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A noiva de Kebera e outros nkaringanas de segredos – por Nazir A. Can

Publicadas em 1994, as estórias de A noiva de Kebera ofereciam já pistas de um projeto literário que, anos antes, em Xitala-Mati, e nas décadas que se seguiram, em tantas outras narrativas, soube conferir dignidade histórica e virtualidade poética aos recantos mais abandonados de Moçambique. Apontando para as doxas e os paradoxos de um lugar fundado em hierarquias, mas também em criativas formas de resistência de seus habitantes mais desvalidos, os seis contos deste livro de Aldino Muianga, que agora chega ao Brasil, ligam-se pelo transfundo didático. O fato mais surpreendente, contudo, é que a exemplaridade dos protagonistas se concretiza pelo viés da ambiguidade, favorecendo o abalo, no campo da construção narrativa, da transparência da mensagem e das fronteiras entre as formas da tradição oral e da escrita moderna. Os finais dos relatos, por exemplo, desestabilizam as verdades que narradores e personagens parecem querer instituir ao longo de cada um dos textos. No plano temático, a morte, enquanto elemento estruturador da sociedade, por orientar a existência dos vivos e por constituir uma passagem, mais do que um final, consolidará esse imaginário de incertezas.

Em “Colar de missangas”, narrativa ambientada em um cemitério, recria-se a existência de três indivíduos que relatam, uns aos outros, as razões que os conduziram à morte. A relação que cada um mantém com sua própria memória contribui para a restituição, em plena atualidade, do elo entre vivos e mortos por via da tradição oral. Mas não sem ambivalência, pois quem conta, aqui, faz sempre a devida (di)gestão dos segredos mais decisivos de sua história pessoal. Já em “A noiva de Kebera”, primeiro conto deste volume, centrado no tempo pré-colonial, narram-se os infortúnios de Ma-Miriam, viúva e noiva de Kebera, o famoso guerreiro que, após ter sido morto em uma batalha, parece ressurgir ao mundo dos vivos para seduzir e engravidar sua antiga amada. A mulher vê-se, desse modo, no incômodo dilema de optar pelo caminho assinalado pelos mais velhos, detentores do saber, ou trilhar o rumo de dedicação e exclusividade exigido pelo defunto, que possui o poder. Também no universo feminino se estruturam os contos “Pôncio e os seus amores” e “A festa de malembe”. Esses relatos perscrutam, entre outros elementos, as contradições de uma contemporaneidade rígida, masculinizada e burocrata na qual as mulheres, mesmo quando em situação de privilégio social ou em cenários montados para homenageá-las, provam uma espécie de “morte simbólica”. Também por meio da técnica do encaixe, que articula microrrelatos no interior e em função da narrativa principal, se configuram “Uma prenda” e “Dois muda, quatro ganha”. O primeiro celebra o trabalho dos heróis alternativos, como o enfermeiro Costa, que se entrega silenciosamente ao ofício em territórios esquecidos pelos poderes políticos. Instaurando o humor na compilação, o segundo é um fresco sobre a pluralidade e a intensidade dos excluídos do mundo colonial. Em 1965, no calor da guerra de libertação que se iniciara um ano antes e que se deixa anunciar nas entrelinhas do desafio relatado pelo hilariante Ntavene, duas equipes de crianças jogam seu destino em uma dura partida de futebol, que tudo teria para terminar em zero-a-zero. Através de uma linguagem próxima do universo popular, discursos e imaginários aparentemente distantes – da tradição e da modernidade, do mundo da feitiçaria e da publicidade – sobrepõem-se para captar as fendas que o colonialismo criou e para exaltar a capacidade de superação dos pequenos guerreiros do Dukla do Bairro.

Em A noiva de Kebera, Aldino Muianga cartografa de maneira ascendente três períodos (o pré-colonial, o colonial e o do pós-independência) e redimensiona a historicidade de lugares até então pouco representados na prosa moçambicana, entre eles as margens da capital, Maputo, confirmando a aposta em uma literatura que repensa, a partir da combinação das coordenadas da existência tempo e espaço, a vida do indivíduo comum moçambicano em sua relação com os reveses do destino. Com essas e outras estratégias, o autor dá continuidade, portanto, a uma tradição literária que há muito se impôs como celeiro de “fantásticos nkaringanas” e de exímios contadores.

Rio de Janeiro, 16 de maio de 2016.

Nazir Ahmed Can

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Citar como:

CAN, Nazir Ahmed. A noiva de Kebera e outros nkaringanas de segredos. Prefácio in: MUIANGA, Aldino. A noiva de Kebera. Ilustrações de Dan Arsky. São Paulo: Kapulana, 2016. (Série Vozes da África). http://18.231.27.148/a-noiva-de-kebera-e-outros-nkaringanas-de-segredos-por-nazir-a-can/