Artigos

A oficina de Nazir Ahmed Can em “campos, espaços” da escrita moçambicana, por Rita Chaves

Seis anos após o lançamento, em Moçambique, de Discurso e poder nos romances de João Paulo Borges Coelho, o primeiro trabalho exaustivo sobre o ficcionista moçambicano que acaba de ser publicado pela Kapulana, Nazir Ahmed Can entrega ao leitor brasileiro O campo literário moçambicano: tradução do espaço e formas de insílio. Durante esse período, a capacidade analítica de seu autor materializou-se em livros coletivos e em algumas das melhores revistas acadêmicas do Brasil e não só, revelando um leitor profundamente interessado na literatura do continente africano. Foi também esse o tempo que do território moçambicano, solo inicial de suas pesquisas, ampliou seu olhar arguto e sensível na direção de países como Angola e Cabo Verde, incorporando ainda espaços pouco palmilhados ...
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O pó e a fissura, os muros e a sombra… Quantos tempos cabem na rua?, por Nazir A. Can

Publicado pela primeira vez em 2006, mais de três décadas depois da independência moçambicana, Crônica da Rua 513.2 reconstrói esse período com a distância suficiente para se demarcar da justificada euforia e incidir na contradição que qualquer temporalidade transitória abriga. Sem apresentar um herói, que iria contra o tom antiépico deste romance, e ambientado em Maputo, cenário raramente percorrido pela prosa moçambicana, João Paulo Borges Coelho avalia o modo como uma rua (simples e complexa) vive o tempo (belo e conturbado) da passeata revolucionária. O título, de resto, sintetiza o programa da obra: aliar o pequeno espaço (da rua) ao imenso tempo perdido (da crônica). Também no “Prólogo: sobre os nomes e a rua” é possível notar o relevo dado ...
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[Sobre] Condições Nervosas, de Tsitsi Dangarembga – por Rutendo Tavengerwei

Condições nervosas, de Tsitsi Dangarembga, é incrível. A história se passa na Rodésia (hoje Zimbábue) na década de 1960, antes de o país conquistar a independência, e é narrada por Tambu, sedenta por uma educação que não lhe foi oferecida porque sua família é pobre e acha mais importante que seu irmão vá para a escola. No entanto, ela tem a oportunidade de estudar após a morte do irmão, e Dangarembga nos conduz pela progressão da vida de Tambu, por sua mudança da área rural, onde sempre viveu com os pais, para a escola missionária onde o tio é diretor. A história incorpora as realidades de várias mulheres da vida de Tambu: a mãe e a tia, que apresentam as ...
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A pena da Abolição, por Laurentino Gomes [sobre José do Patrocínio, a pena da Abolição, de Tom Farias]

José do Patrocínio, a pena da Abolição, de Tom Farias, é mais do que uma boa biografia de um dos maiores abolicionistas brasileiros. É também o relato minucioso, bem documentado e bem escrito de um dos momentos cruciais da história do Brasil. O movimento que levou à libertação dos escravos pela Lei Áurea em Treze de Maio de 1888, e que teve em José do Patrocínio um de seus protagonistas, foi a nossa primeira campanha genuinamente popular e de dimensões nacionais. Envolveu todas as regiões e classes sociais, carregou multidões a comícios e manifestações públicas, dominou as páginas dos jornais e os debates no parlamento e mudou de forma dramática as relações políticas e sociais que até então vigoravam no ...
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Velho mundo, mundo novo, por Ana Paula Tavares [sobre O quase fim do mundo, de Pepetela]

Calpe pode ser tudo menos a cidade feliz e os seus centros e margens estreitam-se quando a terra se rompe e o desaparecimento sucessivo da vida (homens, mulheres, insetos e outros bichos) acontece sem que uma razão clara (peste, guerra, furacão) tudo justifique. Ao contrário de um anjo carregado de futuro aqui sobrevivem indivíduos e uma imensa solidão incapaz de suportar todo o peso do mundo para descobrir e resolver. Os que sobrevivem procuram razões para todos os acontecimentos e ainda formas de resolver os estilhaços da vida que sobrou de um imenso passado por conhecer. A dimensão da violência perturba a observação e o quotidiano dos dias e das noites que o silêncio prolonga e acentua. Com uma linguagem ...
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O criado, o criador e outras criaturas: notas sobre As visitas do Dr. Valdez e a escrita de João Paulo Borges Coelho, por Nazir A. Can

As visitas do Dr. Valdez integra-se em um projeto literário que se apresenta, hoje, como um dos mais desafiadores dos contextos de língua portuguesa. Desde 2003, ano de sua estreia como ficcionista, com As duas sombras do rio, João Paulo Borges Coelho publicou sete romances, dois volumes de contos e três novelas. A este registro vertiginoso, que não dispensa o rigor e a experimentação estética, juntam-se três livros de histórias em quadrinhos, lançados em Maputo no início dos anos 80, e algumas narrativas curtas espalhadas em edições de natureza diversa. Embora também seja um reconhecido historiador, João Paulo Borges Coelho evita em seu trabalho artístico o caminho da restituição didática do passado. Apoiado em estratégias como a metonímia, a metáfora ...
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Mulheres, violência e reconciliação em Aldino Muianga (sobre o romance Asas Quebradas), por Ana Braun

Asas quebradas, romance do ficcionista moçambicano Aldino Muianga, é um livro sobre mulheres, violência e reconciliação. Estruturado a partir da perspectiva de duas moçambicanas, Macisse e Celinha, o romance narra a história de mãe e filha separadas por um episódio de brutalidade que resultará em conflitos das mais diversas ordens, em particular configurando uma ausência geradora de angústia pelo desconhecimento do próprio passado. A representação da violência é uma das marcas da produção literária moçambicana. Tendo surgido em grande parte como resposta à barbárie que significou a implantação e o estabelecimento do sistema colonial, a literatura de autores já tidos como canônicos, como Luís Bernardo Honwana, José Craveirinha, Noémia de Sousa, entre outros, se mostrava comprometida em retratar pelo viés ...
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Nós, os do Makulusu: do fundo humano em cada caco, por Jacqueline Kaczorowski

Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sangüínea?
(“Contemplação no banco”, Carlos Drummond de Andrade) Após anos de ausência das livrarias brasileiras, somos finalmente agraciados com uma nova publicação desta obra-prima: Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira. O magro e denso romance angolano impacta desde a primeira frase e, como pode gerar certo estranhamento, nesta edição [1] são apresentados brevemente alguns elementos da narrativa com o objetivo de incentivar o leitor a caminhar por este labirinto refinado. Aquele que o percorrer perceberá seu esforço recompensado por uma obra que, não se rendendo a qualquer didatismo, aposta ...
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Avisos à navegação, por Carmen Tindó Secco

Os saberes de uma época são formados por teias de representações sociais e culturais, incluindo os discursos literários. São essas malhas de conhecimentos e memórias que a escrita de Ana Paula Tavares revisita e tece com lucidez e poesia. Suas crônicas são curtas, densas e profundamente políticas. A escritora – também exímia poeta – maneja as palavras com labor e arte, construindo sentidos que transformam seu discurso em viagem por dentro do tempo e da linguagem. Viagem que se converte em autoconhecimento, em regresso à própria casa, à terra natal, ao âmago de si e do poético. Ler Ana Paula é penetrar nos labirintos da história, repensando perdas, dores, tradições. É mergulhar no íntimo dos vocábulos que brilham com olhos ...
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Nós, os do Makulusu – a palavra e o outro, por Rita Chaves

De 1967, ano em que José Luandino Vieira escreveu essa extraordinária narrativa até o presente, muitos abalos têm sacudido Angola: o país conquistou sua independência em 1975, os conflitos armados se sucederam, em 2002 um acordo de paz foi assinado, a república tem agora o seu terceiro presidente, o projeto socialista foi abandonado, novos escritores fortaleceram o processo de formação da ficção angolana, outras formas de arte ganharam energia... A natureza e a intensidade de tantas mudanças nos levam certamente a levantar questões sobre a validade de uma nova edição no Brasil desta obra escrita no calor de uma hora tão particular na história do país e não só. Podemos começar por recordar, nesse sentido, que na década de 1960 ...
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Na asa da escrita, por José dos Remédios

Um romancista não terá, forçosamente, que depender do êxito ou fracasso dos seus livros,
terá que continuar, sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir.
Eduardo Paixão “Dazanana de Araújo Simplíssimo vivia uma estranha sensação de que estava morto. Durante muitos anos cultivava em demasia a crença de que a sua vida era a morte” (p. 9). Assim inicia a história de um personagem muito particular, obstinado e comprometido com as dimensões gigantescas do seu sonho: Dazanana, do rhonga, língua falada na capital moçambicana, idiota ou palerma. Pode ser que estes dois significados encaixem no perfil do protagonista de Cemitério dos pássaros, mas apenas se se considerar à sua entrega a um propósito claramente definido: o de construir um cemitério ...
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Martinho, um artesão, por Tom Farias

Martinho da Vila é realmente um sujeito fora do comum. No curso dos seus implacáveis 80 anos, o bamba de Vila Isabel trabalhou como nunca em sua festejada existência. Além de dois CDs e do DVD – este a caminho, gravado no imponente e lotado Theatro Municipal do Rio de Janeiro – que colocou na rua, falo do histórico “Alô Vila Isabeeeel!!!”, que reúne os clássicos sambas da escola do bairro de Noel Rosa, e, mais para o finalzinho do ano, o bem bolado “Bandeira da fé”, uma experiência contagiante, inovadora na vida do músico e compositor, como foi o trabalho que o antecedeu, no caso o antológico “De bem com a vida”, que marcou uma mudança de atitude, única ...
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