maravilhoso. Uma contadora sagaz, oblíqua e provocativa, Arimah consegue encaixar a história de uma família em poucas páginas, e inventar parábolas utópicas, fábulas mágicas e cenários aterrorizantes”.

No Brasil, a obra, traduzida por Carolina Kuhn Facchin, já está ganhando boas críticas, como na resenha do escritor Allan da Rosa, publicada na edição de julho do Suplemento Pernambuco: “Lesley Arimah abre o ser humano como uma cebola. Despetala, corta, pica e não perdemos seu ardor. Conta histórias com excelência e seus enredos magnetizam quem ouve, como tirei a prova lendo em aulas pra turma e em casa pro meu guri. Mas como ela domina sobretudo a linguagem da escrita por seus ritmos e imagens, referências e funduras, encanta a cabeça e infla o peito de quem a lê em silêncio, desenhando no seu tempo e na sua mente as figuras e passagens que nos entortam no desfrute nem sempre doce. Com apenas este livro, compilação, Lesley Arimah já é uma das grandes”. A slammer e apresentadora, Roberta Estrela D’Alva, no texto da versão brasileira da orelha do livro escreveu: “Vozes negras de um feminino diaspórico, que sempre chegando ou partindo de algo (uma pessoa, uma lembrança, um país, um medo) criam territórios imaginários, emocionais, familiares que nos transportam para o centro da ação”.

Com lançamento em 12 de julho de 2018, O que acontece quando um homem cai do céu é o segundo livro de autores das literaturas africanas de língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em maio, a editora publicou o romance Esperança para voar, da jovem escritora Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue, e em novembro será a vez do livro de memórias Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

12 de julho de 2018

 

★★★

Saiba mais sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/lesley-nneka-arimah/

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/o-que-acontece-quando-um-homem-cai-do-ceu/

Saiba mais sobre a tradutora: http://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-faccin/

Assista ao booktrailer: https://www.youtube.com/watch?v=co_yxwtmq08

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

Leia as resenhas internacionais sobre o livro “O que acontece quando um homem cai do céu”, de Lesley Nneka Arimah, que a Kapulana lança no Brasil

O foco de Arimah é na construção do enredo que permeia a originalidade de contar surpreendentes histórias

Elogiado por jornais e revistas internacionais, o livro O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah, finalmente chega ao Brasil em uma extraordinária publicação da Editora Kapulana.

Em doze contos, a autora aborda histórias contadas majoritariamente de uma perspectiva feminina, e trazem questões como maternidade e relação mãe e filha, sacrifício, feminilidade, amadurecimento e violência. Alguns dos contos apresentam aspectos da literatura fantástica e afrofuturismo, outros são mais realistas. A autora ganhou o “Kirkus Prize” e recentemente o “Young Lions Fiction Award”, promovido por The New York Public Library, premiação que celebra os autores em ascensão no mundo da literatura. O livro também foi indicado para o “John Leonard Prize”, da National Book Critics Circle.

O foco de Arimah é na construção do enredo que permeia a originalidade de contar surpreendentes histórias. Sua habilidade narrativa é fascinante em textos concisos que abordam as relações humanas. Elogiada por diversos jornais e revistas internacionais, Arimah aborda o rompimento da rotina e a vulnerabilidade de seus personagens. O livro, traduzido por Carolina Kuhn Facchin, será lançado no dia 12 de julho. 

Com a publicação em julho, O que acontece quando um homem cai do céu é o segundo livro de autores das literaturas africanas de língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em maio, a editora publicou o romance Esperança para voar, da jovem escritora Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue, e em novembro será a vez do livro de memórias Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

Confira os trechos de resenhas e críticas na imprensa internacional:

 

“A voz de Arimah é vibrante e nova, os assuntos que ela traz são, ao mesmo tempo, oportunos e atemporais […] Este é um volume curto e raro que fui forçado a colocar nas mãos de amigos dizendo ‘Você tem que ler isso’.” (Washington Post, EUA, 13 de abril de 2017)

 

“[…] uma escritora surpreendente, cujas palavras desafiam o coração e a mente a permanecerem impassíveis. Com sua mistura fluida de humor sombrio, tristeza e visitas a um realismo mágico, algumas das histórias de Arimah parecem com as de Octavia Butler e Shirley Jackson. Porém, não há nada derivativo aqui. A escrita de Arimah é deliciosamente imprevisível. As palavras dela pulsam, verdadeiras.” (Boston Globe, EUA, 14 de abril de 2017)

 

“Arrepiante, surreal, frequentemente arrebatador… As histórias de Arimah são espirituosas, poéticas e queimantes, cheias de personagens com falhas, mas amáveis, e imagens que fazem o leitor querer reler algumas passagens. A autora tem um senso apurado de fantasia e do absurdo, e o seu trabalho se baseia em experiências e impulsos que parecem muito familiares.” (The Seattle Times, EUA, 16 de abril de 2017)

 

“Estranho e maravilhoso… uma contadora de histórias sagaz, oblíqua e provocativa, Arimah consegue encaixar a história de uma família em poucas páginas, e inventar parábolas utópicas, fábulas mágicas e cenários aterrorizante, movendo-se com desembaraço entre um distanciamento cômico e um realismo psicológico perspicaz […] As suas histórias de ficção científica, que trazem questões feministas e relativas ao meio-ambiente, lembram as de Margaret Atwood.” (New York Times Book Review, EUA, 11 de maio 2017)

 

“Arimah capta o senso de tempo narrativo e muda o tom caótico. Contos rápidos e impiedosos, deixando os enredos fora de nossas mãos”. (The Guardian, Reino Unido, 2 de setembro de 2017)

 

“Em sua coleção de estreia, Lesley Nneka Arimah mistura realismo mágico e elementos de ficção científica para criar um conjunto de histórias realmente únicas sobre família, amizade e a ideia de um lar, que vão deixar o leitor faminto para ler mais do seu trabalho.” (Cosmopolitan, EUA, 11 de dezembro de 2017)

 

“Deslumbrante… Cada história no conjunto de estreia de Arimah consegue cumprir a tarefa difícil de ser, ao mesmo tempo, complexa e convidativa. Parte da atração se deve às frases maravilhosas construídas por Arimah. Os temas são duros, e as situações são frequentemente desesperadoras, mas há algo estranhamente reconfortante sobre essas histórias. Talvez seja o fato de que nesses mundos problemáticos há personagens com os quais conseguimos nos conectar. Ou talvez seja mais simples do que isso. Talvez eles sejam nós.” (Critical Mass, EUA, 16 de janeiro de 2018)

26 de junho de 2018

★★★

Saiba mais sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/lesley-nneka-arimah/

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Saiba mais sobre a tradutora: http://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-faccin/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

 

EM PRÉ-VENDA NAS SEGUINTES LIVRARIAS:

“Esperança para voar”, de Rutendo Tavengerwei, disponível em e-book

Kapulana lançou em maio o romance “Esperança para voar”, da jovem autora do Zimbábue, Rutendo Tavengerwei. E uma grande novidade, o livro também está disponível em e-book 

A obra de estreia da jovem autora narra a história de amizade de duas adolescentes. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. Ocorrido em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, o livro mostra um lugar destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. Abre-se um enredo de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo. O livro foi traduzido por Carolina Kuhn Facchin.

 

Confira as livrarias com o romance disponível em e-book:

Amazon.com.br: https://amzn.to/2Iar9KR
Livraria Cultura: https://bit.ly/2IoUscH
Apple iBooks Store: https://apple.co/2lzBwPu
Google: http://bit.ly/2yGdlbs
Kobo: https://bit.ly/2Mpg2jN

Esperança para voar é o primeiro livro de literatura em língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em 12 de julho, será publicado o livro de contos O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah. Em novembro, ocorrerá a publicação do livro de memórias, Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

 

★★★

Saiba mais sobre a escritorahttp://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei/

Saiba mais sobre o livrohttp://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

Saiba mais sobre a tradutorahttp://www.kapulana.com.br/carolina-kuhn-faccin/

Uma entrevista com Rutendo Tavengerwei: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-rutendo-tavengerwei-autora-de-esperanca-para-voar/

Assista ao vídeo com Rutendo Tavengerwei: https://www.youtube.com/watch?v=0oZBCwnbfTk&t=3s

Assista o booktrailer: https://www.youtube.com/watch?v=Vu0x0XTGnkw

Leia a resenha de Lu Bentohttp://www.kapulana.com.br/esperanca-para-voar-um-livro-envolvente-e-emocionante-por-luciana-bento/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

[Sobre] O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley N. Arimah, por Roberta Estrela D’Alva

O povo negro sempre teve suas contadoras de histórias. Lembro-me de Dona Rosa, minha saudosa e enérgica avó, tecendo suas narrativas para uma plateia de netos um tanto atônita, um tanto maravilhada. Boas contadoras de história têm a capacidade de mover nossos sentidos com suas vozes. Foi exatamente assim que me senti ao ouvir Lesley Nneka Arimah. Sim, porque ainda que escrita, é uma voz que se escuta, e que faz com que muitas outras sejam escutadas, e às quais não há como se passar incólume. Vozes negras de um feminino diaspórico, que sempre chegando ou partindo de algo (uma pessoa, uma lembrança, um país, um medo) criam territórios imaginários, emocionais, familiares que nos transportam para o centro da ação. Uma negritude não- maniqueísta, onde não só a poesia e a virtude, mas também a crueldade de mulheres que se encontram dentro de sistemas com os quais tem que contracenar, e dos quais não conseguem escapar, estão expostas. Sombras de passados, luzes do presente, adestramento de cabelos e caráteres aos quais desde muito cedo mulheres negras são submetidas. Sem ranço, com ironia, humor e um tanto de imaginação fantástica que nos faz tirar os pés do chão (e cá pra nós, estamos precisando).

São Paulo, 4 de junho de 2018.

Roberta Estrela D’Alva é atriz, Mc, diretora, diretora musical, ativista, apresentadora e slammer. Formada em Artes Cênicas pela USP (Universidade de São Paulo), Roberta também fez mestrado em Semiótica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), onde atualmente cursa o doutorado.

Citar como: ESTRELA D’ALVA, Roberta.  In: ARIMAH, Lesley Nneka. O que acontece quando um homem cai do céu. (orelha) São Paulo: Kapulana, 2018.

 

 

Confira a capa do livro “O que acontece quando um homem cai do céu”, de Lesley Nneka Arimah, com lançamento em julho

São histórias contadas majoritariamente de uma perspectiva feminina, e trazem questões como maternidade e relação mãe/filha, sacrifício, feminilidade, amadurecimento e violência

Conheça a capa brasileira do próximo lançamento da Kapulana. Em julho, a editora publica O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley Nneka Arimah. Em doze contos, a autora, de origem nigeriana, desenvolve diversas formas literárias que abrangem a distopia, as memórias da guerra na Nigéria, as relações complexas entre mãe e filha e a convivência humana com as tecnologias, muitas vezes com uma visão afrofuturista. Lesley ganhou o “Kirkus Prize”, além de o livro estar em várias listas dos mais lidos e mais recomendados de 2017. A obra é traduzida por Carolina Kuhn Facchin.

 

 

“A voz de Arimah é vibrante e nova, os assuntos que ela traz são, ao mesmo tempo, oportunos e atemporais”

(Washington Post, EUA, 13 de abril de 2017)

“Estranho e maravilhoso… uma contadora de histórias sagaz, oblíqua e provocativa, Arimah consegue encaixar a história de uma família em poucas páginas, e inventar parábolas utópicas, fábulas mágicas e cenários aterrorizante, movendo-se com desembaraço entre um distanciamento cômico e um realismo psicológico perspicaz”

 (New York Times Book Review, EUA, 11 de maio 2017)

“Arimah capta o senso de tempo narrativo e muda o tom caótico. Contos rápidos e impiedosos, deixando os enredos fora de nossas mãos”.

(The Guardian, Reino Unido, 2 de setembro de 2017)

 

Conheça a capa:

 

Com o lançamento em julho, O que acontece quando um homem cai do céu é o segundo livro de autores das literaturas africanas de língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em maio, a editora publicou o romance Esperança para voar, da jovem autora Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue, e em novembro será a vez do livro de memórias Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

22 de maio de 2018

★★★

 

Saiba mais sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/lesley-nneka-arimah/

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/o-que-acontece-quando-um-homem-cai-do-ceu/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

 

Revelação do Zimbábue, Rutendo Tavengerwei lança pela Kapulana, no Brasil, o romance “Esperança para voar”

Rutendo Tavengerwei aborda uma emocionante história, com extraordinárias personagens, dialogando e refletindo sobre as mudanças da adolescência, as questões político-sociais e, claro, a importância da amizade

Já à venda nas livrarias o novo livro publicado pela Editora Kapulana, o romance Esperança para voar, de Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue. A obra de estreia da jovem autora narra a história de amizade de duas adolescentes. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. Ocorrido em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, o livro mostra um lugar destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. Abre-se um enredo de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo.

“Quando refleti sobre 2008, percebi que a maioria das minhas lembranças e a maneira como eu via o mundo era da perspectiva de uma adolescente, então fez sentido para mim que as protagonistas fossem adolescentes”, explicou a autora em entrevista exclusiva para a Kapulana. “Ainda mais porque lições sobre esperança e perseverança são importantes, e eu queria compartilhá-las especialmente com o público jovem”, concluiu.

Promissora e com hábil desenvolvimento narrativo, Rutendo aborda uma emocionante história, com extraordinárias personagens, dialogando e refletindo sobre as mudanças da adolescência, as questões político-sociais e, claro, a importância da amizade. “De certa maneira, eu traço paralelos entre minha escrita e meu cotidiano. Acho que é importante, se você quer que a história fique plausível, usar situações reais e adicioná-las à história. Então, em alguns casos, se eu escuto algo interessante ou engraçado, às vezes eu tento incorporar isso à história. Mas tanto de minha vida está na minha escrita. Eu escrevo sobre música e os sons que escuto, escrevo sobre cenários que eu acho maravilhosos. Basicamente, eu tento compartilhar tudo que me toca com o mundo”, destacou a escritora. “O mundo é muito caótico, e muitas coisas frustrantes acontecem em nossos países e nas nossas vidas pessoais também. A história da Shamiso e da Tanyaradzwa é sobre lutar para sair de tempos difíceis, e preservar a esperança em momentos sombrios. Meu desejo é que esta história sobre esperança inspire a vida dos leitores, mesmo que de uma maneira singela”, desejou a autora.

Em seu texto na versão brasileira na orelha do romance, a blogueira Luciana Bento apontou: “Este é um YA (Young Adult) contemporâneo que apresenta questões universais , sem perder a essência africana […] Rutendo Tavengerwei tem uma voz própria que cala estereótipos sobre África ressoando jovialidade e leveza na escrita mesmo diante de temas áridos. Esperança para voar nos apresenta um novo momento da literatura de língua inglesa africana”.

Esperança para voar é o primeiro livro de literatura em língua inglesa que a Kapulana lança neste ano. Em julho, será publicado o livro de contos O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah. Em novembro, ocorrerá a publicação do livro de memórias, Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

 

 

★★★

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Uma entrevista com Rutendo Tavengerwei: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-rutendo-tavengerwei-autora-de-esperanca-para-voar/

Assista ao vídeo com Rutendo Tavengerwei: https://www.youtube.com/watch?v=0oZBCwnbfTk&t=3s

Assista o booktrailer: https://www.youtube.com/watch?v=Vu0x0XTGnkw

Leia a resenha de Lu Bentohttp://www.kapulana.com.br/esperanca-para-voar-um-livro-envolvente-e-emocionante-por-luciana-bento/

Leia as sinopses dos três livros africanos de língua inglesa: http://kapulana.com.br/em-2018-kapulana-lanca-tres-livros-de-autores-de-literaturas-africanas-de-lingua-inglesa/

 

À VENDA NAS SEGUINTES LIVRARIAS:

Entrevista com Rutendo Tavengerwei, autora de “Esperança para voar”

RUTENDO TAVENGERWEI, nascida no Zimbábue, autora de Esperança para voar, concede entrevista à Editora Kapulana

1- Como surgiu a ideia de escrever o romance e como foi a construção das personagens Shamiso e Tanyaradzwa?

R- Uma das coisas pelas quais meu país é conhecido é a instabilidade econômica e política de 2008, mas o que sempre me incomodou é que não há muitas histórias sendo contadas por habitantes do Zimbábue sobre o que realmente estava acontecendo no país. Então, enquanto eu estava escrevendo “Esperança”, eu queria tentar contar a história de 2008 de uma perspectiva zimbabuana*. Especialmente porque a maior parte da história foi escrita em 2016, quando as coisas estavam começando a piorar de novo, e eu queria mandar uma mensagem de esperança para os zimbabuanos que estavam desesperados, e usar minha voz para resistir com os milhares de habitantes do Zimbábue que estava exigindo que o governo instituísse mudanças.

Quando refleti sobre 2008, percebi que a maioria das minhas lembranças e a maneira como eu via o mundo era da perspectiva de uma adolescente, então fez sentido para mim que as protagonistas fossem adolescentes. Ainda mais porque lições sobre esperança e perseverança são importantes, e eu queria compartilhá-las especialmente com o público jovem.

2- Em seu romance, é muito importante a contextualização geográfica e histórica sobre o Zimbábue. Para você, na elaboração do enredo, o que veio primeiro: o desenvolvimento da trama, detalhes narrativos e personagens ou a circunstância político-social do país?

R- Não acho que houve uma cronologia clara quanto ao que veio antes. Meu processo de escrita é relativamente aleatório e não ortodoxo. Então, a situação político-social definitivamente inspirou a trama e as personagens. Mas a trama também influenciou a caracterização; os eventos que eu escolhi para a história determinaram como as personagens seriam, por causa de como eu queria que elas respondessem a esses eventos. Então, resumindo, foi um processo bastante “misturado”.

3- Você traça um paralelo entre seu processo de escrita e seu cotidiano?

R- De certa maneira, eu traço paralelos entre minha escrita e meu cotidiano. Acho que é importante, se você quer que a história fique plausível, usar situações reais e adicioná-las à história. Então, em alguns casos, se eu escuto algo interessante ou engraçado, às vezes eu tento incorporar isso à história. Mas tanto de minha vida está na minha escrita. Eu escrevo sobre música e os sons que escuto, escrevo sobre cenários que eu acho maravilhosos. Basicamente, eu tento compartilhar tudo que me toca com o mundo.

4- A carta/apresentação no início do livro mostra como você está feliz de publicá-lo, e como isso é importante para você. O que significa para você estar publicando este livro? Você sempre sonhou em escrever um livro?

R- Eu quero ser escritora desde que eu tinha 6 anos, como disse na carta. O amor dos meus pais por contar histórias e pela escrita foi inegavelmente contagioso. No início do Ensino Médio, eu costumava comprar caderninhos de 32 páginas e escrever histórias para os outros alunos lerem. Os meus colegas gostavam do que eu escrevia, e isso me encorajou a continuar. E eu lembro que costumava dizer para todo mundo que um dia eles leriam um livro meu de verdade, que eles comprariam na livraria. E acho que esse dia chegou.

“Esperança” é particularmente importante para mim por causa da mensagem que ele traz. Não é apenas uma mensagem positiva para o mundo, mas também um lembrete para que eu não esqueça de ter esperança. E para mim foi muito importante usar minha voz para protestar contra as grandes injustiças que estavam acontecendo no meu país.

5- Quem são os escritores que mais influenciaram você, e quais são os seus gêneros favoritos?

R- Eu cresci lendo Enid Blyton. Os livros dela ampliaram minha imaginação e meu gosto por aventuras, e eu amava as histórias dela porque eu conseguia imaginar o que ela estava descrevendo.

No Ensino Médio eu lia muito as escritoras Tsitsi Dangarembga e Chimamanda Ngozi Adichie. Elas me fizeram sentir que não era impossível a literatura africana ser lida no mundo todo, em especial a literatura africana escrita por mulheres negras. Particularmente, eu devo ter lido o “Hibisco roxo” da Chimamanda mais de uma dúzia de vezes, muito interessada no uso que ela faz da linguagem e em como ela se atém às suas raízes nigerianas. Eu sabia que queria escrever de maneira parecida.

E, é claro, para mim foi sempre um prazer ler Shakespeare. Eu sempre amei como a escrita dele é lírica e poética. Como ele criava sua própria linguagem e expressões. Eu acabo fazendo isso muito quando escrevo; a linguagem, como qualquer experiência gastronômica, deve ser apresentada e saboreada.

Recentemente, tenho me inspirado muito em Angie Thomas e Tomi Adeyemi. Porque a escrita delas é um movimento, uma contribuição para o difícil diálogo sobre a marginalização dos negros nos Estados Unidos, mas também porque as histórias que elas contam passam uma mensagem para o público jovem. E eu sempre acreditei muito nisso.

Quanto aos gêneros, não sei se consigo escolher um favorito. Eu leio qualquer coisa que seja interessante, porém tenho uma tendência a gostar de livros que ensinem algo a seus leitores, seja qual for o gênero.

6- Você planeja escrever outros livros?

R- Sim, planejo escrever outros livros, porque eu realmente amo escrever e compartilhar minhas histórias com o mundo. Eu acredito que é muito importante que livros de escritores marginalizados se tornem a norma na literatura contemporânea, porque isso nos ajudaria a entender mais uns sobre os outros, apesar das nossas diferenças. E mais do que isso, porque talvez uma menina com um sonho como o meu, que sente que ninguém prestaria atenção nela por causa da cor da pele dela ou do país de onde ela é, pudesse ver que não é impossível. 

Eu já estou trabalhando no meu próximo livro, que também vai se passar no Zimbábue. Quero dividir um pouco mais da história do Zimbábue nesta próxima história, e compartilhar mais sobre a cultura também.

7- Finalmente, considerando a situação atual do mundo, você tem uma mensagem para os leitores brasileiros que vão conhecer Shamiso e Tanyaradzwa?

R- O mundo é muito caótico, e muitas coisas frustrantes acontecem em nossos países e nas nossas vidas pessoais também. A história da Shamiso e da Tanyaradzwa é sobre lutar para sair de tempos difíceis, e preservar a esperança em momentos sombrios. Meu desejo é que esta história sobre esperança inspire a vida dos leitores, mesmo que de uma maneira singela.

02 de abril de 2018.

(*) Em 2008 ocorreram tumultuadas eleições presidenciais no Zimbábue. A disputa ocorreu entre Robert Mugabe (ZANU), presidente do país desde 1987 e o opositor Morgan Tsvangirai (MDC). Em 29 de março ocorreu o primeiro turno das eleições, que apontaram pequena maioria dos votos para Tsvangirai. Entre a data de divulgação deste fato e o segundo turno das eleições, seguidores dos dois partidos travaram violentos conflitos que resultaram em dezenas de mortes. Diante da situação, Tsvangirai decidiu desistir de concorrer ao cargo, afirmando que seus eleitores corriam risco de serem mortos, o que fez com que Mugabe fosse mais uma vez eleito.

 

Citar como:

TAVENGERWEI, Rutendo. Entrevista. São Paulo: Kapulana, 02 abr. 2018. [Trad. de Carolina Kuhn Facchin]. Disponível em: http://www.kapulana.com.br/uma-entrevista-com-rutendo-tavengerwei-autora-de-esperanca-para-voar/

Saiba mais:

sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/rutendo-tavengerwei/

sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/esperanca-para-voar/

um vídeo com Rutendo Tavengerwei: https://www.youtube.com/watch?v=0oZBCwnbfTk&t=11s&mc_cid=fc7d7ceed9&mc_eid=d9a246dbcb

 

 

Kapulana esteve na III Jornada do GELCA-Unicamp e realizou o lançamento do livro de poemas “Outras fronteiras: fragmentos de narrativas”, de Ana Mafalda Leite

Na obra, Ana Mafalda apresenta um conjunto de poemas organizados em quatro momentos, em que a poeta viaja por paisagens diversas, que conversam entre si

 

A III Jornada de Teoria Literária e Estudos Africanos do GELCA (Grupo de Estudos de Literaturas e Culturas Africanas) ocorreu nos dias 25, 26 e 27 de abril, no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL/Unicamp). Na última sexta-feira (27),  a ensaísta, docente e poeta Ana Mafalda Leite realizou o lançamento de seu livro Outras fronteiras: fragmentos de narrativas, publicado pela Kapulana.

Na obra, Ana Mafalda apresenta um conjunto de poemas organizados em quatro momentos, em que a poeta viaja por paisagens diversas, que conversam entre si. As viagens começam no interior do eu-lírico e percorrem cenários de Moçambique, em terra e no Índico, repletos de portais, jardins, templos, minaretes, serpentes e flautas mágicas, em um universo em que história e poesia convivem.

Ana nasceu em Portugal, mas cresceu e realizou os primeiros estudos acadêmicos na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, Moçambique. É docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com Mestrado em Literaturas Brasileira e Africanas de Língua Portuguesa, além do Doutora em Literaturas Africanas, sua área principal de investigação.  Desenvolveu pesquisa de Doutorado e Pós-Doutorado na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres, na Universidade de Roma e na Universidade de Dakar.

Ana Mafalda Leite durante sessão de autógrafos no Gelca

Com mais de 30 anos de trajetória literária, Mafalda lançou seu primeiro livro de poemas, Em sombra acesa (Vega), no ano de 1984. Em seguida, a autora publicou as obras Canções de Alba (Vega), de 1989, Mariscando Luas (Vega), em colaboração com Luís Carlos Patraquim e Roberto Chichorro. de 1992, Rosas da China (Quetzal Editores), de 1999, entre outros. Em 2015, Mafalda recebeu o prêmio Femina Lusofonia de Literatura, honraria que contempla as “Notáveis Mulheres Portuguesas e da Lusofonia, mérito ao nível profissional, cultural e humanitário no Mundo, pelo Conhecimento e pelo seu relacionamento com outras Culturas”.

Pela kapulana, a autora lançou, no ano passado, Outras Fronteiras: Fragmentos de narrativas. Sobre o livro, a Professora Titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Carmen L. Tindó Secco, escreveu no posfácio: “O eu lírico conversa com quem escreve. Ana no espelho. E os pirilampos na noite, com sua luz, enfeitam lembranças. Como os vaga-lumes de Didi-Huberman, resistem, revelando-se metáforas da poesia em meio a um mundo-espetáculo de luzes ofuscantes”.

GELCA – A III Jornada de Teoria Literária e Estudos Africanos do GELCA (Grupo de Estudos de Literaturas e Culturas Africanas) reuniu os resultados de projetos de iniciação e pesquisa científica realizados por alunos de pós-graduação da Unicamp e de outras instituições nacionais e internacionais, assim como professores de escolas públicas e particulares e professores universitários. O Gelca tem o apoio do Programa de Pós-graduação em Teoria Literária e Direção do IEL, da Pró-reitoria de graduação da Universidade Estadual de Campinas e da Editora Kapulana.

 

 

 

 

 

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/outras-fronteiras-fragmentos-de-narrativas/

Saiba mais sobre a autora Ana Mafalda Leite: http://www.kapulana.com.br/ana-mafalda-leite/

Assista uma entrevista com a autora: https://www.youtube.com/watch?v=pHcdN6beuFY

Veja fotos das atividades: http://www.kapulana.com.br/28-02-a-13-03-2018-ana-mafalda-leite-no-brasil/

Esperança para voar: um livro envolvente e emocionante, por Luciana Bento

Sabe quando você começa a ler um livro e ele automaticamente transporta você para outro lugar? Esperança para voar é um desses livros. Ele conta a história de duas adolescentes, Shamiso e Tanyaradzwa, que fazem da perda – concreta ou iminente – um caminho para o florescimento de uma amizade e para o amadurecimento pessoal.

Shamiso é uma jovem que retorna ao Zimbábue com sua família após crescer no exterior. Seu pai, um famoso jornalista investigativo e contrário ao governo, é morto em circunstâncias suspeitas e ela precisa se adaptar ao novo rumo de sua vida.  A ausência do pai, o novo colégio interno e a distância das amigas da Europa… tanta coisa acontecendo! Shamiso sente dificuldades em se adaptar à nova rotina e estabelecer vínculos com seu país de origem e as pessoas ao seu redor.

Tanyaradzwa é uma garota feliz. Nem a terrível doença que enfrenta é capaz de afetar a sua paixão pela música e sua vontade de viver. Mas os sintomas da doença são cada vez mais marcantes e sua fraqueza aparente pode impedi-la de fazer o que mais ama: cantar.

Esperança para voar narra o encontro dessas duas jovens que amadurecem juntas a partir das dificuldades e que lutam contra as vozes que gritam para que elas desistam de tudo. Em meio à uma situação política delicada e um caos social, as duas precisam descobrir uma forma de lidar com as transformações em suas vidas.

Ao mesmo tempo que o encontro das amigas poderia se dar em qualquer lugar do mundo sem perder o sentido, a autora reforça a importância da territorialidade na narrativa, situando seu livro em um importante momento da história recente do país. De forma leve e cuidadosa, Rutendo traz para a literatura o contexto político do Zimbábue a partir dos relacionamentos humanos e nos apresenta os impactos das escolhas políticas no cotidiano da população.

Em seu romance de estreia, Rutendo Tavengerwei mostra que sua juventude não é sinônimo de imaturidade na escrita. Sua obra traz uma nova perspectiva sobre realidade africana, em especial a do Zimbábue, que também é o país de origem da autora.  Aborda questões universais como a morte e a política sem perder a essência africana. A musicalidade é o pano de fundo perfeito, conferindo ritmo ao enredo e uma melodia que amarra todo a história.

A edição do livro reforça o compromisso da editora Kapulana em apresentar ao público brasileiro narrativas africanas contextualizadas. Termos tradicionais são mantidos na tradução, e essa decisão editorial é fundamental para que os leitores permaneçam atentos à riqueza cultural e étnica do universo narrado.

Um livro envolvente e emocionante que trata de temas áridos sem ser piegas e nos mostra o valor da coragem de lutar pelo que se acredita. A autora diz na nota introdutória ao livro que seu objetivo era contar uma história que trouxesse uma mensagem ao leitor sem subestimar o quão difícil a vida pode ser. Ao final da leitura, suspirei com aquele sorriso satisfeito por conhecer essa história. Rutendo, creio que a sua mensagem foi recebida.

São Paulo, 1 de abril de 2018.

Luciana Bento – A mãe preta

 

Citar como: BENTO, Luciana. “Esperança para voar: um livro envolvente e emocionante.” In: Tavengervei, Rutendo. Esperança para voar. Trad. Carolina Kuhn Facchin. São Paulo: Kapulana, 2018.

 

Livro ‘Serei sereia?’, de Kely de Castro e publicado pela Kapulana, disponível em múltiplos formatos acessíveis

 DIVERSOS – LIVROS ACESSÍVEIS E INCLUSIVOS surge do compromisso e da necessidade de disponibilizar clássicos da literatura infantil e infantojuvenil em múltiplos formatos acessíveis

A Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo apresentou, na tarde desta quarta-feira (25), na Biblioteca de São Paulo, o projeto DIVERSOS – LIVROS ACESSÍVEIS E INCLUSIVOS, que reúne obras de diversos autores, em múltiplos formatos acessíveis e publicado no site do Centro de Tecnologia e Inovação (CTI). ‘Serei sereia?’, livro de Kely de Castro e com ilustrações de Amanda Azevedo, lançado pela Kapulana, foi escolhido para fazer parte do formato. Estão também disponíveis as obras ‘Uma nova amiga’, de Lia Crespo, ‘O discurso do urso’, de Julio Cortázar e ‘O menino no espelho’, de Fernando Sabino.  A iniciativa irá fornecer gratuitamente títulos com recursos de acessibilidade como legenda, narração, libras, ilustrações e audiodescrição das imagens em formato digital para pessoas com deficiência. 

‘Serei sereia?’ é a história de Inaê, uma menina que já nasceu com um grande desafio a vencer: o fato de não poder andar. Nessa narrativa, contada pela artista Kely de Castro, Inaê, como todas as crianças, passa por momentos de tristeza, alegria, conflito e tranquilidade. A bordo de sua cadeira de rodas, enfrenta obstáculos e, aos poucos, com o apoio de sua mãe, descobre que pode construir sua própria história. O livro é ilustrado por Amanda de Azevedo e por fotos de bonecas confeccionadas pela autora.

O projeto

Em parceria com a organização Mais Diferenças, o DIVERSOS – LIVROS ACESSÍVEIS E INCLUSIVOS surge do compromisso e da necessidade de disponibilizar clássicos da literatura infantil e infanto-juvenil em múltiplos formatos acessíveis, como contribuição à leitura no processo de formação da cidadania responsável e sustentável. 

Nos últimos anos, o Brasil avançou muito em relação aos direitos das pessoas com deficiência em diferentes campos e áreas de atuação, segmento que alcança 45,6 milhões no Brasil, e 9,3 milhões no estado de São Paulo.  Nos diferentes espaços, quer sejam escolas, bibliotecas, livrarias e os próprios lares, não existem ainda livros audiovisuais em formatos bilíngues – Português/Libras, ou mesmo livros que considerem as características das pessoas com deficiência intelectual.

O Brasil garante a educação inclusiva em todas as etapas e modalidades de ensino, com salas de aula organizadas por grupos heterogêneos e múltiplos, assegurando às crianças com e sem deficiência o direito de aprender e conviver juntas nas salas de aula. No entanto, muitas vezes, o livro – que apresenta diferentes formas de ler e de levar o leitor a se relacionar com o texto, com as imagens, com o som, os movimentos, os códigos e as línguas – pode ser muito rico para todas as pessoas, com e sem deficiência, se contar com recursos alternativos e adaptáveis, para seu pleno acesso.

O acesso à informação, à comunicação, ao livro, à leitura e à literatura continuam sendo desafios importantes, que demandam conscientização, pesquisa, produção e disseminação de materiais acessíveis para pessoas com diferentes tipos de deficiência. O Projeto DIVERSOS – LIVROS ACESSÍVEIS E INCLUSIVOS apresenta bloco de livros desenvolvido para que todas as pessoas com e sem deficiência possam ter acesso à leitura, por via digital –  computador, notebook, tablet ou celular.

Como o próprio nome diz, os livros são diversos! São histórias divertidas, animadas, de suspense, de aventura, de amor, de fantasia. São histórias de hoje e de antigamente. São histórias que se passam aqui e em outros lugares do mundo. Crianças e adolescentes, com e sem deficiência, podem escutar a história que está sendo contada; podem ouvir os sons que ajudam a imaginar; podem ver o texto escrito na tela; podem ver as imagens que estão nos livros e escutar as descrições delas. Também podem ver o livro ser contado em Libras, o idioma de muitas pessoas surdas.

As memórias que nos acompanham ao longo da vida em relação às histórias, aos livros, aos contos de fadas e às diferentes narrativas que sobrevivem ao tempo são fundamentais e carregam uma carga simbólica expressiva. Em alguns livros, o texto foi reescrito de uma forma mais simples, ao qual denominamos Leitura Fácil, com glossário explicativo para facilitar o entendimento de palavras menos usuais. DIVERSOS – LIVROS ACESSÍVEIS E INCLUSIVOS é o projeto de leitura fácil da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo – para todos.

Saiba mais:

Sobre a escritora: http://www.kapulana.com.br/kely-de-castro/

Sobre a ilustradora: http://www.kapulana.com.br/amanda-de-azevedo/

Sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/serei-sereia/

Veja fotos da atividadehttp://kapulana.com.br/livro-serei-sereia-disponivel-em-multiplos-formatos-acessiveis/

Conheça a Kapulanahttp://kapulana.com.br/a-editora/

Confira a capa do romance ‘Esperança para voar’, da jovem escritora Rutendo Tavengerwei

O romance, com lançamento para maio, é a primeira obra das literaturas de língua inglesa que a Kapulana publica neste ano. Os títulos, inéditos e com primeiras traduções em língua portuguesa, são de diversas temáticas e estilos literários

Esperança para voar narra a história de superação e amizade de duas adolescentes. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. O cenário é o Zimbábue, em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. Abre-se um enredo de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo.

Rutendo Tavengerwei nasceu, cresceu e estudou no Zimbábue, onde morou até os dezoito anos. Em seu primeiro romance, a jovem autora constrói uma emocionante narrativa, com extraordinárias personagens, dialogando diretamente com o público jovem, além de abordar as mudanças da adolescência, a superação e, claro, a importância da amizade. A obra, traduzida por Carolina Kuhn Facchin, será lançada no Brasil pela Editora Kapulana.

Veja abaixo a capa:

O romance é o primeiro das literaturas de língua inglesa que a editora lança neste ano. Os títulos, inéditos e com primeiras traduções em língua portuguesa, são de diversas temáticas e estilos literários. Em julho será publicado o livro de contos O que acontece quando um homem cai do céu, da autora de origem nigeriana Lesley Nneka Arimah. E em novembro ocorrerá o lançamento do livro de memórias Um dia vou escrever sobre este lugar, do queniano Binyavanga Wainaina.

Saiba mais:

Kapulana celebra o Dia da Mulher Moçambicana

A data é comemorada em 7 de abril e homenageia Josina Machel

O Dia da Mulher Moçambicana é comemorado no dia 7 de abril. Na ocasião, é lembrado do aniversário de morte de Josina Machel (1945-1971), segunda esposa de Samora Machel (1933-1986), primeiro presidente de Moçambique após a independência. Josina, que se juntou à Luta Armada de Libertação Nacional ainda jovem, é destacada como heroína de Moçambique, por batalhar a favor da independência de seu país, além de ser inspiração do movimento feminino moçambicano.

A Kapulana tem muito orgulho de publicar as obras literárias de magníficas autoras moçambicanas e homenagear a data simbólica do país africano.

Josina Machel

Confira as autoras moçambicanas que fazem parte do catálogo da editora:

Lica Sebastião – Nasceu em Maputo, capital de Moçambique. Fez a licenciatura em Ensino do Português em 1994. Concilia a atividade docente com as artes plásticas e a poesia desde 2006. Participou de exposições coletivas e realizou várias mostras individuais. É membro do “Núcleo de Arte” em Maputo.

Livro publicado pela Kapulana: 

de terra, vento e fogo, da série “Vozes da África”, é uma coletânea inédita de poemas da escritora moçambicana. Em seu primeiro livro publicado no Brasil, a poeta expressa um lirismo incontido quando expõe corajosamente suas alegrias e angústias. Para o título, escolheu três dos quatro elementos da natureza, terra, vento e fogo. O quarto elemento, a água, aparecerá para o leitor durante a leitura deste precioso conjunto de versos. Amanda de Azevedo criou as delicadas vinhetas para esta edição.

 

Noémia de Sousa – Nasceu em 1926, em Catembe, vila no litoral Sul de Moçambique, banhada pelo Oceano Índico, na baía de Maputo, bem em frente à capital de Moçambique. Faleceu em 2002, em Cascais, Portugal. Por sua influência nas gerações de poetas de Moçambique, ficou conhecida como “Mãe dos poetas moçambicanos”. É autora de densa obra poética, que representa a resistência da mulher africana e luta do povo moçambicano por sua liberdade. 

Livro publicado pela Kapulana: 

Seu único livro, Sangue negro, é composto por 49 poemas, escritos entre os anos de 1948 e 1951 do século passado, que circularam em jornais como O brado africano. Em 2001, seus poemas foram reunidos no livro Sangue negro, publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e, dez anos mais tarde, uma nova edição foi publicada pela editora moçambicana Marimbique. No ano de 2016, a Editora Kapulana publicou a primeira edição brasileira da obra, com os 49 poemas mais marcantes da literatura moçambicana.

 

Sílvia Bragança – Nasceu em Goa, na Índia, e vive em Moçambique há muitos anos. É professora, pintora, poeta e escritora. Sempre teve paixão por crianças e dedica-se a projetos de educação com crianças moçambicanas. É artista bastante conhecida internacionalmente e faz várias exposições de arte na Índia, em Portugal e em Moçambique. Silvia foi casada com Aquino de Bragança, figura importante na libertação dos povos africanos e na luta contra o sistema colonial português. Aquino morreu em 1986 em um acidente de avião, no qual se encontrava toda a comitiva do então presidente de Moçambique, Samora Machel, também falecido na ocasião, de quem era muito próximo.

Livro publicado pela Kapulana: 

Na obra Sonho da Lua, da série “Vozes da África”, a escritora Sílvia Bragança, com vasta e profunda vivência em Moçambique, nos oferece dez poemas infantis sobre o universo, apresentando às crianças o mundo que está ao seu redor, visível ou não. As ilustrações da brasileira Amanda de Azevedo enriquecem ainda mais as pequenas joias poéticas de Sílvia sobre a lua, o vento, a chuva, o elefante, a aranha, as flores, os pássaros, o arco-íris e outros elementos da natureza.

 

 

Sónia Sultuane – Nasceu em Maputo, em 4 de março de 1971. É uma artista multifacetada: poeta, artista plástica e curadora. Sultuane é uma voz afirmada na poesia, desde a estreia com a obra Sonhos, em 2001. Ganhou notoriedade em Imaginar o poetizado, 2006, e No colo da lua, 2009. Publicou igualmente o conto infantojuvenil A Lua de N’weti, 2014. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), onde ocupou o cargo de Secretária da Assembleia Geral.

 

Livro publicado pela Kapulana: 

Em Roda das encarnações, da série “Vozes da África”, a poeta moçambicana emociona o leitor ao revelar suas impressões mais profundas, como mulher, mãe, poeta e trabalhadora. Os poemas levam o leitor por um universo sensorial e místico em que as vivências espiritual e terrena se misturam, numa viagem por Moçambique, pela Índia e pelo interior vivo e profundo da poeta. Amanda de Azevedo criou delicadas vinhetas para esta edição.

 

Tatiana Pinto – Nasceu na Zambézia, província do norte de Moçambique, em 1985. Em Moçambique, viveu 17 anos da sua vida. Após isso, foi viver mais uns tantos em Timor-Leste, país de sua mãe. Em 2006 mudou-se para Portugal para estudar Jornalismo. Após  terminar o curso, decidiu regressar para Moçambique.

Livro publicado pela Kapulana: 

A viagem é o terceiro volume da série “Contos de Moçambique”. Masud e Wimbo tinham dois filhos, Agot e Mbuio, e uma filha, Inaya, que deseja ter o mesmo tratamento que seus irmãos. Ela sai de sua aldeia para salvá-los em outra cidade. Durante seu caminho, descobre sua força e coragem. Luís Cardoso usa diversas técnicas para dar vida aos bonecos tradicionais de Tomás Muchanga, ilustrando belamente esta história moçambicana.

Saiba mais:

Em 2018, Kapulana lança três livros de autores de literaturas africanas de língua inglesa

Rutendo Tavengerwei, Lesley Arimah e Binyavanga Wainaina são os autores dos  títulos inéditos da Kapulana, que tratam de diversas temáticas em cenários do Zimbábue, Nigéria e Quênia

 

Neste ano, a Editora Kapulana amplia seu catálogo e publica três obras de autores africanos de língua inglesa. Em maio, chegará aos leitores brasileiros o romance Esperança para voar, da zimbabuense Rutendo Tavengerwei. Já em julho, será lançado o premiado livro de contos de Lesley Nneka Arimah, de origem nigeriana – O que acontece quando um homem cai do céu. E em novembro ocorrerá a publicação do livro de memórias, do queniano Binyavanga Wainaina – Um dia vou escrever sobre este lugar.

Confira as sinopses dos três livros:

Esperança para voar, de Rutendo Tavengerwei, jovem escritora do Zimbábue, é a história de superação e amizade de duas adolescentes, Shamiso e Tanyaradzwa. Shamiso retorna com sua família do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. O cenário é o Zimbábue, em 2008, ano de grave crise política nesse país africano, destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo. É a história de como jovens no século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Esse delicado e emocionante livro, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, é uma espécie de fábula universal, cujos fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país em qualquer tempo.

O que acontece quando um homem cai do céu é o livro de estreia da premiada Lesley N. Arimah. Elogiado por jornais e revistas do mundo todo, o livro discute, em doze contos, diversas temáticas contemporâneas como o insólito, a distopia, as memórias da guerra na Nigéria, a convivência humana com as tecnologias, a infância, a mulher na sociedade, e o embate entre as tradições familiares e a cultura na América – a autora nasceu no Reino Unido, viveu na Nigéria e agora mora em Minnesota, nos Estados Unidos.

Um dia vou escrever sobre este lugar, do escritor queniano Binyavanga Wainaina, conta suas memórias desde a infância, de forma bastante lírica, dando grande ênfase às questões linguísticas e culturais, revelando muito da história do Quênia e de outros países da África, como Uganda e África do Sul. O autor é um digital influencer bastante ativo em questões relativas à África e ao ativismo LGBTQ+, já participou de TED Talks e escreveu para grandes revistas e jornais, como National Geographic e NY Times. Em 2017, a Times o elegeu como “Uma das 100 pessoas mais influentes do mundo”. A edição da Kapulana inclui texto inédito do autor: “I am a homosexual, mum”.

Conheça os próximos lançamentos: http://www.kapulana.com.br/proximos-lancamentos/

Conheça as biografias dos novos escritores: http://www.kapulana.com.br/nossos-autores/

 

 

Conheça dois novos volumes da série ‘Contos de Moçambique’

A série, originalmente publicada em Moçambique, apresenta histórias orais recriadas com narrativas que desenvolvem múltiplos universos e memórias das culturas africanas

 

Desde 2016, a série Contos de Moçambique vem sendo publicada no país pela Kapulana. Trata-se de um projeto em conjunto com a Escola Portuguesa de Moçambique (EPM), tendo como objetivo divulgar no Brasil as histórias das tradições orais moçambicanas. Ao todo serão dez volumes, sendo seis já lançados pela editora. Em março chega às livrarias as obras Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo, e O caçador de ossos, de Carlos dos Santos.

Originalmente publicados em Moçambique, os livros revelam as riquezas das expressões populares do país, por meio de contos que inspiram o imaginário infantil e ampliam o conhecimento das culturas africanas. A série apresenta histórias tradicionais recriadas com narrativas que revelam os múltiplos universos. Além dos textos, as páginas acompanham ilustrações de artistas moçambicanos e suas diversas manifestações, como as pinturas a óleo de Silva Dunduro em Na aldeia dos crocodilos e as esculturas maconde de Emanuel Lipanga na composição de O caçador de ossos.

Ilustração de Silva Dunduro

AS OBRAS

Em Na aldeia dos crocodilos, Mandoguinhas e seu avô Boaventura vivem na localidade que dá título ao livro: uma terra fértil, onde tudo que é semeado cresce. O avô conta ao neto que os crocodilos que ficam na beira das águas não são animais, mas ubuntus (gente). O menino acha que o avô está alucinado devido à velhice, mas quando Boaventura desaparece no rio, Mandoguinhas tem que desvendar o mistério dos crocodilos. O conto foi inspirado no Vale do rio Zambeze, uma região em Moçambique onde ocorrem diversas manifestações tradicionais, sendo uma delas a da encarnação humana nos crocodilos. No relato sobre o livro, o autor Adelino escreveu:

“Na minha infância ouvi várias vezes contar essas histórias. Foram as que mais prenderam os meus sentidos. […] inspiraram-me a escrever este conto, a partilhar convosco este lado desconhecido de vidas paralelas (terra e rio) e que tornam Zambeze não só um vale rico e fértil, como também uma fonte que poderá alimentar novas gerações, e, quiçá, motivá-las à descoberta e à divulgação de contos tradicionais genuinamente moçambicanos, da memória e da autoria coletiva do povo moçambicano”.

A obra é ilustrada com as deslumbrantes pinturas a óleo de Dunduro.

Já no volume 8, O caçador de ossos, Carlos dos Santos narra a história de Sinaportar, reconhecido como um grande caçador de sua aldeia. Sua fama era de egoísta e solitário, pois negava-se a caçar em grupo, sendo acompanhado apenas dos cachorros que havia herdado do pai, antigo e lendário caçador. Mas Sinaportar guardava um segredo da aldeia: ele não era caçador e dependia totalmente dos cães para capturar as presas. Certo dia, inesperadamente, os cães passam a se negar a caçar. Diante disto, Sinaportar deverá resolver a situação antes que o seu segredo seja revelado. Carlos retrata a trajetória do crescimento humano com temas que abrem discussões sobre as consequências das mentiras e o individualismo. “Este conto talvez seja a mais importante de todas as lições: que é saber aprender das ações dos outros do que querer ser melhores do que eles”, relatou o autor. As esculturas de Lipanga desenvolvem as dinâmicas do enredo e estampam as tradições artísticas moçambicanas.

Ilustração de Emanuel Lipanga

 

OS AUTORES

ADELINO TIMÓTEO Nascido em 1970, na Beira, Adelino Timóteo é jornalista, artista plástico e escritor, destacando-se os livros Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique (Poesia, edição da Ndjira, do Grupo Leya – prêmio Nacional Revelação AEMO) e Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida (Poesia, 2011, Alcance Editores – prêmio BCI-2011). Como artista plástico, Adelino realizou várias exposições individuais de artes, tanto em Moçambique quanto no estrangeiro.

CARLOS DOS SANTOS Nascido em 1962, em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital do país, Carlos dos Santos é profissional da educação desde 1981 e formado em Psicologia e Pedagogia (1989-1994) pela Universidade Pedagógica de Maputo. Carlos tem artigos publicados em vários jornais de seu país, além de poemas com o pseudônimo de Nyama.

OS ARTISTAS

SILVA DUNDURO Nascido em 1964, no distrito de Buzi, província de Sofala, Silva Dunduro é Ministro da Cultura e Turismo de Moçambique e vive em Maputo, capital do país. Entre 2008 e 2009, fez estudos de Mestrado no Brasil e trabalhou com a pintora Maria Do Karmmo, em seu atelier, no Rio de Janeiro. Desde 2012 tem participado de várias exposições coletivas em Moçambique (Beira, Chimoio, Maputo e Tete) e no estrangeiro (Itália Namíbia, Portugal, Suécia, entre outros). 

EMANUEL LIPANGA Nascido em Nangade, Cabo Delgado, em 1967, Emanuel Lipanga estudou na Tanzânia, em Ntwara. Em 1982, Lipanga foi para Dar es Salaam, onde aprendeu com o seu tio o ofício de escultor. Participou da Exposição de Artes da TDM (Telecomunicações de Moçambique), em 2001. além de já ter apresentado o seu trabalho artístico na China, em 2008.

CONTOS DE MOÇAMBIQUE

A série Contos de Moçambique surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. A Editora Kapulana fez uma parceria com a Escola Portuguesa de Moçambique para publicar no Brasil a coleção, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro um pouco da cultura moçambicana. A série é composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique. São histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato.

Para conhecer mais sobre as publicações anteriores, acesse o site da editora: www.kapulana.com.br.

Últimos dias: Submissão de originais para a Kapulana

A Editora Kapulana está ampliando o seu catálogo para a publicação de autores brasileiros. A linha editorial da Kapulana prioriza obras que tratem de questões marginalizadas, tais como questões raciais, de gênero, de sexualidades e de minorias sociais. Os gêneros e estilos podem ser diversos: romances, contos, crônicas, poemas, biografias, adultos, infantis e juvenis. O envio de originais deverá ser feito via formulário até o dia 31 de março.  Clique aqui e leia o regulamento.

Atualmente, o catálogo da editora é composto por livros de ficção e científicos, para adultos e crianças, em prosa e poesia. Os escritores e colaboradores são de países como Brasil, Angola, Moçambique, Nigéria, Portugal, Quênia e Zimbábue. 

 

Saiba mais: http://www.kapulana.com.br/seja-nosso-autor-aberto/

 

Ana Mafalda Leite, escritora e pesquisadora, participa de eventos no Brasil

Em fevereiro e março deste ano, a professora da Universidade de Lisboa e escritora portuguesa Ana Mafalda Leite participou de palestras com lançamento de seu novo livro de poemas

Ana Mafalda Leite, pesquisadora, professora, ensaísta e poeta, autora de ensaios e de livros de poesia veio ao nosso país para participar de palestras, cursos e sessões de lançamento de seu mais novo livro: Outras fronteiras: fragmentos de narrativas, da Editora Kapulana.

Em 27 e 28/02/2018, Ana Mafalda Leite participou de ciclo de debates sobre o Cinema da Guiné Bissau e fez palestra com leitura de poemas de seu novo livro, com sessão de autógrafos. O evento foi promovido Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e contou com a presença da curadora Profa. Dra. Carmen Tindó Secco e da Profa. Dra. Rosana M. Weg, diretora da Kapulana.

 Na semana de 5 a 10 de março, a escritora participou de atividades promovidas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (UFRS), como palestras, cursos e, no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, fez o lançamento com sessão de autógrafos de seu livro Outras fronteiras: fragmentos de narrativas. O evento foi promovido pela Escola de Humanidades e organizado pelo Prof. Paulo Ricardo Kralik Angelini.

No dia 13 de março, a escritora Ana Mafalda Leite participou de atividades na sede da Editora Kapulana, em São Paulo, com gravação de entrevista, leitura de trechos de seu novo livro e sessão de fotos.

A Editora Kapulana agradece à estimada escritora Ana Mafalda Leite, por presença no Brasil e por sua disposição e divulgar a literatura em nossa país.

A Kapulana agradece também à organização da URFJ e da PUCRS, pela oportunidade de participar de eventos literários de tanta importância.

Ainda este ano a escritora voltará ao Brasil a convite de outras instituições universitárias quando terá a oportunidade de participar de novas mesas de debate sobre poesia, sempre com o apoio da Kapulana.

São Paulo, 15 de março de 2018.

Saiba mais sobre o livro: http://www.kapulana.com.br/produto/outras-fronteiras-fragmentos-de-narrativas/

Saiba mais sobre a autora Ana Mafalda Leite: http://www.kapulana.com.br/ana-mafalda-leite/

Veja fotos das atividades: http://www.kapulana.com.br/28-02-a-13-03-2018-ana-mafalda-leite-no-brasil/

Assista aos vídeos com a autora

 

 

 

 

Dia Mundial da Poesia com a Kapulana

Na última quarta-feira (21) comemorou-se o Dia Mundial da Poesia. A data foi criada em 1999, na XXX Conferência Geral da Unesco, com o objetivo de celebrar a leitura e a escrita.

A Kapulana tem o enorme prazer de fazer parte desta celebração com as publicações de obras poéticas de diversas autoras e autores que conduzem os leitores à reflexão da sociedade e os vastos sentimentos do mundo.

A editora selecionou diversos poemas dos livros de seu catálogo para comemorar este dia especial.

 

 
Sangue Negro

de Noémia de Sousa

Súplica

Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez…

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos a vida)
teirem-nos a palhota – humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
ttrem-nos o calor de lume
(que nos é quase tudo)
– mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria,
acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos,
e no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume,
a palhota onde vivemos,
a machamba que nos dá pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!
– Por isso pedimos,
de joelho pedimos.
Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

(04/01/1949)

 

 

Mesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo

de Sangare Okapi

 

cardume de beijos

Teu corpo tem litoral
e mangal

A brisa, que
da boca escapa
alguma linguagem
marinha

e

oral, me devolve
o cardume de beijos

 

 

Viagem pelo mundo num grão de pólen e outros poemas

de Pedro Pereira Lopes

 

A ilha é um mundo

A ilha é um mundo,
uma bolha de terra
sentada na água

Uma bolha de areia em pilha.
A ilha que brilha
a água que molha.

Sobre o mar como folha
a bolha que é ilha
o vento embrulha.

A bolha que borbulha
a água empilha e molha
a folha que brilha,
a ilha.

 

 

 

Outras fronteiras: fragmentos de narrativas

de Ana Mafalda Leite

 

A lenda da criação

No princípio havia chauta [deus] e a terra parada

um dia um relâmpago imenso desenhou nos céus

a chuva

que trouxe à terra o homem e todos os animais

Pousaram nos planaltos da marávia e da angónia

no topo da montanha de domué

deus, os homens e os animais

as rochas ainda mostram as antigas pegadas, uma cesta uma enxada e um pilão

em harmonia sagrada

 

 

 

Roda das Encarnações

de Sónia Sultuane

A fome, com cara de menino, tocou-me
os pés e o coração. A fome, no corpo faminto
de um bebé inocente,
sem idade ainda para entender
esse karma que carrega
nem para saber que cada vida exige
uma profunda aprendizagem da alma
neste universo
onde milhões de pessoas por vezes
são iludidas, sem se aperceberem
que ela se mascara de várias maneiras
e inúmeras vezes até
com cara de bebé

 

 

 

O cão na margem

de Luís Carlos Patraquim

O olho
intrusivo

o que vês na paisagem
se houvesse

e
dizes a palavra
muda

há uma savana anjo
que te redime

ela
pietá
a invisível árvore

e tu
filho de nada
no seu colo

 

 

de terra, vento e fogo

de Lica Sebastião

Os poemas não revelam tudo
Faltam sempre as metáforas perfeitas
para descrever a tua respiração
entre o sono e o sonho.

As palavras não cabem todas nos dicionários.
Algumas escapam à caçada Académica dos lexicólogos.
E eu que precisava tanto do sinónimo para o teu gesto
a compor-me as tranças, sorrindo…

Os poemas não são tão maravilhosos assim.
Queria que dissipassem a minha fúria quando te censuro
só porque me trazes rosas e não margaridas,
só porque estás inseguro e eu altiva,
só porque não és o Hércules, apenas tu

 

 

Sonho da Lua

de Sílvia Bragança

 

Queria nascer como a Lua

Queria nascer como a Lua
Ao toque do anoitecer
uma bola prateada
rolando… rolando…

segredos escondidos
quantos os tenho eu!

Segredos escondidos
quantos os tenho eu!
À Lua os entrego

Para serem seus
Para serem seus
Para serem seus

Correi, correi para as montanhas
levai tranquila a verdade
que ela perdure
por toda a eternidade

 

 

 

Canções do caos – Vozes brasileiras

de Adriana CecchiAna Júlia BaldiAndrea Lucia Barros e Marcella Barbieri

 

Maçaneta

(Adriana Cecchi)

Acho que escrevi um texto pensando em você
Eu juro, ainda não sei o que isso quer dizer

Comecei a te ver em todos os lugares
Doa mais improváveis até
Ruas, ônibus, shoppings e bares

Pense que coisa louca, até na parede eu vi o seu rosto
Mas nada me abalou mais quando, de repente, da sua boca eu senti o gosto

Por isso, antes que qualquer coisa aconteça
Deixo este bilhete pendurado na sua maçaneta
Peço que leia e não se aborreça

Não tem erro, vocâ vai ver
Passando alguns dias, é certo
irá me esquecer

 

Existência

(Ana Júlia Baldi)

Penso que existo
E a cabeçadós, a alma pesa

Mandaram-me viver
E eu não soube recusar

Agora que já sou eu
Possoser um outro?
Tenho a mim
Mas a mim não desejo

Vivo assim, sendo.
Não sei não ser
Ainda que eu queira
Querer saber não ser

A vida que me deram
Não soube aceitar
Vivo assim, sem a vida
Que todos me esperaram acreditar

 

 

Somente…

(Andrea Lucia Barros)

Somente você
É capaz de mexer na ferida
Que insiste em sangrar
Aberta em meu peito
Deixa à vista o coração
Mostrando todas as veias
Que me fazem
Perder a razão
Enlouquecer em pensar
Que me deixaste
Estenda-me a mão
Mostre-mea esperança
Revele-me teu sorriso
Quebre minhas defesas
Busque o melhor de mim
Encontre o amor
Enfim, pronto para ser…
… Somente seu.

 

 

Ponto final

(Marcela Barbieri)

Qurendo chorar por tudo, mas chora por nada.

Desenvolvendo uma nova personalidade para disfarçar aquela que ninguém quer conhecer.

Contandocada respiração, torcendo para que o ar que vem de fora acalme o caos que está por dentro.

Ouvindo a música como se a melodia fosse capaz de consertar o aperto no peito.

Pensando em como acabar com a ansiedade, sem saber o porquê de ter começado.

 

 

Kapulana participou da Mostra de Literatura Negra em São Paulo e lançou dois novos volumes da série ‘Contos de Moçambique’

A Editora Kapulana participou, de 16 a 18 de março, da Mostra de Literatura Negra – Ciclo Contínuorealizada na Galeria Olido, centro de São Paulo.

Durante a mostra, aconteceu o lançamento dos volumes 7 e 8 da série de livros infantis Contos de MoçambiqueNa aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo, e O caçador de ossos, de Carlos dos Santos.  Integram nas páginas das obras as pinturas a óleo de Silva Dunduro e as esculturas maconde de Emanuel Lipanga.

Para apresentar as obras, os artistas Mariana Rhormens e Marcial Macome preparam uma performance por meio de música, representação cênica, manipulação de bonecos e teatro de sombras. O espetáculo ocorreu na Sala Vermelha e contou com um público de diversa faixa etária.

 

A série Contos de Moçambique surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. A Editora Kapulana fez uma parceria com a Escola Portuguesa de Moçambique para publicar no Brasil a série, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro um pouco da cultura moçambicana. Composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique, são histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato. 

São Paulo, 22 de março de 2018.

Veja fotos do eventoKapulana lança “Na Aldeia dos Crocodilos” e “O caçador de ossos”, na Mostra de Literatura Negra, na Galeria Olido, em São Paulo, SP

Saiba mais:

Literatura colonial: a presença moçambicana, por Rosana M. Weg

“Contudo, apesar da atitude de desconfiança ou de rejeição que gerou, a literatura colonial é um fato consumado.” (NOA, Francisco. Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária. São Paulo: Kapulana, 2015, p. 39.)

Francisco Noa, moçambicano, é Doutor em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa, de Portugal. Ensaísta e professor de Literatura Moçambicana na Universidade Eduardo Mondlane (Maputo, Moçambique), é atualmente Reitor da Universidade Lúrio (UniLúrio), também em Moçambique. Estuda colonialidade, nacionalidade e transnacionalidade literária, a literatura como conhecimento e o diálogo intercultural no Oceano Índico, a partir da literatura. É autor de artigos e livros de análise e crítica literária[i]. Dentre eles, Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária, livro que ora destacamos.

A obra no espaço e no tempo

Sua tese de Doutoramento “Literatura Colonial. Representação e Legitimação – Moçambique como invenção literária, defendida em 2001, deu origem à edição portuguesa de Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária (2002).  Em 2015, a Editora Kapulana publicou a primeira edição brasileira. A grafia foi adaptada para a versão brasileira da língua portuguesa em conformidade com o acordo ortográfico em vigor, com exceção das citações, que tiveram sua grafia original preservada.

O todo e as partes

Na Introdução, o leitor é apresentado ao foco da análise que encontrará pela frente. O autor destaca o caráter multifacetado e problemático do tema que escolheu tratar: a literatura colonial em Moçambique.  No capítulo I, “Literatura colonial: enquadramento teórico e periodológico”, o escritor expõe os conceitos que norteiam sua pesquisa, o contexto em que ela se insere e o objeto de seu trabalho. Nos capítulos seguintes, o grande tema Representação é analisado a partir dos romances elencados, segundo aspectos como a verossimilhança, a representação do espaço, a representação do tempo, figuras, papéis e vozes, culminando com a legitimação do texto frente à crítica.

[…]

Leia o artigo na íntegra em:

Revista de Estudos Avançados. v. 31, no. 89. São Paulo, jan./abr. 2017. p. 465-468.

versão impressa ISSN 0103-4014

versão On-line ISSN 1806-9592: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142017000100465&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

versão em pdf: http://www.scielo.br/pdf/ea/v31n89/0103-4014-ea-31-89-0465.pdf

Saiba mais sobre Francisco Noa: http://www.kapulana.com.br/francisco-noa/

 

Conheça as obras do autor publicadas pela Kapulana

Perto do fragmento, a totalidade: http://www.kapulana.com.br/produto/perto-do-fragmento-a-totalidade-olhares-sobre-a-literatura-e-o-mundo/

Império, mito e miopia, Moçambique como invenção literáriahttp://www.kapulana.com.br/produto/imperio-mito-e-o-miopia-mocambique-como-invencao-literaria/ 

Uns e outros na literatura moçambicana: http://www.kapulana.com.br/produto/uns-e-outros-na-literatura-mocambicana/

Assista abaixo uma entrevista com o escritor:

Kapulana lança em São Paulo dois volumes da série ‘Contos de Moçambique’

A série, originalmente publicada em Moçambique, apresenta histórias orais recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de reconhecimento internacional

A Editora Kapulana estará presente na Mostra de Literatura Negra – Ciclo Contínuo, que acontecerá entre os dias 16 e 18 deste mês, com descontos nas vendas dos livros do catálogo. Durante a mostra, será realizado o lançamento dos volumes 7 e 8 da série de livros infantis Contos de Moçambique, que são Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo, e O caçador de ossos, de Carlos dos Santos.  Integram nas páginas das obras as pinturas a óleo de Silva Dunduro e as esculturas maconde de Emanuel Lipanga.

O evento ocorrerá no domingo (18), às 11h00, no Centro Cultural Olido, na Sala Vermelha.  Para apresentar as obras, os artistas Mariana Rhormens e Marcial Macome realizarão uma performance teatral, a partir de música, representação cênica e manipulação de bonecos. O espetáculo é aberto a todo público.

‘O caçador de ossos’, arte de Emanuel Lipanga

OBRAS

Na aldeia dos crocodilos (Vol. 7) –  A aldeia dos crocodilos fica na beira do rio, onde tudo que é semeado, cresce. Lá vivem Mandoguinhas e seu avô Boaventura, que conta ao neto que os crocodilos que ficam na beira das águas não são animais, mas, sim, gente. Quando o avô desaparece, Mandoguinhas tem que desvendar o mistério dos crocodilos.

O caçador de ossos (Vol. 8) – Sinaportar era um grande caçador, porém, se negava a caçar em grupo; ia sempre à caça apenas com seus cachorros. O que ninguém sabe é que ele depende dos cães para abater qualquer animal. Quando os cães passam a se negar a caçar, Sinaportar deve resolver esse problema antes que o seu segredo seja revelado.

 

‘Na aldeia dos crocodilos’, arte de Silva Dunduro

A série Contos de Moçambique surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. A Editora Kapulana fez uma parceria com a Escola Portuguesa de Moçambique para publicar no Brasil a série, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro um pouco da cultura moçambicana. Composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique, são histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato. 

Para conhecer mais sobre as publicações anteriores, acesse o site da editora: www.kapulana.com.br.

 

‘O caçador de ossos’, arte de Emanuel Lipanga

 

ARTISTAS

MARIANA RHORMENS – é atriz graduada em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, doutoranda e mestra no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena na UNICAMP com o projeto intitulado “Um olhar sobre as máscaras de Mapiko: apropriação técnica, simbólica e criativa da máscara”, com orientação de Matteo Bonfitto Júnior. Com a Kapulana, Mariana participou de diversas apresentações, como no lançamento de O rei mocho, de Ungulani Ba Ka Khosa e nas contações das obras O caso de Pedro e Inês(quecível) até o fim do mundo, de Francisco Maciel Silveira, e das performances literárias das obras A triste história de Barcolino, Mesmos barcos e Orgia dos loucos.

MARCIAL MACOME – Ator e jornalista moçambicano, concluiu licenciatura em teatro na Escola de Comunicação e Arte, da Universidade Eduardo Mondlane. Com vasta carreira teatral, Macome encenou o livro O gato e o escuro, de Mia Couto, e as peça Naque ou o de actores e piolhos, de Sanchis Sinisterra, A mãe, de Bertolt Brecht, Antígona, de Sofocles, entre outras.  Escreveu e encenou lobolo do Cadaver, em 2016. Macome é membro fundador da ASSITEJ – Moçambique (Associação internacional de Teatro para jovens e Adolescentes), também trabalha como diretor de dança.

Mariana Rhormens e Marcial Macome

 

Lançamento dos livros ‘Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo, e ‘O caçador de ossos’, de Carlos dos Santos.

Data: domingo, 18 de março

Hora: das 11:00 às 12:00

Local: Centro Cultural Olido – Sala Vermelha (Av. São João, 473. São Paulo, SP)

‘Na aldeia dos crocodilos’, arte de Silva Dunduro

ROSANA MORAIS WEG

ROSANA MORAIS WEG, brasileira, é Mestre e Doutora em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo, com ênfase em Literatura Brasileira e Língua Portuguesa. Sua pesquisa principal é sobre a obra do escritor brasileiro Aníbal Machado. Dedica-se à pesquisa de obras de escritores africanos para divulgá-los no Brasil.
De 1982 a 1987, em Moçambique, foi professora na EFEP – Escola de Formação de Professores (hoje IPM – Instituto Pedagógico de Maputo) e delegada na Cruz Vermelha Internacional.
De 1987 a 2016 dedicou-se à docência, e de 2003 a 2016, foi professora da Fundação de Rotarianos de São Paulo – Faculdades Integradas Rio Branco em cursos de Comunicação Social e Pedagogia.
Desde 2013, é sócia e diretora editorial da Editora Kapulana Ltda., que tem em seu catálogo obras ficcionais e não ficcionais, em prosa e poesia, para crianças e adultos, de autores brasileiros, portugueses e de países africanos de língua portuguesa e de língua inglesa.
É autora de artigos e livros sobre Língua Portuguesa, Literaturas e Metodologia Científica.

OBRAS PUBLICADAS

  • Literatura colonial: A presença moçambicana. Revista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, n. 89, maio 2017. Impressa e on-line: http://www.iea.usp.br/revista/edicoes
  • Português na prática: a língua como instrumento, v. 1, Contexto, 2011.
  • Português na prática: a língua como expressão e criação, v. 2, Contexto, 2011.
  • O texto científico: como fazer projetos, artigos, relatórios, memoriais, trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses e participar de eventos científicos, Cia. dos livros, 2010.
  • O texto acadêmico: projeto de pesquisa e monografia, Esfera, 2009.
  • Acordo ortográfico da língua portuguesa no Brasil: alterações na ortografia de expressão brasileira, Esfera, 2008.
  • Fichamento. São Paulo: Paulistana, 2006. [Col. Aprenda a fazer]

TRABALHOS ACADÊMICOS

  • Caos e catástrofe na obra de Aníbal Machado. Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCHUSP, 1997.
  • Aníbal Machado em seu tempo. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCHUSP, 2002.

PALESTRAS

  • A nossa mãe África.
  • Língua Portuguesa em movimento: convivência sociocultural entre Moçambique e Brasil.
  • Literatura Africana para crianças: um passeio multicultural.

ALGUMAS PARTICIPAÇÕES NA MÍDIA

Jornal “País” – Maputo – Moçambique – 30/06/2015 (entrevista)

Jornal JC Debate – TV Cultura – São Paulo – SP – Brasil – 10/06/2015 (participação em debate)

Programa Artes e Letras – STV – Maputo – Moçambique  29/10/2015 (entrevista)

Maputo – Moçambique 2015 – Diretora da Kapulana em programa na STV (Moçambique) apresentado por José dos Remédios

Jornal “Notícias online” – Maputo – Moçambique – 12/01/2016 – Editora Kapulana divulga literatura moçambicana.

BINYAVANGA WAINAINA

BINYAVANGA WAINAINA nasceu em Nakuru, Quênia, em 18 de janeiro de 1971. Faleceu em 21 de maio de 2019, em Nairobi, Quênia.

Leitor de livros e lugares, palavras e pessoas, Binyavanga estrutura seu mundo através da linguagem. Sempre na margem e olhando para dentro, teve dificuldade para se encaixar nos padrões estipulados da sociedade. Estudou Economia na África do Sul, mas desistiu do curso, lendo vorazmente e fazendo trabalhos temporários até perceber que sua vocação era, de fato, a escrita.

Seu texto “Discovering home”, sobre uma viagem com a família para Uganda, ganhou o “Caine Prize for African Writing”, em 2002, importante prêmio que reconhece o talento e a promessa de autores africanos de língua inglesa. Em 2008, o ensaio “How to write about Africa”, uma sátira sobre as armadilhas nas quais autores caem ao escrever sobre o continente africano, ganhou reconhecimento mundial. One day I will write about this place, seu livro de memórias, foi publicado em 2011, cimentando a carreira do queniano como escritor.

Em janeiro de 2014, após uma série de leis anti-homossexualidade terem sido aprovadas na África, Binyavanga escreveu o texto “I am a homosexual, Mum”, no qual reinventa os eventos da morte da mãe, imaginando como teria sido lhe contar que é um homem gay. O texto, nomeado pelo autor como um “capítulo perdido” de suas memórias publicadas em 2011, saiu inicialmente no site Africa is a country, e posteriormente foi publicado também no The Guardian e outros veículos da grande imprensa.

No mesmo ano, Binyavanga foi eleito uma das 100 pessoas mais influentes do ano pela revista TIME, devido à sua coragem em se assumir como um africano gay, residente do Quênia, onde “atos sexuais entre homens” são considerados ofensas criminais. Sua amiga de longa data Chimamanda Ngozi Adichie escreveu o perfil publicado na revista.

Em 1º de dezembro de 2016, Dia Mundial de Combate à AIDS, o autor assumiu, em seu perfil do Twitter, que é HIV positivo e vive muito bem.

Binyavanga Wainaina é um defensor incansável da África, do poder do continente africano a partir de suas raízes e seu povo. O autor se considera pan-africano, e não acredita nas divisões imaginadas impostas pelos colonizadores: a África, para ele, é um país. Em 2003, junto com outros escritores e artistas, criou o projeto/site Kwani?, que encontra patrocínios para publicar e divulgar as vozes de artistas africanos que não recebem espaço em premiações e na mídia mundial. Além disso, fala abertamente sobre questões referentes à realidade LGBTQ+ na África e como ela difere significativamente da realidade enfrentada por indivíduos LGBTQ+ em países ocidentais. Em seus dois TED Talks, “The reality constructed by stories” e “Conversations with Baba”, Binyavanga fala exatamente dessas questões.

OBRAS DA KAPULANA

 OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • 2002 – “Discovering home”. Kwanini? Series. Online. Nairóbi: Kwani Trust (2006): <https://planetbinya.files.wordpress.com/2017/08/discovering-home-binyavanga-wainaina.pdf>
  • 2004 – Beyond the River Yei: Life in the Land Where Sleeping is a Disease. Nairóbi: Union Printing Section.
  • 2005 – Discovering Home: A Selection of Writings from the 2002 Caine Prize for African Writing (Caine Prize for African Writing series). Joanesburgo: Jacana Media.
  • 2006 – “How to write about Africa”. Granta Magazine, n. 92, Jan. 19, 2006: <https://granta.com/how-to-write-about-africa/>
  • 2008 – How to write about Africa. Kwanini? Series. Nairóbi: Kwani Trust.
  • 2011 – One day I will write about this place: A memoir, Graywolf Press: Minneapolis.
  • 2014 – “I am a homosexual, Mum”. In: Africa is a country. 19 jan. 2014: <https://africasacountry.com/2014/01/i-am-a-homosexual-mum/>.

PRÊMIOS

  • 2002 – Caine Prize for African Writing, por “Discovering home”.
  • 2014 – TIME 100 Most Influential People of 2014.

MIA COUTO

MIA COUTO

Nasceu em 1955, na cidade da Beira, em Moçambique.

Em 1972 foi para Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, para estudar Medicina, mas não terminou o curso. Nos anos 70 dedicou-se ao trabalho de jornalista em diversos órgãos de informação.

Voltou aos estudos universitários e formou-se em Biologia, passando, então a exercer atividades como biólogo e escritor.

Está traduzido em mais de 30 idiomas e recebeu importantes prêmios, nacionais e internacionais, como o Prémio Camões, que recebeu em 2013.

Desde 1987, colabora com grupos de teatro, havendo múltiplas adaptações de contos e romances para teatro e cinema, tanto em Moçambique como no estrangeiro.

Da sua vasta e rica obra destaca-se o romance Terra sonâmbula que foi considerado um dos 12 melhores romances africanos do século XX.

OBRAS DA KAPULANA

pátio das sombras, Contos de Moçambique, v. 10, 2018.

OUTRAS PUBLICAÇÕES

É autor de muitos livros, dentre os quais:

  • Raiz de orvalho e outros poemas (poesia), 1983.
  • Terra sonâmbula (romance), 1992.
  • Estórias abensonhadas (contos), 1994.
  • O último voo do flamingo (romance), 2000 .
  • O pátio das sombras. Maputo: Escola Portuguesa de Moçambique; Barcelona: Fundació Contes pel Món, 2009.
  • Tradutor de chuvas (poesia), 2011.
  • A confissão da leoa (romance), 2012.
  • Inundação (conto), 2014.
  • Mulheres de cinzas (trilogia “As areias do Imperador”) (romance), 2015.
  • A espada e a azagaia (trilogia “As areias do Imperador”) (romance), 2016.
  • O bebedor de horizontes (trilogia “As areias do Imperador”) (romance), 2017.
  • A água e a águia. (infantil), 2018.

PRÊMIOS, DESTAQUES E PARTICIPAÇÕES

  • Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, 1995.
  • Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra, 1999.
  • Prémio Mário António, pelo livro O último voo do flamingo, 2001.
  • Associação dos Escritores Moçambicanos (melhor romance), 2004.
  • Prémio União Latina de Literaturas Românicas, 2007.
  • Prêmio FNLIJ Literatura em Língua Portuguesa, 2009.
  • Prémio Eduardo Lourenço, 2012.
  • Prémio Camões , 2013.
  • Neustadt International Prize for Literature, 2014.
  • Man Booker International Prize (finalista), 2015.

Um clássico moçambicano de volta ao Brasil – por Jorge Vicente Valentim

É sempre com alegria e satisfação, quando me deparo com edições brasileiras de autores de língua portuguesa de outros países, sobretudo, se estes se encontram praticamente fora de alcance das mãos e do alcance dos leitores. Por isso, falar desta nova edição da Editora Kapulana de um dos textos mais paradigmáticos da literatura moçambicana, para mim, constitui um prazer inestimável.

Obra de visita obrigatória para aqueles que se dedicam ao estudo das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (e faço, aqui, uma ressalva importante, talvez a única à presente edição, porque estamos lidando com sistemas literários distintos e, por isso, é urgente que o plural seja respeitado e usado: literaturas africanas), o texto de Luís Bernardo Honwana possui uma riqueza tão singular, que ele pode também ser acessado por leitores menos acostumados aos universos culturais dos países do continente sem qualquer tipo de prejuízo à mensagem e à compreensão dos elementos essenciais para sua absorção.

Publicado pela primeira vez em 1964, sob a chancela da Sociedade de Imprensa de Moçambique, Nós matamos o Cão Tinhoso! constitui um daqueles autênticos casos de um texto clássico, naquele mesmo sentido empregado pelo ensaísta italiano Ítalo Calvino. E se chamo a obra de Honwana assim é porque compreendo, agora, a sua releitura como uma “leitura de descoberta como a primeira”, exatamente porque se trata de um “livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” (CALVINO, 2004, p. 11). E já chego a este ponto para justificar a minha afirmação.

Ao lado de outros textos contemporâneos seus – como Luuanda (1963), do angolano Luandino Vieira, e O galo que cantou na baía (1959), do cabo-verdiano Manuel Lopes –, a coletânea do escritor moçambicano faz parte de um elenco ficcional de toda uma geração singular e sensível de escritores que conseguiram representar os aspectos culturais mais distintos dos seus países, sem perder de vista uma intensa e crítica (e diria até, em alguns momentos, ácida) visão do cenário político, econômico e social dos seus espaços de origem e pertença. Vale lembrar, neste sentido, que o título de Honwana, anos depois de sua publicação em Moçambique, ganhou, em 1969, uma tradução inglesa (de Dorothy Guedes), sob a chancela da renomada editora Heinneman, num momento em que a guerra de libertação recrudescia no território moçambicano e a luta contra o domínio colonial aumentava o clima de tensão nos espaços ocupados por Portugal. Não à toa, portanto, que esta mesma obra ganha, em 2017, uma merecida reedição brasileira, com novas cores, novos desenhos e nova configuração.

Mas em que esta nova publicação se diferencia de sua primeira versão brasileira, de 1980, na antiga (e saudosa!) coleção “Autores Africanos”, da Editora Ática? Com um projeto gráfico e uma capa, assinados por Amanda de Azevedo e Mariana Fujisawa, a obra de Honwana rapidamente cativa o leitor pelo seu primeiro impacto visual, repetido, aliás, num singelo marcador de livros, com as mesmas imagens. E, ainda, importante é a composição bem estruturada desta nova publicação, com os textos originais da 1ª edição mais a inclusão de um inédito do autor (“Rosita, até morrer”) num índice muito bem distribuído, não deixando o leitor, portanto, sem saber o conteúdo formador da obra (como ocorre, por exemplo, com aquela versão anterior acima referida), além de mostrar que o autor ainda se encontra em plena produtividade.

Para além destes pormenores, há uma rica informação editorial do histórico da obra de Honwana, acompanhada de uma esclarecedora nota biobibliográfica e um posfácio muito didático e ilustrativo (“A visão do colonialismo pelos olhos de Luís Bernardo Honwana”), assinado por Vima Lima Rossi Martin, Professora Doutora da FFLCH/USP.

Muitos, porém, devem estar se perguntando, já aqui, por quais razões chamei eu a obra de “clássico”? Certamente pelos dados acima, claro, mas também porque se trata de uma coletânea de contos onde assuntos variados, flagrantes naquele Moçambique dos anos de 1960, são oferecidos abertamente ao leitor. Sem querer roubar o prazer da descoberta para aqueles que vão se debruçar pela primeira vez (até porque o lúcido prefácio de Vima Lia esclarece alguns pormenores, conto a conto), menciono, muito sucintamente, alguns destes eixos temáticos privilegiados na obra em questão: as experiências infantis e familiares narradas pela perspectiva de jovens personagens, as injustiças e as fraturas sociais, políticas e econômicas do universo colonial e as dimensões multifacetadas da violência sobre sujeitos subalternizados, são alguns dos elementos recorrentes em Nós matamos o Cão Tinhoso!, de Luís Bernardo Honwana.

Mas, se chamei, no início desta resenha, de “clássico” das literaturas africanas e, muito particularmente, da literatura moçambicana, não será demasiado relembrar as recomendações de Ítalo Calvino, em Por que ler os clássicos?, ao sublinhar que estes “são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram” (CALVINO, 2004, p. 11).

Assim também se sucede com Nós matamos o Cão Tinhoso!, de Luís Bernardo Honwana. Se a edição atual da Kapulana retoma (e, em muitos sentidos, revigora de forma mais positiva e acessível) aquela primeira versão brasileira, o texto per se também opera este procedimento. Objeto de estudo de nomes consagrados dos estudos literários africanos, o escritor moçambicano possui leitores competentes, todos eles, é claro, muito anteriores a esta minha breve e despretensiosa leitura. Mas, de todas, quero destacar aqui, talvez, aquela que considero uma das melhores (se não a melhor) e mais refinadas leituras do texto de Honwana (sem querer, é claro desmerecer qualquer um dos nomes da fortuna crítica, em virtude do importante trabalho de recuperação da obra do escritor moçambicano, pois se trata de uma opinião puramente pessoal e particular!). Refiro-me ao “clássico” ensaio da Profa. Dra. Inocência Mata, num texto seu de 1985, republicado em 1992 e 1994, intitulado “O espaço social e o intertexto do imaginário em Nós matamos o cão tinhoso”.

E a minha escolha dá-se por uma razão muito simples. Foi o ensaio que li, logo após o impacto da leitura dos contos de Luís Bernardo Honwana. Nele, Inocência Mata supera as observações recorrentes, que sempre esbarram nas questões de lutas de classe no contexto colonial, e observa de maneira muito sensível e pontual os embates do regime da intolerância, bem como a pertinência da função social dos espaços, o tema do olhar, os estigmas da cor e do gênero, a “eficácia simbólica das constelações míticas” e, sobretudo, aquilo que singulariza o conto que dá nome à coletânea de Honwana, a “consciencialização das diferenças” e “o discurso reiterativo dessa diferença (a cor dos olhos azuis, como a pedir qualquer coisa sem querer dizer, a pele velha e cheia de cicatrizes, a loucura)” (MATA, 1994, p. 111).

Esta, talvez, seja uma das lições deixadas pela obra do escritor moçambicano, que supera qualquer barreira do tempo e de localização espacial, e, nunca cessa de dizer aquilo que nela está registrado. Agora, essa possibilidade de ler e reler o texto encontra-se ao alcance do leitor brasileiro, graças à feliz iniciativa da Editora Kapulana. Num momento em que cresce uma onda de intolerância e de discursos violentos contra as diferenças (de cor, raça, religião e sexualidades), Nós matamos o Cão Tinhoso! não poderia chegar em hora melhor para sensibilizar o leitor, justamente, para aquela “consciencialização das diferenças”. Afinal, não são estas que enriquecem o nosso cotidiano e que, inegavelmente, também fazem parte das raízes de nossa formação identitária?

Por essas razões, no meu entender, o texto de Luís Bernardo Honwana pode, sim, ser considerado um “clássico”. Afinal, ele não nos deixa lições inestimáveis, tão adequadas àquele contexto de um Moçambique dos anos de 1960, mas também igualmente indispensáveis para nós, sujeitos pensantes do/no século XXI? Recebamos, pois, com alegria, satisfação e sensibilidade, esta nova edição deste “clássico”, Nós matamos o Cão Tinhoso! (1964-2017), sob a chancela da Kapulana. E que venham mais. O leitor brasileiro, com certeza, agradece.

São Carlos, fevereiro de 2018.

Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim
Professor Associado de Literaturas de Língua Portuguesa (Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Literatura Portuguesa) / Departamento de Letras da UFSCar
Coordenador do GELPA (Grupo de Estudos Literários Portugueses e Africanos) / UFSCar http://lattes.cnpq.br/4427303771174064

Referências bibliográficas:

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. Tradução: Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

HONWANA, Luís Bernardo. Nós matamos o cão tinhoso!. São Paulo: Kapulana, 2017.

MATA, Inocência. “O espaço social e o intertexto do imaginário em Nós matamos o cão tinhoso”. In: Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.

Citar como:
VALENTIM, Jorge Vicente. “
Um clássico moçambicano de volta ao Brasil”. Disponível em: http://www.kapulana.com.br/artigos/

Conheça a série de livros infantis ‘Contos de Moçambique’, publicada no Brasil pela Kapulana

A série apresenta histórias tradicionais recriadas com narrativas que revelam os múltiplos universos do país.

Desde 2016, a série Contos de Moçambique vem sendo publicada no país pela Kapulana. Trata-se de um projeto em conjunto com a Escola Portuguesa de Moçambique (EPM), com o objetivo de divulgar no Brasil as histórias das tradições orais moçambicanas. Ao todo serão dez volumes, sendo seis já lançados pela editora e à venda no site .

Originalmente publicados em Moçambique, os livros revelam as riquezas das expressões populares, por meio de contos que inspiram o imaginário infantil e ampliam o conhecimento das culturas africanas. A série apresenta histórias tradicionais recriadas com narrativas que revelam os múltiplos universos do país. Além dos textos, as páginas acompanham ilustrações de artistas moçambicanos e suas diversas manifestações.

AS OBRAS PUBLICADAS PELA KAPULANA

O rei mocho (v. 1), de Ungulani Ba Ka Khosa – No livro, Um pai mostra ao filho como as mentiras surgiram no mundo. Os pássaros escolheram o mocho, por causa dos chifres que tinha na cabeça, para guiá-los em suas tarefas. Até que o homem resolveu intervir, e descobriu a verdade que o mocho escondia. Américo Mavale ilustrou o livro a partir de peças em batique craquelê.

As armadilhas da floresta (v. 2), de Hélder Faife – Na história, homem e leão disputam a liderança na floresta. Cada um faz uso de artimanhas para vencer o outro, até que a disputa é solucionada, de maneira inesperada, com a participação de outro animal: o rato. O artista Mauro Manhiça ilustra majestosamente o conto com desenhos digitais que dão vida às personagens.

A viagem (v. 3), de Tatiana Pinto – Em A viagem, Masud e Wimbo tinham dois filhos, Agot e Mbuio, e uma filha, Inaya, que deseja ter o mesmo tratamento que seus irmãos. Ela sai de sua aldeia para salvá-los em outra cidade. Durante seu caminho, descobre sua força e coragem. Luís Cardoso usa diversas técnicas para dar vida aos bonecos tradicionais de Tomás Muchanga, ilustrando belamente esta história moçambicana.

O casamento misterioso de Mwidja (v. 4), de Alexandre Dunduro – O livro narra a intrigante história de Mwidja e seu irmão Zwiro, também melhores amigos, que passam por uma perigosa aventura e contam com a ajuda de seu amigo flamingo para encontrarem o caminho de volta para casa. Luís Cardoso usa diversas técnicas para dar vida aos bonecos de miçanga de Orlando Mondlane.

Kanova e o segredo da caveira (v. 5), de Pedro Pereira Lopes – No enredo, o mambo de Mopeia não está contente com as coroas em seu guarda-roupa! Ele envia meninos do reino para encontrar materiais para uma nova coroa. Um deles é Kanova, que, com a ajuda de uma caveira falante, passa por aventuras na busca de materiais dignos de uma coroa real. O artista Walter Zand ilustra essa narrativa misteriosa com pintura digital.

Wazi (v. 6), de Rogério Manjate – Na trama, o velho caçador Jhapondo ensina seu neto Wazi a caçar para manter as tradições do clã, mas apresenta uma regra misteriosa. Após a morte do avô, há uma reviravolta da vida de Wazi, que passa a entender a língua dos animais e a viver incríveis aventuras com seu cão Paciência. Celestino Mudaulane ilustra esta narrativa com a nanquim sobre papel.

Na aldeia dos crocodilos (v. 7), de Adelino Timóteo Altamente Recomendável FNLIJ 2019 – Produção 2018 (Categoria: Literatura em Língua Portuguesa). Na obra, a aldeia dos crocodilos fica na beira do rio, numa terra fértil onde tudo que é semeado, cresce. Lá vivem Mandoguinhas e seu avô Boaventura, que conta ao neto que os crocodilos que ficam na beira das águas não são animais, mas, sim, ubuntus – gente. O menino acha que o avô Boa estava alucinando devido à velhice, porém, quando ele desaparece no rio, Mandoguinhas tem que desvendar o mistério dos crocodilos. O livro é ilustrado com as deslumbrantes pinturas a óleo de Silva Dunduro.

O caçador de ossos (v. 8), de Carlos dos SantosAltamente Recomendável FNLIJ 2019 – Produção 2018 (Categoria: Literatura em Língua Portuguesa). No livro, Sinaportar era um grande caçador, reconhecido em sua Aldeia e arredores. Porém, tinha também fama de egoísta, solitário, pois se negava a caçar em grupo; ia sempre à caça sozinho, acompanhado apenas dos cachorros que havia herdado do pai, um lendário caçador. O que ninguém sabe é que Sinaportar não é um grande caçador, dependendo totalmente dos cães para abater qualquer animal. Um dia, inesperadamente, os cães passam a se negar a caçar. Agora, Sinaportar deverá resolver esse problema antes que o seu segredo seja revelado. As esculturas de Emanuel Lipanga desenvolvem as dinâmicas do enredo e estampam as tradições artísticas moçambicanas.

Leona,  a filha do silêncio (v. 9), de Marcelo Panguana Altamente Recomendável FNLIJ 2019 – Produção 2018 (Categoria: Literatura em Língua Portuguesa). Em um lugar de mil encantos, vivem o Leão e a Leoa e sua filha, Leona. Leona é muito bela e encanta a todos que enxergam sua beleza, mas é triste e há muito tempo que não fala nada, nem ri. Um dia, seus pais viajam para um reino distante e, ao retornarem, trazem um vestido de noiva e decretam que aquele que conseguisse fazer Leona falar a levaria ao altar. O que ninguém sabe é que Leona já está apaixonada e espera a volta do seu amado. Será que algum dia seu amor vai retornar e ela vai voltar a falar e a rir?

O pátio das sombras (v. 10), de Mia Couto – Vencedor do Prêmio FNLIJ 2019 – Produção 2018 (Categoria: Literatura em Língua Portuguesa). Um menino vive com a família em uma aldeia. Um dia, a avó se nega a ir até a plantação, pois diz estar cansada. Durante o trabalho, a família escuta ruídos de festa vindos da aldeia, e todos se perguntam se a avó tinha visitantes. O menino vai checar, mas encontra a avó sozinha. O acontecimento se repete, deixando o menino cada vez mais confuso, até que a avó lhe dá explicações ensinando-lhe uma linda lição sobre a vida e a morte. 

CONTOS DE MOÇAMBIQUE

A série “Contos de Moçambique” surgiu da colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. A Editora Kapulana fez uma parceria com a Escola Portuguesa de Moçambique para publicar no Brasil a coleção, com o objetivo de apresentar ao leitor brasileiro um pouco da cultura moçambicana. A série é composta por dez volumes de contos da tradição oral de Moçambique. São histórias recontadas por renomados escritores e ilustradas por artistas de diversas expressões, como pintura, desenho, escultura, batique e artesanato.

EDITORA KAPULANA

A Kapulana é uma editora voltada para a publicação e divulgação da literatura de autores brasileiros e estrangeiros. A proposta é ampliar e apresentar as diversas linguagens literárias aos leitores brasileiros. A seleção de títulos – voltada para autores e livros que ainda não têm visibilidade – apresenta múltiplas identidades, com temas e cenários que expressem seus valores socioculturais. Atualmente, o catálogo da editora é composto por livros de ficção e científicos, para adultos e crianças, em prosa e poesia. Os escritores, ilustradores e colaboradores são de países como Brasil, Angola, Moçambique, Nigéria, Portugal, Quênia e Zimbábue.

São Paulo, 19 de fevereiro de 2018.

Esculturas maconde – Ilustrações de “O caçador de ossos”, de Carlos dos Santos

A escultura maconde é uma das artes tradicionais do povo maconde (ou makonde), pertencente ao grupo étnico bantu da região de Cabo Delgado, nordeste de Moçambique e sudeste da Tanzânia, na África.

A arte maconde é representada pela música, pela dança e por objetos produzidos em palha entrelaçada, com que são feitos cestos e esteiras. No entanto, a arte maconde mais conhecida é a escultura, em que o material utilizado é o pau preto, madeira extraída de uma árvore do continente africano.

O pau preto também é conhecido como ébano africano ou ébano moçambicano. Com o uso de serrotes, catanas, machados e outras ferramentas menores, o artesão esculpe em pau preto adereços pessoais, utensílios domésticos, instrumentos e ferramentas para uso doméstico e agrícola, móveis e objetos de arte.

 As esculturas artísticas têm vários estilos, em que a presença de figuras humanas, animais e seres sobrenaturais é frequente.  Grupos de pessoas ou famílias, às vezes com seus instrumentos de trabalho, são esculpidos em uma só peça de pau preto.  Também há conjuntos maiores de esculturas em que cenários inteiros, como aldeias, são representados em detalhes, peça por peça.

 A escultura maconde é uma das artes moçambicanas de maior reconhecimento nacional e internacional por representar com arte os costumes de um povo através dos tempos.

Citar como:
SANTOS, Carlos do. O caçador de ossos. Ilustrações de Emanuel Lipanga. São Paulo: Kapulana, 2018 [Contos de Moçambique, v. 8].

Ana Mafalda Leite realiza o lançamento de ‘Outras fronteiras: fragmentos de narrativas’ na UFRJ

O livro apresenta um conjunto de poemas organizados em quatro momentos, em que a poeta viaja por paisagens diversas, que conversam entre si

A ensaísta, docente e poeta Ana Mafalda Leite participa, na quarta-feira (28), às 11h00, na Faculdade de Letras, no auditório E-3, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da palestra O Cinema da Guiné-Bissau, com a exibição e o debate do filme Nha Fala (2002), de Flora Gomes. O evento faz parte do projeto CinÁfrica, coordenado pela Profª Drª Carmen Lucia Tindó Secco. Durante o encontro, Mafalda Leite realizará a leitura de poemas e sessão de autógrafos do livro Outras fronteiras: fragmentos de narrativas. Na programação, Carmen Tindó falará sobre a obra e poesia da convidada, com a participação de Rosana Weg, diretora da Editora Kapulana.

Em Outras fronteiras: fragmentos de narrativas, Ana Mafalda Leite apresenta um conjunto de poemas organizados em quatro momentos, em que a poeta viaja por paisagens diversas, que conversam entre si. As viagens começam no interior do eu-lírico e percorrem cenários de Moçambique, em terra e no Índico, repletos de portais, jardins, templos, minaretes, serpentes e flautas mágicas, em um universo em que história e poesia convivem.

Ana nasceu em Portugal, cresceu e realizou os primeiros estudos acadêmicos na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique. É docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com Mestrado em Literaturas Brasileira e Africanas de Língua Portuguesa, além do Doutora em Literaturas Africanas, sua área principal de investigação.  Desenvolveu pesquisa de Doutorado e Pós-Doutorado na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres, na Universidade de Roma e na Universidade de Dakar.

Com mais de 30 anos de trajetória criando versos, Mafalda lançou seu primeiro livro de poemas, Em sombra acesa (Vega), no ano de 1984. Em seguida, as obras Canções de Alba (Vega), de 1989, Mariscando Luas (Vega), em colaboração com Luís Carlos Patraquim e Roberto Chichorro. de 1992, Rosas da China (Quetzal Editores), de 1999, entre outros. Em 2015, Mafalda recebeu o prêmio Femina Lusofonia de Literatura, honraria que contempla as “Notáveis Mulheres Portuguesas e da Lusofonia, mérito ao nível profissional, cultural e humanitário no Mundo, pelo Conhecimento e pelo seu relacionamento com outras Culturas”.

Pela Kapulana, a autora lançou, no ano passado, Outras fronteiras: fragmentos de narrativas. Sobre o livro, Carmen Tindó escreveu: “Poesia e história dialogam, lançando luzes sobre momentos problemáticos do passado moçambicano. Fragmentos narrativos e biográficos cruzam os poemas, trazendo informações sobre o contexto historiográfico de Moçambique, em especial sobre os prazos da coroa no vale do Zambeze, onde houve um sistema escravocrata interno que beneficiava as senhoras prazeiras e suas respectivas famílias”.

CINÁFRICA

O CinÁfrica é um projeto que aborda as relações entre literatura, cinema e afeto, investigando diferentes representações da história em obras literárias e cinematográficas moçambicanas e guineenses. O evento O cinema na Guiné-Bissau tem a organização Profª Drª Carmen Lucia Tindó Secco, Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, além do apoio da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Diretoria de Cultura e Extensão.

Leia um poema de Outras Fronteiras: fragmentos de narrativas:

A lenda da criação

No princípio havia chauta (deus) e a terra parada
um dia um relâmpago imenso desenhou nos céus
a chuva
que trouxe à terra o homem e todos os animais

Pousaram nos planaltos da marávia e da angónia
no topo da montanha de domué
deus, os homens e os animais

as rochas ainda mostram as antigas pegadas, uma cesta uma enxada e um pilão

em harmonia sagrada

 

Saiba mais sobre o evento: http://www.kapulana.com.br/eventos/palestra-com-ana-mafalda-leite/

Saiba mais sobre o livro Outras fronteiras: fragmentos de narrativashttp://www.kapulana.com.br/produto/outras-fronteiras-fragmentos-de-narrativas/

Saiba mais sobre a autora Ana Mafalda Leite: http://www.kapulana.com.br/ana-mafalda-leite/

Leia o posfácio de Carmen L. T. Secco: http://www.kapulana.com.br/posfacio-do-livro-outras-fronteiras-fragmentos-de-narrrativas-por-carmen-lucia-tindo-secco/

São Paulo, 11 de fevereiro de 2018.

EMANUEL LIPANGA

EMANUEL LIPANGA nasceu em 1967 em Nangade, Cabo Delgado, Moçambique, e fez o ensino fundamental em Mtwara, na Tanzânia.

Em 1982, foi para Dar es Salaam, cidade também na Tanzânia, onde aprendeu com o seu tio o ofício de escultor.

Em 1995, regressou a Moçambique e morou na capital, Maputo, com um irmão que também é escultor.

Desde 1996, tem o seu próprio espaço-ateliê e participa da FEIMA (Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo), famosa exposição e mercado cultural na capital, onde os artesãos de Moçambique apresentam seus trabalhos artísticos durante o ano todo.

Em 2001, participou de uma mostra individual nas TDM (Telecomunicações de Moçambique), fez exposição nas dependências da Presidência da República de Moçambique e, em 2008, levou o seu trabalho à China, a convite do Ministério do Turismo daquele país.

OBRAS DA KAPULANA

O caçador de ossos, Contos de Moçambique, v. 8, de Carlos dos Santos, 2018.

CARLOS DOS SANTOS

CARLOS DOS SANTOS nasceu em 1962, em Lourenço Marques, atual Maputo, capital de Moçambique.

Profissional da educação desde 1981, é formado em Psicologia e Pedagogia (1989-1994) pela Universidade Pedagógica de Maputo.

 

OBRAS DA KAPULANA

O caçador de ossos, Contos de Moçambique, v. 8, 2018.

 

OUTRAS PUBLICAÇÕES

Ficção científica:

  • A quinta dimensão. Maputo: Imprensa Universitária, 2006.
  • A quinta dimensão. Maputo: Alcance Editores, 2010.
  • O pastor de ondas. Maputo: Alcance Editores, 2011.
  • O eco das sombras. Maputo: Alcance Editores, 2016.

Infantojuvenis:

  • O conselho. Maputo: Texto Editores, 2007.
  • Os frutos da amizade. Maputo: Plural Editores, 2008.
  • As cores da amizade. Maputo: Plural Editores, 2011.
  • Um passeio pelo céu. Maputo: Plural Editores, 2012.
  • O mundo e mais eu. Maputo: Plural Editores, 2013.
  • O caçador de ossosMaputo: Escola Portuguesa de Moçambique; Barcelona: Fundació Contes pel Món, 2013.
  • O bichinho da curiosidade. Maputo: Plural Editores, 2014.
  • O passeio das espécies. Maputo: Plural Editores, 2015.
  • Os pastores de letras. Maputo: Alcance Editores, 2016.

Didáticos e Técnicos:

  • Criação de animais, doenças dos animais e currais. Maputo: Plural Editores, 2009.
  • Cartilha da ética. Maputo: Plural Editores, 2011.
  • Guião de exploração para professores e para pais. Maputo: Plurais Editores, 2014.

 

MARCELO PANGUANA

MARCELO PANGUANA nasceu em março, em 1951, na cidade de Lourenço Marques, atual Maputo, capital de Moçambique. Escreve desde o momento em que conheceu as primeiras letras do alfabeto. Começou por escrever pequenas histórias para as páginas e revistas culturais. A página literária “Diálogo”, do Notícias da Beira, foi o espaço onde começou a amadurecer a sua escrita. Em Maputo, junta-se a um grupo de escritores do projeto da revista “Charrua”. Deste grupo nasceram alguns dos que constituem, hoje, a nata dos melhores escritores do país. Foi fundador da Editora Lithangu.

OBRAS DA KAPULANA 

Leona, a filha do silêncio, Contos de Moçambique, v. 9,  2018. (em edição)

OUTRAS PUBLICAÇÕES

  • As vozes que falam de verdade (contos). Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1987 .
  • A balada dos deuses (contos). Maputo, Associação dos Escritores Moçambicanos, 1991.
  • Estórias de reconciliação. Unesco, 1994.
  • Fazedores da alma (entrevistas). Maputo: Tipografia Globo, 1999.
  • O chão das coisas (romance). Maputo: Imprensa Universitária da Universidade Eduardo Mondlane, 2003.
  • Os ossos de Ngungunhana (contos). Maputo: Imprensa Universitária da Universidade Eduardo Mondlane, 2004.
  • Como um louco ao fim da tarde. Maputo: Alcance, 2009.
  • Leona, a filha do silêncio. Maputo: Escola Portuguesa de Moçambique; Barcelona: Fundació Contes pel Món, 2010.
  • O filho do planalto. Luanda: União dos Escritores Angolanos (UEA), 2011.
  • Conversas do Fim do Mundo. Maputo: Alcance, 2012.
  • O vagabundo da Pátria. Maputo: Alcance, 2015.

PRÊMIOS

  • Prémio Literário Rui de Noronha, patrocinado pela FUNDAC, na categoria de escritores consagrados – Moçambique.
  • Menção Honrosa no Prémio Sonangol de Literatura 2011, com o livro O filho do Planalto – Angola.

LESLEY NNEKA ARIMAH

LESLEY NNEKA ARIMAH nasceu no Reino Unido e cresceu lá, mas também em outros países onde seu pai trabalhava, como a Nigéria. Atualmente mora em Minneapolis, no estado de Minnesota, Estados Unidos. É autora do livro What it means when a man falls from the sky (no Brasil, O que acontece quando um homem cai do céu), uma coletânea aclamada de contos lançada em 2017 nos EUA, no Reino Unido e na Nigéria. Não só o livro tem recebido prêmios, como vários dos contos já haviam sido premiados antes de serem publicados no formato de livro.

A OBRA

O livro – Edições de What it means when a man falls from the sky, stories (O que acontece quando um homem cai do céu).

2017 – What it means when a man falls from the sky, stories. New York: Riverhead Books/ Penguin Handon House LLC.
2017 – What it means when a man falls from the sky, stories. Reino Unido: Headline Publishing Group, London/ Tinder Press.
2017 – What it means when a man falls from the sky, stories. Lagos/Nigéria: Farafina.
2018 – O que acontece quando um homem cai do céu. São Paulo: Kapulana.

Os contos

Lesley N. Arimah, antes de ter seus contos reunidos em livro, os submeteu para apreciação a várias revistas literárias, que aprovaram e publicaram várias das histórias. Os seguintes contos já tinham seu mérito reconhecido e haviam sido publicados:

2014 – “Histórias de guerra” (War Stories). Mid-American Review, XXXIV, No. 2, Oct. 2014.
2014-2015 – “O futuro parece bom” (The Future Looks Good). PANK, Jan. 2014 (Incluído no Best American Nonrequired Reading, Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company, 2015).
2015 – “Segundas chances” (Second Chances). “Second Chances“, The Toast, Feb. 2015.
2015 – “Acidental” (Windfalls). Per Contra, Online, Issue 35.
2015 – “Luz” (Light). GRANTA Online, April 28, 2015.
2015 – “O que acontece quando um homem cai do céu”(What It Means When a Man Falls from the Sky). Catapult, September 2015.
2015 – “Quem vai te receber em casa” (Who Will Greet You at Home). The New Yorker, October 26th, 2015.
2016 – “As meninas de Buchi” (Buchi’s Girls). Five Points, Vol. 16, No. 3, Sept. 2016.
2016 – “Glória”(Glory). Harper’s Magazine, March 2016.
2019 – “Skinned”. McSweeney’s Quarterly Concern (Issue 53).

PRÊMIOS E INDICAÇÕES

2015 – “Commonwealth Short Story Prize for Africa”, pelo conto “Light”. (Iniciativa da Commonwealth Foundation, que premia normalmente autores inéditos na categoria de contos. Conto foi publicado no NWT e recebeu indicação para o prêmio, pelo qual concorrem as principais revistas dos EUA.)
2016 – Finalista do “National Magazine Awards”, do New York Times, categoria Ficção, pelo conto “Who will greet you at home”.
2017 – Finalista do “National Book Critics Circle Leonard Prize”.
2017 – Nomeada uma das “5 under 35”, da National Book Foundation. (A lista nomeia 5 autores com menos de 35 anos que só tenham um livro de ficção publicado nos últimos cinco anos, e que são promissores.)
2017 – Vencedora do “Kirkus Prize”, categoria Ficção, pelo livro What it means when a man falls from the sky. (Um dos maiores prêmios literários do mundo, premia anualmente autores nas categorias ficção, não ficção e literatura juvenil.)
2017 – “O. Henry Prize”, pelo conto “Glory”. (Promovido pela editora Anchor Books em parceria com a PEN American Center. Premia contos publicados em inglês nos EUA e no Canadá.)
2017 – “Caine Prize Shortlist”, pelo conto “Who will greet you at home”. (Prêmio para contos de literaturas africanas escritas em Inglês.)
2018– “18º Young Lions Fiction Award” (Premiação promovida pela The New York Public Library)
2019 – “Caine Prize for African Writing” (vencedora com o conto “Skinned”, publicado na McSweeney’s Quarterly Concern (Issue 53).

RESENHAS

A obra de Lesley N. Arimah foi e é objeto da crítica literária de diversos veículos internacionais importantes como:

Africa in Words, Ayiba, BookRiot, Books Shelf, Bookspoils,  Boston Globe, Buzzfeed, Dallas News, Jezebel,  Kirkus Review, Media Diversified, NPR Books, Olisa TV, Publishers Weekly, Salisbury Post, Seattle Times, Shiny New Books, Star Tribune, The Atlantic, The Culture Trip, The Diamondback, The Guardian, The Johannesburg Review of Books, The Michigan Daily, The New York Times, The Rumpus, The Washington Post.

Trechos de resenhas

“Estranho e maravilhoso… uma contadora de histórias sagaz, oblíqua e provocativa, Arimah consegue encaixar a história de uma família em poucas páginas, e inventar parábolas utópicas, fábulas mágicas e cenários aterrorizante, movendo-se com desembaraço entre um distanciamento cômico e um realismo psicológico perspicaz… as suas histórias de ficção científica, que trazem questões feministas e relativas ao meio-ambiente, lembram as de Margaret Atwood. Mas seria errado não aclamar Arimah por sua originalidade estremecedora: ela está conduzindo aventuras em narrativas que seguem sua própria voz, alimentando seu rastro de luz, aquela brasa brilhante, queimando corajosamente, sem ofuscar-se.” – New York Times Book Review

“A voz de Arimah é vibrante e nova, os assuntos que ela traz são, ao mesmo tempo, oportunos e atemporais… Este é um volume curto e raro que fui forçado a colocar nas mãos de amigos dizendo ‘Você tem que ler isso’.” – The Washington Post

“Em sua coleção de estreia, Lesley Nneka Arimah mistura realismo mágico e elementos de ficção científica para criar um conjunto de histórias realmente únicas sobre família, amizade e a ideia de um lar, que vão deixar o leitor faminto para ler mais do seu trabalho.” – Cosmopolitan

Outras fronteiras: o brilho dos pirilampos e os fragmentos da memória, por Carmen Lucia Tindó Secco

O livro Outras fronteiras: fragmentos de narrativas divide-se em quatro grandes partes. A primeira tem como título “Como se a manhã do tempo despertasse”. O eu lírico peregrina dentro de si para se buscar; examina suas fronteiras; navega com um país dentro da língua, fazendo do coração paisagem antiga, mas sempre presente no olhar, no álbum de suas vivências, como se pudesse despertar. A escrita se apresenta como pena de um amor infinito, como um feitiço querendo escapar do eterno. Seria isso possível?

O eu lírico conversa com quem escreve. Ana no espelho. E os pirilampos na noite, com sua luz, enfeitam lembranças. Como os vaga-lumes de Didi-Huberman, resistem, revelando-se metáforas da poesia em meio a um mundo-espetáculo de luzes ofuscantes: “Há [hoje] sem dúvidas motivos para ser pessimista, contudo é tão mais necessário abrir os olhos na noite, se deslocar sem descanso, voltar a procurar os vaga–lumes” (DIDI-HUBERMAN, 2014, p. 14)

 A segunda parte é constituída pelos poemas de Moatize, nos quais se encontram as fronteiras híbridas dos afetos ali vivenciados em relação à infância, ao amado, a Moçambique. Passam pela memória lírica as primeiras cores da terra, o fluir das águas do Zambeze; depois, as paisagens da negra azul cantada por Virgílio de Lemos e todos os tons de anil que tingem a imaginação. Também está presente Camões, cujo fogo do amor acende o lirismo amoroso no azul do Oriente e do Índico, oceano de inspiração criadora.

A terceira parte de Outras fronteiras: fragmentos de narrativas aborda o tema de viajantes e suas narrativas escritas em diários que registram viagens por cidades moçambicanas: Tete, por exemplo. Nesses escritos, são muitas as fronteiras percorridas, muitos os cruzamentos culturais encontrados. A pena narrativa aponta a presença de goeses, indianos, portugueses, além dos africanos. Apreende sons de batuque à distância, máscaras de espíritos antepassados.

Outras fronteiras: fragmentos de narrativas é perpassado por pensamentos e fragmentos de poemas de Camões, Eduardo White e outros poetas; por diários de antropólogos, como Lacerda e Almeida. Real e imaginação se entrelaçam. Os versos de Camões e White se mesclam a fragmentos de narrativas de Lacerda e Almeida, que viajara a Moçambique em 1797 para mapear minas de ouro na África Oriental. Há poemas também, nessa parte, sobre as donas dos prazos, ao sul do Zambeze, que possuíam escravos e ajudaram a expedição de Lacerda e Almeida. Uma dessas senhoras é Dona Francisca Josefa de Moura e Meneses, cuja sobrinha se casara com o mencionado antropólogo.

Poesia e história dialogam, lançando luzes sobre momentos problemáticos do passado moçambicano. Fragmentos narrativos e biográficos cruzam os poemas, trazendo informações sobre o contexto historiográfico de Moçambique, em especial sobre os prazos da coroa no vale do Zambeze, onde houve um sistema escravocrata interno que beneficiava as senhoras prazeiras e suas respectivas famílias.

Na quarta e última parte do livro de Ana Mafalda, há uma exaltação das belezas do Índico, como, por exemplo, no poema intitulado “O Índico em Marrakesh”. O Índico aqui não se restringe ao litoral de Moçambique. Multicultural, é um traçado azul, um oásis no caminho, traz a imagem de alguém nos olhos da poetisa. Assim, devagar, a poesia vai alcançando múltiplas portas, cidades, jardins, templos com minaretes dedicados a  Alah. Muitos são os encantadores de serpentes, suas flautas e tranças mágicas.

 Metáforas, como água, azul, amor, fronteiras, estão presentes nessas “narrativas poéticas” de Ana Mafalda. Funcionam como pequenos labirintos e fontes de água, enamoramentos do Índico, envolto em chás de menta e gengibre. Corpos dançando cheios de luz através de escritas enigmáticas, decifrações, sortilégios. Entre Ocidente e Oriente, Moçambique só é possível pelo cruzamento de “acasos conjurados”, voz do passado rente ao Índico e às diversas etnias africanas que habitam a terra moçambicana.

[1] DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014.

São Paulo, junho de 2017.

Citar como:
SECCO, Carmen L. Tindó. “Outras fronteiras: o brilho dos pirilampos e os fragmentos da memória”. Posfácio in: LEITE, Ana Mafalda. Outras fronteiras: fragmentos de narrativas. São Paulo: Kapulana, 2017.

Noémia de Sousa: a metafísica do grito, por Francisco Noa

Posfácio das edições moçambicanas de Sangue negro, de Noémia de Sousa: 2001 (AEMO – Associação dos Escritores Moçambicanos), e 2011 (Ed. Marimbique), revisto pelo autor Francisco Noa, em junho de 2016, para a Editora Kapulana.

 

            Se há um adjetivo que, à partida, pode caracterizar a criação poética de Noémia de Sousa, esse adjetivo é: emocionada. Porém, com esta catalogação, corremos o risco de enclausurar a escrita desta poetisa, pioneira voz feminina das letras moçambicanas, numa etiqueta que, desde logo, se apresenta como uma marca desqualificadora. Isto, se tivermos em linha de conta toda uma prática poética e metapoética que instituiu e consagrou o lirismo da modernidade.

            Entre outros, pensamos no dandysme flanante e mundano de Baudelaire, no desregramento das sensações em Rimbaud, na dissolução do sujeito e no intelectualismo em Mallarmé, no distanciamento dramático em T.S. Eliot, no fingimento poético em Fernando Pessoa, em suma, no vitalismo criador que fez da poesia moderna o espaço do incessante e implacável estilhaçamento e de negação da subjetividade.

            Porém, tendo em conta o acento personalizado da poesia de Noémia, a pulsação vibrante da interioridade do sujeito poético e a glorificação da emoção, até que ponto a sua escrita não se institui como festiva e arrogante recusa de uma tradição cristalizada e disseminada no Ocidente?

            Como que a confirmá-lo, aí temos todo um conjunto de recursos linguísticos (juntamente com a língua portuguesa, intersectam-se irreverentemente registos da língua ronga e inglesa), estilísticos (a prevalência da adjetivação, da anáfora, da aliteração, da parataxe, da exclamação) e temáticos (a revolta, a valorização racial e cultural, a infância, a esperança, a angústia, a injustiça) que nos fazem claramente perceber que, por detrás da voz enunciatória de cada um dos poemas de Sangue Negro, se insinua a consciência de uma subjetividade dilacerada:

 

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas

nossa voz gorda de miséria,

nossa voz arrastando grilhetas

(“Nossa Voz”, in NOSSA VOZ)

 

ou indignada: “Nós somos sombras para os vossos olhos, somos fantasmas” (“Passe”), inconformada:

 

 

Queria derrubar meu jazigo de alvenaria

Queria descer aos trilhos lamacentos,

Queria sentir o aguilhão da mesma revolta,

Queria sentir esse gosto indefinível de luta,

Queria sofrer e gemer e lutar

Para conquistar a Vida!

(“Poema”, in BIOGRAFIA)

 

            Consciência que pode também ser nostálgica:

 

Ah, meus companheiros me semearam esta insatisfação

dia a dia mais insatisfeita.

Eles me encheram a infância do sol que brilhou

no dia em que nasci.

(“Poema da Infância Distante”, in BIOGRAFIA)

 

quando não, confiante: “Por isso eu CREIO que um dia / o sol voltará a brilhar, calmo, sobre o Índico.”, etc.

            Tal como a maior parte dos escritores africanos da sua época – como o serão, afinal, os das épocas subsequentes, conhecido e reconhecido que os períodos pós-independentistas, de estabelecimento das democracias e da mundialização do planeta continuam a exigir que cada vez mais as vozes dos escritores em África não emudeçam —, a voz poética de Noémia de Sousa transcende, em largos momentos, os limites egotistas, espaciais e temporais, instituindo-se, de certo modo, como uma voz de aspiração plural e universalista. Para Pires Laranjeira (1995: 499), trata-se da “ânsia de absoluto, a mística de fusão com o povo e o Continente”.

            Concorrem para tal aspiração, o recurso à apóstrofe afetiva (“E então, / tua voz, minha irmã americana, / veio do ar, do nada, nascida da própria escuridão…”, em “A Billie Holiday, cantora”), ao sentimento coletivo (“E agora, sem desespero nem esperança, / seremos em breve fugitivas das ruas marinheiras da cidade…”, em “Moças das Docas”), ao culto da utopia (“Poema para um Amor Futuro”, “Se este Poema fosse”…), bem como aos mitos da liberdade, da igualdade, da fraternidade e do progresso.

            Estamos, por conseguinte, perante o pendor assumidamente não-ensimesmado, não umbilicalista da escrita poética de Noémia que institui uma voluptuosa emotividade raciocinante e combativa. O sujeito parece emergir aí como efeito do seu confronto com o que lhe é exterior, desencadeando toda uma corrente de consciência responsável pelo tom declamatório e pelo virtuosismo apelativo desta poesia. A propósito, Ana Mafalda Leite (1998: 107) considera que “toda a poesia da autora aspira a ser vocal, escapando assim ao exílio silencioso da escrita”.

            E as encenações dialógicas que aí se assistem, se é verdade que contribuem para a carnavalização da linguagem, segundo Bakhtine, por outro lado, concorrem, para uma subjetividade que se insinua, inconformada, e que atravessa e unifica estilística e estruturalmente os poemas de Sangue Negro.

            É, pois, na atmosfera ritualizante e celebratória do poema que a escrita de Noémia de Sousa, melódica e compassada, num ritmo por vezes inebriante, fustiga:

 

Ó carrasco de olhos tortos

de dentes afiados de antropófago

e brutas mãos de orango

(“Poema”, in SANGUE NEGRO)

 

ou venera

Ó minha Mãe África, ngoma pagã,

escrava sensual,

mítica, sortílega – perdoa!

(“Sangue Negro”, in SANGUE NEGRO)

 

            Divindade maior desta cosmologia é a liberdade ansiada (e ensaiada) e o exercício da palavra como instrumento consciencializador e aguerrido. E a expressão arrebatada se, por um lado, individualiza a expressão poética em Noémia, por outro, confere-lhe uma dimensão majestática e que faz do sujeito rapsodo das dores, dos anseios, da revolta, das resignações e dos mitos dos flagelados irmanados por um destino comum determinado pela ocupação colonial.

            Enquanto expressão singular de negritude, a voz de Noémia não corresponde necessariamente à exaltação de um narcisismo gratuito de ser negro, mas trata-se da projeção do ser negro enquanto objeto da sujeição económica, política, cultural ou racial. E a história vai nos ensinando que as duas condições (a biológica e a instituída) se ligam de forma perversa e tautológica. Como diria Frantz Fanon, é-se negro porque se é dominado e é-se dominado porque se é negro.

            Entretanto, traduzindo um claro cepticismo face às estratégias adoptadas pelo movimento da Negritude, a partir dos anos 30, Wole Soyinka defenderia que um tigre não proclama a sua tigritude, mas ataca. Isto é, o autor nigeriano interpretava essa atitude própria das franjas de africanos que, em contacto com a cultura e a civilização ocidentais, desenvolviam uma indisfarçável e sofrida crise de identidade. Este era um facto que, do seu ponto de vista, não parecia afetar a maioria do povo africano que, por isso mesmo, não sentia necessidade de provar o valor da raça e da cultura. E a poesia de Noémia de Sousa é, neste aspecto, paradigmática.

            O pendor apelativo e messiânico que caracteriza o seu verso, a exaltação dos valores negro-africanos, o afrontamento corrosivo e irónico às imagens estereotipadas do europeu sobre os africanos e a (re)constituição da sua própria imagem identitária são algumas das marcas mais evidentes do alinhamento estético da escrita da Noémia que, no essencial, reivindica um profundo e ilimitado sentido humanista.

            Face à conformação narrativa que caracteriza a poesia de Noémia de Sousa (tal como a de José Craveirinha), e a constituição proléptica e profética da ideia de nação, estamos, por conseguinte, perante uma escrita que faz depender essa nação ideada à forma como a própria poesia se constrói. Isto, em função, portanto, de uma reverbativa dimensão estética, ética, cultural e civilizacional.

            Estrutura político-cultural em gestação, ou, simplesmente formação discursiva, segundo Michel Foucault, a nação decorre de uma recriação mítica que faz apelo aos valores de raça, geografia, história, tradição ou língua. E é aí, entre a sacralização da ancestralidade e a reiteração enunciativa dos valores acima mencionados, isto é, entre aquilo que Homi Bhabha (1995) distingue como pedagógico e como performativo, é que a ideia de nação adquire, em Noémia, uma materialidade e uma arquitetura singulares.

            Plena de vitalidade, a poesia de Noémia celebra a própria poesia naquilo que ela significa em termos de melodia, ritmo,

 

E os corpos surgiram vitoriosos,

sambando e chispando,

dançando, dançando …

(“Samba”, in MUNHUANA 1951)

 

e sensações

 

a luz do nosso sol,

a lua dos xingombelas,

o calor do lume,

a palhota onde vivemos,

a machamba que nos dá o pão!

(“Súplica”, in NOSSA VOZ)

 

            E é na forma exuberante como se (re)apropria do mundo que a envolve e do que flui no interior quer do sujeito individual quer do sujeito coletivo, que o “género Noémia de Sousa” se vai definindo. Instituindo uma temporalidade própria e muito marcada – passado gratificante, presente sofrido, futuro optimista —, Sangue Negro inscreve nos interstícios de cada verso o seu segmento eventualmente mais emblemático e controverso: um intenso clamor que prenuncia um silêncio confrangedor que vai praticamente acompanhar a autora até ao final dos seus dias.

            Se, por um lado, com o olhar centrado na infância se reconstitui idílica e feericamente o Mito da Idade de Ouro, ou do Paraíso Perdido, por outro, ao projetar-se utopicamente para o futuro, morada da solução harmoniosa e palingenética, esta poesia tem no presente, um espaço enunciatório nuclear, ao mesmo tempo de padecimento, mas também propiciatório e invocador do que existe quer no foro privado quer como bem coletivo.

            Atentando, entretanto, na forma como o futuro e o presente condicionam a voz poética que se configura como consciência plural, obviamente com um sentido coletivo e partilhado, é, contudo, na sua relação com o passado que tudo se radicaliza em relação à forma como essa mesma voz se apresenta. Trata-se, pois, de uma subjetividade envolta num manto de uma nostalgia envolvente, emergindo altiva no exercício reconstituinte conduzido pela memória:

 

– Figuras inesquecíveis da minha infância arrapazada,

Solta e feliz:

meninos negros e mulatos, brancos e indianos,

[…]

Ah, meus companheiros acocorados na roda maravilhada

e boquiaberta de “Karingana ua karingana”

das histórias da cocuana do Maputo

(“Poema da Infância Distante”, in BIOGRAFIA)

 

            Afinal, como diria Emmanuel Levinas (1988), é pela memória que o sujeito se funda a posteriori, retroativamente. Isto é, assume hoje o que, no passado absoluto da origem, não tinha sujeito para ser recebido e que, a partir de então, pesava como uma fatalidade:

 

Quando eu nasci…

[…]

No meio desta calma fui lançada ao mundo,

Já com meu estigma.

(“Poema da Infância Distante”, in BIOGRAFIA)

 

            Ainda, na percepção do filósofo franco-lituano, é a memória que realiza a impossibilidade e que, como inversão do tempo histórico, se firma como a essência da interioridade. Neste particular, a poesia de Noémia desfaz as asserções totalitárias que fazem dela pura expressão de uma alma coletiva onde a subjetividade está ausente. Subjetividade, que se institui como intersubjetividade, que se revê e se revitaliza na plenitude da sua condição feminina.

            Para todos os efeitos, na sua salteante dialética com a temporalidade, a voz de Sangue Negro é uma voz que se propaga sonora, profetizando o seu próprio apagamento. Isto é, a utopia, em toda a sua imprevisibilidade, que se torna silêncio e morte. Paradoxalmente, ou não, é justamente aí, ou a partir daí, porque se transcende, que a poesia de Noémia de Sousa assume a sua condição de imortalidade: a crença, mesmo que irreligiosa, na palavra que se diz, que sonha e faz sonhar, que dói e faz doer, que reflete e faz refletir, mas que liberta mesmo que na contingente e precária duração de um grito que deixa o seu eco repercutindo-se no tempo e no espaço.

Maputo, outubro de 2000.

Francisco Noa
Pesquisador, ensaísta e Professor Doutor em Literaturas Africanas, na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique. Reitor da Universidade Lúrio (UniLúrio), em Nampula, Moçambique.

Citar como:
NOA, Francisco. “Noémia de Sousa: a metafísica do grito”. In: SOUSA, Noémia. Sangue negro. São Paulo: Kapulana, 2016 [Vozes da África]

 

 

A mãe dos poetas moçambicanos, por Nelson Saúte

Introdução da 1a. edição moçambicana de Sangue negro, de Noémia de Sousa: 2011 (Ed. Marimbique), revista pelo autor Nelson Saúte, em junho de 2016, para a Editora Kapulana.

 

Para a mana Gina
e em memória da nossa tia Camila

            Eu tinha 15 anos e o poema dizia: “Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço./Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,/viemos do outro lado da cidade/com nossos olhos espantados,/nossas almas trancadas,/nossos corpos submissos escancarados./De mãos ávidas e vazias,/de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,/de corações amarrados de repulsa,/descemos atraídas pelas luzes da cidade,/acenando convites aliciantes/como sinais luminosos na noite”. Passados estes anos não sei proclamar o meu espanto. Mas lembro que sobre a retina daquele rapaz que eu era, na incauta leitura de uma antologia de Orlando Mendes (Sobre Literatura Moçambicana), ficou a reverberar um nome estranho.

            Quem seria essa mulher que se escondia no nome de poeta Noémia de Sousa? – interrogou-se o menino que fui. Naquele então a literatura que conhecia era sobretudo o pecúlio trazido no ombro dos guerrilheiros. Era essa a poesia que sobrava das artes de declamação experimentada nos pátios das escolas, onde fomos continuadores da revolução e exaltadores de todas as utopias – tudo o que agora está inscrito no refluxo dos nossos sonhos.

            Noémia de Sousa não constava no meu bornal de amador de poetas. Tinha lido, tinha dito, lá no alto da minha inocência, versos da chamada – e aclamada – poesia de combate. Mas desconhecia em absoluto esta mulher.

            As buscas começaram imediatamente. Quem era Noémia de Sousa, autora daqueles versos frenéticos, daqueles versos longos e belos, que falava de moças fugitivas dos bairros onde estavam acantonados na mais vil miséria, das Munhuanas e dos Xipamanines, do outro lado da cidade, com os olhos espantados?

               Carolina Noémia Abranches de Sousa era o nome dela. Nascera a 20 de setembro de 1926, ali na Catembe, numa casa à beira do Índico, albergue que seria celebrado num dos seus poemas mais emblemáticos.

               Não tardou a descobrir que esta mulher escrevera apenas durante três anos, o bastante para incendiar o rastilho da poesia que reivindicava a personalidade dos oprimidos, que fundava a literatura dos marginalizados. Tudo isto entre 1948 e 1951. Hoje, neste ano prodigioso de 2001, vemo-la aqui, em livro, na celebração dos 50 anos, sobre o silêncio. Silêncio quebrado em 1986 aquando da morte de Samora Machel, reincidência praticada anos depois, num dos textos mais belos e comoventes, que Carlos Pinto Coelho fez publicar no seu álbum de fotografias A meu ver.

               Noémia viveu na Catembe, do outro lado da baía de Maputo, até aos seis anos, quando se mudou para a então Lourenço Marques. O pai, funcionário público, era originário de uma família luso-afro-goesa da Ilha de Moçambique. Foi ele que a ensinaria a ler aos quatro anos, movido provavelmente pelas mesmas ideias de progresso que animavam personalidades como Estácio Dias (pai de João Dias) ou os Albasini, com quem convivia. Sua mãe, nascida na Bela Vista, para lá da Catembe, era filha de um alemão (Max Bruheim), caçador e negociante, e da filha de um chefe ronga, Belenguana.

               A morte do pai, ocorrida quando Noémia tinha oito anos, veio transformar as condições de vida da família, que vivia até então relativamente desafogada, vendo-se a mãe da poetisa a braços com o sustento de seis filhos, dois deles a estudar em Portugal, com a ajuda de uma tia paterna. Aos 16 anos, Noémia de Sousa teve que se empregar, mas estudava à noite na Escola Técnica, onde frequentava o curso de Comércio.

               A vocação da escrita foi precoce, iniciara-se fazendo jornais de parede com os irmãos. O mano Nuno, um dia, veio confidenciar-lhe que havia um amigo – Antero, a quem dedica um dos seus poemas iniciais – que estava num grupo de outros rapazes que tinham tomado de assalto, por assim dizer, o jornal da Mocidade Portuguesa, sob a direção do poeta Virgílio de Lemos (o mesmo que mais tarde iria editar a folha Msaho de poesia, que estava nos antípodas do que Noémia de Sousa poderia defender) e que solicitava uma colaboração sua.

               Noémia escreveu o “Poema ao meu irmão negro”. Assinou-o com as iniciais: N.S. Provocou alvoroço. Quem seria NS? A esta distância este título parece inocente, mas quem atentar para a época não terá dificuldades em sublinhar a coragem inusitada da jovem Noémia de Sousa.

               Cassiano Caldas, funcionário dos CFM, ligado ao projeto Itinerário, onde colaboraram muitos dos poetas que se haveriam de consagrar no período anterior à Independência de Moçambique, deu-lhe a conhecer a revista Vértice. Foi nessa revista que leu, pela primeira vez, Nicolás Guillén, o poeta cubano do Songoro Cosongo. Leu depois muitos livros sobre a vida dos negros americanos em tradução brasileira. Entre a situação do Sul dos EUA e a situação em Moçambique daquele tempo, Noémia conseguia estabelecer similitudes.

               Longe consagrava-se a Negritude, mas Noémia não a conhecia. Foi através da afirmação dos valores dos oprimidos que a poetisa se sentiu perto das ideias defendidas, na época, por pessoas como Leopold Senghor ou Aime Cesaire (de quem veio a traduzir mais tarde o famoso “Discurso sobre o colonialismo”). Mas não os lera, nem outros dos que nela pontificavam. Ela vivia distante na sua Munhuana, lendo sobretudo os escritores neorrealistas portugueses, que lhe chegaram pela mão de Cassiano Caldas.

               Ao tempo que Norton de Matos foi candidato às presidenciais em Portugal, Noémia de Sousa começou a frequentar outros jovens que despontavam para as artes e letras em Moçambique: Ruy Guerra, Ricardo Rangel, entre outros.

               João Mendes, irmão do escritor Orlando Mendes, era um congregador de jovens e utopias, ajudando a mapear uma nova realidade, distante da estratificação racial. Não escrevia, unia. A sua atividade, da qual resultava a junção dos rapazes da Polana, chamemos-lhe aristocrática, à Mafalala empobrecida, valeu-lhe a deportação. João Mendes é um dos homenageados pela poesia de Noémia de Sousa.

               Noémia iniciou a sua colaboração com O Brado Africano quando se procurava terminar o projeto da Associação Africana. Entrincheirados na defesa da causa estavam: Cassiano Caldas, Henrique Dahan, Brassard, Miguel da Mata, Víctor Santos (irmão de Marcelino dos Santos), Nobre de Melo, Amália Ringler, Dolores Lopes, entre outros. Estes angariavam dinheiro para finalizar as obras da Associação. Noémia de Sousa escrevia na “Página Feminina” de O Brado. Publicava poemas.

               N’ O Brado Africano ainda ressoava o nome de um Rui de Noronha, a quem Noémia via passar em frente de sua casa. Nunca falou com ele. Também não conviveu com João Dias, outro dos nomes tutelares da nossa literatura. Contudo, a jovem não se esqueceu dos papéis que ambos desempenharam na fundação da literatura moçambicana, de que é um dos mitos fundadores.

            Naquele tempo não se podia imaginar dispositivos comunicacionais como a televisão. A caixinha mágica não chegara ainda, mas frequentava-se o cinema, sobretudo as matinés, no Scala, no Gil Vicente ou no Varietá. Ouvia-se música em grafonolas. Conspirava-se. Noémia de Sousa cresceu nesse ambiente de reivindicação.

               Poder-se-ia considerar assim uma nota que redigiu para O Brado Africano, referindo-se a um jovem moçambicano que motivava uma forte manifestação de solidariedade na África do Sul por não lhe ter sido concedida a prorrogação do visto de residência temporária pelo Governo de Malan, o que o impediu de prosseguir os estudos na Universidade de Witwatersrand. Esse jovem chamava-se Eduardo Chivambo Mondlane. Conheceu-a depois, regressado a Moçambique, antes de embarcar para Lisboa, onde permaneceu um ano antes de rumar para os Estados Unidos da América.

               Noémia, que participara nas atividades do MUD-Juvenil, que distribuíra panfletos à noite com João Mendes, que escrevera cartas subversivas, que redigira artigos cortados pela censura, que conspirara, não escapou à prisão. O cerco apertava-se. Em 1951 teve de partir, seguindo o extenuante caminho do exílio e deixando atrás de si, na PIDE, o Processo 2756 CI (2).

               Mário de Andrade, quando soube que ela ansiava partir, escreveu-lhe encorajando-a. Desembarca em Lisboa quando a “geração da utopia” (no dizer de Pepetela) sondava as independências. O Centro de Estudos Africanos, do qual fez parte, funcionava na rua do Vale, 37, casa da Tia Andreza, tia de Alda do Espírito Santo, de São Tomé e Príncipe, companheira de jornada.

               Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos, Lúcio Lara, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro eram os nomes mais conhecidos da intelectualidade africana em Portugal. Com eles Noémia de Sousa partilhou as ações que estão na base da fundação dos movimentos de libertação de cada país. Este período precisa de ser melhor cotejado, mas, tanto quanto sabemos, a participação de Noémia não foi episódica. Antes pelo contrário, foi ativa.

               Noémia de Sousa foi companheira de jornada destes nacionalistas. Quando a PIDE cerceou o pouco espaço que tinham de intervenção, os jovens decidiram-se por França, onde aliás Noémia irá buscar refúgio da ditadura, com uma filha às costas – Virgínia Soares (ou melhor, Gina). Saltou a fronteira, galgou os Pirinéus e alcançou a liberdade. Casara-se em 1962 com o poeta Gualter Soares.

               Marcelino dos Santos conseguiu emprego no Consulado de Marrocos em Paris. Entretanto, Lilinho Micaia partiu para outra frente de combate, em Dar-es-Salaam. Vera Micaia (quero eu dizer: Noémia de Sousa) atardou-se por Paris até 1973, ano em que decide regressar a Portugal, para preencher uma vaga na agência Reuter. Não adivinhava que a revolução estava à porta.

            No dia 25 de Junho de 1975 estava na sua casa de Algés na companhia dos legendários futebolistas Eusébio da Silva Ferreira e Hilário da Conceição e respectivas mulheres. Não fora convidada para a Independência. Anos mais tarde, na mesma casa, havia de me confidenciar que tal facto a deixara magoada.

               Trinta e três anos depois da partida, regressa à grande casa deitada à beira mar. Essa “casa” talvez não fosse apenas a casa da Catembe, talvez fosse Moçambique ou mesmo África. Foi um reencontro mediado por lágrimas, tremendamente emocionado. Há um poema onde ela intenta o sonho: “Um dia o sol inundará a vida e será como uma nova infância raiando para todos”. Eram os anos da bicha nos talhos pela madrugada, do carapau de Angola cozido e recozido, da farinha amarela, do repolho feito de todas as formas. Eram os anos da crise, da falta de luz, da falta de água. Foi no tempo em que o desespero se apoderava dos moçambicanos. Era o tempo em que a revolução expulsava os bastardos para o Niassa. Anos 80! Foi quando Noémia visitou a terra. A pátria.

               Noémia de Sousa estava já na condição de um mito, um mito afirmado nos armoriais da literatura moçambicana. Seus poemas tinham sido adoptados para estudos nos compêndios da escola da FRELIMO na luta armada e agora eram lidos nas escolas moçambicanas. Seu legado tinha sido recuperado pelos poetas de outras pátrias como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe.

               Entretanto O Brado Africano, Itinerário, Msaho, Mensagem (em Luanda), Notícia de Bloqueio (no Porto), Moçambique 58, Vértice, entre outras publicações moçambicanas e estrangeiras haviam-na publicado com ênfase.

               Mas também Carolina Noémia Abranches de Sousa, aliás Noémia de Sousa, comparecera nas antologias: Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, em 1953, veja-se a que tempos!, uma antologia organizada por dois saudosos companheiros de jornada literária e de luta cívica: Francisco José Tenreiro (poeta são-tomense de grande quilate) e Mário Pinto de Andrade (o historiador, o intelectual, sobretudo a consciência crítica desta “geração da utopia”, para pilhar uma vez mais a expressão do Pepetela).

               Cinco anos depois da edição deste caderno, que era singularmente dedicado ao poeta cubano de Songoro Cosongo, que vivia exilado em Paris, longe da sua La Habana, onde ainda sobrevivia Fulgêncio Batista, que rapidamente seria expulso por Fidel Castro, “Che” Guevara e outros guerrilheiros que desceram da Sierra Maestra – Nicolás Guillén –, viria a lume Poesia Negra de Expressão Portuguesa, desta feita editada em Paris, para onde fugira exilado o seu organizador – Mário Pinto de Andrade.

               Na altura, Mário de Andrade montara banca na Présence Africaine, importante publicação no contexto da afirmação dos valores dos povos mudos da História. Ano depois, em 1959, a Casa dos Estudantes do Império (CEI), que tinha uma atividade editorial significativa, responsável pela revelação de grandes nomes da literatura africana de língua portuguesa – José Craveirinha lá se havia de estrear em livro com Chigubo em 1964 – faz editar a antologia Poesia em Moçambique (separata da Mensagem), onde Noémia de Sousa não é ignorada.

               A mesma CEI editará em 1960 e 1962 duas antologias intituladas Poesia de Moçambique, ambas prefaciadas por Alfredo Margarido, que estão na origem de uma polémica, uma das mais interessantes da época, desencadeadas por Eugénio Lisboa, que praticava já um juízo crítico cáustico e cauterizante.

               Noémia de Sousa era já um nome afirmado a despeito do facto de ser inédita em livro próprio. Lida e seguida não só em Moçambique, mas em outros países onde uma visão da literatura, como instrumento de confrontação ideológica, tinha lugar.

               Outras antologias importantes que recolhem os seus poemas: Antologia Temática da Poesia Africana – Na noite grávida de punhais, organizada também por Mário Pinto de Andrade. Dez anos depois, em 1985, Manuel Ferreira acolheu-a em No reino de Caliban III, antologia dedicada à poesia de Moçambique. Aliás, convirá dizer, como testemunho para o futuro, que Manuel Ferreira foi dos primeiros a tentar publicar Noémia de Sousa em livro. A poetisa, avessa à publicação, alegou que queria que seus poemas fossem, antes de tudo, primordialmente editados em Moçambique, onde é estudada nas escolas, lida através de textos avulsos que circulam, de mão em mão, fotocopiados, policopiados. A supracitada antologia de Orlando Mandes refere-a. Na Antologia da Nova Poesia Moçambicana, que eu havia de coorganizar com Fátima Mendonça, editada pela AEMO em 1993, coligimos os versos a Samora Machel, feitos a pedido do sobrinho Camilo de Sousa, para um documentário sobre o Presidente.

               Há 15 anos precisamente, quando Noémia completava 60 anos, escrevi Carta a Noémia de Sousa. O texto é incipiente mas foi recolhido num dos manuais escolares do nosso ensino secundário. Foi lido na Rádio Moçambique no dia 20 de setembro de 1986. Mandei-o à “Gazeta de Artes e Letras” da revista Tempo. O coordenador, meu amigo Gilberto Matusse, esqueceu-o na gaveta. Contudo, um ano depois, havia de publicá-lo.

               A primeira vez que aterro em Lisboa, cometo a ousadia de telefonar a Noémia. Levava comigo o seu número de telefone, dado pela Fátima Mendonça. Começa tudo aí, nesse encontro em Algés, festejando a nossa Independência – era Junho! –, comendo feijoada e lendo Carlos Drummond de Andrade. Nos anos que em Portugal, errei como estudante, fui visita constante de Noémia de Sousa. Hoje, quando lá vou, não posso regressar sem a ver.

               Em todos estes anos insisti, como o fizeram muitos, na edição dos seus poemas. Noémia arranjou todos os subterfúgios, mas há alguns anos, depois de ter recusado convites de Manuel Ferreira, Michel Laban, entre outros, ela acedeu publicá-los.

               Houve diversas iniciativas para o fazer através da Associação dos Escritores Moçambicanos, a que estiveram ligados primeiro Rui Nogar e Calane da Silva, depois Leite de Vasconcelos com Fátima Mendonça e Júlio Navarro.

               Não se concretizaram estas iniciativas (tratava-se, sobretudo, de fixar o texto definitivo e obter assentimento da poeta em publicar), mas Noémia reconheceu finalmente que a sua modéstia não deveria constituir impedimento para a publicação do livro – o que para muitos permanecia inexplicável – e confiou-me a grata tarefa de organizar a edição do mesmo.

               Na altura, Rui Knopfli – foi Noémia de Sousa quem mo apresentou, em 1989, tantas vezes confidenciei a minha admiração por ele! – ficou encarregado do prefácio. Knopfli exilou-se definitivamente deste reino sem ter escrito o texto.

               Cinquenta anos depois do abandono da escrita, temos o beneplácito dos deuses e este Sangue Negro é finalmente editado. Noémia de Sousa não o releu, nem o corrigiu, tendo concordado que os poemas permaneceriam na versão (original) policopiada, que se encontra depositada no Arquivo Histórico de Moçambique, devendo apenas ser atualizada a respetiva ortografia.

               As razões que explicam o facto de eu ser quem redige estas notas iniciais são as mesmas que explicam o facto de Fátima Mendonça ser a autora do ensaio que enquadra histórica e literariamente a poetisa e Francisco Noa discorre sobre alguns aspectos desta poesia. Todos nós temos uma relação de superior admiração e grande amizade e afeto com Noémia de Sousa e pertencemos ao parco clube dos que a visitam incansavelmente e nunca desistiram de insistir na edição de sua obra.

               Este livro transcende a condição de uma recolha de poemas. É, antes de tudo, um testemunho da nossa História. Neste volume ecoa uma voz, uma bela voz. Sobre esta voz ressoam outras vozes. Foi desta voz que se incendiaram outras tantas vozes. Talvez por isso qualquer apresentação seja incompetente.

               Costumo dizer que Noémia de Sousa faz parte dos meus antepassados literários. Digo-o com inescondível afeto. Não há, não pode haver, um privilégio maior do que amar esta mulher a quem hoje (re)apresento e de quem tenho o privilégio de chamar “Mãe”. Não só porque ela é, como diz a lenda, a Mãe dos poetas moçambicanos, mas porque entre nós há muito que o afeto e a amizade perderam fronteiras e fundaram verdadeiros laços de família. O que permanece, estou certo, é o espanto sempre que a releio. Regresso incauto ao menino de 15 anos que, suponho, nunca deixarei de o ser.

Maputo, 5 de julho de 2001.

Nelson Saúte

Escritor, editor e curador, foi jornalista e professor universitário. É autor e organizador de obras de literatura moçambicana.

Citar como:

SAÚTE, Nelson. “A mãe dos poetas moçambicanos”. In: SOUSA, Noémia. Sangue negro. São Paulo: Kapulana, 2016 [Vozes da África]

 

 

Moçambique, um lugar para a poesia, por Fátima Mendonça

Posfácio das edições moçambicanas de Sangue negro, de Noémia de Sousa: 2001 (AEMO – Associação dos Escritores Moçambicanos), e 2011 (Ed. Marimbique), revisto pela autora Fátima Mendonça, em agosto de 2016, para a Editora Kapulana.

 

UMA PEDRADA NO CHARCO

            Se retomo neste texto o título do ensaio de Augusto dos Santos Abranches, é porque me parece justo introduzir, neste lugar, a percepção que o mesmo teve do papel que a poesia moçambicana poderia vir a representar, nos finais dos anos quarenta, num pós-guerra marcado por profunda transformação de mentalidades.1[i]

            Com efeito, Augusto dos Santos Abranches poucos anos transcorridos sobre a sua chegada a Moçambique, tomando como modelo a produção literária de Cabo Verde – que já então se autonomizava –, lamentava:

(…) em vez de conhecer e integrar-se nesse assombroso movimento literário que está rompendo no arquipélago de Cabo Verde, criação essa poética até na angústia que as ilhas asfixiam, (…); criação essa poética até na revolta e no subjugamento, Moçambique dorme ou mede as suas divagações pela intensidade do luar da noite” (…). Para Moçambique, (…), o exemplo de Cabo Verde pode e deve ser um estímulo para a criação da sua literatura, um abraço irmão. Pode e deve ser a indução do seu lugar para a poesia.2

            Poucos anos depois desta sua intervenção, Augusto dos Santos Abranches foi ‘surpreendido’ por um poema publicado no jornal O Brado Africano, em Fevereiro de 1949, com o título “Poesia não venhas!”, assinado com as iniciais N. S. Entusiasmado com a ‘descoberta’ refere no jornal Notícias:

Foi pois com uma surpresa e uma alegria desmedidas que topámos no semanário de Lourenço Marques, O Brado Africano, com o poema “Poesia não venhas!” Que N. S. assina. A primeira reacção foi a de estarmos em presença de um plágio. Para isso, o ritmo do poema nos convidava. Mas a nossa lembrança, por mais esforçada que fosse, não conseguia encontrar nos seus esconderijos, que Freud classificou, nada que elucidasse onde e por quem poderia ter sido escrito o poema. Cremos pois que N. S. é e o seu autor (…) Autor ou autora, esclareça-se.3

            Embora a própria Noémia de Sousa tenha valorizado este episódio, há poucos anos, em entrevista a Nelson Saúte4, afirmando que “se não tivesse surgido um Augusto dos Santos Abranches a chamar a atenção para o meu nome talvez permanecesse desconhecida até hoje”, penso que o fenómeno que constituiu – e constitui ainda hoje – a recepção de meia centena de poemas, dispersos pelas páginas de O Brado Africano – coligidos numa brochura mimeografada, distribuída por amigos – só pode ser explicado por causas mais profundas.

            Como Rui Knopfli acentua, em evocação que faz desse período, o marasmo a que estava votada a produção literária, nos finais da década de 40, tornava já inaudível o eco de Rui de Noronha e, as manifestações literárias que se lhe seguem, constituíam apenas “o prolongamento, quase sempre anémico, de estilos e hábitos metropolitanos, ainda quando incidem sobre a realidade circundante pois raramente excedem o relato externo e superficial de um exotismo de fachada. É a época dos batuques sensuais, dos poentes cor de fogo e das palmeiras esguias e ondulantes;”5

            A opinião de Rui Knopfli poder-se-á aplicar a autores como Caetano Campos, cujo livro de poemas Nyaka (húmus), (1942), revela tendências próximas da poesia negrista, exploradas mais tarde pelo luso-tropicalismo, assim como a muita da poesia dispersa pela imprensa da época e, que de alguma forma, esgotavam a dinâmica literária protagonizada pela geração de letrados, que emergira de O Africano e de O Brado Africano, nas décadas de vinte e trinta, de que João Albasini e Rui de Noronha – entre outros – são representantes.

            A poesia de Noémia de Sousa, que aliás já se iniciara em 19486, indiciava pois uma nova atitude estética que, como a maior parte dos movimentos e correntes literárias, não pode ser dissociada de razões de ordem histórica. Entre muitas razões prováveis parece-me importante salientar o clima provocado pelas alterações históricas determinadas pelo final da segunda guerra mundial, a que se juntaram condições políticas específicas, provocadas pela candidatura de Norton de Matos (opositor de Salazar) à presidência da República em Portugal, em 1948. A própria Noémia de Sousa, foi participante ativa, com João Mendes e Ricardo Rangel, no movimento cívico e político que, aproveitando a ‘abertura’ política que antecedeu as eleições de 1949, criou em Moçambique uma extensão do MUD, (movimento unitário com ligações, hoje reconhecidas, com o Partido Comunista Português) o que, logo a seguir – passada a pseudoabertura salazarista – provocou a sua prisão e a deportação de João Mendes e de outros membros da organização7. O sentimento de resistência ao colonialismo, já presente noutros sectores da sociedade colonizada, estava pois a alargar-se a grupos provenientes da pequena burguesia urbana africana e europeia. Este sentimento transita para as formas literárias, assumindo contornos ideológicos, que projetam a rejeição do carácter colonial do contato com Portugal.

            Alguma desta literatura emergente, deixa perceber a sedução pela ideia de uma síntese futura entre duas visões do mundo, duas formas de expressão: a africana e a europeia. Pode-se dizer que esta foi a proposta – embora ténue – de Orlando Mendes em Trajectórias (1940), Cinco poesias do mar Índico [conjunto de poemas publicados na Seara Nova em 1947] e Clima (1959) assim como de João da Fonseca Amaral e de Rui Knopfli na sua primeira fase. É o próprio Rui Knopfli quem recorda que Orlando Mendes, constituiria “a linha de cota que rompia e nos separava do soneto de importação e do verniz de um folclore postiço”, destacando igualmente o papel de João da Fonseca Amaral que, “um pé colocado na Polana aristocrática, outro mergulhado nas areias suburbanas do AIto-Maé” teve uma ação de elemento dinamizador e aglutinante da geração intelectual que amadureceria ao longo da década de cinquenta, sob a dupla influência de correntes estéticas modernistas e das ideologias pan-africanistas.8

            Com Noémia de Sousa, está-se perante uma poesia de onde emerge uma temática nova, associada a um discurso torrencial e emotivo, – uma “poética da voz”, como refere Ana Mafalda Leite9 – orientada para a afirmação negritudinista, o que em Moçambique, na época, assumia carácter inovador. Com a parte dos poemas de José Craveirinha, que dão continuidade e reelaboram esta orientação temática, estes poemas constituem hoje uma irrecusável referência para a história literária de Moçambique.

            No seu conjunto, a produção poética da década de cinquenta, adquire a forma de projeto de criação de um espaço literário próprio. Os jornais Itinerário, O Brado Africano e a iniciativa [sem continuidade] de Msaho vão constituir o suporte material desta ação, que adquiriu o aspecto de movimento político e cultural.

            Poder-se-á assim explicar a emergência de um grupo, com afinidades estéticas éticas, cuja ação se desenvolveria nesses finais de quarenta e início de cinquenta e a que estiveram ligados, de uma forma ou de outra, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Rui Nogar, o próprio Rui Knopfli, o pintor António Bronze e o hoje cineasta Rui Guerra, celebrizado pelo “cinema novo” brasileiro.

            Mas a riqueza deste período da história literária de Moçambique, reside no facto – de em simultâneo com esta, terem emergido igualmente outras tendências, a configurar outros grupos, que também procuravam formas de afirmação estética. Julgo ser importante destacar aqui a o núcleo surgido em torno de Reinaldo Ferreira, Cordeiro de Brito e Fernando Ferreira e da sua atividade de tertúlia, desenvolvida no café Scala. Do mesmo modo, a aproximação ao surrealismo, iniciada por Duarte Galvão/Virgílio de Lemos – ainda não suficientemente valorizada pelos estudos realizados – permite avaliar o carácter de abertura e de modernidade da produção poética desta época10. Creio que a iniciativa de Mshao levada a cabo por Virgílio de Lemos (editor com Domingos de Azevedo e Reinaldo Ferreira), Antero Machado (diretor artístico) e Eugénio de Lemos (secretário), representou, ao fim e ao cabo, uma forma de aglutinar tendências diversificadas naquilo que designaríamos hoje como a comunidade imaginada (incluindo a representação da literatura oral e de outras formas de arte). Não admira portanto, que, no primeiro (e único) número de Msaho, o maior destaque tenha sido para “Poema da infância distante” de Noémia de Sousa, porquanto este se adequava tematicamente à configuração utópica da proposta de Msaho, contida na nota de abertura:

contra todas as previsões e contra toda a expectativa temos neste momento a consciência de que a poética de “Msaho” não constitui uma corrente distinta diferenciada com raízes vincadamente moçambicanas (…) mas o que nesta primeira folha revela ainda desencontro estético, formal ou expressivo numa segunda folha poderá tornar-se homogéneo e vir a definir uma força resultante do contacto com elementos nativos, que hoje ainda formam uma massa disforme dependente e incolor.11

            Este fenómeno de identificação produziu-se igualmente a partir da Cabo-Verde, S. Tomé e Angola, onde toda uma geração de intelectuais surge na cena cultural e política de tal forma que, ao mesmo tempo que acolhia tendências estéticas oriundas dos vários modernismos, se enquadrava ideologicamente em formas de problematização, ou de contestação do sistema colonial e dos seus epistemas, orientadas para projeções identitárias.

 

DO ALHEIO AO PRÓPRIO: CONSTRUIR A TRADIÇÃO

            Vários estudiosos da literatura moçambicana têm chamada a atenção para o carácter de modernidade das manifestações literárias ocorridas em Moçambique após 1945.12

            Contudo, na maior parte dos casos, as convergências com movimentos literários contemporâneos, foram percebidas como meras influências sem que, de um ponto de vista comparatista, se atentasse nas formas como, sucessivamente, movimentos como a Negritude, Modernismo Brasileiro, Presença ou Neorrealismo, foram sendo recebidos e transformados pelos autores moçambicanos.

            Parece-me que, os níveis de recepção das teorias que enformaram estes movimentos, foram variados e será necessário delimitar e caracterizar o quadro histórico, social e cultural de recepção das ideias estéticas e éticas por eles veiculadas.

            Isso permitirá mostrar a convergência, na literatura moçambicana, de elementos estéticos que, nas literaturas de referência se revelaram incompatíveis, como, por exemplo, a integração simultânea de processos oriundos da estética presencista e neorrealista ou negritudinista, em contextos ideológicos marcados pelos nacionalismos africanos, alimentados por concepções marxistas.

            A poesia de Noémia de Sousa, diferentemente da de Rui de Noronha, cujo papel predominante foi o de referência fundadora, (tenha-se em vista a recepção da poesia de Noronha, desde a sua morte em 1943), vai constituir modelo e apresentar reiterações futuras, intertextualmente formuladas sob a forma de referências diretas, alusões ou apropriações temáticas, imagísticas e retóricas. Contudo, desenha-se já o que os aproxima, a ocupação de um espaço duplo: o da tradição literária portuguesa e aquele que é instituído pela sua própria ‘performance’. Como é que esta dupla herança se articula de modo a que os textos se possam assemelhar aos dos seus antecedentes portugueses, mas sejam diferentemente “negros”, para retomar a expressão de Pires Laranjeira13 ou pelo menos “não portugueses”? (isto é, Outros).

            Ocorre-me recorrer a Henry Louis Gates Jr., quando reflete sobre a problemática geral da alteridade do texto “negro”:

Canonical Western texts are to be digested rather than regurgited, but digested along canonical black formal and vernacular texts. The result, in work such as that by Aimé Césaire, Ralph Ellison and Soyinka, is a literature ‘like’ its French or Spanish, American or English antecedents, yet differently ‘black’.14

            Para melhor explorar esta questão gostaria de chamar a atenção para um elemento que, sendo comum a outros poetas moçambicanos, produz na poesia de Noémia de Sousa, um efeito que me parece ter sido decisivo, para o papel de modelo que veio a assumir nos diferentes níveis de recepção que obteve. 

            Trata-se da forma como, através de varias estratégias intertextuais, historiciza os textos encaminhando-os para a expectativa que rodeia um certo espaço (África) e um certo tempo ideológico (a emergência dos nacionalismos africanos).

            Se tomarmos como exemplo o Poema a Rui de Noronha, poder-se-ão verificar analogias com dois poemas do poeta neorrealista português Joaquim Namorado, intitulados “Navegação à vela” e “Manifesto”15.

            Para mostrar o trabalho intertextual realizado por Noémia de Sousa, reterei uma das características da poesia de Joaquim Namorado desta fase, assinaladas por Carlos Reis (447- 456)16 i.e. o carácter fortemente injuntivo e emocional da enunciação o que, em sua opinião, não permite a eficácia ideológica anunciada pelo programa neorrealista. Essa característica está efetivamente presente em “Navegação” à vela:

 

Vai

pelos caminhos seguros

nos vapores das companhias

com a certeza de aportar…

deixa

que eu continue sendo

o último tripulante

da fragata naufragada

neste mar dos tubarões16

 

            Ora Noémia de Sousa utiliza no seu “Poema a Rui de Noronha” a estrutura vai (tu) vs deixa (eu) e a oposição semântica implícita do poema “Navegação” à vela, mas amplificando as potencialidades nela contidas, e que Joaquim Namorado limitou, como bem refere Carlos Reis (454)16, à construção da imagem abstrata do poeta arauto – deixa que eu continue sendo o ultimo tripulante. O resultado no poema de Noémia de Sousa (…) Mas o archote, murcho e fraco/que tuas mãos diáfanas mal logravam suster/deixa que nós o levemos! é produzido pela amplificação sistemática dessa oposição em que a imagem do poeta arauto de Joaquim Namorado se transforma, no texto de Noémia de Sousa, em força coletiva (Nós), descrita e nomeada (África/nação) nossa terra natal/nossa África/nossas brônzeas, fortes mãos/revolta nascida nas veias entumecidas/

            Do mesmo modo a sequência metafórica próxima da alegoria – “o último tripulante/fragata naufragada/mar de tubarões” – é transformada numa cadeia de metáforas a partir dos lexemas archote-fogueiras-chama-lume-chama que se articulam com a representação do sujeito brônzeas, fortes mãos – revolta – peitos esmagados, criando um efeito referencial ausente do poema de Joaquim Namorado.

            Também a construção do alocutário é amplificada pela apropriação e transposição de elementos representativos da estética neorrealista, isto é pela oposição entre contemplação e ação, presentes no poema “Manifesto”:

 

Deixa os suspiros profundos

e parte a guitarra mágica que te deixou D. Juan…

deixa-me esse ar de sombra de trapista!

Vem para a rua, para o sol, para a chuva!

Ama sem literatura, como um homem!

Deixa dormir os papiros

na meditação das múmias faraónicas.

– A vida é a única lição.18

 

            O resultado é, em Joaquim Namorado, a identificação militante com uma realidade abstrata, daí advindo, creio, a falta de eficácia referida por Carlos Reis, enquanto no poema de Noémia de Sousa se constrói um modelo mais concreto e humanizado Rui de Noronha/meu irmão/sangrando de amores/.

            Esta característica historicizante da poesia de Noémia de Sousa (e eu diria mesmo, de grande parte da poesia moçambicana) é referida por Pires Laranjeira, no bem documentado estudo sobre a negritude africana de língua portuguesa, nestes termos:

O discurso do negro é pois, injuntivamente mais preciso, descritivo e ideológico que o do Neo-realismo português, em condições de publicação e divulgação tanto ou mais agrestes, mas sem abandonar uma estratégia discursiva de cariz estético tradicional, modelada pela pressão dos circunstancialismos conhecidos.19

            Ao amplificar as potencialidades do hipotexto (neorrealista) Noémia de Sousa introduz no novo texto (moçambicano) uma forte historicidade, religando-o a um espaço particularizado (Moçambique) e a um tempo concreto (o das explosões nacionalistas africanas):

 

“nossas almas passivas aprendem a querer/com força, com raiva/e se erguem guerreiras, para a dura luta/” “Que fizeste de África, poeta?” O poema marca a História e faz-se sua representação.20

 

EM HARLÉM, NO CORAÇÃO DA MAFALALA: TRANSFORMAR O MUNDO

            Em Moçambique, assim como em Angola, a estética da Negritude teve repercussões, embora a poesia marcada por alguns dos seus códigos discursivos ultrapasse os códigos ideológicos, temáticos e estéticos característicos do Movimento, tal como se manifestaram, quer na poesia da Renascença Negra, quer na poesia da Negritude de Paris, e se aproxime de gestos literários próximos de outros movimentos modernos, nomeadamente o Neorrealismo português e o Modernismo brasileiro.

            Surgida com alguns anos de atraso, relativamente ao Movimento nas suas manifestações americanas ou parisienses, por razões históricas compreensíveis, coube às gerações dos anos cinquenta de Angola e Moçambique, desenvolver o que, na poesia do poeta são tomense Francisco José Tenreiro, se pressentia: uma corrente estético-literária sintonizada com as tendências de ruptura que orientaram os vários modernismos, tendo chegado, nalguns casos, a excedê-los.

            Ultrapassando a representação essencialista da identidade negra, tão cara a Senghor, esta poesia acaba por integrar elementos ideológicos que lhe permitiram funcionar simultaneamente como Manifesto estético e Manifesto político.

            A poesia de Noémia de Sousa é, deste ponto de vista, paradigmática pois orienta-se para uma temática marcadamente nova (no contexto moçambicano) onde recorrentemente emerge África desdobrada em vários símbolos (Mãe, Energia, Redenção) do mesmo modo que os ecos longínquos e distantes de Harlém nela perpassam, como acontece no poema “A Billie Holiday, cantora”: “(…) e então/tua voz minha irmã americana/veio do ar, do nada, nascida da própria escuridão/estranha, profunda, quente/vazada em escravidão (…)”

            Essa inovação temática desenvolve-se para uma insistente representação do quotidiano suburbano: o contratado, o estivador, o mineiro, a prostituta interligam-se emblematicamente num universo imagístico sustentado pela imprecação violenta de um Eu que, sucessivas mutações metonímicas, conduzem à integração no coletivo, como acontece em “Patrão”:

 

(…)

pergunta à tua casa quem fez cada bloco seu

quem subiu aos andaimes,

quem agora limpa e a põe tão bonita (…)

(…) E o suor é meu

a dor é minha

o sacrifício é meu

a terra é minha

e meu é também o céu (…)

 

            Estas características de poesia de Noémia de Sousa, a que muitas vezes se vem juntar um registo injuntivo, fazem dela uma escrita fixada na ação, em que o projeto de empenhamento é constantemente assumido. Para tal, contribui também a oposição insistente Eu-Nós vs Tu, Eu/Nós vs Vós, onde o estatuto de ‘superioridade’ do Eu/Nós se manifesta, sobrecarregado de uma emocionalidade que nos recorda (sempre) gestos literários do neorrealismo, concentrando, por isso, no texto uma força utópica que marca de maneira particular a sua poesia.

            É por esta via que os poemas de Noémia de Sousa introduzem na poesia moçambicana um discurso simultaneamente lírico (no sentido que lhe atribui Paul Valéry de “desenvolvimento de uma exclamação”) e épico, o que vai determinar o seu papel de vanguarda estética e justificar mais tarde a sua inclusão no discurso nacionalista africano moderno.

            Na verdade creio ser este aspecto que explica o facto de, embora disseminados e não publicados em livro (ainda que a brochura mimeografada tenha circulado o que, em si, também é significativo) a poesia de Noémia de Sousa se tenha insinuado, como referência, no campo literário, configurado pela relação poesia/ação, instituída pela série ideológica. Com efeito, podemos verificar que Noémia de Sousa figura em praticamente todas as antologias de poesia africana de língua portuguesa, desde os anos cinquenta ou em traduções, vinda a lume – fora do espaço colonial –, antes da independência de Moçambique as quais, de forma direta ou indireta, projetavam elementos ideológicos da esfera dos nacionalismos africanos. Do mesmo modo, se, percorrermos páginas/cadernos ou revistas literárias mais recentes, dentro e fora de Moçambique, encontraremos esses fios de memória a percorrer novos textos (poéticos ou não), ancorados na necessidade de dar expressão a variadas emoções.

            Parafraseando Alberto de Lacerda,21 uma outra figura da ‘República das Letras’ [moçambicanas/portuguesas?], contemporâneo de Noémia de Sousa, “o poema além do prazer que dá (…) revela mais profundamente o homem e a vida, obriga-o a viajar, e de uma viagem volta-se sempre diferente”, diria que há meio século estes poemas (finalmente reunidos) proporcionam a diversas camadas de leitores e de leitoras esse prazer ou essa viagem. Os regressos e as diferenças, que se operaram em cada leitura, estão indelevelmente inscritos nas formas como a partir delas – leituras –, se interrogam e des(constroem) representações, singulares ou coletivas da(s) realidade(s). E isso, estou convencida, (se afinal ela não chegou ao fim, como se anunciou) só a História poderá responder ou confirmar.

Maputo, setembro de 2001.

Fátima Mendonça
Professora aposentada da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Investigadora integrada do CLEPUL (Centro de Culturas e Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa), autora de diversos ensaios sobre literaturas africanas e literatura moçambicana

 

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Notas e referências bibliográficas

1 Augusto dos Santos Abranches deixou o seu nome ligado à geração coimbrã do neorrealismo. Dirigiu em Coimbra a Livraria Portugália (que funcionou igualmente como editora) a qual se tornou, nos finais da década de 30, um espaço de convivência de escritores como Fernando Namora, João José Cochofel, Joaquim Namorado. E provável que tenha também tido atividade nos movimentos realistas Presença e Vértice. Por volta de 1943 ou 1944 veio para Moçambique, tendo-se empregado na Livraria Minerva Central de Lourenço Marques. Ainda em 1944 cria Sulco “Página de Artes e Letras do Notícias de Domingo para Gente Moça” de que saíram 16 números (2/7/44 a 4/3/45). Passou a orientar a revista Itinerário (1945/1955), na sua ultima fase, tendo também dirigido o semanário Agora (1948) mandado suprimir por ordem do governador-geral. É a Augusto dos Santos Abranches que se deve a divulgação em Moçambique de autores portugueses, brasileiros, cabo-verdianos e angolanos, cuja escrita se deixa impregnar pelas tendências modernistas. Foi um ativo dinamizador da atividade literária da geração que emergiu do pós-guerra em Moçambique papel que Rui Knopfli assinala em crónica publicada depois do seu falecimento no jornal A Voz de Moçambique (25/5/63). Partiu para o Brasil em 1956 tendo falecido em São Paulo em 1963. Deixou publicados dois livros de poemas (Poemas de hoje, 1942) (Tufão, 1943) e uma peça de teatro (As várias faces, 1943) para além de uma assinalável produção ensaística dispersa na imprensa moçambicana, cujo estudo será um contributo para a história literária de Moçambique. Cf. Boletim Informativo BI 2a serie n° 9. Maputo: Serviços Culturais-Embaixada de Portugal, 1996.

2 Augusto dos Santos Abranches – “Moçambique lugar para a poesia” In Teses apresentadas ao I Congresso realizado de 8 a 13 de Setembro de 1947. Lourenço Marques, Sociedade de estudos da Colónia de Moçambique, [1947] Cf. Boletim Informativo BI 2a serie n° 9. Maputo: Serviços Culturais-Embaixada de Portugal, 1996, p. 29-31.

3 Citado em Boletim Informativo BI 2a serie n° 9. Maputo: Serviços Culturais-Embaixada de Portugal, 1996 p.18.

4 Nelson Saúte. Os habitantes da memória. Lisboa:

5 Rui Knopfli – “Breve relance sobre a actividade literária”. Facho, nº 30, (Lourenço Marques): Ed. Sonap, Set/Out, 1974.

6 Canção fraterna foi o primeiro poema que Noémia de Sousa publicou. As circunstâncias da sua publicação são relatadas pela autora em entrevista a Michel Laban. Cf. Michel Laban Moçambique encontro com escritores. Vol I. Porto: Fundação Eng. Antônio de Almeida, 1998, p. 236-346.

7 Em 1985, tive o privilégio de participar, com outros colegas da UEM, num Seminário intitulado Ideologias da Libertação Nacional dirigido por Mário Pinto de Andrade em Maputo. Nessa altura, fui alertada por Mário de Andrade para a existência de uma nota do Governo Geral de Moçambique em que o nome de Noémia de Sousa aparece associado aos de Ricardo Rangel, João Mendes e Rui Guedes como fazendo parte de uma “Comissão Central” que pretenderia criar uma “Organização Comunista Moçambicana”. Quando a pude questionar diretamente, sobre este assunto, Noémia de Sousa deu-me a indicação, creio que por modéstia, de que Cassiano Caldas (que eu conhecia, através de Mário Barradas desde os finais dos anos 60) me poderia esclarecer melhor sobre todo este período. Gravei então uma longa entrevista com Cassiano Caldas em Maputo, que me forneceu detalhes importantes sobre a sua passagem pelo itinerário, a constituição do MUD em Moçambique, em que participara, das relações com o PCP, assim como do papel que Noémia desempenhara nessa altura. Mais tarde, forneci estas informações ao meu colega Pires Laranjeira que as recenseou em Literaturas africanas de expressão portuguesa, Lisboa: Universidade Aberta 1995, p. 260. Em 1999 Dalila Cabrita Mateus publica A luta pela independência. A formação das elites fundadores da FRELIMO, MPLA e PAIGC, [Lisboa: Ed. Inquérito]. Trata-se de uma tese de mestrado circunstanciada que, para além de confirmar os dados de Mário de Andrade e Cassiano Caldas, reconstrói, a partir dos ficheiros da PIDE, a trajetória política, [aparente e injustificadamente esquecida] de Noémia de Sousa, com continuidade em Lisboa, assim como a de alguns dos protagonistas desse movimento, nomeadamente João Mendes [que reaparece na vida política e social de Moçambique, depois de 1975] e Sofia Pomba Guerra que vai reaparecer na Guiné-Bissau com ligações ao PAIGC.

8 Rui Knopfli. Op. cit. A poesia de Fonseca Amaral foi reunida e publicada postumamente. Cf. Poemas por João Fonseca Amaral. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999.

9 Ana Mafalda Leite. Voz, origem, corpo, narração – poesia de Noémia de Sousa In: Oralidades e escritas nas literaturas africanas. Lisboa: Ed. Colibri, 1998, p. 99-110.

10 Foi feita recentemente uma primeira sistematização da poesia de Virgílio de Lemos por Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Seco. Cf. Virgilio de Lemos & heterónimos. Eroticus Moçambicanus – Breve antologia da poesia escrita em Moçambique, (1944-1963). Rio de Janeiro: Nova Fronteira – UFRJ, 1999.

11 Msaho. Folha de poesia. (1) Lourenço Marques, 25/10/952. A nota de abertura com o título apresento é assinada por Virgílio de Lemos, principal dinamizador do projeto. Os desenhos do pintor João Ayres e a apresentação gráfica denotam as preocupações modernistas subjacentes a Msaho. Não deixa de ser interessante verificar que, 35 anos mais tarde, num contexto histórico e político completamente diferente, a mesma necessidade se manifesta com os cadernos literários Xiphefo, iniciativa de um grupo de professores/poetas de Inhambane, que se mantém desde 1987.

12 Cf. Mário de Andrade – Prefácio a Cadernos de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Lisboa: CEI, 1953; Manuel Ferreira – Literaturas africanas de expressão portuguesa. (2 vol.) Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1977. No reino de Caliban lll. Lisboa: Plátano, 1985; Alfredo Margarido Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: A Regra do Jogo, 1980; Fernando J.B. Martinho – O negro norte-americano como modelo na busca de identidade para os poetas de África de língua portuguesa. In: Les litteratures Africaines de langue portugaise – À Ia recherche de l’identité individuelle et nationale. Actes du colloque international. Paris: Fondation Calouste Gulbenkian, Centre Culturel Portugais, 1985, p. 523-530; Gilberto Matusse – A representação literária da identidade moçambicana: Craveirinha. Scripta, 2° semestre, 1997, vol 1, nº 1, (PUC Minas), p. 15-195; Orlando Mendes – Sobre literatura moçambicana. Maputo: INLD, 1978; Fátima Mendonca – Literatura moçambicana – a história e as escritas. Maputo: Faculdade de Letras e Núcleo Editorial da Universidade Eduardo Mondlane, 1988; Francisco Noa – Literatura moçambicana: Memória e conflito. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, 1997. Manoel de Souza e Silva – Do alheio ao próprio a poesia em Moçambique. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

13 Cf. Pires Laranjeira – A Negritude Africana de Língua Portuguesa. Porto: Afrontamento, 1995.

14 O termo ‘black’ é utilizado por Gates e por outros críticos afro-americanos, tendo como referência o contexto histórico dos Estados Unidos e a atual problemática do multiculturalismo e das minorias. As identidades ‘black’, ‘chicana’, ‘chinese american’ ou ‘native american’ representam, na óptica destes autores uma construção cultural – portanto histórica – extensiva a outras categorias sociais minoritárias como género ou orientação sexual. A sua aplicação ao caso moçambicano não é, por isso, pacífica, valendo apenas como homólogo de uma alteridade manifesta. Cf. Henry Louis Gates -. In: Black literature and literary theory. New York: Methuen, 194, p. 1-24.

15 Joaquim Namorado. Incomodidade. Atlântida: Coimbra, 1945. O poéma Manifesto foi publicado [por Noémia de Sousa?] no jornal O Brado Africano em 3/2/51 p.3.

16 Carlos Reis – O discurso Ideológico do Neo-Realismo Português Coimbra: Livraria Almedina, 1983.

17 Op. cit. p. 40.

18 Op. cit. p. 59-60.

19 Pires Laranjeira. Op. cit. p. 486.

20 Esta questão foi tratada por mim num estudo mais desenvolvido intitulado A literatura moçambicana em questão, cuja primeira versão foi publicada na revista Discursos, Fev. 1995, n° 9, [Coimbra: Universidade Aberta] p. 37-54. Uma versão posterior foi publicada em Taíra, Revue du Centre de Recherche d’Etudes Lusophones et Intertropicales. 1997, n° 9, CRELIT, [Université Stendhal-Grenoble 3].

21 Cit. por Fernando J.B. Martinho – Tendências dominantes da poesia portuguesa da década de 50. Lisboa: Colibri, 1996, p. 108. O autor cita o ensaio de Alberto Lacerda intitulado Lugar para a poesia publicado no fascículo 1 de Távola Redonda, em Janeiro de 1950.

 Citar como:

MENDONÇA, Fátima.  “Moçambique, lugar para a poesia”. Posfácio in: SOUSA, Noémia. Sangue negro. Ilustrações de Mariana Fujisawa. São Paulo: Kapulana, 2016. [Vozes da África].