Artigos

[Sobre] Um dia vou escrever sobre este lugar, de Binyavanga Wainaina – por Ellen Oléria

imagens feitas de sonhos. palavras que nos conduzem ao mundo dos sonhos. nesta obra autobiográfica de binyavanga wainaina saboreamos a viagem como uma garfada inteligentemente mista num prato colorido, nutritivo, bem montado e saboroso. atravessamos o atlântico mais uma vez e, como nunca antes, pra sentir o calor do sol do quênia aquecendo nossa pele. outras décadas costuradas à essa nossa pela condição humana e pela morosidade de toda gente. em um dia vou escrever sobre esse lugar pregamos e liberamos cada passo numa teia diversa de povos, costumes, idiomas de uma áfrica múltipla em visões e memórias que falam com a verdade da autonomia, da conexão ancestral, da força de laços e rompimentos. violência e solidariedade, governo e tribo ...
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Ualalapi: a narrativa e os ciclos – por Rita Chaves

Publicado pela primeira vez em 1987, Ualalapi permanece mobilizando corações e mentes à volta de debates que, entre outros aspectos, exprimem a dinâmica histórica de Moçambique, um país atravessado por muita instabilidade e uma grande capacidade de resistir. A longa noite colonial, a difícil luta pela independência, os sucessivos conflitos que vêm atravessando décadas e a intensa pobreza que quase inviabiliza a vida de seus habitantes têm como contraface uma notável pluralidade cultural e uma imensa vocação para se reinventar.  Ungulani Ba Ka Khosa, o autor dessa narrativa e muitos outros títulos, inscreve-se nesse contexto, procurando de diversas maneiras balançar qualquer cordão de isolamento erguido para separar as tintas e disciplinar as cores. Sua opção ao longo dos anos tem ...
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As Mulheres do Imperador: Entrelaces de Histórias e Estórias – por Carmen L. Tindó Secco

Ao reunir em um só volume, sob o título Gungunhana: Ualalapi e As mulheres do imperador, dois romances em torno de Ngungunhane, o imperador de Gaza, o escritor Ungulani Ba Ka Khosa propõe uma desconstrução crítica da controvertida figura do imperador, tão contestada pelo colonialismo, quanto louvada pelos que lutaram pela independência de Moçambique. Trinta anos separam a publicação dessas duas narrativas – Ualalapi (1987) e As Mulheres do Imperador (2017) –, o que possibilita um distanciamento capaz de propiciar uma leitura questionadora de dois significativos momentos históricos moçambicanos: o do poder e queda, em 1895, de Ngungunhane – abordados em Ualalapi – e o da história de Moçambique colonial do início do século XX, ficcionalmente narrada pelo romance mais ...
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A degradação da personagem em Gungunhana – por José dos Remédios

O ser humano não morre quando o seu coração deixa de bater.
O ser humano morre quando, de alguma forma, deixa de se sentir importante.
in O vendedor de sonhos, Jayme Monjardim Há 31 anos, Ungulani Ba Ka Khosa estreou-se em livro, num período em que a literatura moçambicana passava, eventualmente, por um dos melhores momentos até aqui. Na década de 80, foi lançado o primeiro concurso literário do país, foi criada a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), e, enfim, foi lançada a primeira revista literária moçambicana pós-independência, a Charrua, de que o nosso escritor é co-fundador. Este foi um momento de ouro, que, inclusive, contribuiu para a afirmação de uma escrita comprometida com a estética, por nela ...
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Pensa Kanema – escritos sobre o cinema moçambicano – por Carmen Lucia Tindó Secco

A palavra kanema – que, na língua macua do norte de Moçambique, quer dizer “imagem”, “cinema” – foi bastante empregada após a independência moçambicana, quando Samora Machel, em 1975, incentivou a criação do Instituto Nacional de Cinema (INC) e promoveu intensa ação cultural por intermédio de unidades móveis que percorriam aldeias, levando ao interior do país o Kuxa Karema, cinejornal, cujo nome significa “o nascimento do cinema". O presidente Samora, conhecedor do poder da imagem, buscou construir a nova nação indepentente, incentivando o cinema em Moçambique. Seu lema era filmar imagens do povo para devolvê-las ao próprio povo. Luís Carlos Patraquim, um dos cineastas moçambicanos que participou das edições do Kuxa Kanema, defende que [...] o cinema moçambicano é parte ...
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[Sobre] O pátio das sombras – por Mia Couto

"Este conto maconde foi a história escolhida por mim como base do conto que intitulei “O Pátio das Sombras” por ser um conto muito sugestivo. Através dele podemos ver que os mortos, quando lembrados, não chegam nunca a morrer. Contudo, pareceu-me que esta história se enquadra na crença generalizada nas sociedades rurais que as mulheres viúvas e velhas se convertem em feiticeiras. É esta a razão que leva a mulher idosa a ser morta, no final da história. Estes valores devem ser questionados hoje e senti ser necessário reconverter esta história alterando o seu desfecho. Do ponto de vista formal, pensei que seria bom criar um clima de mistério e introduzir um núcleo de conflito que se adensaria para, no ...
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Nanquim – As ilustrações de Malangatana em “O pátio das sombras”, de Mia Couto

O Nanquim é uma técnica antiga, que se originou na China, na região da cidade de Nanjing, que já foi a capital chinesa. Essa tinta também foi muito utilizada na Índia, mas ganhou popularidade pelo seu uso no Japão. O nanquim é um material muito usado para a escrita, a pintura e também para o desenho. Documentos de cerca de 2 mil a. C. comprovam que, na China, o nanquim já era utilizado em manuscritos. Geralmente, a tinta era utilizada em papel, pergaminho ou telas de seda, com pincéis e canetas de bambu (o que originou artes tradicionais como a Caligrafia e o Sumiê). Na Europa, o nanquim era utilizado com canetas bico-de-pena, que, no início, eram feitas de penas ...
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Aquarela – Ilustrações de Luís Cardoso em “Leona, a filha do silêncio”, de Marcelo Panguana

Aquarela é uma técnica de pintura criada há cerca de 2000 anos na China. Esta tinta é famosa e inigualável por ser extremamente translúcida. Por trás das pinceladas, o papel branco é revelado e a pintura parece brilhar de dentro para fora, o que permite que a luz seja representada de forma única, diferente de outros materiais. Nas pinturas em aquarela, os pigmentos coloridos são diluídos em água ou suspensos sobre o suporte. As tintas fluem sobre a água de maneira bastante livre, o que pode criar manchas e texturas muito expressivas, sejam ela planejadas ou acidentais. Os papéis de qualidade mais usados são os de fibras de algodão, linho e cascas de árvore, com uma gramatura alta para que ...
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[Sobre] O que acontece quando um homem cai do céu, de Lesley N. Arimah – por Roberta Estrela D’Alva

O povo negro sempre teve suas contadoras de histórias. Lembro-me de Dona Rosa, minha saudosa e enérgica avó, tecendo suas narrativas para uma plateia de netos um tanto atônita, um tanto maravilhada. Boas contadoras de história têm a capacidade de mover nossos sentidos com suas vozes. Foi exatamente assim que me senti ao ouvir Lesley Nneka Arimah. Sim, porque ainda que escrita, é uma voz que se escuta, e que faz com que muitas outras sejam escutadas, e às quais não há como se passar incólume. Vozes negras de um feminino diaspórico, que sempre chegando ou partindo de algo (uma pessoa, uma lembrança, um país, um medo) criam territórios imaginários, emocionais, familiares que nos transportam para o centro da ação ...
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Esperança para voar: um livro envolvente e emocionante – por Luciana Bento

Sabe quando você começa a ler um livro e ele automaticamente transporta você para outro lugar? Esperança para voar é um desses livros. Ele conta a história de duas adolescentes, Shamiso e Tanyaradzwa, que fazem da perda – concreta ou iminente – um caminho para o florescimento de uma amizade e para o amadurecimento pessoal. Shamiso é uma jovem que retorna ao Zimbábue com sua família após crescer no exterior. Seu pai, um famoso jornalista investigativo e contrário ao governo, é morto em circunstâncias suspeitas e ela precisa se adaptar ao novo rumo de sua vida. A ausência do pai, o novo colégio interno e a distância das amigas da Europa... tanta coisa acontecendo! Shamiso sente dificuldades em se adaptar ...
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Literatura colonial: a presença moçambicana – por Rosana M. Weg

“Contudo, apesar da atitude de desconfiança ou de rejeição que gerou, a literatura colonial é um fato consumado.” (NOA, Francisco. Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária. São Paulo: Kapulana, 2015, p. 39.) Francisco Noa, moçambicano, é Doutor em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa, de Portugal. Ensaísta e professor de Literatura Moçambicana na Universidade Eduardo Mondlane (Maputo, Moçambique), é atualmente Reitor da Universidade Lúrio (UniLúrio), também em Moçambique. Estuda colonialidade, nacionalidade e transnacionalidade literária, a literatura como conhecimento e o diálogo intercultural no Oceano Índico, a partir da literatura. É autor de artigos e livros de análise e crítica literária[i]. Dentre eles, Império, mito e miopia: Moçambique como invenção literária, livro que ora destacamos ...
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Um clássico moçambicano de volta ao Brasil – por Jorge Vicente Valentim

É sempre com alegria e satisfação, quando me deparo com edições brasileiras de autores de língua portuguesa de outros países, sobretudo, se estes se encontram praticamente fora de alcance das mãos e do alcance dos leitores. Por isso, falar desta nova edição da Editora Kapulana de um dos textos mais paradigmáticos da literatura moçambicana, para mim, constitui um prazer inestimável. Obra de visita obrigatória para aqueles que se dedicam ao estudo das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (e faço, aqui, uma ressalva importante, talvez a única à presente edição, porque estamos lidando com sistemas literários distintos e, por isso, é urgente que o plural seja respeitado e usado: literaturas africanas), o texto de Luís Bernardo Honwana possui uma riqueza tão ...
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