A crítica de Pepetela – por Tania Macêdo

Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, é um dos marcos incontornáveis da literatura angolana contemporânea. Nascido em Benguela, sua trajetória política liga-se intimamente ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), quer pela participação ativa na guerra pela independência de seu país – em que chegou ao posto de Comandante – quer pelas funções que no jovem Estado passou a assumir, dentre as quais a de Vice-Ministro da Educação.

Com uma experiência vinculada aos caminhos de Angola e ao partido que assumiu o poder logo após a independência a 11 de novembro de 1975, Pepetela, entretanto, não deixa à margem as críticas ao Partido e aos (des)caminhos da administração de seu país. Desde os seus primeiros romances, como As aventuras de Ngunga (1979) ou Mayombe (1980), percebe-se que  os deslizes e falhas das autoridades e do governo como um todo são revelados e discutidos, fazendo com que o leitor  possa situar-se frente ao texto e à realidade por ele narrada.

O pequeno livro de Pepetela, O cão e os caluandas (calus), traz uma grande história e remete a Luanda, na medida em que “caluanda” é como os habitantes de Luanda são chamados. Composto de pequenos quadros da cidade capital no pós-independência, é a partir da figura de um cão pastor alemão, que ninguém sabe a quem pertence, que os vários estratos da sociedade angolana dos anos pós 1975 são focalizados. Se o cachorro é o ponto de ligação entre as várias personagens, que por um breve tempo pretendem-se seus donos, chama a atenção que as informações sobre ele são dadas por personagens de várias camadas sociais, em depoimentos a um narrador.

Entre os vários depoimentos em primeira pessoa, temos desde um jovem que se pretende poeta, mas na verdade é um indolente e aprendeu o vocabulário da luta de classes a partir de citações de textos de Marx lidos no jornal, representante daqueles que somente recitam o que o partido afirmava nos meios de comunicação, mas não colaboravam de fato para a construção da jovem nação, até o funcionário público corrupto ou o “tribalista” que fomentava as diferenças entre as várias etnias de Angola. A partir de diversos depoimentos ao romancista que deseja saber mais sobre o cão, desenha-se um retrato bastante crítico da Angola dos primeiros tempos da independência, na medida em que Luanda é uma espécie de metonímia de todo o país. Dessa forma, é possível verificar como a postura socialista adotada pelo governo é apenas superficial nas pessoas, que vivem e propõem “esquemas”, ou seja, “jeitinhos” que, afinal, são formas diversas, mais ou menos, brandas de corrupção.

Tendo em vista que o livro apresenta maneiras diferentes de contar a história do cão cujo nome varia de dono para dono, utilizando discursos como o da Ata de reunião de uma fábrica, uma peça de teatro ou ainda um artigo de jornal, percebe-se que o narrado vai além das peripécias de um cão e suas andanças, pois vão surgindo as vidas de várias camadas sociais logo depois da independência de Angola, além dos dramas pessoais, como o adultério ou os ciúmes. E, assim, aguça-se ainda mais a curiosidade do leitor: o que e a quem pertenceria de fato o Cão?

Além das diversas formas de narrar, surgem ainda uma árvore e um animal marinho, respectivamente a buganvília (Bougainvilleas) – árvore conhecida entre nós como primavera, três-marias ou flor-de-papel, que não para de crescer e se fortalecer – e a doninha.

Sobre a árvore, vemos que ela se relaciona com o cão, na medida em que o seu crescimento é cada vez mais inquietante para ele, que passa a odiá-la. Ao pensarmos que o animal não se liga a personagens corruptas ou venais, podemos pensar que a árvore poderia remeter a tudo de mal que o corpo social daquele período apresentava, ao contrário do cão que procurava por valores autênticos.

Quanto à doninha, é melhor deixar ao leitor uma reflexão a respeito, lembrando como ela pode remeter à beleza, à extensão do mar e ao amor.

Como afirmamos,  O cão e os caluandas é um pequeno livro que conta uma grande história: a história de um país heroico que fez a sua independência, resistiu a uma guerra, mas também a história menos nobre do mesmo país assolado pela corrupção, pelas assimetrias internas, inclusive de gênero. Dessa forma, O cão e os caluandas é um texto indispensável para quem quiser conhecer boa literatura e a Angola contemporânea.

São Paulo, 14 de dezembro de 2018.

Tania Macêdo é Professora Titular de Literaturas Africanas da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo)

Citar como: MACÊDO, Tania. “A crítica de Pepetela”, Prefácio. In. PEPETELA. O cão e os caluandas. São Paulo: Kapulana, 2019.